‘Oi…’, eu dizia, e baixava a vista pras poças, toda vez que cruzava com um amigo da família ainda rouco por causa de uma gripe mal-curada. Fazia questão de ir à padaria quando o céu estava com um frio cinza. Pegava aquela velha sombrinha pálida que nunca tinha dono, e saía, com uma saia roxa enorme, que me obrigava a puxá-la para cima com a mão dos trocados toda vez que minha calcinha estampada ia aparecendo, e um casaco azul antigo, que eu usava todo inverno desde que tinha sete anos. Ia andando bem devagar, fingindo que desviava das pocinhas d’água do caminho, deixando meu pé e minha chinela esbarrarem e se molharem em algumas das menores. Era uma das minhas aventuras favoritas… Já tinha dez anos e estava muito grande. Poderia ir à esquina sozinha. E quando mamãe consentia, era tão bom fingir responsabilidade e enfrentar toda aquela chuva. Eu sempre ia comprar chocolates caseiros. Nem gostava muito. Na verdade, nem gostava, mas eles eram meu mágico motivo para ir lá fora num dia chuvoso e passar a noite toda lembrando dos pingos coloridos que caíam, batiam no chão e respingavam nas minhas pernas magrinhas. ‘Dois desse. Quanto dá?’, falava, quase monossilábica. Pagava e nem agradecia (se agradecia, nem lembro). Voltava pra casa só porque não podia ir mais além. Talvez tivesse medo. Talvez nunca pensasse se deveria. Nunca ia, voltava. Essa volta parecia ainda mais longa. Eu nunca queria chegar em casa. Eu nunca queria ficar sob um teto que não fosse o céu. Mas a esquina era perto, e, por mais que eu atrasasse o passo, aqueles cinco minutos se findavam ao cabo de treze. Guardava os chocolates num pote, na sala. Pouco importavam agora. Eu já colocava a sombrinha no terraço, pra secar quando a chuva passasse. Eu seria capaz de ficar lá, no terraço, brincando de não conseguir sair, só para tomar um pouco mais de chuva. E quando minha mãe me chamava, eu dizia às gotinhas: ‘pera aí!’ E ia correndo ver pra quê minha mãe queria que eu entrasse. Era sempre o ‘sai da chuva, menina!’ motivo. E minha careta falava pelo meu pensamento: ‘só mais um pouquinho…’. O céu já tinha um leque de cores escuras e era hora de tomar o leite quente e pão com manteiga. Eu também adorava isso. E, depois, quando não podia mais sair, eu ficava na janela, olhando o reflexo trêmulo das luzes, a água suja que corria pelas caneletas da rua, as pessoas que se espremiam na calçada com medo de serem molhadas quando passava um carro e os cachorros ensopados com carinha triste, coitados! E eu ouvia os sons da chuva e da noite, o barulho. Eu ouvia o silêncio quebrado pelas gotas apressadas e desejava colocar minha mãozinha numa brecha da janela, pra sentir quão frio estava chovendo. Eu me perdia na imaginação, nas poucas cores da noite e nos muitos sons do ‘céu desabando’, como dizia minha mãe. E depois era chuvisco, depois era só poça, depois era só lama, depois era só lembrança.

Vem cá.
Hoje eu quero lhe contar o que se passa no meu peito. E quero que você saiba como tudo é docemente imperfeito.
Essas feridas, você vê? Nunca sararam. E eu as guardo comigo desde o dia em que lhe vi partir.
Ou fugir.

É.
E me sufoca. Você não sabe como a saudade é afiada. Como ela corta todos os meus pensamentos. E você ainda não sabe, mas esse tempo eu só fiz passar.
Passar o tempo.
Lentamente.

Sente.
Meu coração já está fraco. Cansado.
Continua.
Continua apaixonado.
Então, cadê aquele nosso combinado? De sermos felizes lado a lado, de beijar a boca e morder o lábio?

Aqui.
Põe teus dedos entre meus cabelos, mesmo que seja só de brincadeira.
Eu gosto de você de qualquer maneira.
E se você quiser, pode seguir caminho.
Só queria que você soubesse que também gosto de você sozinho.

Porque eu não gosto de quando me maltratas e afastas teus olhos dos meus assim.
E já são os meus lábios que não beijam mais os teus ou outros quaisquer.
E sofrem os meus braços relembrando os afagos e o sabor que os envolvia.
E meu peito dói – Ah, como dói! – e reclama quando a saudade,
Ao invés de ti,
Derruba a porta, escancara todas as janelas e se instala em mim.

Um grande copo d’água antes d’eu falar desse tempo que dizem que nunca volta, porém pára.
Pára meus pensamentos e aumenta essa minha mania de sempre calcular a finitude do que passa.
Passa pelas prateleiras das palavras vazias de um quarto escuro e do meu mundo mudo.
Muda, então, minha vida e suas lamentações, minhas dúvidas e esperas porque eu cansei.
Cansei, cansei, cansei desses dias longos sem você e, sinto muito, mas saiba que acabou.
Acabou o meu copo d’água.

Cabe, no meu peito, uma saudade e uma vontade, um pensamento com malas e um desejo de longa viagem.
Cabe uma lembrança e um carinho.
Cabe o gosto de você e um espaço pra sua volta.
Sua volta maior.
Dá, em um canto pequeno, aquele abraço apertado.
Dá, bem lá dentro, um dos cheiros daquela noite ou daquele dia, dependendo do sol ou das estrelas.
E guardei tanto de você que por causa do tempo não me caibo mais.
Então, saí de lá e preciso de um lugar pra ficar no seu.
No seu peito.

Hoje não vou chorar
Vou chover
E vou escorrer pelo vidro da janela
Descer pelo telhado batendo em lata
Escurecer o céu como quem o apaga
E não vai embora

Vou me desfazer em pingos pequenos
Por entre lábios
Deslizando por tuas costas
Contornando pensamentos
Envolvendo os teus dedos
E provocando teus desejos

Vou chover de mansinho
Em silêncio
Como quem chega sem convite
No meio de um suspiro
Na fração de milésimo do escuro de quando o teu olho pisca
E o meu canta

Vou chover de perto
Sobre teu cabelo
Dentro de teu quarto
Te encharcando pelo avesso
Fazendo de minhas mãos o começo
E do teu peito meu berço

Hoje não vou chorar
Vou chover
E me desabar em tempestade