Márcio Silva

Consultório do Dr. Osório

- O próximo!
- Bom dia, doutor.
- Ah, Sr. Villas… sente-se, por favor. Eu já estou com o resultado dos seus exames.
- E então, doutor?
- Eu vou lhe ser sincero, Sr. Villas… o resultado é bem preocupante. Não é fácil dizer isso, Sr. Villas, mas o senhor sofre de licantropia.
- …
- A boa notícia é que existe tratamento.
-… licantropia?
- Eu sei, os casos de licantropia são raríssimos, mas infelizmente, ainda existem registros.
- … de licantropia?
- Sim, senhor. Inclusive no ano passado foi registrado um no interior do Pará. Mas, como eu dizia, existe tratamento.
- … licantropia? O senhor tem certeza que eu sofro de licantropia?
- Sr. Villas, eu entendo o que o senhor está passando por um momento complicado, mas o senhor foi diagnosticado com licantropia não apenas por mim, um colega meu confirmou o diagnóstico.
- Licantropia é a maldição do lobisomem, doutor! Quem mais seria maluco de confirmar um diagnóstico absurdo desses?
- Absurda é essa sua atitude de questionar o meu diagnóstico! Fique o senhor sabendo, Sr. Villas, que eu exerço medicina faz trinta anos. E saiba também que o meu colega, o Pai Totonho de Campinho é um profissional do mais alto gabarito!
- …
- Bom, o importante é que eu tenho aqui comigo o tratamento, o senhor vai querer ou não?
- Doutor… abaixa essa arma, por favor…
- Sr. Villas, o senhor tem licantropia e o único jeito de curar licantropia é com balas de prata.
- Olha… calma, doutor. Vamos conversar… não tem outro remédio?
- Infelizmente o genérico está em falta…
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Preservação

Era praticamente impossível destacar Paulo Roberto da Graça no meio de uma multidão, pois ele era apenas mais um cidadão comum e completamente despido de qualquer atributo que pudesse realçá-lo entre as demais pessoas perambulavam pelo centro da cidade. Acordava dez minutos antes do despertador, fazia a barba durante o banho, comia seu desjejum apressadamente, beijava sua esposa e saía para trabalhar. Aos domingos acordava um pouco mais tarde, ia à missa, levava sua esposa para almoçar em algum restaurante recomendado pelos amigos do escritório e depois se ancorava no sofá até que a programação esportiva se esgotasse na TV. Então, deitava ao lado da esposa, beijava-lhe a testa e dormia, preparando-se para recomeçar tudo outra vez. Por dezessete anos essa foi a rotina do pacato cidadão Paulo Roberto da Graça, baiano de nascimento e capixaba honorário, gerente de vendas, torcedor do Rio Branco, católico praticante e marido dedicado.

E numa noite de terça-feira, tudo isso mudou.

O ônibus parou no ponto e Paulo Roberto da Graça desceu, enxugando o suor da testa com a manga do paletó. Tudo que queria naquele momento era tomar uma boa chuveirada, comer alguma coisa e cair na cama. Afrouxou o nó da gravata, esperou os carros seguirem seu caminho e atravessou a rua. Ao procurar por suas chaves, já próximo à portaria do prédio, notou que as luzes da rua começaram a perder a intensidade. “Maravilha! Só me faltava subir escada e tomar banho gelado a esta altura do campeonato”, pensou consigo enquanto abria o portão. Subitamente, Paulo Roberto ouviu um estampido e sentiu uma forte corrente de ar girar ao redor de seu corpo e puxá-lo para cima, em alta velocidade. Completamente assustado, Paulo Roberto da Graça tentava entender o que estava acontecendo, mas o rodopio da esfera de ar o fez perder a consciência. Antes de desmaiar, vou fortes luzes azuladas e o maior par de olhos vermelhos que seus olhos já fitaram.

***

Com as pálpebras pesadas, Paulo Roberto da Graça começou a despertar. Estava deitado de bruços sobre algo extremamente confortável e assim que recobrou completamente a consciência, descobriu que o que ele pensara ser o melhor colchão do mundo era uma cama feita de um material gelatinoso, inodoro e incolor. Levantou da cama, com o corpo levemente dolorido e notou que trajava uma espécie de bata branca e que não havia nem sinal de suas antigas roupas no pequeno cômodo quadrado onde se encontrava. Caminhou lentamente até uma vidraça que ficava defronte a cama e, quando seus dedos tocaram o vidro, um feixe de luz se acendeu sobre Paulo Roberto.

- Apresente-se – disse uma voz por trás do vidro. Era uma voz harmonizada, composta de um som extremamente grave e de outro várias oitavas acima, que soava como uma membrana vibrando.
- Meu nome é Paulo… Paulo Roberto da Graça – disse, tentando não parecer assustado. Seus joelhos tremiam.
- Seja bem-vindo à nave de coleta do Zoológico de Ne’haal, Paulo Roberto da Graça – o dono da voz aproximou-se do vidro. Era uma criatura alta e magra, com a pele acinzentada e enormes olhos vermelhos, os mesmos olhos que Paulo viu antes de desmaiar. – Meu nome Wop.
- Eu quero ir para casa – Paulo disse, mas não conseguiu encarar os grandes olhos de Wop. Morria de medo dos alienígenas do cinema e a idéia de estar diante de um extraterrestre de verdade fazia seus joelhos tremerem ainda mais.
- Impossível. A nave não possui combustível suficiente para voltar e não posso comprometer a missão – Wop aproximou-se ainda mais do vidro. – Sua espécie corre grande risco de extinção e fui enviado ao seu planeta para recolher um macho e uma fêmea antes que seja tarde demais.
- Risco de extinção? Existem mais de seis bilhões de nós! – Paulo Roberto disse em meio a um riso nervoso.
- Incorreto. Segundo minhas informações, o número de habitantes de Marte não passa de oitocentos mil espécimes – Wop disse, tentando decifrar a expressão que se formava no rosto de Paulo Roberto.
- Marte? Jesus me defenda… isto não pode estar acontecendo! – Paulo levou as mãos ao rosto.
- Jesus é como se chama o campeão da sua espécie, marciano? Clamar por ele de nada adiantará, estamos muito afastados do seu planeta – Wop disse e começou a se afastar do vidro.
- Eu não sou marciano, eu sou da Terra! – Paulo Roberto disse, esmurrando o vidro. – Deixe-me sair daqui, eu não sou marciano!
- Impossível! A Terra é o segundo planeta à partir do seu Sol. Minha missão era resgatar dois espécimes do terceiro planeta à partir do Sol e foi o que fiz. E, segundo os relatórios, os terráqueos não possuem inteligência ou tecnologia necessária para viagens interplanetárias, logo você não pode ser um terráqueo, marciano – disse Wop, percebendo na expressão de Paulo Roberto que aquela discussão ainda não estava acabada.
- O terceiro planeta à partir do Sol é a Terra! Sol, Mercúrio, Vênus e Terra! – Paulo Roberto repetiu inúmeras vezes, mostrando os dedos para Wop, que acompanhava os movimentos com seus grandes olhos vermelhos.
- Ilógico. Mercúrio não é um planeta – Wop rebateu, acompanhando as mãos de Paulo Roberto com seus olhos massivos.
- Olha… Wop, é Wop o seu nome, não? – os olhos do alienígena encontraram os de Paulo Roberto nesse momento, que engoliu em seco e continuou – Eu não sou astrônomo, sou um gerente de vendas. Eu não sei se Mercúrio é um planeta, eu não sei se Plutão é um planeta, mas eu sei que Marte é um planeta vermelho e a Terra é um planeta azul. Você me pegou em um planeta azul, não?
- A minha visão é monocromática, eu sou incapaz de diferenciar vermelho de azul – Wop disse, apontando para seus olhos vermelhos. – Mas isso é relevante. Minha missão era resgatar dois espécimes do terceiro planeta telúrico e…
- E você foi ao planeta errado! – Paulo berrou, interrompendo o alienígena. – Sol, Mercúrio… – disse e voltou a mostrar os dedos.
- Mercúrio não é um planeta! – a voz de Wop soou áspera e fez Paulo Roberto se calar. – Não entendo o motivo de tanta comoção. A sua fêmea parece completamente em paz com a sua atual situação.

Wop gesticulou e a parede ao lado da cama tornou-se translúcida. Havia outro cômodo, idêntico ao que Paulo estava. Sentada na cama, usando uma bata mais curta e mascando chicletes estava Gisele, pele negra, curvas exageradamente generosas e cheia de malícia no sorriso.

- Demora muito para sair a janta de semana passada, olhudo? Quero ver você explicar no Zoológico porque a fêmea marciana chegou morta – Gisele disse para Wop, sem tirar os olhos das próprias unhas. – Oi, bonitinho! – disse, acenando e sorrindo para Paulo Roberto.
- Olá! – Paulo Roberto acenou para Gisele e encostou-se no vidro. – Wop, nós precisamos conversar.
- Já dialogamos o suficiente por hoje, marciano. – Wop disse e afastou-se do vidro. – Agora é hora de alimentar a sua fêmea.
- Wop… ela não é a minha fêmea – Paulo disse entre os dentes.
- Ih, o bonitinho já é casado? Não tem problema não, meu lindo! Eu não sou ciumenta – Gisele disse, às gargalhadas.
- Paulo Roberto da Graça, assim como sua fêmea anterior terá de prosseguir sem você em Marte, você terá de prosseguir no Zoológico de Ne’haal sem ela. Lá, Gisele Mamadeira será sua fêmea, vocês copularão, procriarão e sua espécie será preservada – disse Wop, enquanto pressionava em um dos painéis da nave uma seqüência de botões que serviu o jantar.
- Sobre isso… podemos falar em particular, Wop? – Paulo sussurrou, acenando para Gisele, que não parava de piscar para ele desde que a se falou em cópula.
- Não vejo razão, mas se isso o fizer parar de se comportar de forma estranha – o alienígena acenou e a parede tornou a ficar escura.
- Wop, eu não posso copular com ela – Paulo Roberto sussurrou.
- Compreendo – Wop disse, baixando o volume de sua voz harmonizada. – Você teme que a fêmea não o aceite como parceira por conta de alguma disfunção em seu aparelho reprodutor. Isso não será um problema, Paulo Roberto da Graça. Posso lhe assegurar que podemos coletar suas células reprodutivas de uma forma indolor.
- Não, não é isso! – Paulo respondeu, ofendido – Não há nada errado com o meu aparelho reprodutor! Meu aparelho reprodutor funciona muito bem, fique o senhor sabendo! Eu posso copular com ela quantas vezes eu quiser – disse em tom de desafio. – Eu não quero copular com ela.
- Tem certeza que não há nada errado com o seu aparelho reprodutor, marciano? Consta na minha base de dados que os machos da sua espécie adoram copular – os grandes olhos de Wop fixaram-se na virilha de Paulo.
- Tire os olhos daí e não me chama de marciano, eu já disse que eu sou da Terra! – Paulo disse entre os dentes. – Não há nada de errado comigo, eu adoro copular, adoraria inclusive ter copulado mais do que eu já copulei até hoje. O que eu estou tentando explicar é que eu não posso copular com ela não porque eu seja incapaz de copular, mas porque ela não é uma fêmea.
- E o que você tem a ver com isso, seu intrometido? – a parede subitamente ficou translúcida e Gisele estava encostada no vidro, visivelmente furiosa com Paulo. Wop gesticulou e a parede ficou escura, mas logo ficou translúcida de novo – Escuta aqui, olhudo… esse negócio de gesticular e as coisas acontecerem não é exclusividade sua. Eu domino essa arte desde que eu tinha treze anos, está me entendendo? Se você desligar essa parede na minha cara outra vez, eu me solto dessa cela e te ensino com quantos paus se faz uma canoa, você está me entendendo?
- Um e bem grande – Paulo Roberto murmurou. Wop continuava sem entender aquele situação.
- E você comeu Palhacitos e está se achando muito engraçadinho, não é? Fique você sabendo que é grande o bastante para… – Gisele fechou os olhos e começou a contar até dez em voz alta, depois respirou fundo e prosseguiu, moderando o tom de voz. – Eu sou uma dama e damas não gritam. Damas são controladas e é assim que eu sou. Eu sou uma dama, não uma feirante.
- Eu não compreendo, Paulo Roberto da Graça. Gisele Mamadeira não é uma fêmea marciana? – indagou Wop, confuso. Seus grandes olhos vermelhos fitavam agora a virilha de Gisele, que a cobria com as mãos.
- Eu é que não compreendo como, com dois olhos desse tamanho, você não viu isso de primeira – Paulo Roberto disse, tentando não rir.
- Eu não compreendo! Com um par de glândulas mamárias tão desenvolvido eu presumi que… – Wop andava de um lado para o outro e sua voz parecia cada vez mais estranha.
- Eu ainda não sou completamente fêmea, mas estou em processo, ô Inimigo Meu – Gisele interrompeu, transtornada. – Quando você me disse que eu tinha sido escolhida para ser a fêmea que ia salvar a minha raça da extinção e que eu ia ter que fazer mais nada da vida além de comer, dormir e… como se diz mesmo? Copular? É, copular… bem, eu achei que seria uma boa. Além do quê, se naquele um planetinha totalmente atrasado que se chama Terra já tem cirurgia de mudança de sexo há anos, eu pensei que onde fica esse tal desse Zoológico de sei-lá-o-que teria algum procedimento de última geração, sei lá – Gisele disse, olhando para o chão. – Eu quero muito e sei que um dia eu vou ser cem por cento fêmea, mas marciana eu não sou e nem posso ser, chuchu – Gisele disse e ergueu seus olhos na direção de Wop. O alienígena parou de andar e virou-se na direção de Paulo Roberto.
- Então vocês são mesmo terráqueos? E a vida em Marte? – Wop perguntou, transtornado.
- Como eu já disse, não sou astrônomo, não sei nada de outros planetas. O pouco que eu sei é o que eu vejo nos jornais e, segundo dizem, os astronautas da Terra nunca encontraram sinais de vida em Marte. Sinto muito! – Paulo disse, olhando para Wop e depois para Gisele. Ela esboçou um sorriso.
- Obrigado pela sua simpatia, mas lamentações de nada adiantam, Paulo Roberto da Graça. Eu fui enviado para resgatar dois espécimes marcianos e é isso que eu farei. Vou retraçar o curso da nave para a unidade de reabastecimento mais próxima e depois posso deixá-los onde os apanhei – disse Wop, dirigindo-se para o painel principal da nave.

Por um breve instante, os três ficaram em silêncio.

- Wop, já ouviu falar em efeito estufa? – Paulo perguntou ao alienígena.
- Não, do que se trata – Wop indagou, tentando entender o que o humano pretendia.
- É quando a temperatura de um planeta aumenta por conta da poluição e da destruição da camada de ozônio. Dizem que está acontecendo na Terra e que o planeta não deve sobreviver mais do que alguns séculos – Paulo explicou e olhou para Gisele, esperando que ela dissesse alguma coisa.
- Ah, eu vi um programa de televisão sobre isso – Gisele disse, olhando para as unhas. – Outra raça em risco de extinção, a humanidade…
- … e eu aposto que os seus chefes ficariam muito satisfeitos se você economizasse tempo e combustível já levando junto com os marcianos alguns espécimes da Terra, não? – Paulo disse, fitando os grandes olhos vermelhos de Wop. Já não os temia tanto assim.
- Improvável, mas não é impossível – Wop balançou a cabeça.
- Bom, se você me garantir que onde quer para aonde a gente vai depois de Marte tem o raio da cirurgia que eu preciso, eu até ajudo a procurar os homenzinhos verdes que você tanto quer – disse Gisele, sorrindo.
- E eu também não me incomodo de ajudar na sua busca, se você puder dar um pulinho na Terra para eu buscar a minha esposa. Temos um acordo, Wop? – Paulo Roberto perguntou, sorrindo.
- Paulo Roberto da Graça e Gisele Mamadeira, sua proposta foi aceita. Vamos reabastecer a nave e depois iremos até Marte – Wop disse com sua voz harmonizada. Parecia esboçar um sorriso.
- Salve minha mãe Yemanjá, que enfim vou me tornar uma mulher completa! E uma mulher de outro mundo! – Gisele começou a gritar e pular. – E quando eu estiver operada e toda gostosona você vai querer copular comigo e eu vou dizer não, bonitinho – Gisele disse mostrando a língua para Paulo Roberto, com as mãos na cintura, sorrindo.

Paulo Roberto da Graça sorriu de volta e se deitou em sua cama. Apesar de ser uma pessoa despida de qualquer atrativo que o destacasse das outras pessoas comuns, estava vivendo algo que as pessoas da televisão e das capas de revista jamais sonhariam em viver. Sentiu-se orgulhoso de si como há muito não se sentia.

- Ô Darth Vader, tira uma dúvida: se Mercúrio não é planeta, que bosta é aquilo lá afinal? – Gisele perguntou, no exato momento que a nave de coleta do Zoológico de Ne’haal mergulhou no hiperespaço.

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Sensorial

Posso não vê-la
Mas sei quando aqui estás
Seu cheiro,
Seus passos,
Seu calor

Posso não vê-la
Mas adoro quando estás comigo
Seu perfume,
Sua voz,
Seu toque

Posso não vê-la
Mas adoro seu sabor
O contorno do teu rosto
Suas mãos
Seu amor.

 

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Na madrugada

É na madrugada
Quando cessam-se os passos
E o rugir dos motores,
Quando cerram-se os olhos
E as línguas cansadas
No repousar das TVs
E dos velhos discos de vinil,
Ao calar de todo som
E no morrer de toda luz
O silêncio revela sua verdadeira voz.

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Manual do músico profissional – Volume II: Shows com banda

A sua garagem já não é grande o suficiente para o som da sua banda? As festinhas do colégio já não dão o mesmo barato que costumavam dar? Seus amigos já não atiram garrafas de cerveja quando vocês começam a tocar? Talvez seja hora de atender ao chamado dos palcos e colocar o pé na estrada! Mas não se iludam achando que é só aumentar o volume do amplificador e ir tocando, a noite é traiçoeira e os incautos são devorados vivos antes mesmo do primeiro refrão. Pensando nos pobres pés inexperientes dos jovens membros da Geração Coca Zero, ávidos por seus primeiros passos no caminho do músico profissional, resolvi passar adiante o conhecimento que adquiri colhendo alguns louros (e muitos pepinos!) através deste pequeno guia de como sobreviver na selva dos bares da vida. Não saiam de casa sem ele!

1. A BANDA

Bom, o primeiro passo é arrumar a banda. Se você já possui uma banda, ótimo! Se não possui, não se desespere: com o advento da internet, é extremamente fácil encontrar integrantes para a sua banda. Existem inúmeros sites com incontáveis anúncios de “músico procura”, basta criar um ou responder aos que já estão no ar. Um pequeno adendo: este é um manual de músicos profissionais, não um manual para os músicos que só querem ser amiguinhos e fazer um sonzinho no final de cerveja, enchendo a cara. Certifique-se que todos os músicos da sua banda têm como meta levar o trabalho a sério. Se todos cumprem esse pré-requisito, garanta que todos os músicos têm um mínimo de talento musical necessário para se apresentar ao vivo, porque a platéia não está nem aí se o Juca é um cara muito legal ou se a Renatinha fica linda segurando o pedestal de microfone. O povo quer saber de som e se o Juca e a Renatinha destoarem do resto da banda, é bom que eles se endireitem após certo número de ensaios ou deverão ser substituídos por quem possa seguir o baile. Cruel, mas a vida profissional é assim mesmo. Gente legal vai continuar sendo legal na platéia, o palco é para quem sabe fazer música.

2. O EQUIPAMENTO DE SOM

Como eu pontuei na última edição, há música ao vivo em pelo menos 70% dos bares do país, mas menos de 30% desses estabelecimentos possuem o equipamento necessário para que se tenha música. E 100% desses proprietários dirão que cada músico gosta de trazer seu próprio som… e blá, blá, blá, vocês conhecem o resto. O problema de um show com banda é: se a casa não possuir pelo menos o PA (pré-amplificação) de voz e o backline (bateria e amplificadores), é bom que todos os integrantes da banda estejam em excelente forma e possuam carros bem grandes, porque vocês vão experimentar uma noite de estivador. Supondo, claro, que a banda possui toda a aparelhagem. O meu conselho é: sem PA e sem backline, sem show. Mas, se vocês querem muito fazer a gig, tentem convencer o dono do estabelecimento a alugar pelo menos o PA e sofram levando apenas o backline e os instrumentos de mão. Uma dica aos guitarristas: moderação, tanto na quantidade de equipamento, quanto no volume do som. Somos uma raça dada aos exageros, portanto, tome um copo d’água e dois comprimidos de Semancol antes de sair de casa. Levar cinco guitarras e um amplificador do tamanho de uma geladeira para um show no bar da esquina é a mesma coisa que tentar matar um mosquito com uma bazuca. Hoje em dia existem pedaleiras que emulam o som de vários amplificadores e pedais clássicos e modernos, pesando menos de 10% da parafernália que realmente gostamos de usar no palco (um dia suas colunas um dia agradecerão!). Os guitarristas ajuizados, que têm instrumentos bem regulados e com cordas novas, podem levar apenas uma guitarra. Se as cordas já estiverem um pouco passadas, uma segunda guitarra como back-up e só. Aliás, instrumento regulado e afinado é regra para qualquer músico que se preza. Se chiado fosse bom, TV não tinha antena.

3. O REPERTÓRIO

Eu também já falei isso antes, mas todo músico tem que colocar em sua cabeça que, apesar dele se considerar um artista, a maioria das pessoas que estão no bar está pouco se fodendo para isso. Lembre-se sempre: enquanto seu nome não estiver escrito com letras garrafais nos letreiros das grandes casas de show, ninguém vai pagar para ouvir um show autoral seu no bar. Talvez sua mãe, o Juca e a Renatinha, mas a maioria das pessoas não vai pagar e são essas as pessoas que você precisa agradar para pagar as suas contas. Então, bota o galho dentro e toca Legião Urbana! Mas, se sua banda estiver tocando em algum tipo de festival de novas bandas e as pessoas realmente estão pagando para ouvir o som da sua banda, é hora de bater no peito e dizer “O cara é nóis, véio!”. Mas cuidado na seleção das músicas: é preciso ter coerência na hora de montar o repertório. Afinal de contas, não faz muito sentido tocar Tem Uma Puta Morta Na Mala Da Minha Kombi logo depois de tocar Sempre Seguirei A Ti, Jesus!, por exemplo. Dica: sempre comece e termine o show com músicas animadas, de preferência com as que a banda acha mais expressivas dentro do trabalho.

4. O TEMPO DA APRESENTAÇÃO

As regras de duração de um show com banda são bem diferentes das regras de violão e voz. Um show de violão e voz pode durar (e em média dura) até quatro horas. A menos que a sua banda se chame Led Zeppelin, é impensável tocar todo esse tempo. Shows com banda duram, no máximo, duas horas. Mais do que isso, é querer matar o baterista e acabar com a garganta do vocalista. Lembrando sempre: é extremamente importante aquecer a musculatura e a garganta antes de cada show, para evitar estiramentos, distensões, lesões por esforço repetitivo e calos nas pregas vocais. Ok, médicos e fonoaudiólogos também precisam comer, mas não precisa ser caviar, certo? Então cuidado com o corpo.

5. O CACHÊ

Por último, como sempre, a hora do biro-biro. A tabela de cachês do Sindicato dos Músicos Profissionais do Rio de Janeiro diz que, atualmente, todo músico que se apresenta na noite carioca deve receber R$362,00 por apresentação, mas como é público e notório, a coisa não é bem por aí. Já é complicado receber essa quantia num show de violão e voz, imagine num show com mais de três músicos! E com quem as bandas contam nessa hora tão difícil? Com a bilheteria! Mas para fazer a bilheteria render o suficiente para cada um sair com uma grana legal no bolso (o manual aqui para profissionais, esqueceram? Pagamento de músico profissional é dinheiro e não cerveja), é preciso investir pesado em divulgação. Tanto a banda quanto o estabelecimento devem fazer de tudo para promover o show: mala direta, mensagem em rede social, panfletagem, o que for necessário para atrair o máximo de pessoas para o show. E não se esqueçam de contar o público! Nestes dias onde o repasse honesto está cada vez mais escasso, prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

Por enquanto é só, p-pessoal!

 

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Eleições 2014

De tanto assistir à propaganda eleitoral gratuita e dar de cara com pessoas de todas as raças, credos e demagogias pedindo o meu voto para conseguir uma bocada no governo, resolvi que na próxima eleição presidencial, quando eu atingir a idade mínima de trinta e seis anos, tentarei chegar à cadeira de Grande Cacique do Brasil. Ainda não defini o partido ao qual hei de me filiar para disputar a presidência, mas desde já apresento a todos a minha plataforma:

  1. Criarei o programa Babaquice Zero: guardas armados até os dentes patrulharão as ruas atrás de pitboys, celebridades temperamentais e pessoas que estacionam seus carros, abrem o porta-malas e colocam som alto. As pessoas detidas terão direito a um minuto para se defender das acusações e, caso não consigam convencer o juiz, serão condenados à morte por espancamento por truta congelada;
  2. Criarei o Projeto Sopão. Um projeto existente ajuda moradores de rua, barbeando-os e alimentando-os com sopa, mas meu projeto é bem diferente: o Projeto Sopão barbeará os integrantes do Los Hermanos, que em seguida terão sopa quente derramada na virilha (uma tigela para cada vez que Ana Júlia tocou em rádio);
  3. Criarei da Lei de Critério Musical: toda música executada em qualquer mídia deverá ter ritmo, melodia e harmonia. No caso das canções, letra bem escrita. Português correto e afinação serão obrigatórios a qualquer intérprete. O descumprimento desta lei será punido com espancamento por truta congelada;
  4. Criarei a Lei de Regulamentação da Arte: toda peça de arte abstrata se tornará, obrigatoriamente, calço de mesa ou sofá. O descumprimento desta lei será punido com espancamento por truta congelada;
  5. Darei continuidade ao projeto Sede Zero: o preço das cervejas deverá cair 80% e proibirei a venda de Schincariol. Quem for pego bebendo Schincariol será condenado à morte por espancamento por truta congelada;
  6. Reformularei o Projeto Ficha Limpa: político acusado de corrupção será condenado a espancamento diário por truta congelada até o fim das investigações. Caso o acusado seja considerado culpado, seus direitos políticos serão cassados e o réu será condenado a espancamento por truta congelada e sodomização por surubim congelado;
  7. O Brasil será um país realmente laico. A religião não fará parte da educação pública e privada, política ou mídia. Quer religião? Vá procurar uma igreja, sinagoga, mesquita, centro, terreiro ou qualquer outro lugar que as pessoas se reúnem para rezar;
  8. Os reality shows são considerados ilegais. Todo indivíduo que descumprir esta lei será condenado a participar de um reality showonde os participantes são espancados até a morte por truta congelada;
  9. Proibirei que o Galvão Bueno vibre a língua toda vez que fala “Ronaldinho” ou qualquer palavra que comece com a letra “R”. Toda vez que ele vibrar a língua, Arnaldo César Coelho baterá em seu nariz com uma truta congelada;
  10. Poodles serão ilegais.

Conto com o seu voto!

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Comprar pronto ou mandar fazer, eis a questão!

Para todo músico que se preze, o instrumento é muito mais que um objeto de madeira, metal ou material sintético. É uma extensão do seu próprio corpo, o veículo que dá voz às idéias de quem o toca, e por isso sua escolha deve ser feita com muito cuidado. Acústicos ou elétricos, instrumentos podem ser classificados em duas categorias: instrumentos de série e instrumentos custom made, com prós e contras que devem ser levados em conta na hora da compra.

A maioria dos instrumentos que vemos por aí são de série, produzidos em escala industrial segundo as especificações do fabricante. Em outras palavras, o som da marca. O preço dos instrumentos de série varia de acordo com a qualidade do material utilizado em sua fabricação, mas fator que realmente determina o preço de um instrumento é o peso que a sua marca possui no mercado. E é este fator que garante a grande vantagem dos instrumentos de série: o preço de revenda. A desvalorização dos modelos usados mais comuns é baixa em relação aos novos e os modelos top de linha valorizam (e como valorizam!) com o passar dos anos. Vide o caso do guitarrista André Christovam (ex-Golpe de Estado), que comprou um apartamento com o dinheiro da venda de sua Fender Stratocaster 1962.

Os instrumentos custom made, como o nome já diz, são fabricados sob especificação do músico. Materiais, design e pegada escolhidos a dedo em prol de um som com personalidade única. Um grande exemplo é a Red Special, a lendária guitarra do mestre das seis cordas Brian May (Queen), que foi construída pelo próprio May e seu pai, utilizando materiais incomuns como madeira retirada de uma lareira e peças de uma motocicleta. Entretanto, possuir um pássaro de canto único possui um preço alto: fabricar de uma guitarra custom made é, na maioria das vezes, muito caro e demorado. E ainda existe o fator revenda! Se seu instrumento custom madenão for feito por um luthier renomado, revendê-lo pode ser bem complicado.

Comprar pronto ou mandar fazer, eis a questão! Escolha com cuidado suas armas, pois o seu som (e a saúde do seu bolso) dependem disso.

 

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Manual do músico profissional – Volume I: Sobrevivendo ao barzinho

O seu quarto já não é grande o suficiente para o seu talento? As rodinhas de violão já não dão o mesmo barato que costumavam dar? Seus vizinhos já não chamam a polícia quando você começa a tocar? Talvez seja hora de atender ao chamado do banquinho e alçar vôos mais altos noite afora! Mas não se iluda achando que é só sentar no banco e ir tocando, a noite é traiçoeira e os incautos são devorados vivos antes mesmo do primeiro refrão. Pensando nos pobres pés inexperientes dos jovens membros da Geração Coca Zero, ávidos por seus primeiros passos no caminho do músico profissional, resolvi passar adiante o conhecimento que adquiri colhendo alguns louros (e muitos pepinos!) através deste pequeno guia de como sobreviver na selva dos bares da vida. Não saia de casa sem ele!
1. O INSTRUMENTO

Quando se pensa em música de bar, a maioria das pessoas visualiza uma pessoa sentada em um banquinho, cantando e tocando violão. Ok, essa é uma cena muito comum na maioria dos bares, mas não é regra. Pode-se ter mais de um músico e outro instrumento que não seja o violão, desde que seja um instrumento harmônico (ou seja, um instrumento que possibilite tocar acordes. É por isso que vocês nunca verão em um bar um show de trombone de vara e voz ou coisa parecida), como o piano, por exemplo. Se você toca um instrumento harmônico e não canta, arrume um vocalista. Se você canta e não toca instrumento algum, arrume um instrumentista. Se você canta e toca piano, procure um bar que tenha o instrumento ou arrume uma boa equipe de carregadores que não cobrem muito caro, porque isso vai sair do seu cachê. Ou arrume um teclado, é uma solução mais barata. O que realmente importa é que o instrumento harmônico que você vai levar para o bar não pode ser nem muito vagabundo nem top de linha, porque um instrumento vagabundo não vai produzir um bom som e um instrumento top de linha é muito visado e pode lhe ser roubado na saída do trabalho. Escolha com sabedoria.

2. O EQUIPAMENTO DE SOM

Há música ao vivo em pelo menos 70% dos bares do país, mas menos de 30% desses estabelecimentos possuem o equipamento necessário para que se tenha música. E 100% desses proprietários dirão que cada músico gosta de trazer seu próprio som (como vocês sabem, nada me deixa mais feliz do que carregar caixas de som, mas não estamos falando de mim aqui), logo, se você foi contratado para tocar em um estabelecimento que possui som próprio, erga as mãos e agradeça à sua divindade favorita pela graça alcançada. Se você não conseguiu esse feito raro, como a maioria de nós, meros mortais, é bom investir em equipamento. Infelizmente o preço do equipamento completo é um tanto alto para quem está começando. Alugar parte do equipamento e comprar o essencial (o seu instrumento harmônico, um microfone e bons cabos) é uma opção, mas isso pode sair do seu cachê. Ou não, depende do seu acordo com o dono do bar. Tente sempre jogar essa pepinosa para cima dele!

3. O REPERTÓRIO

Uma coisa que todo músico tem que colocar em sua cabeça antes de acomodar suas nádegas no banquinho é que, apesar dele se considerar um artista, a maioria das pessoas que estão no bar está pouco se fodendo para isso. Com amor, carinho e Sazón, claro! A maioria das pessoas vai aos bares para beber, namorar, encontrar os amigos, paquerar e, por acaso, você está lá fazendo o fundo musical para isso tudo, mais ou menos como um rádio que atende pedidos. Então não fique chateado se as pessoas não aplaudirem todas as músicas que você tocar, porque isso não quer dizer que eles não estão gostando da sua apresentação ou que não estão prestando atenção. Você já viu alguém aplaudindo um rádio toda vez que toca a música que essa pessoa gosta? Escolha as músicas com sabedoria e eles aplaudirão! Misture os sucessos atuais com os clássicos, toque no repertório aquela música que não é tão conhecida assim, mas que faz as pessoas balbuciarem a letra. Todo mundo gosta de um repertório com surpresas, mas dentro de um contexto. Tocar Metallica no meio de apresentação de samba é, por exemplo, o tipo de surpresa que você deve evitar ao máximo. Se você compõe suas próprias músicas, toque-as e diga que são suas! Mas com parcimônia. Lembre-se sempre: enquanto seu nome não estiver escrito com letras garrafais nos letreiros das grandes casas de show, ninguém vai pagar para ouvir um show autoral seu no bar. Talvez sua mãe, seus amigos e aquela menina ruivinha que é secretamente apaixonada por você desde a 6ª série, mas a maioria das pessoas não vai pagar e são essas as pessoas que você precisa agradar para pagar as suas contas. Então, bota o galho dentro e toca Raul!

4. O TEMPO DA APRESENTAÇÃO

Não existe uma regra exata para o tempo de uma apresentação de bar, geralmente combina-se antes com o proprietário. A maioria das casas pede entre duas e quatro horas de música, mas há locais que pedem uma hora e já vi alguns pedindo seis horas de show. Se você tem amor aos seus tendões e pregas vocais, fuja das maratonas como o Felipe Melo foge de quem assistiu Brasil x Holanda. Se o dono do bar não estipular uma duração, sugira uma apresentação de três horas com um intervalo de trinta minutos no meio. Nem muito curto nem muito longo, na medida.

5. O CACHÊ

Por último, o tópico mais controverso: a hora do biro-biro. A tabela de cachês do Sindicato dos Músicos Profissionais do Rio de Janeiro diz que, atualmente, todo músico que se apresenta na noite carioca deve receber R$362,00 por apresentação. Antes que você diga “Uau! Com quatro trabalhos fixos por semana, em pouco tempo eu posso comprar um carro, uma casa e propor casamento à menina ruivinha”, a coisa não é bem por aí. Infelizmente o músico profissional não é tão valorizado no Brasil e não é todo dia que recebemos esse valor. Muitas casas trabalham com couvert artístico, que em 90% dos casos é uma forma que os proprietários têm de tirar o seu da reta na hora de pagar o músico. Se você conseguiu arrumar um trabalho que paga a tabela do seu estado ou um valor fixo bem próximo desse número, erga as mãos e agradeça à sua divindade favorita pela graça alcançada. Se você arrumou um trabalho que pagará seu cachê através de couvert artístico, é bom saber contar. Contar o número de pessoas que entraram na casa durante a apresentação e multiplicar pelo valor do couvert para ter uma idéia geral de quanto vai cair no seu bolso e contar com a sorte para que o dono do bar seja honesto e repasse toda a grana.

Por enquanto é só, p-pessoal!

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Música de pegar: os suportes físicos de mídia no século XXI

“A internet é o futuro”: talvez seja esta a frase mais repetida da última década e não é preciso ser vidente para perceber que este é um fato incontestável. Muitas tarefas e prazeres do nosso dia a dia, como pagar contas, fazer compras e agendar viagens, já são feitas online. Com a produção e divulgação musical também não seria diferente.

Nos dias de hoje, a tecnologia de áudio avança a passos largos e fica cada vez mais acessível. Além disso, o surgimento de cursos de produção musical por todo o país, que ensinam desde o ABC aos truques de mestre da captura e tratamento de som, associado ao número cada vez maior de sites que divulgam gratuitamente o trabalho dos artistas independentes na rede, fica cada vez mais nítido que o processo de confecção e disseminação de conteúdo caminhe para o seguinte roteiro: produzir álbuns inteiros com qualidade profissional sem sair de casa, expor som, fotos, vídeos, release e agenda em sites como o MySpace e afins e, por fim divulgar, tudo isso utilizando as redes sociais. E a nitidez é tanta que a cada dia aumenta o número de artistas consagrados lançando seus trabalhos inéditos na rede, prensando cada vez menos álbuns em mídia física. Claro que o boom da pirataria e dos sites de transferência de dados peer-to-peer e a produção/consumo em massa de aparelhos eletrônicos com entrada USB (que lêem mídia digital direto de flash drives e HDs externos com muito mais espaço de armazenamento que os 750Mb dos CDs ou 4Gb dos DVDs) ajudaram bastante a solidificar esse novo processo, mas os altos custos de confecção e divulgação de álbuns em mídia física também foram decisivos para que a realização desses processos online ganhasse o gosto dos artistas.

Os músicos que fazem parte da Geração Coca Zero podem não acreditar, mas quem possui mais de trinta primaveras lembra de que, não muitos anos antes de surgirem os primeiros mp3 players, ainda era preciso entrar em estúdio, gravar as músicas em fita e editar os trechos com lâminas de barbear e fita adesiva, até chegar ao produto final. Com a modernização do processo de gravação, o analógico deu lugar ao digital e os discos de vinil e a fitas-cassete foram depostos pelo CD, que reinou absoluto como a mídia padrão do mercado na última década do século passado. O processo mudou, mas os gastos continuaram os mesmos: o artista que não tinha o apoio de uma gravadora arcava os com os custos de pré-produção, gravação, mixagem, masterização, criação da arte do encarte, prensagem e divulgação do seu trabalho. Somando os valores de todas as etapas desse processo, chegamos a uma cifra com muitos zeros no final, quantia que a maioria dos artistas independentes não possui e que prefere investir em um home studio. E mesmo hoje em dia, com a mídia física perdendo espaço para a digital (seja ela legalizada ou pirata), as prensadoras – grandes culpadas pelo boom da pirataria que fez a mídia digital por em xeque o CD por conta dos altos custos de prensagem –, ainda acreditam que podem cobrar preços exorbitantes por um produto que correr risco de desaparecer das prateleiras, em tempos de entradas USB, flash drives, HDs externos e internet banda larga.

Sim, o CD está em xeque, mas não xeque-mate. O LP também foi desenganado várias vezes e ainda está por aí, graças aos poucos, porém fiéis apreciadores, que mantêm acesa a chama das mídias abandonadas pelo grande público. E não é preciso ser vidente para enxergar que o futuro das mídias físicas é virar tiragem limitada.

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Atitude

Pensamento acerca do tempero que tanta falta faz nas prateleiras do mercado

Quando comecei a aprender meus primeiros acordes no violão, ouvi falar que atitude é o principal elemento no som de todo grande músico e que a combinação de atitude e talento era o segredo do sucesso. Durante anos acreditei nessas afirmações, mas faz tempo que minha fé anda abalada. Hoje em dia, ligo o rádio e corro o dial de um lado pro outro, procurando alguma coisa diferente das músicas sem conteúdo que são empurradas para a massa todos os dias, mas tem tanto lixo na programação das emissoras que só tenho vontade de desligar o aparelho. Às vezes, até de quebrá-lo.

Há tempos que as grandes gravadoras decidem o quê e como os artistas devem cantar, como devem se vestir e principalmente quem é a bola da vez no panorama musical, o que gera uma enxurrada de artistas pré-fabricados, com sonoridade e visual praticamente idênticos se acotovelando por quinze minutos de fama, enquanto veteranos e jovens talentos que insistem em preservar suas identidades não têm vez no mainstream. Aliás, não existe termo melhor para definir o mainstream musical do que “mercado”, afinal sujeitar os artistas a espremerem sua criatividade em três minutos e meio de música que seguem a fórmula padrão do pop estrofe I + estrofe II + refrão + ponte + refrão = hit não é promover cultura, é comércio puro. Infelizmente, cultura é o que menos importa no mercado, importante mesmo é o lucro. Desde que se obtenha lucro, não importa se um álbum tem dez músicas exatamente iguais, letras pobres que transmitem valores nocivos ou um encarte apelativo. Sim, o lucro é um fator importantíssimo, mas não deveria vir em primeiro lugar, não quando o assunto é cultura. E o que mais me impressiona em toda essa engrenagem é que, mesmo com as gravadoras perdendo terreno progressivamente por conta da maior acessibilidade aos equipamentos físicos e às tecnologias virtuais de gravação, aliada à facilidade de divulgação via internet, os supostos donos da atitude, os músicos, nada fazem para modificar o panorama. Simplesmente cruzam os braços e esperam chegar o dia quando magicamente tudo vai mudar, alheios ao fato de que as portas da senzala, há muito, estão abertas.

É inadmissível que tantos artistas cujo talento não conhece fronteiras, filhos de uma cultura musical de proporções colossais como a nossa, aceitem calados serem padronizados e vendidos como comida enlatada; e que tantos outros talentos sejam relegados ao underground por se recusarem a ter sua liberdade criativa limitada por supostos gênios da produção musical, que defendem o conceito de “quanto mais podre, melhor” visando apenas o lucro pessoal. Não é possível aceitar que um palco tão grande quanto o da música brasileira tenha apenas um microfone. Há espaço para todos e todos merecem estar no show.

Onde está a atitude? É possível parar a engrenagem, já que somos nós o combustível que a alimenta.

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Márcio Silva

Site
www.marciosilva.com.br
Sobre
Nascido no Rio de Janeiro em 1978, Márcio Silva é músico por profissão e escritor por esporte. Vive na Ilha do Governador, bairro da Zona Norte carioca, cujo cotidiano o inspira a compor suas músicas, elaborar seus textos e tramar novas formas de acabar com as Kombis.
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