Letícia Torgo

Rosas e espinhas

Rosa era uma moça jovem e simpática que tinha sua beleza qualificada dentro dos parâmetros admirados naturalmente pela sociedade masculina. Dividia seu tempo entre o trabalho – o qual se dedicava com total vigor e empenho – e vida pessoal de forma um tanto injusta, o que não a fazia deixar de ser bonita e bem apessoada em momento algum.

Rosa tinha pele boa e viscosa e mesmo sem ter que dispor muito tempo e produtos de beleza com este quesito, preocupava-se de forma exagerada com espinhas. Não era uma mulher espinhenta, com o perdão dos mais injustiçados, mas qualquer sinal de protuberância crescendo em sua face era uma justificativa para unir polegar e indicador em uma causa única e civil para eliminar de ver aquele malfeitor que desejava retirar seus dias de glória.

Assim era Rosa. Uma mulher viciada em espelhos capazes de desvendar os mistérios existentes abaixo de sua derme mais profunda. Rosa não era uma mulher “epidérmica”, nem um pouco superficial. Ela sempre queria mais. Em sua juventude relatou ter uma amiga que, por conselhos oferecidos pela mãe, possivelmente herdados em testamento pela avó, espremer espinhas fazia mal. Isto causou tamanha desavença entre as duas que a amizade se esgotou. Rosa, quando em companhia da amiga acompanhada de uma espinha de lua avermelhada, gorda e recheada de pus amarelo-me-tire-daqui, não era capaz de fitar os olhos na amiga, muito menos prestar atenção em seus diálogos imaturos. Rosa tinha uma atração pela espinha da amiga e não conseguia observar qualquer outra coisa ao seu redor.

Rosa amadureceu atrapalhando que suas espinhas tivessem o mesmo fim. O vício quase lhe custou a vida, os amigos, o emprego. Rosa era capaz de forçar a vista e mirar is buracos mais profundos do rosto nos lugares mais inusitados e incabidos, com a presença das pessoas menos preparadas e aconselháveis. Banheiros comunitários, elevadores, portas espelhadas e até sanitários químicos de praças públicas tiveram a honra de conhecer Rosa.

Há alguns dias soube do falecimento de Rosa. Amigos dermatologicamente testados dizem que depois de uma semana de orgia alimentar no Costão do Sauípe, presente recebido pelo seu bom desempenho no trabalho, Rosa teve uma reação alérgica a toda gordura ingerida que atingiu todo seu corpo. Não sendo capaz de fitar-se no espelho e visualizar a aversão a si própria, a moça cortou os pulsos deixando apenas um bilhete: “Até mesmo as Rosas mais belas têm espinhos”.

Posted in Conto | Tagged | Deixar um comentário

Café da manhã

O despertador toca. Ele encosta o pé esquerdo em seu pé direito. Para ela, isso quer dizer: “fica mais 10 minutos”. Ela fica. Quase sempre ela acorda primeiro. Antes de levantar, aperta a barriga dele. Sabe que ele está apertado. Toma um banho bem quente. Volta pra cama num passo apressado. Joga seu corpo sobre o dele. Ele reclama, realmente estava apertado. Ela sorri, se veste e pega a chave do carro. Trocam beijos de “bom dia”. Ele espia pela fresta da porta. Depois que ela vai embora, ele se levanta. Cada dia mais apaixonado.

Voltando em doses homeopáticas

Posted in Conto | Tagged | Deixar um comentário

A moça do 201

A cada ano acontecia mais cedo. Era uma espécie de “ritual da cidade” do qual se sentia parte integrante. Não era nostalgia o que sentia. A composição das luzes misturada com as gotas de chuva formava uma espécie de aquarela dourada em seu para brisas. Mudou de estação. Procurava uma melodia que pudesse preencher ainda mais aquele momento. Estava feliz. O caminho de volta pra casa sempre fora algo mecânico e desejava que aquela noite fosse diferente.

A cada ano acontecia mais cedo. Não só para a cidade como para ela também. Chegaria em casa inspirada. Abriria caixas, escolheria enfeites e, pela primeira vez, poderia compartilhar aquele momento mágico com alguém. Havia poucas pessoas na vizinhança que gostavam tanto do Natal quanto a moça do 206. Sua porta sempre fora a mais decorada e causava inveja na vizinhança que, atrasada, colocava seus enfeites timidamente no meio do mês.

A cada ano acontecia mais cedo. E a cada quilômetro percorrido mais luzes se acendiam como que para iluminar seu caminho de volta pra casa. Abriu um sorriso. Ficou séria, de repente. As luzes passaram a ofuscar sua mente. Desligou o rádio. Esfregou os olhos. Pensou ser apenas a chuva, mas a cidade realmente estava de um jeito diferente. Pisou levemente no acelerador. Tudo que queria era chegar logo em casa. “Afinal, ainda é novembro, dia de todos os santos.”

Deixou o carro na calçada e subiu correndo as escadas. Talvez não tenha nem passado a chave na porta. Deixou pastas e papéis pelo chão. Ao alcançar o segundo andar, se deparou exatamente com o que imaginava. A moça do 201 já havia colocado um enfeite na porta.

Posted in Conto | Tagged | Deixar um comentário

De-coração

E assim o amor começou a ocupar a casa… Teve início na cozinha, com prateleiras e geladeira por encher. Completamos com temperos que de tão sem importância passaram, de um dia pro outro, a ser essencial. Lavamos a louça fazendo juras de amor e prometemos deixar sempre tudo em pratos limpos.

Na sala, ignoramos o computador. Enchemos a prateleira de CDs e os misturamos de tal forma que nem mesmo o fim de um amor sem fim seria capaz de se regenerar. Trocamos as caixas, misturamos as faixas, embaralhamos os ritmos. Tudo isso seguindo os batimentos de dois corações que agora pareciam um só, em dia de ensaio de escola de samba. Na prateleira de cima prometemos dividir o que cada um conhecia. Eu lhe enchi de cenas de cinema e mentiras publicitárias e ele tentou me encher de direito e economia. Sufocamos na prateleira o que levaria anos para conhecer, mas que há alguns meses já sufocava nosso peito de alegria: os sonhos que o outro tinha.

Partimos pelo corredor. Cortinas coloridas formavam um arco-íris ao nosso redor. Finalmente cada um havia encontrado o pote de ouro que sempre sonhou. Nossa cama virou uma espécie de ninho de amor com mensagens em almofadas e fronhas da Imaginarium que apenas decoravam algo tão aconchegante como um cobertor… de orelha. Juntamos os trapos. Foram sacos e sacos de roupas que fariam parte dos momentos que ainda estavam por vir. Escolhemos gavetas, dividimos cabides. Promessas de amor dando forma através dos objetos mais simples que podíamos imaginar.

Terminamos no banheiro. Não havia mais o meu xampu ou o seu condicionador. Ligamos a água quente e deixamos o vapor entrar. Uma névoa branca aos poucos revelava no espelho o que cada um tanto demorou a enxergar: a metade de si mesmo. E foi assim, no banheiro, que terminamos de decorar nossa nova casa… Justamente naquele pequeno espaço onde iríamos colocar nossa primeira máquina de lavar.

Posted in Sem categoria | Tagged | Deixar um comentário

“Sim”

- Mas… Eles juraram ser felizes para sempre…
- Talvez tenham jurado para si mesmos sem jurar um para o outro.
- Não entendo.
- Eles deixaram o amor ir embora…
- E pra onde ele foi?
- Se perdeu pelo caminho… ou talvez ainda esteja escondido dentro deles.
- Como sabemos que estamos no caminho certo?
- Você não sabe agora?
- Sei, mas eles não souberam pelo menos uma vez?
- Acho que sim.
- Então, por que fazemos juras de amor?
- Porque acreditamos que pode dar certo.
- E como podemos ter certeza de que seremos felizes para sempre?
- Temos que tentar.
- E vamos jurar sem ter certeza?
- É assim que acontece.
- Continuo não entendendo por que deu errado…
(silêncio)
- Ninguém disse que deu errado…

Posted in Prosa & Verso | Tagged | Deixar um comentário

Polyana

Vez ou outra as prioridades mudam, os sonhos mudam, a caligrafia muda. Vez ou outra ela acorda com a ligeira impressão de que pode mudar o mundo ou pelo menos fazer uma amiga ou outra pensar um pouco mais na vida. Ela é daquelas pessoas que costumamos chamar de “atípica”. O mundo pode estar acabando e ela sorri dizendo que pra tudo há sempre uma esperança. Alguns acham que é louca, outros a chamam de Polyana. A bem da verdade é que é uma menina de sorte. Dizem que atrai coisas boas. Ela prefere atrair apenas boas amizades. Sua vida de fora parece ser pacata. Mas até hoje ninguém sabe por que vive cada momento como se nunca mais fosse se repetir…

Posted in Sem categoria | Deixar um comentário

Vida de (será?) casada

Sua vida se resumia aos 20 metros quadrados de seu pequeno apartamento. Sempre foram suficientes para aquele coração sufocado por seus próprios sentimentos. Mas não mais que de repente, uma pequena brecha se abriu. E foi o suficiente para que novas sensações se instalassem para sempre naquele peito juvenil. E assim, lá estava ele ocupando 20 metros quadrados de seu coração. A moça ficou tão feliz que resolveu lhe dar mais: a geladeira, o lado esquerdo da cama e o fogão. Juntos descobriram que 10 metros quadrados pra cada um são mais que suficiente. E assim, naquele pequeno apartamento eles foram felizes para sempre…

Posted in Sem categoria | Deixar um comentário

O word que me desculpe

Sempre fui uma defensora do Word. O lugar perfeito para o nascimento dos mais belos textos, das mais incríveis idéias. Nunca tive medo daquela página em branco. Na configuração padrão, sempre fonte Verdana. Espaçamento duplo para respirar com calma.

Mas os tempos mudaram e a tecnologia invadiu a minha alma. E não é para o Word que faço esta declaração. Preciso confessar, finalmente, que Corel e Photoshop entraram em meu coração.

São estranhos, confesso. Mesmo que você esteja trabalhando em milhares de layers, nunca tem certeza de que sabe profundamente o que está fazendo. Afinal, quem não se esconde atrás de camadas e camadas de si mesmo? Somos como os layers do photoshop. Alguns mais aparentes, outros mais escondidos. Alguns cheios de surpresa, outros que merecem ir direto para o lixo.

Mas não é só de camadas que somos feitos. Como qualquer ser humano ou programa do Bill Gates, temos defeitos. É nessas horas que tudo o que devemos fazer é ter um pouco de bom senso para dar um crop em nossas vidas. Tire tudo que é demais. Exclua o que te faz mal. Faça um crop de si mesmo e tenho certeza que vai se sentir melhor.

Do carimbo então nem se fala. É como se você pudesse repetir os melhores momentos da sua vida para sempre, quando quisesse. Só mesmo um carimbo pra fazer qualquer lembrança ruim se regenerar em nossa mente. Só mesmo uma ferramenta como esta para curar feridas, tapar buracos e criar histórias que nunca foram vividas.

E o power clip então? A ferramenta mais sexual do tarado. É como se ele dissesse “bota tudo lá dentro!”. E você vai botando, botando… quando vê, power clip de power clip já é fato! É como se sua vida fosse um grande quadrado e lá dentro você fosse jogando tudo de bom que encontra do outro lado. É como uma mala na volta de uma viagem ou como uma sacola no retorno do supermercado. Faça um teste e veja quantos elementos você já colocou em power clip na sua vida. Tenho certeza que um ou outro está tão agrupado que você nem lembra que existia.

Disso tudo só posso dizer que a vida é como uma barra de ferramentas. Cada um escolhe as que quer usar e vai finalizando seu arquivo sem nunca deixar de salvar. Às vezes ele fica pesado. Outras, de tão confuso acaba ficando travado. Mas quando você vê a arte final, sorri para a tela e dá seu trabalho como encerrado.

O word que me desculpe, mas até corel e photoshop merecem as honras de uma redatora que pelo menos por um dia deixou seu programa preferido de lado.

Posted in Sem categoria | Deixar um comentário

Meu jeito, teu jeito

E assim ele foi se acostumando a ter sempre uma pasta de dente diferente toda vez que mudava o mês. Permitiu que seus cabelos se acostumassem com shampoo e condicionador com cheiro de bebê. Aprendeu a aceitar alguém que bebe água na boca da garrafa que ele mesmo vai beber.

E assim ela se acostumou a dormir do outro lado da cama. Passou a aceitar o fato de que ia sempre acordar com o frio se não dormisse de pijama. Descobriu que finalmente alguém ia pegar no seu pé se não fizesse o eletrocardiograma.

Enquanto ele mostrava os melhores cantores de jazz, ela o ensinava a dançar forró dizendo que era um amador. Combinaram os dias da semana em que iam fazer sexo para em todos os outros fazerem amor. Ele a levou para comer arroz com brócolis e ela para tomar sorvete Itália de graça provando mais de um sabor. Ele a levou pra ver filme no Palácio e ela mostrou quanto tempo você fica no Cinemark esperando no corredor.

Cada um tinha um jeito. Cada um tinha uma mania. E mesmo sendo diferentes em muitas coisas, de repente encontraram alguma coisa que os unia. E isso foi o suficiente para perceberem que o que realmente queriam era amar simplesmente o jeito que cada um tinha.

Posted in Sem categoria | Deixar um comentário

Defina amor

Haverá um dia em que as mulheres serão entendidas como devem ser. E quando este dia chegar, o mundo inteiro vai conhecer a essência que envolve os mistérios de uma mulher. Palavras serão poemas. Gestos serão carícias. Cheiros serão perfumes. Ruas terão mais cores. Gostos novos sabores. O tempo passará mais devagar e cada minuto será visto com a plenitude com que Deus o criou. Não haverá pressa porque tudo terá seu tempo certo para acontecer. Assim como acontece com a mulher em gestação. Dias serão mais azuis e noites mais estreladas. Beijos terão mais calor e crianças serão mais amadas. Haverá um dia em que as mulheres serão entendidas como devem ser. Dia em que a música será melodia e até a morte representará a vida. Momentos serão apenas sonhos vividos em nosso dia-a-dia. E a história será apenas um retrato de uma época bonita. O vento será mais sutil. As palavras mais leves. Os segundos mais suaves. E tudo será mais perfeito. Assim como é a perfeição que Deus criou quando nos fez das costas de Adão.

Haverá um dia em que o homem será capaz de desvendar os segredos de uma mulher. E neste dia, certamente, ele vai se apaixonar pela mulher que conhecer

Posted in Sem categoria | Tagged | Deixar um comentário

Letícia Torgo

Site
www.leticiatorgo.com/
Redes Sociais