23 de janeiro daquele ano
Tarde quente da quarta-feira
Na praia, um sorvete de goiaba
Areia entre os dedos
E vento nos cabelos
O azul dos olhos dele
Disse-me em silêncio
Que o mar nunca foi
Ou sequer um dia será
Maior do que o amor
Que ele me tem no peito

Com poesia nos olhos
Eu te via descer a rua
E o vento brincava em teus cabelos
Onde meus dedos sonhavam passear

O sol ardia teu ombro nu
O esquerdo
E teu andar lento
Era moreno e sereno

Na tua saia as curvas da imaginação
Eram vontade
Ou muito mais saudade

E na esquina tu te perdias
E meu olho fechava
Como quando acaba a poesia

 

Uma menina moça
Com batom pinta a boca
Belisca a bochecha pra ficar rosa
E calça sapato alto pra ir à feira

Uma menina moça da sorriso de graça
A conversa é sempre alta
E a saia florida rodada

A menina moça sonha sempre
Com o príncipe que não chega
Parece que atrasa
Mas na verdade não existe

Foi de brincadeira que falei de amor

E o peso das promessas foi tão doce

Musicando de azul o que acreditei

Enchi você de delicadas flores

E contei os dias que passavam lentos

Saboreando teu sorriso largo

Tocando de leve teus sentimentos

Com vontade de um beijo sereno

Todos os dias, as obrigacoes
As decisoes, preocupacoes
O tempo correndo, correndo, correndo
E eu perco tempo pensando
Em tudo que deveria estar fazendo
E que nao faco porque me engano

Todos os dias, o cansaco
A preguica e o mormaco
Que seria nao fosse o frio
E as palidas coisas que adio
Como a neve congelando o chao
E clareando noites frias em vao

Todos os dias, a saudade
Cansada da vida, com maldade
Refazendo o tear da rotina
(Tao amolada guilhotina)
Empurrando com a barriga
Essa minha longa e fatigada vida

Me dê apenas um dia do seu calendário
Uma palavra que esteja no meio do seu diálogo
Um beijo qualquer dos seus lábios mundanos
E o suor do seu corpo cansado

Seu peito aquecido de desejo
Enche de vontade todo o meu quarto
Tenho uma avalanche de segredos
Que confesso enquanto lhe aguardo

Segure com força os meus cabelos
Escute os meus gritos abafados
Falando de amor incerto e passageiro
Como tudo no seu calendário

Se fosse apenas pela poesia
Penso que o silêncio se calaria
Para admirar o infinito
E a saudade na qual habito

Eu, que persigo tanto o momento
Sento
E já nao sei se agüento
Porque no final o tempo sempre ganha
E em meu corpo a vontade ainda é tamanha

Eu me projeto no universo
Como moléculas de suor
Para escrever em pobres versos
O que gira ao meu redor

Se prolongo o pensamento
A caneta solta centelhas
Escreve com tinta vermelha:
“Pode mandar que eu agüento”