Sobre Ândi Garcia

Profissional de computação, amante das letras, pseudo-violonista do lar, uspiano, corinthiano, maloqueiro e sofredor. Graças a Deus.

Era apenas o cursor, mas sua sensação era de suas próprias mãos correndo aquela pele delicada. Dedilhou, com o mouse, infelizmente, cada centímetro do colo da mulher. E que mulher! Ele gostava de dizer que seu trabalho era simplesmente tornar a foto o retrato mais fiel possível dela, pois nela não havia defeitos. Tudo era belo. Tudo era perfeito. Tudo parecia estar no seu devido lugar.

Obcecou sua idéia em furtivos pensamentos obscenos. Embora se sentisse abençoado pelo grato trabalho a fazer, sentia necessidade de mais. Queria tocá-la, mais que retocá-la. Queria poder despi-la com o tatear do carimbo, ou, de preferência, com suas próprias mãos. Queria fazer sentir o que sentia em si.

Tirou tudo que não interessava. Contornou-a sem pressa. Com um simples clique, tudo o que não era ela sumia. Ficava só o que havia de mais belo, de mais forte. Ficava só ela, na imagem e em seus pensamentos. Ficava só, ele, a pensar na utopia. Ficava… E só ele sabe como.

As piores discussões são aquelas em que não temos razão. E foi numa dessas que me meti nessa noite.

Confesso que eu já estava um pouco nervoso, mas aquilo me irritou profundamente. Foi muito desaforo! Me chamar de gordo assim, na minha cara!? Que atrevimento!

O desentendimento começou ao cair da tarde, início da noite, e desenrolou-se por longos 10 minutos. Tentei argumentar algo. Disse, por exemplo, que a culpa era do que havia entre nós.. mas não teve jeito. Sem razão, tive que me render e admitir minha culpa… a contra-gosto, claro.

Ah! Mas claro que ainda posso xingar, e muito!

Maldito Espelho!

De todas as coisas que nos acontecem, de todas as turbulências que passamos, de todas as perdas, as crises, os cansaços… De todas as injúrias, de todas as ofensas, de toda injustiça, de todo o mal, nada me afeta mais que o respeito das pessoas que amo. Nada. Por isso, sou capaz de não derramar uma lágrima por um acidente, ou uma perda material grande. Mas, talvez por egoísmo ou orgulho, um sermão, uma reclamação, uma crítica… Não, acho que não estou preparado para isso. Não suporto decepcionar, de alguma forma, ou deixar alguma má impressão a alguém especial.

A poesia abaixo foi publicada por mim originalmente no Rapsódia, há um ano, e trata mais ou menos sobre isso.

Não chore mais, meu bem

Você pode me xingar,
se quiser.
Pode me arranhar até,
se puder,
e deixar-me em sangue
a manchar
toda a pureza do teu pesar.

Mas não,
não derrame uma lágrima por mim,
não derrame, não
por minha culpa.

Posso não te agradar,
não ligo.
Se não me quiser,
não choro.
Mas não me diga, não,
não me deixe
te decepcionar.
Não me deixe te ferir.
Não derrame uma lágrima,
não, por minha culpa,
não derrame uma lágrima por mim.

Não chore mais, vem
pra mim, vem
Não sofra, não pense
Não chore mais meu bem

Levando em consideração a teoria dos conjuntos e os gostos musicais das pessoas, podemos formular o seguinte teorema:

Teorema (obtido por análise empírica):

– Existe um conjunto, que denominaremos conjunto A, no qual estão incluídas todas as músicas que uma pessoa gosta de ouvir.
– Existe um outro conjunto B ao qual pertencem as músicas que uma pessoa eventualmente gosta de tocar e/ou cantar.
– Existe ainda um terceiro conjunto, C, no qual estão aquelas músicas que a pessoa “sabe” tocar e/ou cantar bem, ou razoavelmente bem (e não precisamos ser assim tão rígidos na definição de “tocar ou cantar bem”, a fim de que esse conjunto não se torne nulo para a grande maioria, como para mim, por exemplo).

Proposição 1: A maioria das músicas fáceis de tocar são extremamente simples, medíocres, e não raro, pertencentes aos subconjuntos de músicas sertanejas, cantigas populares ou coisas afins, que geralmente não estão contidos no conjunto A, muito menos no conjunto B, embora possam estar facilmente presentes no conjunto C (desde que haja disposição e estômago para isso).

Proposição 2: Boa parte das músicas pertencentes ao conjunto B são bem elaboradas, e sua execução exige mais técnica, e não raro, muito talento, o que restringe bastante a intersecção entre B e C.

Corolário 1: Há uma pequena intersecção, por vezes muito muito pequena, entre os conjuntos A, B e C.

Proposição 3: Considerando um quarto conjunto D, onde estão presente as músicas de gosto popular, e sendo A, B e C os conjuntos acima descritos, e relacionados à minha pessoa, temos que a intersecção de A com D é mínima, assim como a de B com D ou a de C com D.

Corolário 2: O conjunto interseção dos conjuntos A, B, C e D é NULO.

O Tanque das Ninféias

Monet era míope. Talvez a afirmação passe desapercebida por alguns, e talvez para outros cause um estrondo de admiração. Um artista do quilate do Monet, míope? Não sei… Talvez seja crueldade ou excesso de praticidade de minha parte, mas o fato me soa como: “Ah! então está explicado!”.

Seja arte genial ou mero fruto da deficiência do artista, o impressionismo faz parte de uma gama cada vez mais repletas de coisas que mexem com o imaginário das pessoas. Estimulam sensações que levam indivíduos a buscar significados subliminares (e não vou entrar no mérito da questão, se há ou não). O que me assusta não são possíveis viagens interpretativas em produções artísticas, afinal, o que é um quadro ou uma poesia se não a própria interpretação de quem vê? Assustador é o que gosto de chamar de “complexo winstoniano do Estado onipresente e das forças onipotentes”. É admirável a quantidade de pessoas e as diversas formas como elas crêem em teorias conspiratórias, tramas supra-hollywoodianas e coisas afins.

Não culpo ninguém que tenha esses reflexos. É um ciclo inevitável. Nascemos, vivemos um mundo de fantasia enquanto crianças, até que amadurecemos e aprendemos, duramente, que “nada era como eu imaginava, nem as pessoas que eu tanto amava”1. Lembro-me, quando no cursinho pré-vestibular, da quantidade de realidades com as quais me deparei. E me assustei. Realmente, a maneira como tanta coisa é facilmente manipulada, adulterada e influenciada (culpa também da má-formação das pessoas). Ficamos impressionados, cismados, com medo de dar à mão, de falar com qualquer pessoa que seja, e até mesmo de sorrir! Sim, porque sabemos, ou imaginamos, que qualquer ato, qualquer gesto, vem carregado de malícia, de segundas intenções.

Não sei se por inocência ou comodismo, vejo esse complexo como um exagero exacerbado da capacidade do ser humano em semear o mal. Há sim pessoas maldosas e oportunistas, mas certamente há mais fantasia que isso. É, talvez seja inocência… Mas é tão mais sutil e menos paranóico ver a vida assim, com mais simplicidade. “Quanto mais simplicidade, melhor o nascer do dia”2. Na verdade, bom mesmo é aquela sutileza infantil. Ver a vida como uma fantasia, ou ao menos, sem ambições, malícias… Não há nada que pague, por exemplo, a sensação que sinto quando recebo um sorriso infantil. É… Inexplicável! Talvez porque eu saiba que aquele sorriso é gratuito. Não quer nada em troca. É apenas… Apenas um sorriso infantil.

A idéia do sistema de cotas, como proposta inicialmente, visa equacionar socialmente, culturalmente e/ou financeiramente diferentes ‘raças’ (indo na contra-mão da evolução humana-histórica que cada vez menos diferenciaria pessoas pela cor da pele). “O estabelecimento de cotas pretende diversificar a composição racial da elite brasileira” (Folha de São Paulo).

Com o objetivo de que o corpo discente das universidades públicas seja um retrato da população local, reservarão vagas para “tipos definidos” de acordo com sua proporção na população da região. Ou seja, se 40% da população é negra, um número proporcional de vagas deve ser reservada para negros no vestibular. Para isto, em Brasília, já foi criado um comitê de classificação de pureza racial (e qualquer semelhança com o Apartheid não é mera coincidência).

Agora, a minha proposta: Se a intenção é diminuir a discriminação e incluir socialmente, não precisamos parar na questão racial. Tomando como base o mesmo Censo do IBGE, vamos além!

Que seja reservada uma cota de 73% das vagas exclusivamente para alunos católicos, ficando 15% para os evangélicos e o restante para as demais religiões.

Que 7% das vagas sejam reservadas para pessoas analfabetas com mais de 20 anos (Ué, por que não? Ninguém está interessado se vão conseguir acompanhar os estudos mesmo…).

Que haja 81% de estudantes da área urbana, e 19% da área rural.

Em cada faculdade, deverá haver oferta igualitária de vagas para homens e mulheres (Bom! Isso resolveria o problema da USP São Carlos, com maioria masculina esmagadora).

Devem ser destinadas 14% das vagas para portadores de deficiências.

E mais, vamos acabar com outros preconceitos, reservando novas cotas e gerando mais alguns comitês.

Já perceberam que a grande maioria dos universitários são pessoas bonitas? Que discriminação! Vamos reservar uma cota exclusiva para alunos feios, criando um Comitê de Beleza (ou de Feiura).

Reservemos um percentual proporcional também à população obesa. Afinal, os obesos também sempre sofreram preconceitos. Então vamos criar o Comitê de Controle de Obesidade – com mais de 100Kg, você pode reivindicar sua vaga.

Alguns comitês vão ter cotas reversas. Assim, os descendentes de orientais que costumam povoar em grande número as universidades, estariam com suas vagas restritas à sua proporção na população.

Podemos criar também um Comitê de Análise Psiquiátrica, para que os loucos também tenham seus espaços.

Enfim, podemos criar uma infinidade de cotas, para garantir que todos tenham sua representatividade. Assim, podemos ter percentual de canhotos , de hemofílicos aidéticos, de daltônicos, etc.

Certamente, o próximo tipo a ter seu percentual garantido (e por isso nem é preciso brigar) são os homossexuais.