Sobre Márcio Silva

Nascido no Rio de Janeiro em 1978, Márcio Silva é músico por profissão e escritor por esporte. Vive na Ilha do Governador, bairro da Zona Norte carioca, cujo cotidiano o inspira a compor suas músicas, elaborar seus textos e tramar novas formas de acabar com as Kombis.

Pálido e franzino, Acácio era a personificação da invisibilidade social. Alunos e professores pareciam alheios à sua presença tanto em sala de aula como nos corredores do Educandário Santo Inácio de Antioquia. Durante o recreio, ficava sozinho em um canto vazio do pátio, com os ombros curvados e o rosto enfiado em um caderno, rabiscando seus desenhos longe do olhar das outras crianças que corriam e brincavam umas com as outras até o soar da sirene. Teria passado despercebido por todo ensino médio se, durante uma aula de História do Brasil, a professora não o tivesse posto diante da classe para responder uma arguição. Aquela foi a primeira vez que as outras crianças tomaram ciência de que entre eles havia aquela pálida e franzina figura que miava as respostas do questionário em um débil fio de voz.

– Fale para fora, menino! – disse a professora em tom firme, batendo com a mão na mesa.

As palavras morreram em sua garganta. As mãos suadas tentaram traduzir as palavras que a boca trêmula não pronunciava. Os olhos se fecharam quando o calor da urina desceu por suas pernas e empoçou no frio piso da sala de aula. E o riso dos outros alunos quase cobriu a voz da professora, berrando impropérios durante o soar da sirene do recreio. Mandado ao banheiro masculino, Acácio tentou, em vão, secar a calça mijada com as toalhas de papel, quando um golpe na nuca o fez se chocar contra a pia de granito e cair no chão. Sua visão começou a escurecer e ele não pode ver nem quem nem quantos chutavam sua cabeça e seu corpo. Assim como o sangue, um sorriso brotou de seus lábios inchados. Era, enfim, visível.

– A senhora se considera uma mulher feliz? – ele perguntou, enquanto folheava o bloco de notas, vasculhando os registros anteriores.
– Se eu fosse feliz não estaríamos conversando. Feliz é uma palavra muito ampla – ela respondeu, ajeitando-se no divã. O velho estofamento era mais incômodo que a pergunta.
– Então a senhora não se considera feliz? – ele perguntou enquanto ajeitava os óculos que teimavam em correr para a ponta de seu nariz.
– Eu me considero uma mulher satisfeita, essa é a palavra adequada – ela disse olhando para o teto. Pensou em perguntar onde ele havia comprado aquele lustre.
– Lembro-me que, naquela entrevista que deu para a TV uma ou duas semanas atrás, a senhora afirmou que era muito feliz – disse ele, conseguindo manter os óculos fixos no rosto. Detestava-os e não sabia por qual motivo não usava lentes de contato.
– Se o senhor acredita em tudo que se diz em entrevistas, também deve acreditar em tudo que os políticos dizem em seus comícios, doutor – ela disparou, virando-se e olhando para o terapeuta pela primeira vez desde que instalou-se no divã. Havia um sorriso debochado em seus lábios vermelhos. – Eu disse o que se espera que uma pessoa pública diga em uma entrevista. O populacho quer sonhar com a vida perfeita das celebridades vendida pela mídia, eles não se interessam em saber que tudo não passa de fumaça e espelhos.
– Então a senhora não se considera uma mulher comum? – indagou com olhos fixos no verde implacável dos olhos dela. Enxugou a testa, forçando-se a não descer a vista até o decote.
– Sou exatamente igual a qualquer outra mulher do planeta, doutor. Apenas tive mais oportunidades que a maioria delas – ela sentenciou e voltou seu olhar ao lustre, pensando que o escritório do apartamento de Ipanema ficaria perfeito com um lustre igual. – Por isso eu me considero uma mulher satisfeita: a minha vida é ótima, não tenho do que reclamar! Sou jovem, bonita, tenho posses e tenho influência.
– Influência? – perguntou enquanto rabiscava qualquer coisa no bloco de notas. Seus olhos estavam perdidos nos fartos seios dela, que se empinavam mais ainda a cada vez que ela se ajeitava no divã.
– Três meses atrás fui fotografada usando uma saia que foi desenhada por uma estilista amiga minha e poucos dias depois todas as vitrines do Sudeste tinham uma peça igual em exposição. Semana passada eu mudei o corte do cabelo e só no caminho da minha casa até aqui eu vi cinco mulheres com o mesmo penteado. Influência, doutor – ela disse, abrindo a bolsa e pegando um maço de cigarros.
– Carisma – ele retrucou, cruzando as pernas para esconder a excitação. – Peço que a senhora não fume durante a sessão.
– Seis e meia-dúzia – ela deu de ombros, retornando o maço de cigarros à bolsa. – Como eu dizia, vivo bem e não tenho do que me queixar. Agora, felicidade… felicidade é uma coisa que eu realmente não possuo. Não sou uma pessoa triste, mas não acordo sorrindo todas as manhãs apenas por começar um novo dia.
– A senhora se sente solitária? – ele arguiu, colocando as mãos no colo e fitando o lustre. Se não tirasse os olhos dela, a ereção não passaria.
– O senhor só pode estar brincando, doutor. Com a minha assessoria, agenda, fãs e paparazzi, eu só fico sozinha na hora de dormir. E se o senhor está se referindo à minha vida amorosa, a minha cama só fica vazia quando eu quero – ela disse, com um sorriso malicioso.
– E ainda assim a senhora sente que falta alguma coisa na sua vida. – ele pontuou, ajeitando-se na cadeira. A dor na virilha era quase tão forte quanto sua vontade de possuí-la no chão do consultório.
– Sim, falta. Falta alguma coisa que eu não faço ideia do que seja, mas que ainda assim me deixa muito angustiada. – ela suspirou, levando a mão à bolsa. Precisava de um cigarro.
– Infelizmente o tempo acabou, mas falaremos mais sobre a sua angústia na próxima sessão. Nos vemos na próxima semana? – ele perguntou, abrindo a porta do consultório e escondendo meio corpo da mesma, tentando desafivelar o cinto de uma forma que ela não percebesse.
– Com certeza, doutor. – ela sorriu, louca por um cigarro e por nunca mais se deitar naquele divã incômodo.

– O próximo!
– Bom dia, doutor.
– Ah, Sr. Villas… sente-se, por favor. Eu já estou com o resultado dos seus exames.
– E então, doutor?
– Eu vou lhe ser sincero, Sr. Villas… o resultado é bem preocupante. Não é fácil dizer isso, Sr. Villas, mas o senhor sofre de licantropia.
– …
– A boa notícia é que existe tratamento.
-… licantropia?
– Eu sei, os casos de licantropia são raríssimos, mas infelizmente, ainda existem registros.
– … de licantropia?
– Sim, senhor. Inclusive no ano passado foi registrado um no interior do Pará. Mas, como eu dizia, existe tratamento.
– … licantropia? O senhor tem certeza que eu sofro de licantropia?
– Sr. Villas, eu entendo o que o senhor está passando por um momento complicado, mas o senhor foi diagnosticado com licantropia não apenas por mim, um colega meu confirmou o diagnóstico.
– Licantropia é a maldição do lobisomem, doutor! Quem mais seria maluco de confirmar um diagnóstico absurdo desses?
– Absurda é essa sua atitude de questionar o meu diagnóstico! Fique o senhor sabendo, Sr. Villas, que eu exerço medicina faz trinta anos. E saiba também que o meu colega, o Pai Totonho de Campinho é um profissional do mais alto gabarito!
– …
– Bom, o importante é que eu tenho aqui comigo o tratamento, o senhor vai querer ou não?
– Doutor… abaixa essa arma, por favor…
– Sr. Villas, o senhor tem licantropia e o único jeito de curar licantropia é com balas de prata.
– Olha… calma, doutor. Vamos conversar… não tem outro remédio?
– Infelizmente o genérico está em falta…

Era praticamente impossível destacar Paulo Roberto da Graça no meio de uma multidão, pois ele era apenas mais um cidadão comum e completamente despido de qualquer atributo que pudesse realçá-lo entre as demais pessoas perambulavam pelo centro da cidade. Acordava dez minutos antes do despertador, fazia a barba durante o banho, comia seu desjejum apressadamente, beijava sua esposa e saía para trabalhar. Aos domingos acordava um pouco mais tarde, ia à missa, levava sua esposa para almoçar em algum restaurante recomendado pelos amigos do escritório e depois se ancorava no sofá até que a programação esportiva se esgotasse na TV. Então, deitava ao lado da esposa, beijava-lhe a testa e dormia, preparando-se para recomeçar tudo outra vez. Por dezessete anos essa foi a rotina do pacato cidadão Paulo Roberto da Graça, baiano de nascimento e capixaba honorário, gerente de vendas, torcedor do Rio Branco, católico praticante e marido dedicado.

E numa noite de terça-feira, tudo isso mudou.

O ônibus parou no ponto e Paulo Roberto da Graça desceu, enxugando o suor da testa com a manga do paletó. Tudo que queria naquele momento era tomar uma boa chuveirada, comer alguma coisa e cair na cama. Afrouxou o nó da gravata, esperou os carros seguirem seu caminho e atravessou a rua. Ao procurar por suas chaves, já próximo à portaria do prédio, notou que as luzes da rua começaram a perder a intensidade. “Maravilha! Só me faltava subir escada e tomar banho gelado a esta altura do campeonato”, pensou consigo enquanto abria o portão. Subitamente, Paulo Roberto ouviu um estampido e sentiu uma forte corrente de ar girar ao redor de seu corpo e puxá-lo para cima, em alta velocidade. Completamente assustado, Paulo Roberto da Graça tentava entender o que estava acontecendo, mas o rodopio da esfera de ar o fez perder a consciência. Antes de desmaiar, vou fortes luzes azuladas e o maior par de olhos vermelhos que seus olhos já fitaram.

***

Com as pálpebras pesadas, Paulo Roberto da Graça começou a despertar. Estava deitado de bruços sobre algo extremamente confortável e assim que recobrou completamente a consciência, descobriu que o que ele pensara ser o melhor colchão do mundo era uma cama feita de um material gelatinoso, inodoro e incolor. Levantou da cama, com o corpo levemente dolorido e notou que trajava uma espécie de bata branca e que não havia nem sinal de suas antigas roupas no pequeno cômodo quadrado onde se encontrava. Caminhou lentamente até uma vidraça que ficava defronte a cama e, quando seus dedos tocaram o vidro, um feixe de luz se acendeu sobre Paulo Roberto.

– Apresente-se – disse uma voz por trás do vidro. Era uma voz harmonizada, composta de um som extremamente grave e de outro várias oitavas acima, que soava como uma membrana vibrando.
– Meu nome é Paulo… Paulo Roberto da Graça – disse, tentando não parecer assustado. Seus joelhos tremiam.
– Seja bem-vindo à nave de coleta do Zoológico de Ne’haal, Paulo Roberto da Graça – o dono da voz aproximou-se do vidro. Era uma criatura alta e magra, com a pele acinzentada e enormes olhos vermelhos, os mesmos olhos que Paulo viu antes de desmaiar. – Meu nome Wop.
– Eu quero ir para casa – Paulo disse, mas não conseguiu encarar os grandes olhos de Wop. Morria de medo dos alienígenas do cinema e a idéia de estar diante de um extraterrestre de verdade fazia seus joelhos tremerem ainda mais.
– Impossível. A nave não possui combustível suficiente para voltar e não posso comprometer a missão – Wop aproximou-se ainda mais do vidro. – Sua espécie corre grande risco de extinção e fui enviado ao seu planeta para recolher um macho e uma fêmea antes que seja tarde demais.
– Risco de extinção? Existem mais de seis bilhões de nós! – Paulo Roberto disse em meio a um riso nervoso.
– Incorreto. Segundo minhas informações, o número de habitantes de Marte não passa de oitocentos mil espécimes – Wop disse, tentando decifrar a expressão que se formava no rosto de Paulo Roberto.
– Marte? Jesus me defenda… isto não pode estar acontecendo! – Paulo levou as mãos ao rosto.
– Jesus é como se chama o campeão da sua espécie, marciano? Clamar por ele de nada adiantará, estamos muito afastados do seu planeta – Wop disse e começou a se afastar do vidro.
– Eu não sou marciano, eu sou da Terra! – Paulo Roberto disse, esmurrando o vidro. – Deixe-me sair daqui, eu não sou marciano!
– Impossível! A Terra é o segundo planeta à partir do seu Sol. Minha missão era resgatar dois espécimes do terceiro planeta à partir do Sol e foi o que fiz. E, segundo os relatórios, os terráqueos não possuem inteligência ou tecnologia necessária para viagens interplanetárias, logo você não pode ser um terráqueo, marciano – disse Wop, percebendo na expressão de Paulo Roberto que aquela discussão ainda não estava acabada.
– O terceiro planeta à partir do Sol é a Terra! Sol, Mercúrio, Vênus e Terra! – Paulo Roberto repetiu inúmeras vezes, mostrando os dedos para Wop, que acompanhava os movimentos com seus grandes olhos vermelhos.
– Ilógico. Mercúrio não é um planeta – Wop rebateu, acompanhando as mãos de Paulo Roberto com seus olhos massivos.
– Olha… Wop, é Wop o seu nome, não? – os olhos do alienígena encontraram os de Paulo Roberto nesse momento, que engoliu em seco e continuou – Eu não sou astrônomo, sou um gerente de vendas. Eu não sei se Mercúrio é um planeta, eu não sei se Plutão é um planeta, mas eu sei que Marte é um planeta vermelho e a Terra é um planeta azul. Você me pegou em um planeta azul, não?
– A minha visão é monocromática, eu sou incapaz de diferenciar vermelho de azul – Wop disse, apontando para seus olhos vermelhos. – Mas isso é relevante. Minha missão era resgatar dois espécimes do terceiro planeta telúrico e…
– E você foi ao planeta errado! – Paulo berrou, interrompendo o alienígena. – Sol, Mercúrio… – disse e voltou a mostrar os dedos.
– Mercúrio não é um planeta! – a voz de Wop soou áspera e fez Paulo Roberto se calar. – Não entendo o motivo de tanta comoção. A sua fêmea parece completamente em paz com a sua atual situação.

Wop gesticulou e a parede ao lado da cama tornou-se translúcida. Havia outro cômodo, idêntico ao que Paulo estava. Sentada na cama, usando uma bata mais curta e mascando chicletes estava Gisele, pele negra, curvas exageradamente generosas e cheia de malícia no sorriso.

– Demora muito para sair a janta de semana passada, olhudo? Quero ver você explicar no Zoológico porque a fêmea marciana chegou morta – Gisele disse para Wop, sem tirar os olhos das próprias unhas. – Oi, bonitinho! – disse, acenando e sorrindo para Paulo Roberto.
– Olá! – Paulo Roberto acenou para Gisele e encostou-se no vidro. – Wop, nós precisamos conversar.
– Já dialogamos o suficiente por hoje, marciano. – Wop disse e afastou-se do vidro. – Agora é hora de alimentar a sua fêmea.
– Wop… ela não é a minha fêmea – Paulo disse entre os dentes.
– Ih, o bonitinho já é casado? Não tem problema não, meu lindo! Eu não sou ciumenta – Gisele disse, às gargalhadas.
– Paulo Roberto da Graça, assim como sua fêmea anterior terá de prosseguir sem você em Marte, você terá de prosseguir no Zoológico de Ne’haal sem ela. Lá, Gisele Mamadeira será sua fêmea, vocês copularão, procriarão e sua espécie será preservada – disse Wop, enquanto pressionava em um dos painéis da nave uma seqüência de botões que serviu o jantar.
– Sobre isso… podemos falar em particular, Wop? – Paulo sussurrou, acenando para Gisele, que não parava de piscar para ele desde que a se falou em cópula.
– Não vejo razão, mas se isso o fizer parar de se comportar de forma estranha – o alienígena acenou e a parede tornou a ficar escura.
– Wop, eu não posso copular com ela – Paulo Roberto sussurrou.
– Compreendo – Wop disse, baixando o volume de sua voz harmonizada. – Você teme que a fêmea não o aceite como parceira por conta de alguma disfunção em seu aparelho reprodutor. Isso não será um problema, Paulo Roberto da Graça. Posso lhe assegurar que podemos coletar suas células reprodutivas de uma forma indolor.
– Não, não é isso! – Paulo respondeu, ofendido – Não há nada errado com o meu aparelho reprodutor! Meu aparelho reprodutor funciona muito bem, fique o senhor sabendo! Eu posso copular com ela quantas vezes eu quiser – disse em tom de desafio. – Eu não quero copular com ela.
– Tem certeza que não há nada errado com o seu aparelho reprodutor, marciano? Consta na minha base de dados que os machos da sua espécie adoram copular – os grandes olhos de Wop fixaram-se na virilha de Paulo.
– Tire os olhos daí e não me chama de marciano, eu já disse que eu sou da Terra! – Paulo disse entre os dentes. – Não há nada de errado comigo, eu adoro copular, adoraria inclusive ter copulado mais do que eu já copulei até hoje. O que eu estou tentando explicar é que eu não posso copular com ela não porque eu seja incapaz de copular, mas porque ela não é uma fêmea.
– E o que você tem a ver com isso, seu intrometido? – a parede subitamente ficou translúcida e Gisele estava encostada no vidro, visivelmente furiosa com Paulo. Wop gesticulou e a parede ficou escura, mas logo ficou translúcida de novo – Escuta aqui, olhudo… esse negócio de gesticular e as coisas acontecerem não é exclusividade sua. Eu domino essa arte desde que eu tinha treze anos, está me entendendo? Se você desligar essa parede na minha cara outra vez, eu me solto dessa cela e te ensino com quantos paus se faz uma canoa, você está me entendendo?
– Um e bem grande – Paulo Roberto murmurou. Wop continuava sem entender aquele situação.
– E você comeu Palhacitos e está se achando muito engraçadinho, não é? Fique você sabendo que é grande o bastante para… – Gisele fechou os olhos e começou a contar até dez em voz alta, depois respirou fundo e prosseguiu, moderando o tom de voz. – Eu sou uma dama e damas não gritam. Damas são controladas e é assim que eu sou. Eu sou uma dama, não uma feirante.
– Eu não compreendo, Paulo Roberto da Graça. Gisele Mamadeira não é uma fêmea marciana? – indagou Wop, confuso. Seus grandes olhos vermelhos fitavam agora a virilha de Gisele, que a cobria com as mãos.
– Eu é que não compreendo como, com dois olhos desse tamanho, você não viu isso de primeira – Paulo Roberto disse, tentando não rir.
– Eu não compreendo! Com um par de glândulas mamárias tão desenvolvido eu presumi que… – Wop andava de um lado para o outro e sua voz parecia cada vez mais estranha.
– Eu ainda não sou completamente fêmea, mas estou em processo, ô Inimigo Meu – Gisele interrompeu, transtornada. – Quando você me disse que eu tinha sido escolhida para ser a fêmea que ia salvar a minha raça da extinção e que eu ia ter que fazer mais nada da vida além de comer, dormir e… como se diz mesmo? Copular? É, copular… bem, eu achei que seria uma boa. Além do quê, se naquele um planetinha totalmente atrasado que se chama Terra já tem cirurgia de mudança de sexo há anos, eu pensei que onde fica esse tal desse Zoológico de sei-lá-o-que teria algum procedimento de última geração, sei lá – Gisele disse, olhando para o chão. – Eu quero muito e sei que um dia eu vou ser cem por cento fêmea, mas marciana eu não sou e nem posso ser, chuchu – Gisele disse e ergueu seus olhos na direção de Wop. O alienígena parou de andar e virou-se na direção de Paulo Roberto.
– Então vocês são mesmo terráqueos? E a vida em Marte? – Wop perguntou, transtornado.
– Como eu já disse, não sou astrônomo, não sei nada de outros planetas. O pouco que eu sei é o que eu vejo nos jornais e, segundo dizem, os astronautas da Terra nunca encontraram sinais de vida em Marte. Sinto muito! – Paulo disse, olhando para Wop e depois para Gisele. Ela esboçou um sorriso.
– Obrigado pela sua simpatia, mas lamentações de nada adiantam, Paulo Roberto da Graça. Eu fui enviado para resgatar dois espécimes marcianos e é isso que eu farei. Vou retraçar o curso da nave para a unidade de reabastecimento mais próxima e depois posso deixá-los onde os apanhei – disse Wop, dirigindo-se para o painel principal da nave.

Por um breve instante, os três ficaram em silêncio.

– Wop, já ouviu falar em efeito estufa? – Paulo perguntou ao alienígena.
– Não, do que se trata – Wop indagou, tentando entender o que o humano pretendia.
– É quando a temperatura de um planeta aumenta por conta da poluição e da destruição da camada de ozônio. Dizem que está acontecendo na Terra e que o planeta não deve sobreviver mais do que alguns séculos – Paulo explicou e olhou para Gisele, esperando que ela dissesse alguma coisa.
– Ah, eu vi um programa de televisão sobre isso – Gisele disse, olhando para as unhas. – Outra raça em risco de extinção, a humanidade…
– … e eu aposto que os seus chefes ficariam muito satisfeitos se você economizasse tempo e combustível já levando junto com os marcianos alguns espécimes da Terra, não? – Paulo disse, fitando os grandes olhos vermelhos de Wop. Já não os temia tanto assim.
– Improvável, mas não é impossível – Wop balançou a cabeça.
– Bom, se você me garantir que onde quer para aonde a gente vai depois de Marte tem o raio da cirurgia que eu preciso, eu até ajudo a procurar os homenzinhos verdes que você tanto quer – disse Gisele, sorrindo.
– E eu também não me incomodo de ajudar na sua busca, se você puder dar um pulinho na Terra para eu buscar a minha esposa. Temos um acordo, Wop? – Paulo Roberto perguntou, sorrindo.
– Paulo Roberto da Graça e Gisele Mamadeira, sua proposta foi aceita. Vamos reabastecer a nave e depois iremos até Marte – Wop disse com sua voz harmonizada. Parecia esboçar um sorriso.
– Salve minha mãe Yemanjá, que enfim vou me tornar uma mulher completa! E uma mulher de outro mundo! – Gisele começou a gritar e pular. – E quando eu estiver operada e toda gostosona você vai querer copular comigo e eu vou dizer não, bonitinho – Gisele disse mostrando a língua para Paulo Roberto, com as mãos na cintura, sorrindo.

Paulo Roberto da Graça sorriu de volta e se deitou em sua cama. Apesar de ser uma pessoa despida de qualquer atrativo que o destacasse das outras pessoas comuns, estava vivendo algo que as pessoas da televisão e das capas de revista jamais sonhariam em viver. Sentiu-se orgulhoso de si como há muito não se sentia.

– Ô Darth Vader, tira uma dúvida: se Mercúrio não é planeta, que bosta é aquilo lá afinal? – Gisele perguntou, no exato momento que a nave de coleta do Zoológico de Ne’haal mergulhou no hiperespaço.

Posso não vê-la
Mas sei quando aqui estás
Seu cheiro,
Seus passos,
Seu calor

Posso não vê-la
Mas adoro quando estás comigo
Seu perfume,
Sua voz,
Seu toque

Posso não vê-la
Mas adoro seu sabor
O contorno do teu rosto
Suas mãos
Seu amor.

 

É na madrugada
Quando cessam-se os passos
E o rugir dos motores,
Quando cerram-se os olhos
E as línguas cansadas
No repousar das TVs
E dos velhos discos de vinil,
Ao calar de todo som
E no morrer de toda luz
O silêncio revela sua verdadeira voz.

A sua garagem já não é grande o suficiente para o som da sua banda? As festinhas do colégio já não dão o mesmo barato que costumavam dar? Seus amigos já não atiram garrafas de cerveja quando vocês começam a tocar? Talvez seja hora de atender ao chamado dos palcos e colocar o pé na estrada! Mas não se iludam achando que é só aumentar o volume do amplificador e ir tocando, a noite é traiçoeira e os incautos são devorados vivos antes mesmo do primeiro refrão. Pensando nos pobres pés inexperientes dos jovens membros da Geração Coca Zero, ávidos por seus primeiros passos no caminho do músico profissional, resolvi passar adiante o conhecimento que adquiri colhendo alguns louros (e muitos pepinos!) através deste pequeno guia de como sobreviver na selva dos bares da vida. Não saiam de casa sem ele!

1. A BANDA

Bom, o primeiro passo é arrumar a banda. Se você já possui uma banda, ótimo! Se não possui, não se desespere: com o advento da internet, é extremamente fácil encontrar integrantes para a sua banda. Existem inúmeros sites com incontáveis anúncios de “músico procura”, basta criar um ou responder aos que já estão no ar. Um pequeno adendo: este é um manual de músicos profissionais, não um manual para os músicos que só querem ser amiguinhos e fazer um sonzinho no final de semana, enchendo a cara. Certifique-se que todos os músicos da sua banda têm como meta levar o trabalho a sério. Se todos cumprem esse pré-requisito, garanta que todos os músicos têm um mínimo de talento musical necessário para se apresentar ao vivo, porque a platéia não está nem aí se o Juca é um cara muito legal ou se a Renatinha fica linda segurando o pedestal de microfone. O povo quer saber de som e se o Juca e a Renatinha destoarem do resto da banda, é bom que eles se endireitem após certo número de ensaios ou deverão ser substituídos por quem possa seguir o baile. Cruel, mas a vida profissional é assim mesmo. Gente legal vai continuar sendo legal na platéia, o palco é para quem sabe fazer música.

2. O EQUIPAMENTO DE SOM

Como eu pontuei na última edição, há música ao vivo em pelo menos 70% dos bares do país, mas menos de 30% desses estabelecimentos possuem o equipamento necessário para que se tenha música. E 100% desses proprietários dirão que cada músico gosta de trazer seu próprio som… e blá, blá, blá, vocês conhecem o resto. O problema de um show com banda é: se a casa não possuir pelo menos o PA (pré-amplificação) de voz e o backline (bateria e amplificadores), é bom que todos os integrantes da banda estejam em excelente forma e possuam carros bem grandes, porque vocês vão experimentar uma noite de estivador. Supondo, claro, que a banda possui toda a aparelhagem. O meu conselho é: sem PA e sem backline, sem show. Mas, se vocês querem muito fazer a gig, tentem convencer o dono do estabelecimento a alugar pelo menos o PA e sofram levando apenas o backline e os instrumentos de mão. Uma dica aos guitarristas: moderação, tanto na quantidade de equipamento, quanto no volume do som. Somos uma raça dada aos exageros, portanto, tome um copo d’água e dois comprimidos de Semancol antes de sair de casa. Levar cinco guitarras e um amplificador do tamanho de uma geladeira para um show no bar da esquina é a mesma coisa que tentar matar um mosquito com uma bazuca. Hoje em dia existem pedaleiras que emulam o som de vários amplificadores e pedais clássicos e modernos, pesando menos de 10% da parafernália que realmente gostamos de usar no palco (um dia suas colunas agradecerão!). Os guitarristas ajuizados, que têm instrumentos bem regulados e com cordas novas, podem levar apenas uma guitarra. Se as cordas já estiverem um pouco passadas, uma segunda guitarra como back-up e só. Aliás, instrumento regulado e afinado é regra para qualquer músico que se preza. Se chiado fosse bom, TV não tinha antena.

3. O REPERTÓRIO

Eu também já falei isso antes, mas todo músico tem que colocar em sua cabeça que, apesar dele se considerar um artista, a maioria das pessoas que estão no bar está pouco se fodendo para isso. Lembre-se sempre: enquanto seu nome não estiver escrito com letras garrafais nos letreiros das grandes casas de show, ninguém vai pagar para ouvir um show autoral seu no bar. Talvez sua mãe, o Juca e a Renatinha, mas a maioria das pessoas não vai pagar e são essas as pessoas que você precisa agradar para pagar as suas contas. Então, bota o galho dentro e toca Legião Urbana! Mas, se sua banda estiver tocando em algum tipo de festival de novas bandas e as pessoas realmente estão pagando para ouvir o som da sua banda, é hora de bater no peito e dizer “O cara é nóis, véio!”. Mas cuidado na seleção das músicas: é preciso ter coerência na hora de montar o repertório. Afinal de contas, não faz muito sentido tocar Tem Uma Puta Morta Na Mala Da Minha Kombi logo depois de tocar Sempre Seguirei A Ti, Jesus!, por exemplo. Dica: sempre comece e termine o show com músicas animadas, de preferência com as que a banda acha mais expressivas dentro do trabalho.

4. O TEMPO DA APRESENTAÇÃO

As regras de duração de um show com banda são bem diferentes das regras de violão e voz. Um show de violão e voz pode durar (e em média dura) até quatro horas. A menos que a sua banda se chame Led Zeppelin, é impensável tocar todo esse tempo. Shows com banda duram, no máximo, duas horas. Mais do que isso, é querer matar o baterista e acabar com a garganta do vocalista. Lembrando sempre: é extremamente importante aquecer a musculatura e a garganta antes de cada show, para evitar estiramentos, distensões, lesões por esforço repetitivo e calos nas pregas vocais. Ok, médicos e fonoaudiólogos também precisam comer, mas não precisa ser caviar, certo? Então cuidado com o corpo.

5. O CACHÊ

Por último, como sempre, a hora do biro-biro. A tabela de cachês do Sindicato dos Músicos Profissionais do Rio de Janeiro diz que, atualmente, todo músico que se apresenta na noite carioca deve receber R$362,00 por apresentação, mas como é público e notório, a coisa não é bem por aí. Já é complicado receber essa quantia num show de violão e voz, imagine num show com mais de três músicos! E com quem as bandas contam nessa hora tão difícil? Com a bilheteria! Mas para fazer a bilheteria render o suficiente para cada um sair com uma grana legal no bolso (o manual aqui para profissionais, esqueceram? Pagamento de músico profissional é dinheiro e não cerveja), é preciso investir pesado em divulgação. Tanto a banda quanto o estabelecimento devem fazer de tudo para promover o show: mala direta, mensagem em rede social, panfletagem, o que for necessário para atrair o máximo de pessoas para o show. E não se esqueçam de contar o público! Nestes dias onde o repasse honesto está cada vez mais escasso, prudência e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

Por enquanto é só, p-pessoal!