Carcereiro


por Márcio Silva

Às vezes ela sorri para mim, uma provocação polida. Quase sempre finjo não ver seu sorriso, mas ela insiste em tentar chamar a minha atenção, ciente de que uma hora vou me cansar do cabo-de-guerra e vou encará-la. Seu rosto é bonito, seus olhos penetrantes, seu discurso é tentador, mas a cena é sempre a mesma: ela alisa os cabelos ruivos e me pede, com a voz suave como uma carícia, que eu abra o cadeado e a liberte de sua cela. Promete fortunas, promete luxúria… promete até o poder supremo. Garante que, se eu lhe der a liberdade, fará de mim um líder admirado por homens e amado por muitas, muitas mulheres. E quando eu rio das suas promessas vãs, ela se descontrola e se agarra às grades, cheia de ódio no olhar. Grita impropérios, diz que sem ela eu não sou ninguém e que não vou chegar a lugar nenhum. Depois se controla, ajeita os cabelos e me olha com uma doçura dissimulada, pedindo que eu a ame. Então se desnuda e pede que eu a tome em meus braços, que a deixe me fazer feliz e torna a fazer as mesmas promessas de sempre. É sempre nessa hora que eu saio da sala e apago a luz, deixando minha insanidade sozinha com seus próprios devaneios.

Queria escrever


por missdevaneios

Queria ser um texto
E colocar em palavras tudo o que sinto em meu peito
Queria ser poesia
E fazer transbordar tudo que me inspira em estrofes
Queria ser parágrafo
E marcar o início do início a todo momento
Queria ser rima
E cantar em meus versos uma linda melodia
Queria ser letra
E me tornar indispensável para a mais simples das palavras
Queria escrever
Mas ainda ainda não encontrei o meu ponto final.


por Lili Belotti

Me sinto numa corda-bamba.
Tento me equilibrar todos os dias,nunca tenho descanso.
Há dias mais fáceis, parecer até brincadeira de criança, ando leve nessa corda e até tento dispensar rede de proteção.
Mas há dias nos quais a cada passo…1 susto! Tenho que fazer tanta força para não cair que tudo dói. Os músculos chegam a exaustão, a mente se distrai e chegar ao outro lado parece impossível…tenho vontade de desistir!
Há também aqueles dias nos quais o tombo é inevitável, mas não me machuco tanto, a rede de proteção está sempre lá, e quando não está agradeço pelos paramédicos que nunca deixaram de vir ao meu socorro…meus amigos!

Jubrinanca


por Márcio Silva

Pensando em minhas leitoras e no meu bolso, resolvi me lançar como escritor de romances de banca de jornal. Concordo que não é um dos mais respeitáveis estilos literários (até mesmo porque o que se lê nos romances de banca de jornal é o mesmo que se vê em algumas revistas masculinas), mas é o que dá dinheiro: essas Julias, Sabrinas e Biancas da vida vendem mais que água no deserto! Pensando nisso, resolvi lançar Jubrinanca, o melhor do erotismo para mulheres sem cheiro de tinta vagabunda. Senhoras, deleitem seus olhos com um trecho de um dos volumes da série Jubrinanca: Barrados no baile.

“Donna Washnoom acordou com fagulhas em seus belos olhos azuis: era seu aniversário de 16 anos. O dia estava lindo, as borboletas voavam pelo belo jardim da casa dos Washroons, tudo estava perfeito como deveria ser. A jovem moça levantou-se e começou a dobrar a roupa de cama valsando com os lençóis, sonhando com sua grande festa, onde dançaria com o bonitão Jason Valmore. Jason era o rapaz por quem todas as meninas do colégio Stonebridge suspiravam: além de ter sido agraciado pela natureza com longos cabelos louros e belos olhos verdes, Jason também era o quarterback do time de futebol do colégio. E naquela noite, Jason seria todinho dela.

Donna desceu para tomar seu desjejum, mas encontrou um bilhete de seus pais avisando que haviam ido ao shopping center acertar os últimos preparativos para a festa. Após servir-se de uma torrada e de uma fatia de queijo branco, Donna resolveu voltar ao seu quarto e ensaiar a nova coreografia – afinal uma líder de torcida tem que ser a melhor das cheerleaders. Quando começou a fazer seu alongamento, Donna ouviu um barulho em sua janela, como se uma pedrinha batesse em sua janela.

- Malditos moleques! – esbravejou a menina, colocando a cabeça para fora da janela.
- Psiu, aqui em baixo – sussurrou uma voz que vinha de uma moita.
- Quem está aí? – perguntou Donna, olhando desconfiada para a moita.
- Sou eu, Jason – disse a voz que vinha dos arbustos.
- Saia já do meu quintal, assombração maldita! – gritou a moça. – Fique sabendo que eu vi todos os Sexta-Feira 13 e sei que é só eu te jogar no lago com uma faca cravada no crânio que…
- Não aquele Jason, sua besta. Sou eu – disse o rapaz, saindo da moita.
- Ah! Espera que eu vou abrir a porta! – e Donna saiu da janela e desceu as escadas, saltitando.

Ao abrir a porta da sala para Jason, Donna sentiu um arrepio em sua coluna: o que seu pai diria se a visse com um rapaz em casa? O pai de Donna, o sargento Lester “skull crusher” Washroom não era um homem de temperamento fácil. Ah, se ele visse Jason sentado em sua poltrona…

- Onde estão seus pais – perguntou o rapaz, abrindo a camisa.
- Eles saíram, mas eu acho melhor você ir embora – disse a moça, olhando fixamente para o peitoral definido do quarterback.
- Diga que você não me quer e eu vou embora – disse o rapaz, puxando Donna pelo braço e beijando-lhe os lábios.

Jason tomou Donna em seus braços e a levou para o quarto de seus pais. Deitou-a na grande cama de casal e começou a beijar o corpo da jovem, que se contorcia de prazer a cada vez que os lábios de Jason tocavam sua carne tenra.

- Seja gentil comigo: é a minha primeira vez – disse a moça entre os dentes.

Mal ela acabou de dizer isso, ouviu a porta da sala se abrir e passos na sala. Jason desesperou-se quando ouviu os passos pela escada, cada vez mais rápidos. Danna apontou para o armário dos pais e Jason, nu, enfiou-se entre as roupas e fechou a porta. Mal acabou de esconder-se quando o pai de Danna entrou pelo quarto, brandindo uma camisa de flanela em uma mão e um revólver na outra.

- Cadê o safado? Cadê o safado que estava querendo te deflorar? – gritou o militar.
- Que safado, papai? Não tem ninguém aqui – disse a menina, ajeitando-se.
- Eu sei que tem alguém aqui. Ele está embaixo da cama? – disse Lester, agachando-se e enfiando a arma embaixo da cama.
- Papai, não tem ninguém querendo me deflorar! – queixou-se a moça, calçando os sapatos.

Neste exato momento, a porta do armário se abriu e Jason caiu, rolando pelo chão e batendo com a cabeça na parede. Lester levantou-se furioso e apontou a arma para o rosto do rapaz.

- Eu te mato! Tentando deflorar a minha filhinha, não é? – disse Lester, entre os dentes. – Faça suas preces, fedelho.
- Ah, pára com isso, papai. Ele é gay – disse Donna, ajeitando os cabelos.
- Ele é gay? – perguntou Lester, confuso.
- Ora, papai… ele acabou de sair do armário na sua frente… – bocejou a moça”.

Malária


por Márcio Silva

É simplesmente assim:
Basta meu coração esfriar
Para a sua saudade vir à tona
Com febre e insônia
Com fogo e fúria

Com todo tipo de inquietação.


por Lili Belotti

Um rosto desconhecido que já se tornou familiar.

Toda semana está lá, às vezes acho que estava me esperando, prestando atenção, olhando duas vezes antes de ir embora.

Será que assim como eu também antecipa esse encontro do acaso?

Deve ficar incomodado quando olho. Me incomoda sua timidez.

Quem é você?

Da onde vem?

Para onde vai?

Coisas de casal


por Márcio Silva

- Já está pronta, Adriana?
- Quase, amor!
- Tudo bem, eu vou tirando o carro da garagem.
- Pedro, você viu a minha bols… meu Deus no Céu!
- O que foi, linda?
- Você não vai assim ao cinema, vai?
- Vou, ué. O que tem demais?
- O seu cinto é preto.
- Sim, e …?
- E os sapatos são marrons.
- E daí?
- E daí que não combinam!
- Ok, Adriana… não tem problema, eu coloco a camisa para fora da calça e o problema acaba, viu? Ninguém vai saber que meu sapato e meu cinto não combinam, ok? Vamos embora.
- Mas eu sei! Eu sei! Amor, troca.
- Trocar o quê?
- Os sapatos ou o cinto. Ou eu não vou ao cinema.
- Ou você não vai ao cinema?
- Não vou.
- Só porque o cinto e os sapatos não estão combinando.
- Exatamente.
- Tudo bem. Então agora eu que não saio mais consigo até você pintar o cabelo de preto.
- Hein? Surtou, Pedro?
- Adriana, esse seu cabelo louro não combina.
- Ficou maluco? O que não combina?
- As suas cortinas não combinam com o seu tapete, Adriana.
- PEDRO!!!
- Ninguém mais vê, mas eu sei. Eu sei!
-…
- E então?
- Tira logo esse carro da garagem antes que a gente perca o filme, Pedro.

Fermatas


por Márcio Silva

- Professor?
- Sim? Ah, olá… é Alice, certo?
- Sim, olá. O senhor tem um minuto?
- Claro. Em que posso ajudar?
- Professor, eu preciso conversar com o senhor sobre a minha nota.
- Ok, ok… está com a prova aí?
- Sim, está aqui. O problema é que…
- Hmmm… eu não vejo problema algum. Sua nota está correta, Alice.
- … eu não entendi essa nota que o senhor me deu.
- Como assim “não entendi”?
- Desculpe, mas eu realmente não entendi a nota que o senhor me deu, professor.
- Eu não entendo como você não entende, Alice. Sua nota é o percentual de acertos das questões da prova.
- Eu sei, professor… é que…
- Aqui, quando eu pedi para você me citar 3 instrumentos sinfônicos de corda e você respondeu “violino”, “viola” e “violoncelo”, acertou toda a questão.
- Tudo bem, professor. O lance é que…
- E aqui, quando eu perguntei qual era o nome dado ao sexto grau de uma progressão harmônica, você colocou “sensível”, mas o correto seria “superdominante”.
- Professor!!!
- …
- Eu entendo o conceito da pontuação de uma prova. E eu entenderia se a nota que o senhor me desse fosse um 0 ou um 10, mas o senhor desenhou uma semínima pontuada na minha prova. É isso que eu não entendo, professor.
- Acho que você precisa estudar mais teoria musical, Alice. Tenha um bom dia.

Consultório do Dr. Osório


por Márcio Silva

- O próximo!
- Bom dia, doutor.
- Ah, Sr. Villas… sente-se, por favor. Eu já estou com o resultado dos seus exames.
- E então, doutor?
- Eu vou lhe ser sincero, Sr. Villas… o resultado é bem preocupante. Não é fácil dizer isso, Sr. Villas, mas o senhor sofre de licantropia.
- …
- A boa notícia é que existe tratamento.
-… licantropia?
- Eu sei, os casos de licantropia são raríssimos, mas infelizmente, ainda existem registros.
- … de licantropia?
- Sim, senhor. Inclusive no ano passado foi registrado um no interior do Pará. Mas, como eu dizia, existe tratamento.
- … licantropia? O senhor tem certeza que eu sofro de licantropia?
- Sr. Villas, eu entendo o que o senhor está passando por um momento complicado, mas o senhor foi diagnosticado com licantropia não apenas por mim, um colega meu confirmou o diagnóstico.
- Licantropia é a maldição do lobisomem, doutor! Quem mais seria maluco de confirmar um diagnóstico absurdo desses?
- Absurda é essa sua atitude de questionar o meu diagnóstico! Fique o senhor sabendo, Sr. Villas, que eu exerço medicina faz trinta anos. E saiba também que o meu colega, o Pai Totonho de Campinho é um profissional do mais alto gabarito!
- …
- Bom, o importante é que eu tenho aqui comigo o tratamento, o senhor vai querer ou não?
- Doutor… abaixa essa arma, por favor…
- Sr. Villas, o senhor tem licantropia e o único jeito de curar licantropia é com balas de prata.
- Olha… calma, doutor. Vamos conversar… não tem outro remédio?
- Infelizmente o genérico está em falta…

Sob a pena da pena


por Márcio Silva

A pálida luz que tremia sobre a entrada do beco morreu quando Max Porter jogou a guimba do cigarro em uma poça d’água, antes de esgueirar-se viela adentro. Chovia o suficiente para abafar o barulho de seus passos, mas a chuva e o barulho eram a menor de suas preocupações: era hoje o dia do acerto de contas. Parou atrás de uma caçamba de lixo e observou a porta dos fundos do Havana Club se abrir e seu proprietário, o empresário Wilson Creed, sair sozinho em seu impecável smoking branco, abrir despreocupadamente o guarda-chuva e caminhar na direção de um sedan azul-marinho estacionado em frente à porta. A mão direita de Porter alcançou o cabo da pistola e o apertou com força. Aquela era a hora do acerto de contas. Porter saiu de trás da caçamba e, com a arma em punho, rendeu o empresário.

- Parado aí, Creed. Temos algumas contas a acertar.

Wilson Creed parou e levantou a mão livre, em sinal de rendição. O sorriso de Porter se abriu: teria enfim sua vingança, assistiria sua arma cuspir chumbo quente contra o corpo do homem que lhe custou dez anos na prisão e, depois que o corpo de Creed estivesse estirado sem vida sobre o chão do beco, enfim poderia beijar pela última vez seus lábios.

- Prepare-se para morrer, Creed. É hora de você… ei, ei, ei! Dá para repetir a última frase?

(…) enfim poderia beijar pela última vez seus lábios.

- Desculpa, mas isso não vai acontecer. Por que eu tenho que beijá-lo?

Porque é o que está no roteiro.

- Então faça o favor de reescrever o roteiro, porque eu não vou beijar esse cara. Para início de conversa, isso tudo não faz o menor sentido: eu chego aqui no beco querendo encher o sujeito de chumbo porque ele me fez passar dez anos na cadeia e no final eu beijo ele na boca?

Bom, muitos homens se descobrem gays após longos períodos na prisão.

- O quê? Você está falando sério? Muitos homens são estuprados nas prisões, isso sim.

Você quer dizer que ninguém pode se descobrir na prisão sem que haja violência sexual? Ninguém tem revelações sobre sua própria vida na cadeia?

- Não estou dizendo isso… mas também não é esse o caso. O caso é que eu não vou beijar esse sujeito!

Posso saber por que não?

- Porque não, ué.

Ué, uma explicação têm que ter.

- Que tal esta: eu não quero beijar o sujeito?

Mas é só uma cena!

- Ah, é só uma cena? Então por que você não vem até aqui e termina a cena para mim?

Eu não posso ir até aí, eu sou o narrador.

- Ah, sei…

O que você quer dizer com isso?

- Eu quero dizer que você é um hipócrita. É muito fácil mandar os outros beijarem o sujeito no beco, mas você mesmo não beijaria o cara.

Você está distorcendo as minhas palavras… podemos continuar com o texto?

- Claro que não. Eu não continuo enquanto você não admitir que não beijaria o… Creed, é esse o nome dele não? Sim, é sim. Então… eu não continuo enquanto você não admitir que não beijaria o Creed e enquanto não alterar o final da cena.

Eu não tenho que admitir nada. Eu sou o narrador, a minha função é esta e eu a estou cumprindo, ao passo que você, que deveria ter beijado o Creed para que o texto continuasse, não está cumprindo o seu papel. Você não é profissional.

- Eu não sou profissional? Eu não sou profissional? Eu estou aqui num beco mal iluminado, debaixo de chuva e porque eu me recuso a beijar um cara pelo fato de eu não ver nexo nesse ponto da trama, enquanto você tenta se agarrar na sua desculpinha esfarrapada de “eu sou o narrador” e não quer admitir que você também não beijaria esse sujeito aqui com esse terninho cafona…

- Que foi? Vai ficar mudinho agora? Não vai mais falar comigo?

- Vai me dar tratamento de silêncio? Depois eu que não sou profissional. Você é um crianção.

Porter abre seu sobretudo, revelando-se vestido de corpete, cinta-liga e meia-calça arrastão vermelhos, e começa a rebolar em volta de Creed.

- Ei, ei, ei… pára com isso, rapaz!

Ué, você não quer mudar a cena? Pois eu estou mudando a cena. Seja feita a vossa vontade.

- Escuta aqui, rapaz: você quer resolver isso no braço?

Eu? Brigar com você?

- Desce aqui e a gente resolve isso.

Eu não vou descer até aí.

- Mariquinha…

Não me chame de mariquinha!

- Mariquinha! Mariquinha! O narrador é um maricas.

Pára de me chamar assim. Eu não sou maricas!

- É um maricão, isso sim! Mariquinha, Maricota! Vai chorar, seu maricas?

Pára… de… me… pára…

- Err… você está chorando mesmo? É sério isso?

Não… eu não estou chorando. São as minhas alergias…

- Rapaz, também não precisa chorar, eu só estava…

Só estava atrapalhando o meu trabalho! Eu não escrevi o texto, eu sou apenas o narrador. E ainda tenho que aturar essa… humilhação? Ser chamado publicamente de mariquinha? Eu não tenho culpa de nada, eu sou apenas o narrador. Se eu pudesse, eu mudava a cena, mas eu não posso! Eu só leio o que está escrito.

- Ok, ok, eu peço desculpas. Você não é mariquinha.

Mesmo?

- Mesmo.

Obrigado. Podemos continuar com o trabalho?

- Tudo bem, tudo bem… já que não foi você quem escreveu esse texto, não pode modificar e eu preciso mesmo da grana, vamos lá… deixe-me ler a cena de novo. Ok, a arma cospe chumbo, vamos lá e… pronto, Creed está morto. Agora o corpo dele está jogado no chão do beco, seja o que Deus quiser… pronto, está beijado. E agora?

A vingança de Porter estava concluída, mas ele ainda precisava correr para alcançar sua amada Jane Lee antes que o último trem partisse… eu não posso ler isso. É clichê demais!

- Ei, ei, ei! Como assim? Vai terminar de ler sim, senhor! Eu acabei de beijar um cara, por que você não vai ler o texto?

Depois dessa cena, o texto vira um amontoado de lixo! Clichê em cima de clichê! Eu me recuso a tomar parte disso!

- Ah, você se recusa, seu mariquinhas? Eu vou aí na cabine e eu quero ver você não ler esse texto!

Não me chame de mariquinhas!