- Gosta de uma guitarra, não é?
Eu adoro conversar com crianças. Trabalho com elas há algum tempo (sou professor) e acho incrível a capacidade que elas tem de nos surpreender e de nos ensinar, embora sempre achemos que nós, seres experientes e vividos, pela questão da idade, temos que tomar sempre as rédeas da situação.
Nesse dia, estava um uma loja do centro do Rio de Janeiro, procurando um instrumento musical – uma guitarra, no caso - e me encontrava perdido no meio de tantas opções. Modelos, cores, preços. Tudo era motivo para criar uma indecisão. Foi no meio de uma indecisão que uma menina me chamou atenção.
Estava acompanhada pela mãe, e mexendo e remexendo as prateleiras, naquele movimento típico de passar o polegar e o indicador pelas cordas das guitarras, num primeiro momento devagar, mas em meio ao êxtase de estar tocando em num instrumento que foi considerado o instrumento do século (passado, é claro), passava a aumentar o ritmo e a força dos dedos nas cordas, cantarolando uma melodia irreconhecível, porém bem animada, e fazendo a guitarra bambear no mostruário. A mãe se aproximava e docemente no ouvido da pequena dizia: - Não pode mexer, filhinha. - Apelo esse que era prontamente atendido e prontamente esquecido quando se chegava na guitarra do lado.
- Gosta de uma guitarra, não é? - repeti quando a menina foi para a guitarra do lado. Fui ignorado mais uma vez.
A mãe sorriu e pediu mais uma vez para que a menina não tocasse no instrumento. Mais um apelo atendido e esquecido quando surgiu a guitarra vermelha (logo vermelha?!) na estante do lado.
A menina tinha particularidades que eram perceptíveis à primeira vista. Aparentava ter uns 13, 14 anos, cabelos bem lisos, olhos bem negros e amendoados, uma mãozinha pequenina, com os dedos curtinhos que tocavam as cordas das guitarras, e quando cantava percebia-se um falar enrolado, que com o entusiasmo que isso era feito se tornava uma melodia encantadora. Outro ponto notável era uma pequena protuberância na base da cabeça, fato que pode ocorrer nos portadores dessa síndrome, que ás vezes vem associada com algum outro tipo de síndrome.
- Essa vermelha é bonita né? - insisti.
- É sim! Adoro vermelho!
- Eu não gosto muito. Prefiro azul.
- Ah não… azul é a cor do mar e eu tenho medo!
- Ah… mas o mar é bonito!
- Mas o mar eu tenho medo de tocar. A guitarra só faz barulho quando eu toco nela, o mar faz barulho antes!
- (…) Isso é verdade. Gosta de música?
- Adoro! Adoro cantar, tocar… eu toco piano, violão e quero ganhar uma guitarra agora!
- Bacana! Eu também adoro música.
- Você toca o quê?
- Guitarra.
- Que legal! Toca uma pra eu ver?
Pego uma do mostruário e faço qualquer coisa nela. A menina faz um microfone do ar e começa a cantar. A loja pára, observando o nosso show bem peculiar. No fim, ouvem-se algum aplausos.
- Eu adoro cantar! Vou fazer um show qualquer dia!
- Que legal! Vai cantar o quê?
- Jota Quest, Jonas Brothers e Chico Buarque!
- Puxa! Que variado né?
- Eu adoro o Chico Buarque! Aquela assim: “Roda mundo, roda gigante, roda moinho, roda peãaaao…”
- Como você conhece isso?
- Minha mãe! Ela ouve muito e eu adoro!
Ela sai de perto de mim e se entretém com uma guitarra da prateleira ao lado. Tocando as cordas com mais
vigor e cantando mais alto.
- “Eu tô voltando pra caaasaaaaa de veeeeeeezz…”
- Olha! Lulu Santos!
- Também gosto! Minha mãe adora!
A mãe se aproxima, me acena a cabeça com um sorriso cumprimentando-me e diz para a menina:
- Heloísa, já escolheu a sua guitarra?
- Já mamãe! Aquela azul!
A mãe se afasta e leva a guitarra azul para o balcão.
- Mas você não disse que não gostava de azul?
- Mas você gosta! E esse dia foi tão legal que eu quero ela pra lembrar de você!
- (…)
- Qual é o seu nome?
- Felipe.
- Ei! Agora tenho que ir! Minha mãe já está me chamando. E quando eu não vou, ela fica bem brava! – dando outro sorriso sapeca - Gostei de te conhecer, Felipe. Você é legal!
- Você também é muito legal, Heloísa!
- Já foi melhor que dá outra vez! - dizia sorrindo - Não senti as dores!
- Dores? Que dores?
- Sim! Na cabeça! Da última vez que vim aqui não consegui ver nada, por que doía muito.
- (…)
- Vou embora! Tchau meu amigo!
- Não vai doer mais não, tá?
- Hã?
- A cabeça. Não vai doer mais. Ou melhor, vai doer, mas nunca mais como naquele dia. Pode ter certeza.
- Ah tá! - disse sorrindo com aquele sorriso sapeca - Obrigada! Um beijo, amigo! - e fez aquele sinal de beijar a palma da mão e lançar o beijo pelo ar. Aquele beijo veio que nem uma flecha, acertando meu coração em cheio.
Virei-me para a prateleira e olhando-a, vazia e desarrumada, chorei como uma criança. Uma criança igual à Heloisa.