Histórias que nossas babás nos contariam nos dias de hoje
por Barão
Era uma vez um quartelzinho onde serviam 150 soldadinhos, todos de fardinha verde. Apenas um deles era perneta, tinha perdido a perna numa missão em uma favelinha, levou uma azeitoninha no joelho e como fora o último a ser socorrido, não foi possivel fazer o atendimento necessário. Ganhou dispensa mas como amava a pátria resolveu não sair do quartelzinho, realizando suas funções na parte burocraticazinha.
Chegou o dia em que o quartelzinho foi invadido por pessoas muito más, chamadas traficantezinhos de armas. Eles aprisionaram os soldadinhos de plantão dentro do escritório e um deles exclamou: - Mão na cabeça, seus merdinhas! A gente só quer as arminhas, depois vamos embora! - E os colocou lado a lado deitados no chão. O soldadinho de uma perna só era o último da fileira.
Depois desse incidentezinho o soldadinho finalmente resolveu aceitar a dispensa, e se desligou com muito pesar do seu quartelzinho tão querido. Agora ele tinha que arrumar um empreguinho.
O ex-soldadinho descobriu que era muito dificil arrumar um trabalhinho, seja ele qual fosse, ainda mais por se tratar de um ex-soldadinho perneta. Mas como muito procurou, acabou conseguindo trabalhar em uma lojinha de informática, vendendo hardware e periféricos de computador.
O tempo passou e um dia ao lustrar a tela de um monitor à venda, deparou-se com o reflexo de uma bela menina. Ela tinha coque de bailarina e camisa escrito “Dance”. O fitou e pediu uma caneta Pilot.
O ex-soldadinho, perneta, logo se apaixonou pela bela bailarina, mas por se achar um deficiente, logo tratou de tantar esquecer aquele belo rostinho. Em vão. A cada dia que passava, a bailarinazinha voltava na loja para comprar qualquer besteirinha, até que numa sexta-feira ensolarada ao pagar um mouse com um cartão de crédito, a bailarinazinha anotou seu telefone no recibo e o ex-soldadinho reparou no terno olhar da pagante. Logo se empolgou e ficou tentado à ligar pra sua admirada.
Tomou coragem e num sabado de tarde ligou e se apresentou. Pediu desculpas do jeito pelo qual teve acesso ao telefone e se surpreendeu com a receptividade da mocinha. Logo a convidou para sair e ela aceitou. Ficou de ir buscá-la.
Ela morava no “Morro do Já É”, uma favelinha tida como uma de grande periculosidade da região. Mas estava cego de amor e nada o pararia na busca de sua amada. Munido de papelzinho com endereço, não foi dificil achar a casa da bailarinazinha. Ela ja estava o esperando. Longos cabelos negros ondulados, cheiro de sabonete, pele morena, grossas sombrancelhas que enlouqueceram o ex-soldadinho perneta. Logo estavam no pé do morro, trocando beijinhos e carícias.
Eram onze horas da noite, fogos de artíficio explodiram nos céus fazendo um lindo espetáculo de som e luz, e com os fogos veio o carregamento de tóxicos. O ex-soldadinho logo foi reconhecido como militar e a bailarinazinha tida como x-9. Não os perdoaram, foram pros pneuzinhos.
Naquele momento, o querosene ja exalava seu cheiro e a bailarinazinha foi colocada bem junto ao soldadinho. Bastou uma labareda e se iniciou o ritual.
No dia seguinte, ao limparem o local, encontrou-se no meio das cinzas um pequenino coração de chumbo, de um cordão que sempre usava: era tudo que restara do soldadinho, fiel até o último instante ao seu grande amor.
Da pequena bailarina de papel só restou a minúscula pedra azul da tiara, que antes brilhava em seus longos cabelos negros.