por Lili Belotti
Me ensina a esquecer que um dia gostei de você…
Que fiz planos e tive sonhos…
Me ensina a viver fora do conto de fadas…
Acordei e não quero mais dormir…não quero sonhar!
Me ensina a esquecer que um dia gostei de você…
Que fiz planos e tive sonhos…
Me ensina a viver fora do conto de fadas…
Acordei e não quero mais dormir…não quero sonhar!
Desde o dia em que virei trapezista eu não durmo mais em paz. Sonho com planícies, chão de paralelepípedos, declives acentuados, asfalto esburacado, escada rolante de shopping center para baixo, lona, tábua de passar roupas, cama de pregos, Isaac Newton e você, minha esposa e assistente de mágico, ilusória, montada em cima de mim, desaparecendo de uma vez após um breve orgasmo.
A banda alemã Dunkle Macht (1980-1982) é considerada, por muitos estudiosos do rock ‘n’roll, uma das mais revolucionárias de todos os tempos. O quarteto, formado por Andreas Kuttner, Karl Göbber, Maik Üller e Sven Klauswassen, surpreendeu o cenário underground de Berlim Ocidental com seu som ultrapesado e sua formação, completamente fora dos padrões do heavy metal oitentista: Andreas no bombardão, Karl no trombone de vara, Maik nos saxofones alto e soprano e Sven no vocal e no flautim. O som do Dunkle Macht foi batizado pela mídia como schlag metall (metal de sopro) e tinha tudo para dar certo, mas infelizmente a carreira promissora do grupo foi interrompida por um grupo de skinheads, que espancou o quarteto até a morte no camarim da boite Große Wurst, logo após sua primeira e única apresentação. Os poucos fãs do Dunkle Macht ainda visitam o pequeno monumento erguido em homenagem à banda na Potsdamer Platz e lá depositam flores e instrumentos de sopro, no aniversário da tragédia.
Se puder, ouça essa música antes ou durante a leitura. http://www.goear.com/listen.php?v=33f53d3
Doce solidão, ela tem mãos preciosas
que iluminam as composições dedilhadas
Receio que o pianista toca como escrevemos
Fazendo com que luzes de sua nova canção
Misturem-se à escuridão da noite solitária
Fabricando muitos sonhos de amor e paz
o pianista trabalha sem dormir ao tentar
Solucionar todos os problemas do mundo
Lamenta-se com as mãos mais que calejadas
Seguindo seu destino, ele consegue criar
Silenciosamente mais uma canção frustrada
*Como se o destino de um grande pianista fosse conseguir a paz
(Quarta, 17 de Outubro de 2007)
Terra
Um nascimento.
Dois brinquedos no Natal. Três meses de férias.
Quatro recuperações.
Cinco anos na faculdade. Seis namorados fixos.
Sete taças de vinho.
Oito viagens pelo mundo. Nove netos nascidos.
Céu
(Terça, 24 de Outubro de 2006)
Dentre as genealogias sanguinárias
acordei de um sonho infernal
proferindo palavras arbitrárias
às moscas de um lugar sepulcral
Talvez por mero defeito hereditário
sente o odor pungente dos poros suados
o sangue escapando pelos órgãos cortados
Mostrando as entranhas de um ser honorário
Deixa em carne viva esta aberração
dá-lhe um punhal para acabar em segundos
com esse corpo de mórbida feição
Só. Para sucumbir a Platão
e reestruturar seus átomos imundos
aguardando ansiosamente a putrefação
(Terça, 14 de Fevereiro de 2006)
A Esperança descansa no ventre-livre da Natureza.
Ela nasce, desenvolve-se e submerge-se em lágrimas e contradições
Vem à tona e viaja calmamente na sombra
A Esperança derrete, charfuda, enlouquece…
dissipa, sorri e adormece…
A Esperança só espera o momento de ser criança
Espera e espera…
E cresce, e perde a noção do tempo
E envelhece e perde a si mesmo
E acaba por murchar nas asas da descrença e da desilusão.
Mesmo assim ela renasce e surge esperençosa
Pois só a crença na Esperança nos faz sonhar
Sejamos sonhos em vida…
Aos mondanos, um feliz ano novo repleto de criatividade (”saindo pela tampa”)!
(Domingo, 01 de Janeiro de 2006)
Creio que toda solidão contida em uma figura
Submerge de lágrimas escaldantes de saudade
Amontoado de tintas unidas em telas multicoloridas
Saborosos objetos circundados de elementos naturais
Formas, aparências, posições, texturas, tempo
consistências, tamanhos, contornos, sentido
São representados por gênios malucos ou seria malucos geniais?
Queria sentir as palavras em minhas mãos
assim como sentem as tintas escorrendo entre os dedos
Creio que a pintura seja uma continuação da vida
Que se alaga de substâncias e detalhes milimétricos
que se derruba numa análise sem fim
Ao mestre-mor de todas as tintas
tão substancioso, profundo e surreal…
(Segunda, 10 de Outubro de 2005)
Preciso abrir minhas asas e pular de um precipício
Preciso conhecer algo mais que o infinito
Preciso poder sentir algo bonito
Preciso libertar-me e soltar um grito
Preciso parar de olhar num só sentido
Preciso seguir aquilo que acredito
Preciso de uma água ou vinho envelhecido
Preciso de liberdade e de ser esquecido
Preciso de sonhos ou apenas um comprimido
Preciso de um som no meu ouvido
Preciso de um filme colorido
Preciso ver um luar lindo
Preciso sentir um amigo sorrindo
Preciso de um coração arrependido
Preciso de você ou algo parecido
(Segunda, 26 de Setembro de 2005)
Condeno-lhes, estes cérebros perdidos
Amontoado de neurônios corrompidos
Fervilhando em chamas transparentes
Gritando, estas mentes, em vozes eloqüentes
Desgraçados rostos reluzentes
Suados, dotados, carentes
Perseguem-me inultimente alucinados
Descubro-lhes vertiginosamente complicados
Mesmo envolto em trevas rastejantes
Durmo em sonhos ignorantes
Sentindo em minhas veias, líquidos lacrimejantes
Ajuda-me, estas loucuras comoventes
Livra-me dessas cabeças ardentes
Pois condenarei-lhe: inescrupulosas mentes
(Sábado, 17 de Setembro de 2005)