O tempo passa. Para uns, passa lento e suave. Para outros, rápido e intenso . Passa. E enquanto se vai, coisas acontecem. Pessoas vêm e vão. Planos se realizam ou não. Enquanto isso, o tempo passa.

O tempo é indiferente. Indiferente aos planos de ano novo, aos projetos de vida, às prestações do banco, a tudo que tem vencimento. Indiferente. O que importa é continuar, riscar um dia, dar uma volta com o ponteiro, jogar uma folhinha no lixo.

Assim é o tempo. Intenso, calmo, lento, suave, indiferente. Depende do tempo, depende dos planos, depende da data, depende da validade. O que importa é que ele passa, quer você queira, quer não.

Não deixe que ele passe em branco. Preencha seu tempo com o que lhe dá prazer. Escreva sua história no tempo em que ela deve acontecer. A tempo de escrever… Há tempo para escrever.

Sempre.

Há um ano, escrevi no Mondo pela última vez. Felizmente, o tempo me deu mais uma chance…

 

Me esforcei para não desistir de acordar esta manhã. Chovia. Clima típico de manhãs típicas para se desistir. Nem sei como cheguei até aqui. Não desisti de estudar, de aprender a dirigir, de escovar os dentes antes de dormir. Talvez, e só por isso, tenha chegado até aqui.

Por muitas vezes pensei em desistir. Não sei por que… Fui adiante. Talvez tenha chegado até aqui simplesmente para desistir mais à frente. Ter mais mérito nesta decisão, mais glória por tentar. Desistir pode ser um prêmio para um sábio. Sábia decisão: desistir. E ainda assim, algumas pessoas insistem em dizer que devo ter calma. Desisti de ter calma. Desisti de esperar um grande dia. De me esforçar por nada esperando por tão pouco.

Quando era pequena sonhava com uma casa grande e um cachorro caramelo. Sonhava com um trabalho dos sonhos e com a possibilidade de ser capaz de chegar em casa antes do pôr-do-sol. Talvez me contentasse em vê-lo pela janela do carro. Afinal, não imaginava que o trânsito pudesse me fazer desistir de chegar a algum lugar. Não cheguei. Ou melhor, cheguei, mas em meus sonhos o lugar onde cheguei nunca me faria desistir. Mas faz. Desisti de fazer um filho em um mundo tão violento. De plantar uma árvore em um solo tão poluído. Desisti de trabalhar por tão pouco quando o pouco é dinheiro. Desisti de entender uma sociedade que vive para juntar, que vive para gastar, que vive a reclamar do que não tem sem perceber o que realmente tem. Desisti de trabalhar por prazer, esperando um prazer que demora a chegar. Que prazer tem em trabalhar? Desisti de escrever um livro que ninguém nunca vai se interessar em ler. Desisti de publicar na internet e não ter ninguém comentar.

Desisti de insistir. Desisti de desistir. Simplesmente desisti. Só não consegui ainda desistir de sonhar…

E isso foi suficiente para decidir novamente tentar.

A bela adormecida despertou daquela noite como o hálito de quem dormiu uma eternidade. Seu sorriso amarelo deixava transparecer que havia sonhado com o doce beijo de um príncipe encantado. Abriu a janela do quarto permitindo que suas longas tranças embaraçadas dançassem ao vento da manhã, como se fosse a rapunzel. Escovou os dentes, colocou seu chapéuzinho vermelho e foi pela estrada afora, bem sozinha. No caminho, cruzou com uma velhinha enverrugada que comia com gosto uma maça avermelhada. Entrou em uma loja de doces e se encantou com uma casa feita de balas e chocolates. Lá, encontrou duas amigas gordinhas que não via há muitas eternidades. A primeira tinha o rosto tão branco quanto a neve e a segunda tinha espinhas e se chamava Maria. Juntas, as três decidiram passear e se divertiram naquela tarde no parque comendo Mc Donalds como se fossem três porquinhas. À noite combinaram de sair para um grande baile de aniversário que não foram convidadas. Depois de escolher os vestidos e apertar a cinta liga, se olharam no espelho e disseram não haver no mundo ninguém mais bela do que elas. Chegando ao palácio, Maria apresentou seu irmão João, para a bela adormecida que se apaixonou à primeira vista. Os dois dançaram a noite toda a som de uma banda cover dos sete anões. À meia-noite cantaram parabéns para a fada madrinha, comeram dois pedaços de bolo recheado e João a convidou para conhecer o país das maravilhas. Os dois foram para o motel e na euforia a bela acabou deixando pra trás um de seus sapatos de cristal. Depois de uma noite intensa de amor, João virou sapo e a bela virou abóbora. E assim eles foram felizes para sempre…

Rosa era uma moça jovem e simpática que tinha sua beleza qualificada dentro dos parâmetros admirados naturalmente pela sociedade masculina. Dividia seu tempo entre o trabalho – o qual se dedicava com total vigor e empenho – e vida pessoal de forma um tanto injusta, o que não a fazia deixar de ser bonita e bem apessoada em momento algum.

Rosa tinha pele boa e viscosa e mesmo sem ter que dispor muito tempo e produtos de beleza com este quesito, preocupava-se de forma exagerada com espinhas. Não era uma mulher espinhenta, com o perdão dos mais injustiçados, mas qualquer sinal de protuberância crescendo em sua face era uma justificativa para unir polegar e indicador em uma causa única e civil para eliminar de ver aquele malfeitor que desejava retirar seus dias de glória.

Assim era Rosa. Uma mulher viciada em espelhos capazes de desvendar os mistérios existentes abaixo de sua derme mais profunda. Rosa não era uma mulher “epidérmica”, nem um pouco superficial. Ela sempre queria mais. Em sua juventude relatou ter uma amiga que, por conselhos oferecidos pela mãe, possivelmente herdados em testamento pela avó, espremer espinhas fazia mal. Isto causou tamanha desavença entre as duas que a amizade se esgotou. Rosa, quando em companhia da amiga acompanhada de uma espinha de lua avermelhada, gorda e recheada de pus amarelo-me-tire-daqui, não era capaz de fitar os olhos na amiga, muito menos prestar atenção em seus diálogos imaturos. Rosa tinha uma atração pela espinha da amiga e não conseguia observar qualquer outra coisa ao seu redor.

Rosa amadureceu atrapalhando que suas espinhas tivessem o mesmo fim. O vício quase lhe custou a vida, os amigos, o emprego. Rosa era capaz de forçar a vista e mirar is buracos mais profundos do rosto nos lugares mais inusitados e incabidos, com a presença das pessoas menos preparadas e aconselháveis. Banheiros comunitários, elevadores, portas espelhadas e até sanitários químicos de praças públicas tiveram a honra de conhecer Rosa.

Há alguns dias soube do falecimento de Rosa. Amigos dermatologicamente testados dizem que depois de uma semana de orgia alimentar no Costão do Sauípe, presente recebido pelo seu bom desempenho no trabalho, Rosa teve uma reação alérgica a toda gordura ingerida que atingiu todo seu corpo. Não sendo capaz de fitar-se no espelho e visualizar a aversão a si própria, a moça cortou os pulsos deixando apenas um bilhete: “Até mesmo as Rosas mais belas têm espinhos”.

O despertador toca. Ele encosta o pé esquerdo em seu pé direito. Para ela, isso quer dizer: “fica mais 10 minutos”. Ela fica. Quase sempre ela acorda primeiro. Antes de levantar, aperta a barriga dele. Sabe que ele está apertado. Toma um banho bem quente. Volta pra cama num passo apressado. Joga seu corpo sobre o dele. Ele reclama, realmente estava apertado. Ela sorri, se veste e pega a chave do carro. Trocam beijos de “bom dia”. Ele espia pela fresta da porta. Depois que ela vai embora, ele se levanta. Cada dia mais apaixonado.

Voltando em doses homeopáticas

A cada ano acontecia mais cedo. Era uma espécie de “ritual da cidade” do qual se sentia parte integrante. Não era nostalgia o que sentia. A composição das luzes misturada com as gotas de chuva formava uma espécie de aquarela dourada em seu para brisas. Mudou de estação. Procurava uma melodia que pudesse preencher ainda mais aquele momento. Estava feliz. O caminho de volta pra casa sempre fora algo mecânico e desejava que aquela noite fosse diferente.

A cada ano acontecia mais cedo. Não só para a cidade como para ela também. Chegaria em casa inspirada. Abriria caixas, escolheria enfeites e, pela primeira vez, poderia compartilhar aquele momento mágico com alguém. Havia poucas pessoas na vizinhança que gostavam tanto do Natal quanto a moça do 206. Sua porta sempre fora a mais decorada e causava inveja na vizinhança que, atrasada, colocava seus enfeites timidamente no meio do mês.

A cada ano acontecia mais cedo. E a cada quilômetro percorrido mais luzes se acendiam como que para iluminar seu caminho de volta pra casa. Abriu um sorriso. Ficou séria, de repente. As luzes passaram a ofuscar sua mente. Desligou o rádio. Esfregou os olhos. Pensou ser apenas a chuva, mas a cidade realmente estava de um jeito diferente. Pisou levemente no acelerador. Tudo que queria era chegar logo em casa. “Afinal, ainda é novembro, dia de todos os santos.”

Deixou o carro na calçada e subiu correndo as escadas. Talvez não tenha nem passado a chave na porta. Deixou pastas e papéis pelo chão. Ao alcançar o segundo andar, se deparou exatamente com o que imaginava. A moça do 201 já havia colocado um enfeite na porta.

E assim o amor começou a ocupar a casa… Teve início na cozinha, com prateleiras e geladeira por encher. Completamos com temperos que de tão sem importância passaram, de um dia pro outro, a ser essencial. Lavamos a louça fazendo juras de amor e prometemos deixar sempre tudo em pratos limpos.

Na sala, ignoramos o computador. Enchemos a prateleira de CDs e os misturamos de tal forma que nem mesmo o fim de um amor sem fim seria capaz de se regenerar. Trocamos as caixas, misturamos as faixas, embaralhamos os ritmos. Tudo isso seguindo os batimentos de dois corações que agora pareciam um só, em dia de ensaio de escola de samba. Na prateleira de cima prometemos dividir o que cada um conhecia. Eu lhe enchi de cenas de cinema e mentiras publicitárias e ele tentou me encher de direito e economia. Sufocamos na prateleira o que levaria anos para conhecer, mas que há alguns meses já sufocava nosso peito de alegria: os sonhos que o outro tinha.

Partimos pelo corredor. Cortinas coloridas formavam um arco-íris ao nosso redor. Finalmente cada um havia encontrado o pote de ouro que sempre sonhou. Nossa cama virou uma espécie de ninho de amor com mensagens em almofadas e fronhas da Imaginarium que apenas decoravam algo tão aconchegante como um cobertor… de orelha. Juntamos os trapos. Foram sacos e sacos de roupas que fariam parte dos momentos que ainda estavam por vir. Escolhemos gavetas, dividimos cabides. Promessas de amor dando forma através dos objetos mais simples que podíamos imaginar.

Terminamos no banheiro. Não havia mais o meu xampu ou o seu condicionador. Ligamos a água quente e deixamos o vapor entrar. Uma névoa branca aos poucos revelava no espelho o que cada um tanto demorou a enxergar: a metade de si mesmo. E foi assim, no banheiro, que terminamos de decorar nossa nova casa… Justamente naquele pequeno espaço onde iríamos colocar nossa primeira máquina de lavar.