Sobre Ândi Garcia

Profissional de computação, amante das letras, pseudo-violonista do lar, uspiano, corinthiano, maloqueiro e sofredor. Graças a Deus.

O retiro do final de semana renovara seu espírito. Acordou mais cedo, com disposição invejável, deu bom dia a todos em sua casa (o que nunca fazia), e foi a pé ao trabalho. No caminho, recordava cada momento de intensa meditação e todas as palavras que ouvira. Sentia que tudo seria diferente daquele momento em diante. Havia paz inabalável em seu coração. Havia fé de que poderia fazer um mundo melhor, e começaria pelo mundo das coisas ao seu redor.

O bom humor era tanto que não se aborreceu com o motorista que quase o atropelou ao sair da garagem, nem com um cão vira-lata que abruptamente avançou sobre seu calcanhar. Manteve a serenidade que só uma alma renovada pode conduzir, quando chegou ao trabalho e deu de cara com a porta fechada. Não se importou com o olhar curioso do padeiro, que nunca o vira tão animado e falante. Conseguiu ser cordial até com o chefe, a quem nutria sentimentos menos amáveis, e que o recebeu com insultos pelo “atraso”.

– Não, eu não atrasei, é que…
– Cala a boca e começa a trabalhar.

Logo percebeu que o mundo “aqui fora” continuava o mesmo, mas ele não. Poderia ouvir a grosseria que fosse que estava bem consigo. Tinha amor para todos. Em especial para Clarisse, que sempre ligava na hora do almoço. Menos aquele dia.

A alegria da manhã se dissipou um pouco pela falta da namorada, sem contar a chuva que o pegou de surpresa na saída do banco, onde foi solicitar um empréstimo para sanar algumas dívidas. Mas ficou melhor ao perceber que reagiu com calma e resignação aos problemas. Decidiu que começaria a procurar um novo emprego ainda naquela semana, e talvez um curso profissionalizante. Havia esperança em seu coração.

Teve vontade de dizer um palavrão quando voltou ao trabalho e o chefe lhe prometeu descontar o dia pelo atraso de mais de meia hora. Segurou firme, lembrando-se de como queria agir bem com tudo e com todos. Aceitou o desconto sem explicar que passou mais de uma hora na fila para pagar uma conta da empresa.

Agradeceu quando se aproximou o final do expediente, mas isso antes de receber o telefonema de sua mãe, que pediu que ele fosse buscar sua irmã mais nova na escola.

– Mas eu não vim de carro, mãe.
– Vá a pé! Você está precisando andar mesmo, está muito gordinho.

Ele não estava com a menor paciência para buscar a irmã, e a palavra “gordinho” foi o último tiro no seu bom humor. Mas foi. Pegou a pequena, que tagarelava sem parar, e antes de ir para casa, resolveu passar a limpo o problema com a namorada. Foi à saída do trabalho dela. De longe, a viu no carro de um colega de trabalho, trocando gracejos. Havia rancor em seu coração.

Apesar da fúria, resolveu não agir. Voltou para casa, cabisbaixo, e ainda tendo que agüentar a pirralha tirando onda com o que vira.

Chegou em casa com muita fome, mas não havia nada na geladeira ou na despensa. Também não teve vontade de ir até a padaria. Sentou-se em frente à TV para ver o noticiário esportivo do fim de semana, já que ainda não sabia os resultados da rodada.

– Crise no Corinthians. Já são cinco jogos sem vencer, e….

Quebrou a TV, sentou e chorou. Havia raiva em seu coração.

Anjo,

Resolvi escrever-lhe, como prometera antes de sua partida, muito embora ainda não tenha entendido o real motivo de sua vinda.

Lembro-me quando lhe avistei pela primeira vez. Mal pude notar a auréola que lhe adornava, pois sua beleza, sua plena beleza, sobrepujava a tudo. Também jamais poderia imaginar que viria a mim. Foi quando o anjo cinzento, que eu já conhecia, lhe trouxe até mim, ou me levou até você – até hoje não consido distinguir se meu espírito se elevara ou fora o céu que me buscara. Naquele momento, um toque sublimar tirou-me de mim, de onde estive ausente poucas duas ou três semanas.

Tinha relva no céu e nuvens no chão. Tinha flores em ti. Tinha orvalho em meus olhos e brisa em meu peito, que soprava ligeiro e suavizava a tormenta da minh’alma.

Rápido e perene. Como num passe de mágica, você surgia, me encantava, desencantava e sumia. E cada hora passada parecia muitas. Mas hoje, quando me lembro, tenho a nítida sensação de que cada minuto era meio, e cada segundo era o último.

Você é um anjo, deve ter sido a última coisa que lhe disse. Mas faltava o céu a você, e faltava a terra a mim.

Então, veio o anjo cinzento, e tinha interrogação nas palavras. Tinha orvalho nos olhos. Tinha doença em ti. Tinha pouco de mim em mim.

Crêem meus botões que tudo não passsou de zombaria do anjo cinzento, que lhe criou e descriou a seu próprio vento. Mas eu não sei. Creio em ti, assim mesmo, como um anjo que veio e que foi. Afinal, para mim os anjos são assim. Surgem, urgem, afagam, encantam, e vão, e sobem, e somem, sem sequer terem existido.

Fazer um curso de humanas é como aprender a caçar dragões. É isso mesmo! Você passa quatro ou cinco anos lá, aprendendo todas as técnicas pra matar um dragão, a melhor lança pra acertá-lo, a anotomia do bicho, pra lança ir direto ao coração… E toda a teoria que precisa para ser um bom caçador de dragões.

Cinco anos são suficientes, mas normalmente em quatro você já sai um ótimo caçador de dragões. Aí se forma e vai a caça de alguns dragões pra poder aplicar suas técnicas.

O problema é que andamos em períodos com uma certa escassez de dragões, então, o estudante de hum… perdão, o nosso caçador de dragões só tem uma alternativa viável: voltar e treinar novos caçadores de dragões. E assim segue o ciclo sem fim.

Colaboração: Piter Punk
Fonte da imagem: http://www.revistaesoterica.com.br/metodo_oracoes/saojorge.jpg

– Hoje é dia 23 de Dezembro, e provavalmente, todos os perus da ceia já estão decepados. O que prova que “nem peru morre de véspera”.

– A vida não é só Champagne Cristal, Vinho Tinto importado, e Coca Light Lemon. Bom mesmo é a vida “Sidra Cereser” e “Dolly Diet Twisted“.

Mineiros’ like way of life: Pão-de-queijo em churrasqueira elétrica.

Às vezes o sentido da palavra “ignorância” se perde. Ignorar não é escolher não saber, é desconhecer alguma coisa, não ter conhecimento dela2.

Quase todo mundo já ouviu um dia uma expressão do tipo: “como assim, você nunca leu esse livro?”, ou então “fulano é um idiota, aposto que nunca leu ‘Autor X’”. De certo, essas pessoas se julgam mais inteligentes por terem lido tais autores, enquanto os que não leram sequer sabem o que estão perdendo, mas já levam a culpa. Isaac Newton devia ser um tremendo ignorante, já que nunca leu George Orwell…

Dia desses precisei dos serviços de um encanador. Provavelmente o Zé Encanador nunca leu um de meus livros prediletos, mas eu precisei dele, porque, infelizmente, não entendo nada de instalações hidráulicas. Agora me diz: que proveito tiraria João Tapeceiro dos sonetos de Camões, dos deuses greco-romanos, ou da teoria de Chomsky? E o que faria um professor de filosofia, que leu mais livros do que jamais lerei, com meu conhecimento de computação? Um über software ultra-pensante que computasse o sentido da vida, das coisas, e tudo mais3?

2 + 2 = 5

A verdade é subjetiva. O que é verdade para você, pode não caber na realidade do Zé, do João… Da mesma forma, o que cada um julga certo, correto, não será o mesmo para todos. Se alguém crê piamente em algo, para essa pessoa aquilo é uma verdade. E se ela estiver completamente errada sob todos os conceitos que você aprendeu na academia, ainda assim seria prudente não ignorar a possibilidade de seus livros empoeirados estarem todos enganados. E mesmo que isso seja improvável, não se esqueça que aquela pessoa não é pior do que você, ela só ignora algo que você sabe. Talvez porque dedicou boa parte do tempo para aprender serviços dos quais você precisa, ou pode precisar um dia, e jamais poderia fazer.

Antes que viesse o caos (será que antes mesmo?), já que cada um pode tomar como verdade o que bem entende, criaram a sociedade, as leis, a justiça. Simplesmente para organizar o que será considerado verdade para a coletividade, ainda que a coletividade possa estar enganada (o que não é incomum). Então, meu caro, cada um preocupe-se com suas próprias verdades, ou exerçam cidadania para discutir as verdades coletivas. Nunca queira interferir na verdade alheia.

A voz do povo é a voz de Deus

Dia desses ‘ouvi’ uma crítica de um texto que continha um jargão popular. Imediatamente me lembrei de um dos últimos livros que li, no qual o autor se deu o direito, em alguns momentos, de usar esse tipo de expressão, ainda que citasse o fato de que o professor de literatura dele provavelmente o mataria por isso. Às vezes o provérbio tem um poder de síntese do assunto muito maior que o autor (ou, principalmente, o crítico) poderia expressar em outras palavras, mas ainda assim, esse é tencionado a refutar o uso do dito por conta do que sempre aprendeu.

Esse é o problema de seguir a risca a cartilha acadêmica: ignorar o que cabe melhor à própria realidade em prol dos paradigmas pré-estabelecidos. Ignorar, por exemplo, a sapiência popular. Quanto mal não seria evitado se todos lembrassem que “em boca fechada não entra mosquito”? E mesmo que digam que “quem cala consente”, vale lembrar que “antes calar do que mal falar”. Quantas pessoas ignoram o quanto “falar é fácil, fazer é que é difícil”? Quem se lembra, diariamente, que “o sol nasceu pra todos” e “pra cada cabeça uma sentença”?

O Povo, como um todo, faz muita imbecilidade, mas a sabedoria popular ainda é maior do que a de muita gente. Especialmente, dos que ignoram isso.

Às vezes o sentido da palavra “humildade” se perde.

“A bom entendedor, meia palavra basta”.

Referências:
1 1984, de George Orwell
2 Dicionário Aurélio
3 O Guia do Mochilerio das Galáxias, de Douglas Adams

Hoje a professora perguntou o que eu vou ser quando eu crescer. Eu disse que vou ser grande né, mas ela não gostou. Aí ela me perguntou com que eu vou trabalhar, né. E eu quero ser igual meu pai. Técnico em eletrônica.

Meu pai trabalha com computador. A gente foi no trabalho dele né. É legal. É grandão lá. Tem um monte de computador. Ele colocou o jogo da forca pra mim. Eu vi também a banca onde ele compra minhas figurinhas. Só que agora não to colecionando nenhum álbum né, aí ele comprou uma revista “Placar” pra mim. Eu tinha o álbum da Copa União, mas acabou já. Ele trazia um monte de figurinhas. Aí eu ficava esperando ele chegar do trabalho e corria pra abrir a pasta dele. Ele ficava bravo que eu abria a pasta dele, daí ele começou a esconder as figurinhas, e eu tinha que achar. Outro dia ele colocou figurinha até no armário da cozinha.

Eu fico o dia inteiro esperando a hora que meu pai chega do trabalho. De vez em quando ele não traz figurinhas, né. Mas eu e meu irmão, a gente fica pronto pra ir com ele correr no Taquaral. Mas eu não corro que nem meu pai né. A gente corre só um pouquinho e fica nos brinquedos, e ele dá a volta na lagoa inteira. Às vezes até duas.

Mas no natal meu pai vai estar de férias. Mas é bom, porque o trabalho dele dá presente pras crianças no natal. Eu já sei o que vou querer esse ano. Um “Pense Bem”. Aí vou ter um computador, igual meu pai. Claro que é de brinquedo né.

No natal também tem uma festa lá. Não é lá, onde ele trabalha, né. É em outro lugar bem grande e bonito. Ano passado teve a Angélica, eu não gostei. Eu acho muito chata aquela música “vou de táxi, cê sabe…”. Esse ano é Dominó. Eu não conheço muito. Minha irmã tem um disco, mas tá riscado. O ano mais legal de todos foi quando foi Balão Mágico. Eu vi a Simony e o Jairzinho num balãozão! O segundo mais legal foi quando teve Trem da Alegria. Eu gosto do Trem, tenho todos os discos. Meu preferido é o Juninho Bill. Já sei! Vou votar no Juninho Bill pra presidente do Brasil! Mas só quando eu crescer né, porque minha mãe disse que a gente só vota com mais de 16 anos, e eu só tenho 8…

(em homenagem aos 10 anos da morte de Renato Russo)

– 225! – foi o que gritou João Roberto após encostar seu Opala azul-metálico, enquanto saía dele pela janela.
– Ganhou?! – perguntou uma tímida voz feminina.
– Mas é claro! – respondeu com desdém. E quem conhecia o Johnny sabia que não era arrogância. Aliás, a soberba não combinava nada com ele. Acontece que o garoto, com seus poucos dezesseis anos, sempre vencia os pegas da alta madrugada em Brasília. E, na verdade, pouco importava os adversários. Preocupava-se apenas em superar seus próprios limites.
– Cadê a Malú? – Johnny ainda se esquivava de alguns cumprimentos quando notou a ausência de sua namorada.
– Disse que ia comprar cigarros… – comentou a mesma voz feminina, agora em tom visivelmente desapontado.

Não era novidade pra ninguém o sucesso de Johnny com as garotas. Além de muito jovem (o mais novo da turma), tinha boa aparência e muito dinheiro, com o qual pôde comprar e equipar o carro mais cobiçado pela galera da Asa Sul. Como se não fosse o bastante para atrair toda a atenção e respeito, ele ainda era fera no violão e sabia decoradas todas as músicas que sua turma gostava. Foi cantando I Wanna Be Your Man que ele conquistou Maria Lúcia. E foi cantando I’ve Got a Felling que invadiu também o coração de Regina, a moça da voz embargada, embora disso ele não fizesse a menor idéia.

E era assim. Toda reunião dos amigos na Colina fatalmente acabava em uma roda em volta de Johnny. Isso antes dos pegas começarem, porque quando começavam, o menino sereno e cativante dos violões dava lugar a um compenetrado, veloz e indelével competidor.

– Galera, tenho que ir – disse Johnny, entrando apressado em seu possante, após procurar, em vão, por Malú. Foi só a jovem Regina quem percebeu uma inquietude anormal em Johnny, mas ao comentar com os amigos, foi rapidamente reprovada.
– Que isso, Rê! O cara é super tranqüilo. É só ele ver que essa Malú não presta que ele fica bem logo.

Johnny ficou sumido por alguns dias, mas foi festejado quando reapareceu, na Sexta. No entanto, ele foi breve e apenas marcou o próximo pega.
– Domingo.
– E onde vai ser dessa vez? Lago Norte? – Perguntou alguém.
– Não.
– UnB?
– Não! Nada disso. Esperem-me no Colorado – e havia um sorriso estranho no rosto de Johnny ao dizer isso. Saiu cantando os pneus, fato que todos estranharam, já que ele sempre achou isso uma “babaquice desnecessária de quem quer aparecer”. Um dos segredos de Johnny era preservar ao máximo seu carro para os pegas.

No Domingo, a agitação era enorme. Muitos diziam que aquele seria “o maior pega da história do Planalto Central”. Todos aguardavam Johnny, que chegou, esbaforido, anunciando:
– Eu vou pra Curva do Diabo, em Sobradinho. E vocês?
Ainda que surpresos, todos aceitaram o desafio. Todos menos Regina. Algum pressentimento ruim estava lhe sufocando, e preferiu voltar para sua inócua festa familiar. Mas ao chegar à escola, no dia seguinte, pôde notar um ar de comoção em alguns rostos furtivos, conversas atravessadas aqui e ali… “Aquela curva é fatal”, alguém disse. “Um caminhão…”, ouviu de outra voz. Seu medo crescia quadraticamente, e preferiu correr para a sala de aula, onde rezou em silêncio para que tudo não passasse de um mal entendido. Sua fuga, porém, terminou quando o diretor entrou e anunciou o que a maioria já sabia:
– O aluno João Roberto não está mais entre nós. Sofreu um acidente na chamada “Estrada da Morte”, provavelmente disputando um racha de carros… Dezesseis anos! Ele só tinha Dezesseis! Que isso sirva de aviso pra vocês.

Ao final da aula, no corredor da escola, Regina viu Malú chorando copiosamente com uma foto rasgada em suas mãos.
– Disseram que essa metade de foto voou pela janela do Opala pouco antes da queda e da explosão – alguém sussurrou em seu ouvido. Regina conhecia muito bem a foto. Já chorara por ela. Johnny gostava de postá-la no painel do carro, às vezes até no braço do violão. Era um retrato tirado do alto da Torre de TV, onde Johnny e Malú apareciam abraçados, com o pôr-do-sol ao fundo. No pedaço de foto que Malú segurava, no entanto, só aparecia ela.

Juntando-se aos amigos, no portão de saída, Regina pôs-se a entoar baixinho, acompanhada pelos demais, uma música do maior ídolo de Johnny, que dizia mais ou menos assim:

“É tão estranho
Os bons morrem jovens
Assim parece ser
Quando me lembro de você
Que acabou indo embora
Cedo demais” *

*Trecho de ‘Love in The Afternoon’, música da Legião Urbana, composta por Renato Russo

Contribuições: Ana Néca e O Velho