Histórias que nossas babás nos contariam nos dias de hoje


por Barão

Era uma vez um quartelzinho onde serviam 150 soldadinhos, todos de fardinha verde. Apenas um deles era perneta, tinha perdido a perna numa missão em uma favelinha, levou uma azeitoninha no joelho e como fora o último a ser socorrido, não foi possivel fazer o atendimento necessário. Ganhou dispensa mas como amava a pátria resolveu não sair do quartelzinho, realizando suas funções na parte burocraticazinha.

Chegou o dia em que o quartelzinho foi invadido por pessoas muito más, chamadas traficantezinhos de armas. Eles aprisionaram os soldadinhos de plantão dentro do escritório e um deles exclamou: - Mão na cabeça, seus merdinhas! A gente só quer as arminhas, depois vamos embora! - E os colocou lado a lado deitados no chão. O soldadinho de uma perna só era o último da fileira.

Depois desse incidentezinho o soldadinho finalmente resolveu aceitar a dispensa, e se desligou com muito pesar do seu quartelzinho tão querido. Agora ele tinha que arrumar um empreguinho.

O ex-soldadinho descobriu que era muito dificil arrumar um trabalhinho, seja ele qual fosse, ainda mais por se tratar de um ex-soldadinho perneta. Mas como muito procurou, acabou conseguindo trabalhar em uma lojinha de informática, vendendo hardware e periféricos de computador.

O tempo passou e um dia ao lustrar a tela de um monitor à venda, deparou-se com o reflexo de uma bela menina. Ela tinha coque de bailarina e camisa escrito “Dance”. O fitou e pediu uma caneta Pilot.

O ex-soldadinho, perneta, logo se apaixonou pela bela bailarina, mas por se achar um deficiente, logo tratou de tantar esquecer aquele belo rostinho. Em vão. A cada dia que passava, a bailarinazinha voltava na loja para comprar qualquer besteirinha, até que numa sexta-feira ensolarada ao pagar um mouse com um cartão de crédito, a bailarinazinha anotou seu telefone no recibo e o ex-soldadinho reparou no terno olhar da pagante. Logo se empolgou e ficou tentado à ligar pra sua admirada.

Tomou coragem e num sabado de tarde ligou e se apresentou. Pediu desculpas do jeito pelo qual teve acesso ao telefone e se surpreendeu com a receptividade da mocinha. Logo a convidou para sair e ela aceitou. Ficou de ir buscá-la.

Ela morava no “Morro do Já É”, uma favelinha tida como uma de grande periculosidade da região. Mas estava cego de amor e nada o pararia na busca de sua amada. Munido de papelzinho com endereço, não foi dificil achar a casa da bailarinazinha. Ela ja estava o esperando. Longos cabelos negros ondulados, cheiro de sabonete, pele morena, grossas sombrancelhas que enlouqueceram o ex-soldadinho perneta. Logo estavam no pé do morro, trocando beijinhos e carícias.

Eram onze horas da noite, fogos de artíficio explodiram nos céus fazendo um lindo espetáculo de som e luz, e com os fogos veio o carregamento de tóxicos. O ex-soldadinho logo foi reconhecido como militar e a bailarinazinha tida como x-9. Não os perdoaram, foram pros pneuzinhos.

Naquele momento, o querosene ja exalava seu cheiro e a bailarinazinha foi colocada bem junto ao soldadinho. Bastou uma labareda e se iniciou o ritual.

No dia seguinte, ao limparem o local, encontrou-se no meio das cinzas um pequenino coração de chumbo, de um cordão que sempre usava: era tudo que restara do soldadinho, fiel até o último instante ao seu grande amor.

Da pequena bailarina de papel só restou a minúscula pedra azul da tiara, que antes brilhava em seus longos cabelos negros.


por Lili Belotti

as vezes fico esperando em vão
palavras pra tocar o coracao
Palavras sem sentido
vazias como o peito que dói
palavras pulsantes, livres
palavras que me destroem

voando, vêm
voando,soltas no ar
achando abrigo
onde abrigo já não há

contradição
suas palavras quietas
no vazio
do meu coracao

Heloísa


por Barão

- Gosta de uma guitarra, não é?

Eu adoro conversar com crianças. Trabalho com elas há algum tempo (sou professor) e acho incrível a capacidade que elas tem de nos surpreender e de nos ensinar, embora sempre achemos que nós, seres experientes e vividos, pela questão da idade, temos que tomar sempre as rédeas da situação.

Nesse dia, estava um uma loja do centro do Rio de Janeiro, procurando um instrumento musical – uma guitarra, no caso - e me encontrava perdido no meio de tantas opções. Modelos, cores, preços. Tudo era motivo para criar uma indecisão. Foi no meio de uma indecisão que uma menina me chamou atenção.

Estava acompanhada pela mãe, e mexendo e remexendo as prateleiras, naquele movimento típico de passar o polegar e o indicador pelas cordas das guitarras, num primeiro momento devagar, mas em meio ao êxtase de estar tocando em num instrumento que foi considerado o instrumento do século (passado, é claro), passava a aumentar o ritmo e a força dos dedos nas cordas, cantarolando uma melodia irreconhecível, porém bem animada, e fazendo a guitarra bambear no mostruário. A mãe se aproximava e docemente no ouvido da pequena dizia: - Não pode mexer, filhinha. - Apelo esse que era prontamente atendido e prontamente esquecido quando se chegava na guitarra do lado.

- Gosta de uma guitarra, não é? - repeti quando a menina foi para a guitarra do lado. Fui ignorado mais uma vez.

A mãe sorriu e pediu mais uma vez para que a menina não tocasse no instrumento. Mais um apelo atendido e esquecido quando surgiu a guitarra vermelha (logo vermelha?!) na estante do lado.

A menina tinha particularidades que eram perceptíveis à primeira vista. Aparentava ter uns 13, 14 anos, cabelos bem lisos, olhos bem negros e amendoados, uma mãozinha pequenina, com os dedos curtinhos que tocavam as cordas das guitarras, e quando cantava percebia-se um falar enrolado, que com o entusiasmo que isso era feito se tornava uma melodia encantadora. Outro ponto notável era uma pequena protuberância na base da cabeça, fato que pode ocorrer nos portadores dessa síndrome, que ás vezes vem associada com algum outro tipo de síndrome.

- Essa vermelha é bonita né? - insisti.

- É sim! Adoro vermelho!

- Eu não gosto muito. Prefiro azul.

- Ah não… azul é a cor do mar e eu tenho medo!

- Ah… mas o mar é bonito!

- Mas o mar eu tenho medo de tocar. A guitarra só faz barulho quando eu toco nela, o mar faz barulho antes!

- (…) Isso é verdade. Gosta de música?

- Adoro! Adoro cantar, tocar… eu toco piano, violão e quero ganhar uma guitarra agora!

- Bacana! Eu também adoro música.

- Você toca o quê?

- Guitarra.

- Que legal! Toca uma pra eu ver?

Pego uma do mostruário e faço qualquer coisa nela. A menina faz um microfone do ar e começa a cantar. A loja pára, observando o nosso show bem peculiar. No fim, ouvem-se algum aplausos.

- Eu adoro cantar! Vou fazer um show qualquer dia!

- Que legal! Vai cantar o quê?

- Jota Quest, Jonas Brothers e Chico Buarque!

- Puxa! Que variado né?

- Eu adoro o Chico Buarque! Aquela assim: “Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda peãaaao…”

- Como você conhece isso?

- Minha mãe! Ela ouve muito e eu adoro!

Ela sai de perto de mim e se entretém com uma guitarra da prateleira ao lado. Tocando as cordas com mais
vigor e cantando mais alto.

- “Eu tô voltando pra caaasaaaaa de veeeeeeezz…”

- Olha! Lulu Santos!

- Também gosto! Minha mãe adora!

A mãe se aproxima, me acena a cabeça com um sorriso cumprimentando-me e diz para a menina:

- Heloísa, já escolheu a sua guitarra?

- Já mamãe! Aquela azul!

A mãe se afasta e leva a guitarra azul para o balcão.

- Mas você não disse que não gostava de azul?

- Mas você gosta! E esse dia foi tão legal que eu quero ela pra lembrar de você!

- (…)

- Qual é o seu nome?

- Felipe.

- Ei! Agora tenho que ir! Minha mãe já está me chamando. E quando eu não vou, ela fica bem brava! – dando outro sorriso sapeca - Gostei de te conhecer, Felipe. Você é legal!

- Você também é muito legal, Heloísa!

- Já foi melhor que dá outra vez! - dizia sorrindo - Não senti as dores!

- Dores? Que dores?

- Sim! Na cabeça! Da última vez que vim aqui não consegui ver nada, por que doía muito.

- (…)

- Vou embora! Tchau meu amigo!

- Não vai doer mais não, tá?

- Hã?

- A cabeça. Não vai doer mais. Ou melhor, vai doer, mas nunca mais como naquele dia. Pode ter certeza.

- Ah tá! - disse sorrindo com aquele sorriso sapeca - Obrigada! Um beijo, amigo! - e fez aquele sinal de beijar a palma da mão e lançar o beijo pelo ar. Aquele beijo veio que nem uma flecha, acertando meu coração em cheio.

Virei-me para a prateleira e olhando-a, vazia e desarrumada, chorei como uma criança. Uma criança igual à Heloisa.

Ensaio


por Barão

Olha
Da proa
Dá pra ver o mar
Azul
Sentiu pingar?
A chuva
Já foi
Deixou um arco-íris
No ar
Atrás daquela nuvem
De algodão
Deve ter tesouro
Mas onde?
Logo ali
Depois da ponte
Tem som
Tem violão
Tem a sua canção
Tem um anjo
Tem presente
Presente de um anjo
Você

P.S.:
Tem beijo também…

Você se foi


por Barão

E não olhou pra trás
Sem adeus ou até logo
Partiu em tempo
E me deixou aqui
Sozinho e com frio
Sem alma ou abrigo
Cantou a nota errada (ou correta)
E deixou minha música sem final

Prazo de validade


por Barão

Passou a vida traçando planos, projetos. Era tudo meticulosamente observado e questionado. Não havia falhas. Era o plano perfeito.

Em pouco, a vida profissional ia dar um salto. Era um profissional dedicado, respeitado. Era um funcionário-modelo. Tinha um bom salário. Era questão de tempo, era o plano perfeito. Mas faltava algo.

Era um noivo dedicado. Vivia uma vida pacata, em um relacionamento pacato, cheio de planos, não menos minuciosamente monitorados que os outros. Fazia bem tudo o que a cartilha dizia. Atenção, carinho, amor, tudo isso era intensamente vivido e retribuído. Havia planos de casamento e uma família numerosa, acrescentada com a boa vida profissional. Não tinha erro, Era realmente o plano perfeito. Mas faltava algo.

Tinha amigos. Aliás, não conheço alguém que conhecesse mais gente. Tinha esse dom de conhecer novas pessoas. Qualquer pessoa na rua em poucos minutos se sentia impelida a trocar algumas frases com ele e isso já era motivo pra encontros futuros para uma boa rodada de chopp. Embora curtisse bem aos momentos sozinho, mas eram raros. As pessoas gostavam de sua companhia e juntamente com a família numerosa e o bom emprego, as saídas com a família nas férias com os amigos faziam parte do plano perfeito. Mas faltava algo.

Era o referencial da família. Exemplo de “pessoa que deu certo”. Responsável pelo bom funcionamento dela, era o amigo, psicólogo, orientador de todos. Era respeitado e comemorado. Com um bom seio familiar, com amigos, sua nova família e um bom emprego, não havia dúvidas: era o plano perfeito. Mas faltava algo.

Sim, faltava algo, mas o plano era perfeito. Minuciosamente projetado. Perfeccionista como era, não entendia o que poderia ter dado errado. Que sentimento de falta era esse? O que realmente faltava?

Sim. Como poderia ter esquecido: o sonho. Aquele que parece impossível. Aquele que consegue resumir o sentido da felicidade: o respeito, o carinho, a estabilidade. Com ele tudo parecia ser substituível e as pessoas que realmente se importavam o dariam a maior força, até porque, o que é uma vida sem sonhos?

O plano perfeito, meticulosamente planejado deu lugar a um outro, com algumas falhas, alguns espaços em branco, onde o cartesianismo dava lugar à sorte e ao bom coração das pessoas: as mesmas que o acolheram sempre tão bem. Arriscado, mas o que é homem que não corre atrás dos seus sonhos? Pensou e embarcou.

Mudou de emprego. Não mais respeitável e não mais considerável que o anterior, mas sempre foi um bom profissional, ganhava o suficiente, nem mais nem menos, mas tinha o sonho. Ah! O sonho! Esse era o combustível primário. Era só fazer a sua parte.

A mudança caiu como uma bomba no seu relacionamento. Como assim? Abrir mão de um plano perfeito pra um plano cheio de arestas? E mais: tendo como alicerce, o sonho! Não. Era demais para ela. Fim do casamento, os filhos que não nasceram, a vida que ia por vir. Mas o sonho iria cuidar disso, era só fazer a sua parte.

Os amigos vibraram de emoção. Deram apoio, o chamavam de “exemplo”, não ouviu poucas vezes que nenhum deles teria coragem de fazer o que fez, mas que estavam torcendo muito por ele e em cada passo à frente que dava, mandavam mensagens de apoio e orgulho. Porém, mensagens distantes, sem calor. Sentiu falta dos tempos de “mortal”, de “igual”. Mas o sonho se encarregaria de dar novos amigos próximos. Era só fazer a sua parte.

A família estranhou. Mas família apóia, afinal, família é pra isso. Mas esse sonho maluco poderia ser responsável por algo que simplesmente não poderia acontecer: se dissolver. Sim. A distância. A distância seja em qualquer âmbito é a grande responsável pela desgraça da vida. Quanto mais distante, mais saudade, mais falta. Aí o tempo entra pra tentar amenizar, nem sempre com sucesso, mas o sonho se encarregaria disso. Afinal, era só fazer a sua parte.

Sim o sonho fez a sua parte. Sonho maldito. Como não ter detectado isso antes! A humildade do tempo dispensado ao plano inicial deu lugar à arrogância de pensar que esse plano solitário fosse melhor solução.

Em pouco tempo se viu sozinho.

Seu emprego era bom, mas as honras e glórias foram para o ralo. Não havia mérito, pois qualquer um que ocupasse sua posição não fazia mais do que sua obrigação.

Relacionamentos vieram e foram, mas o foco previsto no plano inicial se perdeu. Pois sua essência não era mais o fator importante, mas sim quem o sonho o havia transformado. A inocência se perdeu.

Com tudo isso se sentiu só e o foco no sonho fez com que seus amigos não o colocassem mais como prioridade em nada, pois ele mesmo não os colocava. Justo. Mas o sonho tinha se tornado o foco.

O que restou para a sustentação da idéia nova foi o que nunca o deixou na mão. A família. Eles entenderiam, até porque, família é pra isso. Não. Tudo tem um limite e esse sonho já estava extrapolando. O sonho já o havia corrompido e não o fez ver que quanto mais caía nele, mas se afastava de sua vida, outra projetada, outrora vivida. Mas que coisa sem sentido! Como pode trocar seu plano perfeito por um plano cheio de falhas, cheio de arestas, cheio de por quês?

Resolveu abandonar o sonho. Maldito sonho! O fez perder tudo que tinha conquistado. Olhou pra dentro e percebeu que não tinha mais nada. Nem a sua essência. Pegou seu plano antigo de volta. Era simples. Começar do zero. Mas não reparou em um detalhe: o antigo plano tinha um prazo de validade e estava mais do que vencido.

Desesperou-se. Não quis acreditar e com isso afastou mais as pessoas, seu emprego, sua família. Viu-se sozinho pela segunda vez, mas dessa vez não foi apenas uma sensação. Chorou.

Levantou, guardou o sonho na gaveta, apagou a luz e saiu.

Fim


por Barão

Quero que o mundo se exploda
Como uma bomba gigante
Como dois pobres amantes
Que sentem dor sem chorar

Quero que o mundo se acabe
Como a vida em Marte
Como um amor que se parte
E sabe que vai penar

Quero que o mundo se dane
Como numa guerra nuclear
Onde a esperança é lenda
E só baratas hão de vingar

Olhe o que você me faz
Meu mundo agora é vento e pó
Um quadro feio e sem sentido
Como um ponto sem o nó

Vou por a bomba-relógio
Dentro do elevador
Quero que o mundo se exploda
Quero que o mundo se acabe
Se não posso ter você
Que seja o fim de tudo então

As crises de Luisa - parte 1


por Lili Belotti

Luisa estava entediada e resolveu que uma noite de filme & pizza era tudo o que precisava, afinal sair com aquele carinha-estranho-da-noite-passada não era uma opção inteligente, e suas amigas estavam ocupadas com seus namorados.

Colocou a primeira roupa que viu pela frente e foi para a locadora. Ao chegar lá analisou bem o ambiente para ver se encontrava algum rapaz interessante que estivesse na mesma situação que ela, quem sabe não fariam compania um ao outro…mas depois de 2 segundos envolvida nesse pensamento, Luisa riu. Riu de si mesma.Ela estava numa locadora, mas isso não queria dizer que as histórias daqueles disquinhos prateados se tornariam realidade e ela teria seu final feliz. Pelo menos não agora…

Pensou, olhou, escolheu.Mudou de idéia, pensou mais um pouco e saiu de lá com 2 temporadas de seu seriado preferido.

Chegou em casa e ligou para a pizzaria: uma pizza grande de peperoni.

Enquanto a pizza não chegava, Luisa foi checar seus e-mails e ver se alguém interessante estava online no messenger…NADA!

A campainha tocou e lá foi Luisa buscar sua pizza (desejando que algum Patrick Dempsey viesse entregar a sua pizza com anchovas extras !).

Se acomodou no sofá, colocou o primeiro DVD e embarcou para Nova Iorque, na compania de alguns rostos e histórias familiares. Entre um episódio e outro Luisa chorava, dava risadas, decidia ligar para quem não deveria, desistia, desejava estar realmente no Central Park, suspirava e comia pizza.

Lembrou daquele amor que sentiu no passado, daquela paixão passageira do mês passado e do novo interesse da semana anterior e resolveu esperar. Esperar pelo príncipe encantado, pelo sapo…por alguém que a fizesse perder o fôlego, por alguém que não conhecia ainda.

E enquanto esperava aquele amor de tirar o fôlego, que ela viu na TV, Luisa comia o último pedaço da pizza de ontem, sem culpa pelas calorias, afinal hoje ela merecia!

Luisa ainda não sabia que seria feliz, mas, acreditava na felicidade e por isso merecia todos os pequenos momentos de distração que fazia com que suportasse aquela espera, espera que nem ela mesma sabia pelo o que era só sabia que era… que seria…assim!

S.A.C.


por Barão

- Serviço de Atendimento ao Consumidor das Lojas Garcia, Michele, bom dia?
- Oi Michele. Gostaria de ter uma informação de um aparelho de DVD que comprei nas Lojas Garcia, mas veio com defeito…
- Com quem falo por gentileza?
- Tâmara.
- Perdão. Câmara? Seu primeiro nome, por gentileza?
- Não! Não! TÂMARA! E não Câmara.
- Tâmara?
- Sim. Tâmara. Da fruta tâmara.
- Perdão senhora, é que Tamara é mais comum. Me perdoe.
- Tudo bem Michele, mas você pode me ajudar com esse problema?
- A senhora está com a nota fiscal do produto em questão?
- Sim. À mão.
- É só ir à loja Garcia mais próxima de sua casa, munida de nota fiscal e identidade e sua troca poderá ser efetuada.
- Ah sim. Muito obrigada Michele.
- As Lojas Garcia agradecem a preferência. Tenha um bom dia D. Tamara.
- Tamara não! Tâmara! Mas está tudo bem. Bom serviço pra você.
- Perdão senhora. Tenha um bom dia.

(…)

- Boa tarde… aaa… Alfredo. É aqui que efetuo troca de aparelho com defeito?
- Sim senhora. No que posso ajudar?
- É o seguinte. Ontem eu comprei um aparelho de DVD e ele não lê nada…
- Humm… A senhora colocou algum DVD pirata nele?
- Nãaaao! De jeito nenhum! Sou absolutamente contra a pirataria.
- Estranho senhora. Essa marca geralmente lê qualquer tipo de mídia. Desde DVD, VCD, SVCD, e…
- Mas o fato é que não leu… Posso efetuar a troca?
- Bem… poder pode… mas teremos que testar…
- E você pode fazer isso por mim?
- Infelizmente não senhora.
- Mas… mas… mas por quê?
- Porque não é permitido fazer testes com aparelhos aqui nesta loja.
- E como eu fico?
- Bem, a senhora não deveria ter usado DVD pirata… estraga a lente…
- Mas, meu querido, eu não usei DVD pirata!!
- Mas se o aparelho é novo, ele tem que ler.
- Mas não leu!
- Ah minha senhora…
- Perdão? Senhorita ok?
- Oh sim… senhorita… bem… eu infelizmente não posso testar o aparelho.
- Mas por quê???
- Porque não nos é permitido fazer testes!
- Ah me Deus! Me chame o gerente ok?
- Seu Lopes? Tudo bem. Vou chamá-lo.

(…)

- Pois não senhora?
- Senhorita! Boa tarde. Eu comprei esse aparelho de DVD e ele não está funcionando e gostaria de efetuar a troca.
- Mas qual o defeito dele?
- Ele não lê.
- Hummm… e…
- “E”?? Como “e”??
- E no que posso ajudar senhorita…
- Tâmara.
- Sim D. Câmara.
- Não! Câmara não. Tâmara.
- Tâmara? Bonito nome.
- Obrigada. Mas estou com um pouco de pressa ok? Pode me ajudar?
-  A senhora, digo, senhorita está com a nota fiscal?
- Sim. Está aqui.
- Hummm… infelizmente D. Tamara…
- Tâmara!
- Perdão. Tâmara. A compra não foi realizada nesta loja.
- Sim. Realmente não.
- Então não posso ajudá-la. Desculpe.
- Mas a menina do S.A.C. por telefone disse que  eu poderia ir à qualquer loja Garcia!
- Houve um equívoco. Tem que ser na loja onde fez a compra.
- Mas por que isso não foi dito antes!!!
- A senhora não deve ter perguntado.
- Senhorita!!
- Perdão. Senhorita. Mas é isso. Só pode ser realizada a troca na loja onde a senhorita adquriu o aparelho.
- Ai meu Deus! Tá bom! Tá bom! Muito obrigada ok??

(…)

- Boa tarde senhora! No que posso ajudar?
- Senhora não! Senhorita! Eu não tenho nem 30 anos e já me chamam de senhora!!! Me chame seu gerente por gentileza?!
- Ca-calma… Acalme-se senhor…..ita! Vou chamar o Sr. Jarbas.

(…)

- Pois não senhora! No que posso ajudá-la?
- SENHORA NÃO!! SENHORITA!! SENHORITA!! Tenho 27 anos!! Não parece mas tenho!!! É o seguinte: Comprei um DVD player nessa loja e ele não funciona! Quero trocar.
- Humm… sim… sim. A senhorita está com o aparelho e a nota fiscal por gentileza?
- Sim. Está tudo aqui.
- Humm… correto. Tudo certo senhorita Tamara…
- Tâmara!
- Humm… sim… sim. Mas aqui está escrito Tamara.
- A menina escreveu errado.
- Me empreste sua identidade por favor?
- Aqui está.
- Humm… bem… confere… Mas na nota fiscal está escrito Tamara Alves Brito e na identidade está Tâmara Alves Brito… Como vou saber se é a senhorita mesmo?
- Hã? Não! Calma… eu não estou acreditando nisso.
- No que senhorita?
- Não… eu não posso estar ouvindo isso!!
- Mas sobre o que está falando senhorita?
- Você está me dizendo que não fui em quem comprei esse DVD?
- Sim.
- Baseado na falta de um acento circunflexo?
- Mas foi a senhorita quem me corrigiu.
- Sim!! Quer dizer… não!! Não!! Sim!! Ah! Já não estou entendendo mais nada!! Vai trocar logo essa budega ou não?
- Calma senhorita.. Não se exalte…
- Como não!! O senhor me diz que eu não sou eu!!!
- Mas foi a senhorita quem disse!! Eu lhe chamei de Tamara… Me corrigiste dizendo que o correto é Tâmara, e aqui a venda foi feita pra Tamara e não para a Tâmara.
- Meu senhor. Veja o sobrenome! É igual! Qual a probabilidade de existir uma Tamara  Alves Brito senão eu??
- Muitas.
- Ah não! Já virou má vontade!!
- Senhorita me desculpe. Mas não posso fazer nada…
- Ah! Pode sim! Trocar meu DVD e agora!!!
- Apenas para a senhora Tamara Alves Brito.
- Mas sou eu!!!!!
- Não. Sua identidade diz Tâmara e não Tamara. Tâmara é uma fruta não é?
- Nãaaaaaaao!! Ou sim! Não!! Digo… sim! É uma fruta! E não!! Não pode estar acontecendo isso!!!
- Bem… Tenha uma boa tarde.
- Não! Volta aqui! Meu senhor. Não existe uma Tamara Alves Brito e sim uma Tâmara Alves Brito e ela sou eu! E eu quero meu DVD!!
- Senhorita. Se eu lhe provar que existe uma Tamara Alves sei-lá-o-quê, a senhorita me deixa ir trabalhar em paz?
- Sim!
-  Ok.. Vejamos a lista telefônica… Um momento..

(…)

- Aqui está. T… Tadeu… Taj.. Tamara aqui está. Tamara Alves Brito, Tâmara Alves Brito. É tem 2.
- 2???? Existe uma Tamara Alves Brito?
- Sim. Ela é a compradora.
-  Na… na… nãaaaaaao!!! Fui em quem comprei!! Tá aqui a nota fiscal!!!!
- Em nome de Tamara Alves Brito.
- E sou eu!!!
- Não. Você é Tâmara Alves Brito.
- Não pode ser… só pode ser encosto… que vontade de chorar…
- Calma, Tâmara. Quer um copo d´água?
- Não… quero meu DVD!!!!
- Infelizmente não posso ajudá-la.
- Não pode ser!!!! Eu não acredito nissooooooooo!!!! Eu vou processar essa loja!! Eu vou no Rádio, na TV, no Ratinho aonde for!!! Mas eu vou conseguir o meu DVD! Eu destruir essa loja! Eu vou arrancar cada tostão de vcs e…
- Sim minha senhorita. Você pode fazer tudo isso ok? Mas agora só desejo que possa dar licença para o próximo da fila ok? Pois não?
- Aiiiiiiiiii! Que ódio!!!!

(…)

- Cada uma que aparece aqui… Sim, senhora, o que deseja?
- Eu vim aqui trocar essa torradeira… não está esquentando…
- Está com a nota fiscal aí?
- Sim… Cá está…
- Ah sim Dona Tamara Alves Brito…

(Qualquer semelhança entre nomes, personagens e incidentes retratados são fictícios sendo qualquer semelhança, mera coincidência.)

Trinta de fevereiro – parte I


por Márcio Silva

Mais de dois bilhões de habitantes do terceiro planeta à partir do Sol, tomados por um incrível sentimento de perplexidade, franziram a testa ao mesmo tempo ao notar que seus calendários, que deveriam registrar o primeiro dia de março, mostravam-lhes um trigésimo dia em fevereiro. O barulho dos bilhões de computadores sendo resetados ao mesmo tempo, somado ao ruído de bilhões de calendários de papel sendo manuseados, fez com que pássaros por todo o mundo se assustassem e alçassem vôo rumo a um céu estranhamente cintilante, que fez com que os pilotos de todos os aeroportos do planeta se mantivessem em solo, observando boquiabertos, juntamente com suas tripulações e passageiros, o estranho brilho prateado que descia do firmamento e lentamente dourava o chão. Então, ouviu-se um estrondo como nenhum outro, que fez com que todos parassem o que estavam fazendo e saíssem de suas casas para assistir um carro de fogo surgir nas nuvens e cortar o céu dos trópicos em alta velocidade. O bólido incandescente desacelerou e pousou com suavidade no canteiro central de uma avenida movimentada, fazendo que os transeuntes se aglomerassem à sua volta, assustados e atraídos pelas labaredas azuladas. Subitamente, as portas do carro de fogo se abriram e seu passageiro se revelou para os que assistiam a chegada do enviado do Céu.

- Véio, é Jesus, véio! – disse um motoboy, agarrando-se à touca que usava. – Mas ele não ‘tá meio… fortinho?
- Que Jesus o quê, mano… Jesus tem cabelão, a testa do sujeito aí vai quase na nuca, ‘tá ligado? – sussurrou um contínuo, tamborilando os dedos no envelope de papel pardo. – Será que é Moisés? Eu não ‘tô vendo cajado nenhum…
- Vocês são dois ignorantes. – disse uma velhinha, abrindo caminho na multidão para ver o carro de fogo mais de perto. – Se o calendário está marcando 30 de fevereiro, esse só pode ser São Nunca.

O santo limpou a garganta e a multidão ficou em silêncio. Então sua voz grave ribombou pela avenida.

- Ouvi e ouvi com atenção, pois quem vos fala é emissário d’ Aquele cujo nome é Eu Sou! Venho do Reino dos Céus para avisar-lhes que Deus está muito descontente com o rumo das coisas aqui na Terra e… o que a senhora acha que está fazendo? – disse São Nunca, indignado com a velhinha, que passava a bengala nas chamas do carro.
- É o mesmo carro de fogo que levou Elias ao Céu, não? – perguntou a velhinha, examinando a bengala por cima dos bifocais. Não havia marcas de queimadura.
- Sim, é o mesmo carro que levou o Elias. – respondeu São Nunca, fingindo paciência. – Se a senhora me dá licença, eu preciso falar ao povo sobre…
- Dá licença, santidade! – disso o contínuo, retirando os fones de ouvido enquanto se aproximava do santo. – Desculpa aí a intromissão da mina da terceira idade, mas é que o povo não ‘tá acostumado a ver essas carretas de fogo voando por aí, ‘tá ligado? Aliás, sem querer ser parecer abusado nem nada… qual é o consumo?
- Oito quilômetros por litro na cidade, onze na estrada e nada no Inferno, que é tudo quebra-molas! – respondeu o santo, impacientando-se. – Jesus amado… é para isso que me tiraram do Céu? Nem um minuto e já tem gente atrapalhando o meu serviço! Quer saber? Eu não vou é falar mais nada com vocês. Para que lado fica essa tal de ONU?
- Ih, mano… ‘tá longe! A ONU fica lá… lá… lá fora do Brasil, ‘tá ligado? – Disse o motoboy, encolhendo-se diante do santo, visivelmente zangado. – Meu, mas pra alguém que já fez dois milagres num dia só, fazer aparecer 30 de fevereiro no calendário e parar as duas pistas da Paulista sem ninguém reclamar nem tomar multa, chegar lá é moleza, certo? – disse e sorriu para São Nunca, que não parecia menos mal-humorado.
- Nova Iorque. – disse a velhinha, firmando-se na bengala.
- Capital dos Estados Unidos! – o motoboy e o contínuo disseram em uníssono e se abraçaram, entre risos.
- A capital dos Estados Unidos é Washington, seus ignorantes! – a velhinha ralhou com os dois, sem tirar os olhos do santo. – É uma cidade enorme, no norte das Américas.
- Já que é tão sabida, a senhora vai comigo até a ONU – decretou São Nunca e as portas do carro de fogo se abriram. – E vocês dois vão junto para ajudá-la. – mal o santo decretou e ambos correram para ajudar a velhinha a entrar no carro.

São Nunca olhou para o céu, que ainda cintilava, mais uma vez antes de entrar no carro de fogo e fez o sinal da cruz, pedindo paciência a Deus na próxima etapa de sua jornada. Então o carro de fogo subiu e apontou para o norte, desaparecendo do olhar incrédulo dos transeuntes da Paulista em meio ao firmamento prateado.

Continua