Rio de Janeiro, 19 de outubro de 2020.

Olá Letícia,

Finalmente chegou a data tão esperada para que pudesse abrir esta carta. Dez anos se passaram desde que a escrevi, projetando sonhos e idealizando planos. Espero que ao lê-la sinta-se realizada.

Dez anos, dez anos atrás, correspondiam a 20% de uma vida. Para sua surpresa hoje já corresponde a 10%. Por isso, não se decepcione se você ainda não tiver plantado uma árvore, gerado um filho ou escrito um livro. Você ainda tem alguns anos para fazê-lo (se assim o quiser).

Decidi não perguntar como anda sua carreira, se continua escrevendo ou se mantém seus conflitos entre produzir e realizar coisas. Sei que continua envolvida com as artes, mas isto não importa agora. Minha maior curiosidade, dez anos depois, é saber se entendeu por que está aqui, se consegue ser feliz todos os dias ao ver o sol nascer ou a chuva cair. Os anos passam e acreditamos que devemos fazer parte de uma rotina sem fim que envolve trabalho, estudos e família. Espero que depois de dez anos tenha descoberto que isto não é uma verdade. Seu futuro certamente já deve ter lhe mostrado isso. Espero.

Você pode ter feito muitas coisas ao longo destes dez anos. Mas o que realmente quero saber é o que fez de bom para as pessoas que a cercam, quais foram suas atitudes que mais lhe deram orgulho, o que você aprendeu ao longo de todo este tempo. Quando você escreveu esta carta, tinha 30 anos. Era casada, feliz, estava finalmente se realizando profissionalmente sem perder sua individualidade e cuidando de si mesma, ao seu tempo, sem pressa. Seu primeiro livro havia recém sido escrito e você o deixou de lado por alguns dias, com medo de que ele pudesse ser verdadeiramente publicado. Certamente publicou outros livros, não é mesmo? Por favor, não me diga que ele continua na gaveta.

Naquela época sua maior preocupação era para onde viajar no Ano Novo. Você já sabe para onde vai agora aos 40 anos? Conseguiu dar a volta ao mundo nos últimos anos? Conheceu pessoas, lugares, comidas, culturas? Ou mudou completamente seu jeito de ser e fica extremamente feliz apenas com o conforto de um ar condicionado?

Continua sorrindo todas as manhãs simplesmente porque pode acordar e ver a luz do sol ou sentir o cheiro de terra molhada pela chuva? Espero que o tempo não tenha sido capaz de mudar sua essência. Dez anos parece muito, mas não passa de um breve suspiro marcado por uma carta que enviou para si mesma.

Desejo profundamente que continue querendo apenas ser feliz e fazer com que outros, ao seu redor, também o sejam. Há dez anos, aos 30, você tinha o dom de alegrar os amigos com seu jeito de ser, com seus textos e com a maneira que levava sua vida. Espero que não tenha perdido isto aos 40. E se estiver verdadeiramente frustrada com o que se tornou agora que suas mãos refletem um pouco mais de idade, não se decepcione consigo mesma, pois é sempre tempo de recomeçar.

Pegue uma folha de papel e uma caneta – se é que elas ainda existem e não se transformaram em alguma outra coisa com uma maçãzinha prateada gravada – e escreva uma nova carta para si mesma. Desta vez a data será 19 de outubro de 2030 e ao abrí-la, você terá 50 anos e muitos outros pela frente. Você vai conseguir e mais uma vez, ficar surpresa ao abri-la.

Felicidade, lembre-se que é a única coisa que realmente importa. Nos vemos novamente em dez anos.

 

Minha “vó” faleceu em 1994. Eu tinha apenas 14 anos e ela 64. Foi cedo demais para quem sonhava conhecer a França. Cedo demais para que eu pudesse sentir sua falta. Quando completei vinte anos, decidi escrever sua história. Descobri traços de sua personalidade passados de mãe para filha. Traços passados de filha para neta. Comecei admirá-la como adulta. Lamentei não ter ficado mais tempo ao seu lado. Lamentei não tê-la visitado mais vezes. Não ouvi suas histórias pessoalmente. Não a abracei tanto quanto deveria. Já quase não lembro de sua fisionomia senão por retratos. Mas ela será eternamente a minha avó onde quer que esteja. E por isso jamais abandonou meus cadernos e escrita. Sua história de vida é tão linda quanto os romances que lia. E por isso precisei dez anos para concluí-la. [Apesar de não considerá-la terminada ainda.] Minha “vó” se tornou página, livro, narrativa e história. E se um dia ela quiser, agora posso levá-la através das palavras para passar uma tarde em um café de Paris.

Uma quer largar tudo e se tornar voluntária no Nepal. A outra quer poder esquiar no próximo feriado em algum lugar da América do Sul. Uma quer abrir mão de uma carreira de sucesso e ser uma pessoa normal. A outra quer enviar o curriculo para a UNICEF, UNESCO ou ONU e fazer algo de bom pelo mundo. Uma quer se mudar para outro país e aprender outra cultura. A outra quer comprar um apartamento e ter um escritório aconchegante dentro de casa. Uma quer escrever. Outra quer ser produtora. Uma que trabalha pouco, paga suas contas e curtir as pequenas coisas da vida. A outra quer trabalhar muito, gastar sempre que tiver vontade e realizar sonhos extravagantes. Uma quer trabalhar com turismo. A outra quer atuar com responsabilidade social. Uma quer fazer acrobacia aérea. A outra prefere assistir a um DVD em casa. Uma não pode entrar em uma livraria. A outra, não consegue dar conta de todos os livros que compra. Uma adora uma taça de vinho. A outra bebe fácil uma garrafa de champagne. Uma quer aprender italiano. A outra prefere parler français. Uma gosta de trabalhar demais. A outra não entende até hoje por que trabalha tanto. Uma se considera bem sucedida. A outra não liga de ser uma fracassada. Uma gosta de ficar entre amigos. A outra prefere manter relações solitárias. Uma gosta de banho bem quente. A outra prefere recitar mantras para Ganesha. Uma adora andar de metrô. A outra não suporta ter que sair de casa. Uma é normal e equilibrada. A outra tem crises e neurosos que a deixam louca. Uma sonha em conhecer a Espanha. A outra adoraria fazer um mochilão pela Ìndia. Uma não pode viver sem chocolate. A outra pensa em um dia parar de comer carne. Na maior parte das vezes as duas brigam o tempo inteiro. Em outras convivem em perfeita harmonia. E só mesmo quando as duas estão juntas… é que eu existo completamente. Sou uma e outra simultaneamente.

Existe algo que nos faz prosseguir. Mais forte do que todos os nãos, do que todas as cadeiras vazias, do que todas as páginas não lidas. Se me perguntarem por que insisto em fazer cultura, responderei que simplesmente não sei fazer outra coisa. Na verdade, nem tenho tanta certeza de que sei fazer isso a que chamam “cultura” direito. Mas se não o fizesse, nada mais faria. Sentido. Trabalhamos na maior parte das vezes de maneira solitária, colocando no papel algo que não se pode mensurar. Não sabemos quem está do outro lado da tela, escondido no escuro do cinema ou observando uma obra de arte em uma parede qualquer. Jamais ficamos sabendo de que forma nossa arte vai atingir o outro, quando ela verdadeiramente se aproxima dele.

Vez ou outra surgem as palmas, os elogios rasgados, os agradecimentos fortuitos. Nunca acreditamos. Não é por isso que fazemos cultura. Fazemos porque não há mais nada a fazer. Porque é só isso e mais nada que sabemos fazer. Esta é a nossa natureza, quer você vire a página ou não, quer você leia este texto até o fim ou não, quer bata palmas em pé ou sentado (ou simplesmente saia escondido no intervalo entre o primeiro e o segundo ato).

Somos movidos pela transformação. Se não em você, no leitor, no espectador, na platéia, pelo menos em nós. Mudamos a todo instante em favor de nossa arte. Somos artistas e quando finalmente assumimos isso para nós mesmos, não há mais nada a temer. Somos artistas. Artistas. Arte. Queremos transformar, mobilizar, mexer, instigar. Mas acima de tudo, queremos fazer. Porque se não o fizéssemos, o que seria de nós?

Somos artistas de nossas próprias vidas. Se não fazemos “cultura”, pelo menos criamos a nós mesmos… Infinitamente.

 

Tenho amigos guarda-chuva. Aqueles que não convivem comigo diariamente, mas que estão sempre por perto quando o tempo fecha. Basta o clima esfriar ou as nuvens começarem a se formar para que eu imediatamente me lembre deste amigo que nem sempre está por perto, mas que tem hora certa pra chegar.

Meus amigos guarda-chuva não se incomodam de ser esquecidos de vez em quando. É normal deixá-los de lado por um tempo pois não fazem parte do meu dia-a-dia. Eles sabem o quanto são necessários e de como preciso deles ao meu lado de vez em quando. São amigos de momento.

Amigos guarda-chuva são aqueles que protegem e resguardam. Aqueles os quais esquecemos e lembramos. Imprescindíveis e necessários. Protetores e zelosos. Pequenos ou exagerados. Monocromáticos e coloridos. Tenho amigos guarda-chuva de todos os tipos. Aqueles que no dia-a-dia até atrapalham, mas que em certos momentos fazem uma falta danada. Devíamos ter sempre um amigo guarda-chuva na bolsa para os dias em que o clima muda de repente. Para dias de trovões e chuva forte.

Somos amigos do tempo. Amigos que nem sempre se falam quando o sol está claro e o céu límpido e aberto. Mas amigos que sempre se encontram quando os primeiros pingos de chuva atingem o solo. Amigos guarda-chuva estão sempre preparados. Seja para garoa ou tempestade. Seja para vento forte ou chuva fina. Amigos guarda-chuva sabem que não são esquecidos de propósito, pois confiam em na necessidade desta amizade.

Amigos guarda-chuva aparecem de novo em nossas vidas quando a gente menos espera…

 

Sua vida mais parecia uma sopa de letras. Por mais que tentasse separar vogais e consoantes para formar frases completas na borda do prato, tudo o que conseguia era deixar a colher submergir em direção ao fundo do caldo como um grande submarino. Não sabia por onde começar, apesar de ter a completa certeza de que algo deveria ser feito.

Deixou o vapor atingir seu rosto e sentiu nos poros o calor que evaporava do centro do prato. Era como se cada um de seus sonhos fosse minúsculas gotículas de sopa tentando ansiosamente transformar-se em nuvens creme de cebola.

Queria furar cada uma destas nuvens de dentro de uma grande aeronave e fazer a chuva se formar em lágrimas salgadas. Queria estar abaixo delas quando os primeiros grandes pingos tocassem o solo e fizessem com que cada uma de suas peças de roupa se colassem para sempre junto ao seu corpo. Queria sentir os fios de cabelo unirem-se em pequenos bandos e cada bando tornar-se uma pequena goteira castanha em forma de espiral derramando sopa.

Ali estava ela, de volta, em frente ao prato. Bastou voltar para a realidade que aos poucos palavras foram se formando na borda do prato. E assim a sopa transformou-se em poesia circular. Sem início. Sem fim. Sugou com vigor todo o líquido que restava e deixou algumas poucas letras bagunçadas ao centro. Uma ou duas vogais. Quatro ou cinco consoantes. E nada mais. Apenas uma sopa de letras, como era sua vida.

A jovem tinha apenas duas compulsões na vida: livrarias e livros – mas só aqueles que são vendidos em livrarias, ela diria. Era incapaz de passar em frente a uma delas sem ter o ímpeto desejo de entrar. Dizia ir apenas dar uma olhadinha.

De tantas tentativas frustradas, entrava escondida com medo de alguém repreendê-la logo na porta. Sempre entrava. E quando era tarde demais para voltar atrás, sua segunda compulsão a arrebatava: os livros. Lombadas coloridas, variadas e espremidas lado a lado. Prateleiras que não tinham lugar certo para começar ou terminar. Um delicioso cheiro de página impressa que acaba de sair do forno e aguarda alguém com um apetite como o dela para o saborear.

Desistiu de se controlar. Até mesmo os livros começaram a aconselhá-la de fazer o contrário. E quando já não tinha mais forças para lutar contra livros e livrarias, viu um anúncio no jornal. Procura-se vendedoras. Foi assim, entre os livros que vendia, na livraria que a empregara, literalmente, onde encontrou a cura para a sua compulsão: a literatura.