Pode me ligar a hora que quiser. Se ligar de madrugada eu vou até reclamar um pouco, mas depois vou ficar feliz e dormir pensando em você. Pela manhã me acorde tocando o interfone, a campainha, o celular. Depois de um tempo a gente vai acordar lado a lado e mesmo sem escovar os dentes vai se beijar. Fica tranquilo. Eu não reclamo… de quase nada…

Gosto de comer alguma coisa de manhã, mas se você fôr daqueles que não come nada posso pedir alguma coisa na esquina quando fôr trabalhar. A gente pode rachar a gasolina, você pode usar o meu carro quando o seu estiver quebrado ou a gente pode fazer aquelas combinações de busca não-busca que sempre dão errado. Se a gente trabalhar pertinho, pode se encontrar até no meio do expediente. Eu digo que tenho um compromisso e você diz que vai atender um cliente. Daí a gente se encontra no Kilo ou em algum restaurante pequeno do Centro. Não sou lá muito exigente.

À noite, a gente pode se encontrar na sua casa ou na minha. Você sabe, eu moro sozinha. O apê é pequeno, mas posso te dar um porta de armário ou uma gaveta. Depois de um tempo você vai me ligar perguntando por aquela sua camiseta. Provavelmente estarei lavando a louça vestida nela. Você vai perceber, eu vou rir que nem uma tagarela. E quando a gente não tiver nada pra fazer, você pode ir na locadora sozinho pra não me dar nem o direito de escolher. Eu vou odiar o filme, mas mesmo assim a gente vai ver. Você é esperto e vai me agradar trazendo sorvete de doce de leite pra gente comer.

Nos fins de semana a gente pode viajar. Eu até imagino que você não goste muito de acampar. Mas eu insisto, pois só assim vai se acostumar. Podemos ir pra Ilha Grande, Ibitipoca, Sana e mais um monte de lugar que esperei te conhecer pra gente poder ir junto lá. Podemos combinar churrascos em família pra que eu possa te apresentar pra “matilha”. Você vai ficar nervoso, mas não tem por que alguém não te admirar. Além do mais, eu serei a única com direito de reclamar.

Pode ser que eu reclame de vez em quando. Fica tranquilo. Como te disse, eu não reclamo… de quase nada. Mas com certeza de vez em quando vou te dar uma pressionada. Vou pedir mais carinho, mas atenção e um pouquinho mais de espaço em seu coração. Mas não liga. A gente pode até brigar de vez em quando, mas combinamos que vamos dormir sempre abraçado, lembra?

De vez em quando a gente pode fazer uma loucura. Sair sem avisar ninguém ou dançar na rua no meio da chuva. Posso te comprar presentes inusitados e você me agradar só com ternura. Posso ser feliz. Você também. Cada um de nós poderá ser pro outro o que sempre quis. Pode ser que dê certo. Pode ser que um com o outro sejamos sempre corretos. Pode ser que a gente fique junto pra sempre. Pode ser que a gente se ame eternamente. Pode ser…

Espero que um dia a gente possa se conhecer…

Meu nome é conotação. Mas minha falta de habilidade com a gramática me faz muitas vezes denotar o que não sou. Sou apaixonada pelas metáforas. Elas contam histórias que não vivi em parágrafos que gostaria de pontuar e revisar a todo momento. Sou uma pessoa plural apesar de me achar atualmente no singular. Por causa disso muitas vezes me sinto como um artigo indefinido em um alfabeto ocidental. Mas eu não ligo. Este é apenas um dos diversos hiatos do meu momento atual.

Gosto de fazer de cada amigo um nome próprio. Desejo que todos se tornem substantivos coletivos em minha vida. Cada um tem seu gênero em particular. São femininos e masculinos que juntos flexionam adjetivos em noites de domingo. Coloco vírgulas para marcar nossos momentos e hífens para unir os mais bonitos. Escrevo em meu caderno adjuntos adverbiais de tempo para lembrar o que passou e de lugar para saber onde estou. Amigos são como complementos verbais para mim. Difíceis de explicar e descrever, mas impossíveis de viver sem.

Busco um período composto. Uma preposição capaz de me unir a outro substantivo apenas usando a quinta letra do alfabeto. Em cada redação que escrevo procuro o encontro vocálico capaz de fazer da minha consoante uma narração. Desejo um complemento verbal para fechar minha dissertação. Quero fechar aspas, fechar parênteses e fazer com que dois adjetivos fiquem juntos em palavras para sempre. Procuro um verbo que deixe minha vida ainda mais intransitiva. Mas confesso que quando o assunto é pronome sou um tanto possessiva. Hoje estou indefinida, mas isso é muito relativo. Desejo apenas encontrar um pronome demonstrativo que esteja em meu destino.

Não gosto de regras de acentuação nem sei como fazer o emprego do por quê. Por que será? Sou como um aposto explicativo que se denomina auto-suficiente apesar de muitas vezes me achar tão dependente quanto um verbo transitivo direto. Sou uma silepse de pessoa que não sabe seu verdadeiro significado. Procuro respostas às minhas dúvidas em fascículos de jornal. E busco cheia de dúvidas e incertezas o desejo que um dia meu texto tenha um final feliz seguido por um ponto final.

Sou uma figura de pensamento.

Seu olhar se perde em uma única direção. Nada mais ao redor importa. As palavras saem sem ordem ou comando. Apenas saem. Finalmente você acredita ter encontrado “a pessoa” da sua vida. O mundo muda de cor, o doce ganha sabor, a música ganha razão. Você acaba de fantasiar o amor. É sempre assim que acontece… Neste mundo fantasia que você mesmo criou não há contas a pagar ou problemas para incomodar. Tudo é perfeito.

Quando as coisas correm como esperado fica até difícil acreditar que Deus tenha sido tão bom com você. “Será que eu mereço tanto?”, você diz. Sempre merece. E assim, resolve dar para aquela pessoa seu coração, sua chave de casa e um manual de instruções com o título “Como lidar com alguém como eu”. Em pouco tempo a felicidade é tão grande que decide dividir também o apartamento, o pijama, o desodorante e as contas a pagar.

Mas vocês dividem mais. Você divide a toalha molhada sobre a cama. Ela divide a calcinha de algodão no seu chuveiro. Você divide a vontade de fazer amor pela manhã. Ela divide a vontade que sempre aparece no meio da noite. Você divide o chocolate e ela sempre reclama que você ficou com o maior pedaço… Você divide o gosto por filmes de aventura. Ela divide o gosto por filmes de amor. Você não gosta daquela saia jeans que ela inventa de usar bem no churrasco do trabalho. Ela odeia quando você elogia sua chefe…

De repente parece que o encanto acabou. A vizinha começa a parecer irresistível. A colega de trabalho se torna encantadora. A vendedora da Mr. Cat pega no seu pé como ninguém. A menina que passa na rua é linda demais para ser verdade. A professora do curso de inglês sussurra como ninguém. E se qualquer uma delas olhar pra trás ou te convidar para sair com certeza você vai achar que se enganou e que a tal da “pessoa” da sua vida mudou de endereço.

Esta é sua chance. Você pode abrir mão de tudo. Esquecer o passado ou apenas guardá-lo em uma caixa e partir para uma nova história. Você pode continuar onde está, fazendo amor no meio da noite (afinal, um dia você vai se acostumar) e dividindo seu coração com quem escolheu para sempre amar. Você pode ainda sentir medo de arriscar e continuar levando sua vida segura com a impressão de que poderia pelo menos ter tentado. Alguns irão lhe apoiar, outros não. Haverá um anjo e um demônio em cada um de seus ombros. Mas independente da decisão que você tomar, um dia, seja por conta desta decisão ou não, você vai entender o que é o amor.

Afinal, o que é o amor? Sinceramente, acho que agora estou começando a entender… Amor é quando você desiste de buscar uma nova fantasia e percebe que aquela calcinha de algodão no chuveiro ou a toalha molhada sobre a cama já fazem parte da sua vida. É neste momento que a fantasia veste o amor.

Existem momentos em que escrever é tão bom quanto o amor. Obrigado aos mondanos pela oportunidade de estar aqui.