AnnA

O Piano

Se puder, ouça essa música antes ou durante a leitura. http://www.goear.com/listen.php?v=33f53d3

Doce solidão, ela tem mãos preciosas
que iluminam as composições dedilhadas
Receio que o pianista toca como escrevemos
Fazendo com que luzes de sua nova canção
Misturem-se à escuridão da noite solitária
Fabricando muitos sonhos de amor e paz
o pianista trabalha sem dormir ao tentar
Solucionar todos os problemas do mundo
Lamenta-se com as mãos mais que calejadas
Seguindo seu destino, ele consegue criar
Silenciosamente mais uma canção frustrada

*Como se o destino de um grande pianista fosse conseguir a paz

(Quarta, 17 de Outubro de 2007)

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Amarelinha

Terra
Um nascimento.
Dois brinquedos no Natal. Três meses de férias.
Quatro recuperações.
Cinco anos na faculdade. Seis namorados fixos.
Sete taças de vinho.
Oito viagens pelo mundo. Nove netos nascidos.
Céu

(Terça, 24 de Outubro de 2006)

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Aberração

Dentre as genealogias sanguinárias
acordei de um sonho infernal
proferindo palavras arbitrárias
às moscas de um lugar sepulcral

Talvez por mero defeito hereditário
sente o odor pungente dos poros suados
o sangue escapando pelos órgãos cortados
Mostrando as entranhas de um ser honorário

Deixa em carne viva esta aberração
dá-lhe um punhal para acabar em segundos
com esse corpo de mórbida feição

Só. Para sucumbir a Platão
e reestruturar seus átomos imundos
aguardando ansiosamente a putrefação

(Terça, 14 de Fevereiro de 2006)

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Esperança

A Esperança descansa no ventre-livre da Natureza.
Ela nasce, desenvolve-se e submerge-se em lágrimas e contradições
Vem à tona e viaja calmamente na sombra
A Esperança derrete, charfuda, enlouquece…
dissipa, sorri e adormece…
A Esperança só espera o momento de ser criança
Espera e espera…
E cresce, e perde a noção do tempo
E envelhece e perde a si mesmo
E acaba por murchar nas asas da descrença e da desilusão.
Mesmo assim ela renasce e surge esperençosa
Pois só a crença na Esperança nos faz sonhar
Sejamos sonhos em vida…

Aos mondanos, um feliz ano novo repleto de criatividade (“saindo pela tampa”)!

(Domingo, 01 de Janeiro de 2006)

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Enigma sem fim

Enigma Without End

Creio que toda solidão contida em uma figura
Submerge de lágrimas escaldantes de saudade
Amontoado de tintas unidas em telas multicoloridas
Saborosos objetos circundados de elementos naturais
Formas, aparências, posições, texturas, tempo
consistências, tamanhos, contornos, sentido
São representados por gênios malucos ou seria malucos geniais?
Queria sentir as palavras em minhas mãos
assim como sentem as tintas escorrendo entre os dedos
Creio que a pintura seja uma continuação da vida
Que se alaga de substâncias e detalhes milimétricos
que se derruba numa análise sem fim

Ao mestre-mor de todas as tintas
tão substancioso, profundo e surreal…

(Segunda, 10 de Outubro de 2005)

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Preciso…

Preciso abrir minhas asas e pular de um precipício
Preciso conhecer algo mais que o infinito
Preciso poder sentir algo bonito
Preciso libertar-me e soltar um grito
Preciso parar de olhar num só sentido
Preciso seguir aquilo que acredito
Preciso de uma água ou vinho envelhecido
Preciso de liberdade e de ser esquecido
Preciso de sonhos ou apenas um comprimido
Preciso de um som no meu ouvido
Preciso de um filme colorido
Preciso ver um luar lindo
Preciso sentir um amigo sorrindo
Preciso de um coração arrependido
Preciso de você ou algo parecido

(Segunda, 26 de Setembro de 2005)

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Mentes Inescrupulosas

Condeno-lhes, estes cérebros perdidos
Amontoado de neurônios corrompidos
Fervilhando em chamas transparentes
Gritando, estas mentes, em vozes eloqüentes

Desgraçados rostos reluzentes
Suados, dotados, carentes
Perseguem-me inultimente alucinados
Descubro-lhes vertiginosamente complicados

Mesmo envolto em trevas rastejantes
Durmo em sonhos ignorantes
Sentindo em minhas veias, líquidos lacrimejantes

Ajuda-me, estas loucuras comoventes
Livra-me dessas cabeças ardentes
Pois condenarei-lhe: inescrupulosas mentes

(Sábado, 17 de Setembro de 2005)

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As canções que eu cantei

(para Eder…)

Em todos os momentos eu cantarei
Para abençoar seus lindos olhos frágeis
que sedentos de vida, tornaram ágeis
por todas as vezes em que te amei

Serão para lembrar-me de você
Nas noites frias ao relento
Nas náuseas contidas num barco a mercê
Sofrendo num mar em fúrias aguardando seu acalento

E minha voz ecoa por entre nações
melodias que me lembram teu semblante
E eu ainda cantarei para você as minhas canções

Pois jamais esquecerei teu olhar lacrimejante
Despedindo-se de mim com o coração palpitante
cantando para mim: todas as canções que eu cantarei para você.

(Sábado, 03 de Setembro de 2005)

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O metapsiquismo da lua

Escondes um segredo?
Atribuí-te o metodismo concreto das sombras
Desrespeitando a métrica desconjunta das horas
Estudando o metabolismo ascendente das caras

A cósmica função meticulosa das taras
O movimento incessante do som das harpas
Os microssômicos curiosos a te olhar

Como um mimetismo avidamente a suar
Pois entrego-me também a tu ó luar
Prontissimamente a partir e a sonhar

Trazendo o corpo, a alma a levitar
Seguindo, o processo da metacrítica, o azar
Assistindo a todos os corpos a te cortejar

Amando-te mais ainda que amar
Pois entrego-me também a tu ó luar

(Sábado, 27 de Agosto de 2005)

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A morte lhe cai bem

“- Desculpem-me pelas faltas passadas! Várias coisas aconteceram desde então!”
Em meus ouvidos, devaneios e surpresas
Conspira contra mim a devassidão de seus olhos
Obscuros e coloridos
Irresistivelmente intrigantes

Minha descrição posterior ao acontecimento
surpreende meus inimigos
Solicito ajuda!
Satisfatoriamente incontestável

Em minhas mãos apenas resta o sangue
vermelho e intenso
O sangue de um ferimento
contido entre meus músculos
Sofrivelmente doído

Olho para cima das árvores
e encontro você perdido entre seus pensamentos
chorando e sussurando por algum gole de vinho
E o vermelho em minhas mãos escorregam em minha blusa
Facilmente adquirível

Olho profundamente em seus cabelos
Caídos sobre a relva clara em volta da árvore
Minhas mãos sangrentas escapam do galho
E eu caio num desalento de agonia
Divertidamente irônico

Você ri, e eu me levanto
você chora, e eu ignoro
Talvez por mero defeito de comunicação
eu te esqueço
e espero o mesmo de você
Gentilmente sarcástico

Você me pede ajuda, mas minhas mãos
escorregam entre as suas
e agora, você cai!
na relva, manchada de vermelho
Eu rio, você que chore
Eu desço, você morre

(Sábado, 20 de Agosto de 2005)

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AnnA

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