Neste envelope só tem palavra cinza e muda
Dessa que a gente lê e o ouvido logo surda
Porque se o coração cansa e já não pulsa
A alma flutua e dança, quase sem esperança

E se quase sem esperança ela ainda dança
A alma sempre flutua e tudo ainda pulsa
E se tudo canta como palavra cinza-muda
Quando leio o ouvido não mais surda

Às três e vinte e sete sentei-me à janela para ver o tempo passar pelas ruas desertas.
Para vê-lo visitar essas janelas abertas onde entra sol e calor, por onde vaza um pouco de cada alma.
Sentei-me porque esses viajantes custam a passar e poderiam levar-me uma vida inteira de espera.
De espera.
De espera.
E enquanto aguardava, bebia um copo de suspiros. De minutos. De absurdos.
E eu passeei os olhos pelos postes sem nenhuma luz ser acesa.
Mas, de repente, apagaram o sol.
E no instante que desviei o pensamento e encarei o céu, era noite.
Tudo escuro.
E eu não vi passar nada.
Nem o tempo.

Tão cedo deixarei este lugar
E tão cedo meu espaço será só mais um
Um outro espaço
E nessas malas levo um pouco de lembranças
Tanta saudade empacotada
Deixo ainda não sei o quê
Mas bem que poderia ser um abraço
Poderia ser um beijo seguido de sorriso
Desses d’alma – sinceros
Mas pela vontade de ficar
Devo deixar um pedaço grande

Um grande pedaço de mim

PS.: Estou voltando para o Brasil e pros braços da saudade, como sempre. Deixo aqui o dono de meus lábios e de mais um bocado de mim.

No rádio uma musica tão linda que me faz chorar
Aí eu lembro de alguém que era
E lembro do medo que tinha de me apaixonar
Dessas coisas do coração, de querer muito
Lembro do medo que tinha de me apaixonar…

Aí lembro da dor da separação
E das promessas perdidas
Eu nunca esqueci

E no rádio aquela voz antiga machuca o meu peito
Chama a saudade pra aliviar
Mas a saudade aperta ainda mais o peito ardido

É tarde

O sol vai se calando e saindo da minha janela
Dando espaço pra loucura da memoria, a imaginação

Já larguei o livro
Já deitei de costas
Já encaro o mesmo teto de antes
Sempre o mesmo…
E quando já é noite, eu nem escuto mais o que diz o rádio
Ou a música
Ou o teto
Fecho os olhos e finjo dormir

Amanhã eu mudo de estação

Entre longos respiros d’alma, as lembranças ergueram minha noite em muros muito altos. Aterrando-me.

Um mergulho profundo afogando o passado com a velocidade do tempo presente. Inundando qualquer barco que não saiba quão grande as ondas são no alto mar, no lugar onde até os olhos se perdem imprensados pelo horizonte.

Ficam mãos tateando a saudade tão certa que sabem que hoje ela não passa de cinzas. Que guarda em seu pó o que não consigo desvencilhar do peito.

Chovem as lágrimas lavando um rosto que finge um sorriso frágil, uma coisa humana.

Se é imperfeição sofrer quem ama, que a beleza fique nas coisas escondidas.

Cansaram-se as palavras e guardaram para si as vozes da minha saudade. Porque o tempo torna-se inalcançável com o passar das horas e o tentar do corpo. E escorre o silêncio cobrindo meu chão com pétalas púrpuras.
Mudas.
Fica, no segundo mais longo, a vontade incontida.
Incontida de quê?
Incontida de você.

Das chuvas, sou a mais pesada
Das árvores, a mais alta
Das ruas, a mais larga
Das janelas, a mais clara

Das maçãs, quero a mais vermelha
De todo o fogo, a primeira centelha
Dos sorrisos, o mais sincero
Mas dos homens, nada espero

Dos silêncios, ouço o mais absoluto
Das dores, sinto a mais aguda,
Das tristezas, faço-me luto
Das saudades, tenho a mais profunda