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Anatomicamente Falando

Não acreditem em tudo o que lhes dizem os livros; o caminho que descrevo agora não é um ciclo.

Sinto meu coração partido.
Partido em três pedaços grandes e bem definidos: o átrio direito, o ventrículo direito e todo o lado esquerdo.O átrio direito recebe o que há de pior em mim, até porque não saberia lidar com o que há de melhor. Recebe meu sangue pobre, meu amor pobre. Sem oxigênio. Sem valor. Sem nada. E, também sem muito esforço, manda meu amor pobre pro ventrículo direito. Ele não sabe, mas a valva não permite que esse meu amor volte.

O ventrículo direito recebe esse sangue sem saber por que, mas percebe logo que é um amor sem vida. Um amor sem amor. Mas o ventrículo entende e, num ato de piedade, se esforça pra tentar enriquecer esse amor, enviando-o aos pulmões. Ele sempre sabe do que preciso.

E, então, tenho agora um sangue rico; um amor cheio de vida.

E tu és o lado esquerdo deste meu coração partido. És quem recebe o melhor de mim, o meu melhor sangue, o meu melhor amor. Acolhes meu sangue com carinho em teu átrio e, cuidadosamente, me lança ao teu ventrículo. Num abraço forte e confiante, teu ventrículo faz com que esse amor bom se espalhe por todo o meu corpo.

E renova-me. E faz-me bem.
Renovas-me. Fazes-me bem.

Fizeste com que eu me amasse mais.
E por isso, mas não só por isso, amo-te.
Sempre. E pra sempre.

 

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Ausência

 

E ontem não fez sol.
Dia monocromático, em preto, já que ausentes a luz dos teus olhos e as cores do teu sorriso.E ontem não fez lua.
Noite gélida e deserta, já que ausentes o calor do teu abraço e a tua doce companhia.

Mas ontem fez chuva.
Uma chuvinha miúda, triste e constante, como se a natureza também chorasse a tua ausência.
Lá fora, chuva.
No meu rosto, tempestade.

O último feixe de luz se apagou por volta das 3h da manhã. O último suspiro. O último batimento.
Desde então, a sombria escuridão da madrugada vaga ao meu lado, rindo, talvez, da minha angústia, do meu desespero, da minha espera.

Mas eu ainda espero. Ainda espero pela aurora.
Volte logo.

 

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No Divã

Sim, doutor. Uma crise. Meu marido e eu não estamos nos nossos melhores dias. Mas ele pediu, doutor! Ele fala demais e acaba ouvindo o que não quer! Como vou explicar…? Bem, doutor, imagine o seguinte o diálogo:

- Desligou o gás?
- Desliguei.
- Tem certeza?

Pronto! Você estava certo de que tinha desligado o maldito botijão, já é um hábito! Mas basta alguém perguntar se você tem certeza pra te tirar do seu merecido descanso pra verificar se o gás foi REALMENTE desligado. E, geralmente, foi.

Me entende, doutor?

Pois depois de umas dessas viagens do meu marido, nós marcamos uma noite mais… errrr… romântica. Sabe como é, doutor, quase quinze anos de casamento. Às vezes é necessário um tempo só pra nós e blá blá blá. Creio que me entende. E depois dessa noite, enquanto estávamos abraçados ouvindo uns CDs de jazz dele, ele me diz:

- A gente realmente precisava de uma noite assim. Provavelmente a melhor destes quinze anos, não é, amor?
- É sim, amor.
- Mesmo?

E o silêncio reinou, doutor. O silêncio reinou.

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Who Wants to Live Forever?

Enquanto criança, há poucas coisas tão divertidas quanto fingir ser um super-herói. Entre capas e sabres de luz, visão de raios-X e poder de levitar, confesso que tive uma leve queda pela invisibilidade. Mas minha verdadeira paixão sempre foi a imortalidade.

Obviamente minha preferência resultava em coleguinhas emburrados, pois, como eu nunca morria, era a única que perdurava até o fim da brincadeira e sempre vencia. Como era bom ser imortal!

Com o passar dos anos a imortalidade não se apresentava tão atraente como antes.

Pais, amores, amigos e qualquer espécie de laço afetivo. Como ficariam? A dor da perda seria eterna e constante ou ao longo dos anos a frieza reinaria?

E a aparência física? E o brilho dos olhos? O rubor da face? A jovialidade seria conservada ou a saúde seria comprometida? A propósito, que coração seria capaz de bombear sangue por todo o sempre, sem sofrer danos?

Ossos sintéticos pra maior resistência. Órgãos artificiais pra maior durabilidade. Chip no lugar do cérebro, pra maior capacidade de armazenamento. Pele constituída de algum metal que oferecesse mais rigidez. Só uma vacina anti-oxidação de vez em quando, pra prevenir.

Não, eu não quero mais viver pra sempre. Devolve meu escudo. Vamos recomeçar a brincadeira.

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Da Fidelidade

Fidelidade s.f. 1. Qualidade de fiel. 2. Lealdade. 3. Exatidão; pontualidade.

Fiel adj. 1. Que cumpre o que prometeu. 2. Exato; pontual. 3. Verdadeiro; verídico. 4. Que não engana o cônjuge.

Fidelidade é uma coisa engraçada. Apesar do que diz o conceito aceito pelos dicionários, cada um tem sua definição de Fidelidade e, mais que isso, uma maneira de encarar a traição. Já dizia Rouchefoucauld: “Perdoa-se na medida em que se ama.” Talvez seja mero reflexo da minha inexperiência, como já disseram alguns, mas acredito que seja este o único crime sem perdão: a perfídia.

Traição abrange mais que o sexo eventual com a colega de trabalho ou que os beijos descompromissados com a beldade que desfilava pela orla marítima. Estes são apenas exemplos que descrevem o desejo da carne. Psicólogos de ambos os sexos passam a vida escrevendo livros que tentam debalde provar que a infidelidade masculina está nos genes dessas criaturas XY, genes que sobreviveram ao longo das gerações.

Mas igualmente maléfica, ou ainda mais, é a traição não-física. Mais comum entre as mulheres, geralmente vai além do desejo e acaba por tornar-se um amor platônico. Um amor puro, verdadeiro e incondicional, porém abstinente do toque.

Os mais céticos que me perdoem, mas, como Nikka Costa, “I believe in love”. E acredito num amor livre da necessidade de qualquer um dos tipos de traição. Um amor baseado na confiança e na cumplicidade. Um amor que dispense uma terceira pessoa para sentir-se completo. Mas antes que venham os tomates (ou os confetes, nunca se sabe), tenho consciência de que essas relações só estão presentes nos já manjados romances-água-com-açúcar ou nos filmes da Disney. Fora das telas, a palavra de ordem é “malícia”.

Os utópicos hão de concordar comigo: há poucas coisas mais deliciosas que conhecer, devagarinho, a pessoa que traz “luz à nossa vida e fogo à nossa carne”. O cheirinho gostoso do cabelo dela ou a velha mania que ele tem de dormir com meias. Ela se esquecer de pegar a toalha e ele sempre deixar uma mensagem carinhosa no espelho. São essas peculiaridades que fazem com que ambos se sintam completos e se tornem inesquecíveis um ao outro.

E quando alguém lhe perguntar o que você viu de tão especial, é desafortunado tentar explicar; ninguém, além dos dois, será capaz de compreender. Eis cumplicidade. Eis a verdadeira fidelidade.

“Aquele que conheceu apenas a sua mulher e a amou sabe mais de mulheres do que aquele que conheceu mil.” (Leon Tolstói)

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Ícones da Perfeição

A simetria é algo tão fantástico que até o universo conspira a favor dela. A simetria é o ponto mais próximo que se pode chegar da tão almejada perfeição. Sim, o mais próximo. Fazendo bom uso do raciocínio lógico, pode-se constatar que perfeição é sinônimo de ideal. Ideal é antônimo de real. Logo, perfeição não existe na realidade. Não na nossa. Quem sabe na Matrix, mas isso é outra história.

Nós, meros mortais, não passamos de zigomorfos: possuidores de um único plano simétrico – mas com orgulho! A julgar por graus de simetria, a taça com certeza ficaria com o formato esférico. Além de ser actinomorfo (vários planos simétricos), toda e qualquer coisa ou criatura que esteja entre o céu e a terra é composta de micro estruturas esféricas: os famosos átomos.

Contrariando a teoria dos gregos Demócrito e Leucipo (infelizmente eu não fui a primeira), podemos citar ainda as divisões do “indivisível”: prótons, elétrons, nêutrons e neutrinos; todos, teoricamente, esféricos.

Apelando para níveis de macro, o resultado ainda surpreende: planetas, estrelas e astros em geral têm, a grosso modo, formato esférico. Sim, esféricos graças à pressão-não-sei-das-quantas, mas ainda assim a informação só contribui favoravelmente, uma vez que os astros adquirem tal forma para que o “mecanismo espacial” funcione de modo eficiente.

Dentro do Sistema Solar, as órbitas dos planetas são [aproximadamente] circulares. Mais precisamente elípticas, cada uma com suas excentricidades. Mas isso não vem ao caso.

Nove planetas (ou seriam dez?) esféricos executando órbitas [quase] circulares ao redor de uma estrela também esférica. Coincidência?

Coincidência ou não, carros, móveis, eletrônicos e o escambau têm ganhado um design cada vez mais arredondado que, além de agradar os olhos, dá um ar moderno e futurista.

É, no mínimo, uma boa hipótese que explica o porquê da preferência nacional (e internacional) por mulheres cheias de curvas e pela cerveja que desce redondo. E, principalmente, pelo nosso Mondo Redondo.

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Day

Sobre
Nascida em Goiás sob o signo de Escorpião. Apaixonada por filme, música, poesia e fotografia. Farmacêutica por profissão e por vocação. E escritora por atrevimento mesmo.
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