Sobre Ândi Garcia

Profissional de computação, amante das letras, pseudo-violonista do lar, uspiano, corinthiano, maloqueiro e sofredor. Graças a Deus.

Lembro quando aprendi, já durante o cursinho pré-vestibular, todas as regras para a produção de uma boa redação. Foi um choque. Todos aqueles paradigmas a serem seguidos durante a escrita, ao contrário do que se possa imaginar, não contribuiam e ainda não contribuem em nada para mim. Ao contrário, me cerceiam a criatividade e a desenvoltura, e impede o que eu mais prezo ao escrever: as digressões.

Não que antes disso eu tenha sido um grande escritor. Sequer escrevia bem. Mas gostava muito de escrever e, ao começar uma dissertação, as idéias se acumulavam na cabeça e o texto fluia levemente. Toda minha preocupação se concentrava em buscar palavras que dessem um brilho extra para quem lesse, e garantir a coesão entre as sentenças.

De repente, descobri que eu deveria obedecer a uma infinidade de regras… “Sua redação deve conter introdução, desenvolvimento e conclusão”, “evite linguagem coloquial demais, ou rebuscada demais”, “não use chavões ou clichês”, são exemplos de dicas inteligentes, e é óbvio que devem ser obedecidas. Mas, alguém sabe me explicar qual o problema com os parênteses? E porque é que devemos seguir o padrão síntese-tese-antítese? E por que é que devemos, obrigatoriamente, tomar uma posição? Se dissertamos sobre algo em que não há uma verdade absoluta, não é um erro ter que optar por uma alternativa mesmo com a consciência de que ela seja um erro, e não há argumentos para sustentá-la?

O efeito de tanta rigidez é que perdi boa parte do prazer em escrever textos completos, com o compromisso de ter produzido uma boa redação ao final. Me amparo na desculpa da informalidade e do caráter pessoal, principalmente em blogs, e muitas vezes utilizo inclusive artifícios totalmente contra-indicados, como abreviações e citações, só para deixar bem claro que eu não estou nem aí para as convenções, quero apenas que me entendam.

Claro que estes dogmas literários tem por objetivo manter a clareza e objetividade, e muitos vão dizer que isto em nada os atrapalha, ao contrário até dá uma orientação a produção textual, mas EU não vou me prender a regras idiotas quando cumpro muito bem o obejtivo da comunicação. Me dou total liberdade de criação, e os amantes da boa escrita aceitem, ou simplesmente não leiam. Só não venham me ensinar ou me corrigir, pois não ignoro o que é certo ou errado, apenas ignoro esta preocupação.

Quando crianças/adolescentes, uma enxurrada midiática e literária tenta nos mostrar a beleza do amor (entre homens e mulheres). Aprendemos que para cada um de nós, há a tampa da panela, a outra parte. Uma pessoa reservada especialmente para nós, com quem nos casaremos e viveremos felizes para sempre.

Na adolescência, começando a enxergar com nossos próprios olhos, começamos a desconfiar das antigas crenças. As primeiras decepções amorosas (ainda que nem se saiba ao certo o que seria isso) parecem nos questionar sobre a legitimidade de um grande amor. Mais que isso, ao ver pais se separando, sendo os nossos ou de amigos, nos perguntamos: se eles eram tampa e panela, porque se separaram? E se não eram, como viveram metade da vida juntos?

Saímos dessa querendo apenas acreditar que amar é bom. Nem ao menos ser correspondido importa. Basta cultivar aquele sentimento intenso e sonhar com um amor utópico. Vale até se apaixonar por uma estrela da televisão.

Mais adiante, eventualmente, um destes amores platônicos se torna real, e por termos idealizado tanto a pessoa, a frustração é inevitável. Ou então a renúncia para estar com aquela pessoa que tanto amamos é tão grande que acabamos esquecendo que também nós precisamos ser amados. Nesse momento, mais importante que estar ao lado de alguém que amamos, é estar com que nos ama.

Calejados, chegamos à fase adulta com a amarga sensação de que aquele amor idealizado não existe. Bom mesmo é um relacionamento onde haja respeito, carinho, amizade e tesão. Talvez o amor em si seja isso mesmo. Se não for, não sei o que é, e nem se ele realmente existe.

Este post é na verdade uma rapsódia de temas que li e discuti nos últimos dias. Portanto, a aparente mudança de assunto repentina foi previamente calculada e intencionada, não se tratando de erro de redação. Na verdade, tudo se completa e se entrelaça.

A verdade é mesmo subjetiva. Isto fica evidente quando vemos diferentes opiniões e diferentes interpretações, por pessoas diferentes, ou mesmo por uma única pessoa em momentos e/ou contextos distintos.

Esta semana, conversando com minha amiga Ana do Deranged Girl, o assunto (sobre o qual ela também postou) era a música Deixa o Verão, do Hermano Rodrigo Amarante. A letra narra a situação comum na maioria dos namoros, quando o casal deixa de sair com os amigos, de ir a bares, evita o convívio público, pra ficar curtindo o namoro sobre o sofá.

Se considerarmos toda a hostilidade que há da porta pra lá, podemos concordar em deixar o verão pra mais tarde, e se prender àquele instante de prazer a dois (Uh uh uh, ah ah ah!). Esta escolha, no entanto, nos isola da vida externa, e nos limita àquela vida, regida por um relacionamento que obviamente pode vir a ruir.

Mas, somos mesmo contraditórios. Se por um lado acho prudente não negligenciar o mundo lá fora, minha personalidade canceriana acaba sempre trocando qualquer verão, qualquer amigo, pelas carícias da amada, pelo conforto do sofá… Que importa? As pessoas lá fora são igualmente contraditórias. São os amigos que, num momento nos pede para sermos o que somos. Seja você mesmo, não é o que dizem? E no momento seguinte, vêm nos dizer que precisamos mudar. Cheguei a ouvir, numa mesma frase: você é muito pra baixo e tenta ser mais você. Peraí, concordo que sou, ou melhor, estou pra baixo, mas esse sou eu! Se eu mudar, aí sim estarei tentando ser algo que não sou. E não vejo drama em ser assim, ou ter estes momentos. Há quem viva sorrindo, e por dentro é pura escuridão, passando a viver uma angústia ainda maior, por estar representando um papel, afim de ter uma vida social e blablablá.

Nem sempre faço o que é melhor pra mim
Mas nunca faço o que eu não to afim…
(H. Gessinger)

Não vejo nada de errado comigo. Eu não quero ser diferente. Mas tenho absoluta convicção de que as pessoas muitas vezes não gostam do meu jeito. Isso me incomoda. Mas, veja bem, o incômodo não está no meu jeito, mas nas reações das pessoas a ele. Mudar? Mas não dizem para eu ser eu mesmo? Não mudar e viver solitário, por não querer agir com diplomacia? É a inevitável escolha entre a incubadora de sonhos e o livre mundo de hipocrisia.

Por hora, fico cá em meu sofá… salvo os seletos amigos, e vivo momentos de prazer ao lado de alguém em quem não vi hipocrisia. E deixa o verão pra mais tarde.

Sei que neste espaço normalmente evitamos o Ctrl-C, Ctrl-V, mas este se faz necessário, para que cada um tire sua própria conclusão. Não sei o que pensa Amarante, então que cada um encontre seu próprio sentido.

Deixa o Verão
Rodrigo Amarante

Deixa eu decidir se é cedo ou tarde
Espere eu considerar
Ver se eu vou assim
Chique, à vontade
Qual o tom do lugar?

Enquanto eu penso, você sugeriu
Um bom motivo pra tudo atrasar
E ainda é cedo pra lá
Chegando às seis tá bom demais
Deixa o verão pra mais tarde

Uh uh uh, ah ah ah!

Não tô muito a fim de novidade
Fila em banco de bar
Considere toda a hostilidade
Que é da porta pra lá

Enquanto eu fujo, você inventou
Qualquer desculpa pra gente ficar
E assim a gente não sai
Que esse sofá tá bom demais
Deixa o verão pra mais tarde

Uh uh uh, ah ah ah!

E eu digo, cá entre nós
Deixa o verão pra mais tarde

Uh uh uh, ah ah ah!

¹ Morrissey

Há alguns anos atrás, não saberei precisar a data, uma pesquisa revelou que, na maioria das vezes, quem “vence” na vida não são aqueles “melhores alunos” da escola. Claro que os piores também não poderiam ir muito longe. Aqueles que realmente sobem e assumem cargos de chefia em empresas e ganham muito dinheiro são os que eram medianos nos estudos. Aqueles que, embora não fossem totalmente relapsos nos estudos, viviam bagunçando, eram queridos por todos e amigos de todos. Não se destacavam nas provas, não eram nerds, e viviam escorregando em algumas matérias, conseguindo escapar da reprovação por um triz.

Este resultado não me surpreendeu nem um pouco. Embora eu não saiba identificar muito bem o que é causa e o que é conseqüência, o fato é que o perfil daqueles que tiveram bom desempenho escolar na infância é de uma pessoa mais fechada. Salvo exceções, estes são os que despendiam maior tempo estudando e, ou agiam assim por serem mais fechados, tímidos, quietos, ou acabavam se tornando um pouco assim por agirem desta forma. Já aquele aluno mais falante, bagunceiro, o ´figura´ da turma… Este tem carisma, tem muitos amigos. Aprendeu talvez a coisa mais importante, que é lidar com as pessoas. Quase sempre é alguém com este perfil que tem espírito de liderança, e tem o respeito de todos.

Quem está no mercado de trabalho, já deve ter percebido que quem se dá melhor e tem as melhores oportunidades não são aqueles que sabem mais, que tem um conhecimento técnico mais elevado, que são mais competentes. Não importa o quanto você sabe, e o quanto você estudou. O que mais conta para uma promoção profissional é o nível de responsabilidade que a pessoa pode suportar, a liderança que esta pessoa exerce sobre as outras.

Não posso dizer que isto é errado. Talvez seja injusto. Talvez o salário ao menos devesse ser idêntico, para quem faz e para quem manda fazer.

PS: Este que vos escreve está entre os que sempre foram bons alunos e tem a convicção de que nunca vai estar num cargo top, pela absoluta falta de capacidade em comandar pessoas e ações. Minha esperança é vir a ser tão bom tecnicamente que, se é pra ser subordinado, que pelo menos seja de uma p… empresa que pague muito bem.

“Quando não se encontra alguém melhor ou igual, é melhor ser solitário. Não se pode conviver com os tolos”. ¹

Eis uma frase que me martela a cabeça.

Um dia, de repente, você olha para o lado… Vê que está cercado de tolices e futilidades. Pensa que seus principais conhecimentos, ainda que rasos, vieram da convivência com pessoas com sede cultural. Percebe que estando ao lado de alguém com ampla visão do mundo, você consegue compartilhar uma fração desta perspectiva.

Um passo a frente, sua visão se torna tão mais clara que chega a atrapalhar sua nova forma de ver a tudo. Sua sede cultural não cessa. Ao contrário, aumenta, e dá a sensação de que nunca se findará. Seus amigos de antes já não servem mais. São tolos. Mas logo os novos também não servirão. O mundo deles é vasto demais, além disso, você continua se embebendo em cultura e estudo, e isto o tornará mais e mais seletivo.

Depois de um tempo, sozinho, você já não dará tanta importância aos livros na estante. Terá passado por desastrosas experiências amorosas com parceiros ditos cults, mas que eram independentes, insensíveis, alternativos e liberais demais para um relacionamento com você. Talvez perceba que sua escolha deveria ter caminhado para o lado de quem tinha calor humano a te fornecer, a te fornicar.

Ou talvez não. Provável que tudo que digo seja baseado apenas em minhas frustrações pessoais com mulheres independentes demais, que se julgavam superiores no relacionamento. E possivelmente, é para me enganar, e me conformar. Aí outra frase martela a cabeça:

“… mentir pra si mesmo é sempre a pior mentira .” ²

Mas, uma coisa aprendi. A não me julgar superior a ninguém. A não ver ninguém como um tolo, pois o tolo maior pode ser eu mesmo. E, de qualquer forma, tenho alguém única e exclusivamente para amar, e posso reservar os ¿papos-cabeça¿ para as horas apropriadas, e com as pessoas certas.

Sem neura irmãos!

:o)

“Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes” ³


¹ Buda
² Renato Russo
³ Paulo Freire

Algumas pessoas me perguntaram do que se trata este blog. Minha resposta é simples: o Mondo, assim como o Mundo, é redondo e cinza! Esta expressão, o mundo é cinza, é o princípio da lógica difusa, ou Lógica Fuzzy.

Explico: para muitos casos, a lógica exata nos permite resolver todos os problemas. Assim, dois mais dois são quatro e isto é totalmente verdadeiro. A chamada verdade absoluta, no entanto, quase sempre é um piso falso. Definir as coisas como preto ou branco, sim ou não, um ou zero, é limitar demasiadamente a gama de possibilidades a que estamos expostos. Você poderia me dizer, por exemplo, quando alguém deixa de ser magro e passa a ser gordo? E o copo, está meio cheio ou meio vazio?!

O conceito de difusão é o que nos permite definir algo como verdadeiro até certo ponto. E nada é definitivo.

Vamos extrapolar um pouco a idéia de decisão fuzzy e pensarmos no conceito de boa música. O que é uma boa música? E quando ela deixa de ser boa? E pra quem ela é boa ou ruim? Definitivamente, as verdades absolutas são um erro. Um grande erro.

E por que o Mondo é, além de Redondo, cinza? Qual a relação entre a lógica fuzzy e este blog comunitário repleto de pessoas que se diferem tanto na maneira de pensar quanto na maneira de se expressar? A resposta é direta… Não tem como definir a cara e a temática deste blog com rótulos, dizendo “este blog é isto” ou “este blog é aquilo”. Ele é preto às vezes, e outras vezes branco. Mas na maior parte do tempo, ele é cinza.

Hmm… Talvez a comparação tenha sido tola, ou talvez eu não tenha sido claro. Digamos que foi válida até certo ponto, e clara até certo ponto, mesmo que este ponto seja bem raso à escala. :o)