Sobre Márcio Silva

Nascido no Rio de Janeiro em 1978, Márcio Silva é músico por profissão e escritor por esporte. Vive na Ilha do Governador, bairro da Zona Norte carioca, cujo cotidiano o inspira a compor suas músicas, elaborar seus textos e tramar novas formas de acabar com as Kombis.

No jardim
Que brota dentro de mim
Todas as flores
São da cor dos amores
Que eu já vivi

Neste jardim
Que brota sem fim
As rosas
Crescem majestosas
Como um dia, eu surgi

No meu jardim
A vida é assim:
Há liberdade
E igualdade
Valores que eu esqueci

Minhas rosas
As coisas mais valiosas
São tudo que me resta
De uma antiga festa
Onde eu nem apareci

Minhas flores
Todos os meus amores
Têm tratamento especial
Mas não como as rosas de Natal
Presentes que não abri

Minha vida
É um abrir e fechar da ferida
Rego minhas rosas com a água
Que retirei de toda mágoa
Um direito que me concedi.

Peço perdão antecipado caso eu pise no calo de qualquer um que leia estas minhas palavras: não sou de mexer em ninho de vespas, mas no fundo, sempre quis falar sobre o tópico do meu texto de hoje, a manipulação da fé.

Claro que a manipulação da fé não vem de hoje e todo mundo sabe disso: as belas igrejas européias da Idade Média, ornadas de forma rica não foram assim feitas apenas com a doação de fieis abastados, mas também com coletas impostas e ameaças de danação eterna. Sem falar no confisco de terras, animais e propriedades em geral dos que eram considerados hereges: todos aqueles que tinham um pingo de juízo e amavam sua carne, temendo a fogueira, cediam à cruz e ofertavam seu dinheiro à Igreja.

Pecados? Faça uma oração e deposite seu dinheiro no caixa. Vivemos dias modernos, mas essa regra vem de muito tempo atrás. Ora, onde está a lógica nisso, se o pecado vem do mau pensamento e não do bolso? Penso eu que o pecado só está perdoado quando se há arrependimento verdadeiro da parte do pecador. Então é só pagar 15 peças de ouro por cada pessoa que eu matar que eu tenho direito ao reino do Céu? Ou 5 peças de prata e posso desonrar à vontade pai e mãe? Ou eu pago um qualquer e nas horas vagas adoro algum ídolo de barro e fico livre da ira da divindade que gosta de atirar os que vão contra suas Leis ao fogo, à danação, à eterna penitência? Ora, eu sei que uma casa necessita de reparos, de manutenção. E acho nobre da parte de quem a freqüenta abrir mão de qualquer quantia (desde que não seja extorsiva) para uma pintura nova, reparos nos bancos ou uma restauração de alguma imagem sacra, até para a gasolina do Fusquinha do sacerdote, vá lá. Mas quantias obrigatórias de 3 dígitos, porcentagem fixa em cima da renda mensal do fiel? Ora… e quem não tem renda? Não tem direito a freqüentar a casa do Senhor? Pensem sobre isso: alguém já viu mendigos em alguma missa ou culto?

Outra: a culpa de tudo é do Diabo. Se um homem casado trai sua companheira de 30 anos com uma garotinha de 18? Se uma mulher rouba os filhos de outra mulher? Tudo culpa do Diabo. E só pode ser, já que o homem é puro de coração e incapaz de fazer mal a seus semelhantes. Ora, todo mundo sabe que o homem comete atrocidades contra tudo e contra todos desde que o mundo é mundo. E chega a ser risível imaginar um imortal que não tem mais nada a fazer além de arquitetar meios de corromper o nobre coração humano. Mas é risível para mim, que tive estudo, que li. Pode ser risível para vocês, que são cabeças pensantes – concordando ou não com o que está escrito neste texto. Entretanto, para o simplório que nunca foi à escola, que nunca leu um livro e que não pode fazer isso por não ter dinheiro ou tempo, existe um Mal nos fazendo de marionetes, existem explicações baseadas no humor divino para cada contratempo que vivemos, existe parcelamento de lotes celestiais com vista para a Criação.

Dizem que a fé é a melhor coisa que um homem pode ter. Concordo que é ótimo ter fé, mas discordo ser a maior benção que nos foi dada: o conhecimento fica bem acima, pois é o conhecimento que nos mostra onde que podemos ou não depositar nossa fé e o que nos impede de nos tornarmos apenas ovelhas em um rebanho conduzido por um mau pastor.

Mais uma vez, desculpe se ofendi alguém.

Saudades
de olhar meu rosto sem pêlos ou rugas
Saudades
de minhas mãos sem calos ou manchas
Saudades
Da falta de preocupação do começo em relação ao fim

Viver: é para isto que estamos aqui. Aprender, ensinar, rir, brincar e tudo mais que a vida possa nos oferecer. Mas quanto mais esprememos a vida, ávidos por todo seu sumo, a vida também nos espreme e nos sorve o viço da pele, a cor dos cabelos e a força das pernas. Quem não sabe que o preço que pagamos pela vida é a morte? E quando, geralmente, vem a morte? Quando estamos em idade avançada, braços e olhos cansados. Não pensem que vim aqui falar de trevas, mas sim de luz: quando se come uma fruta não sobram os caroços que dão vida a uma nova árvore e a novos frutos? É assim que vejo a velhice, como uma fruta devorada, despida do que é efêmero, como a beleza externa, até a semente – a sabedoria, o bastão que passamos adiante para que os que nos sucedem não batam o nariz em alguma parede, andando cegos por aí.

Não pense em idosos como objetos obsoletos ou como pessoas sem função: conhecimento é fruto da experiência. E quando a vida espremer e sorver tudo que puder de alguma pessoa de idade que você conheça, chore sim, a perda; mas nunca o fim da vida, pois ela nunca acaba, apenas muda de forma.

Não se falou em outra coisa na TV: o Projeto Genoma terminou de mapear o DNA do homo sapiens. Concordo que seja um grande avanço, mas não seria também uma grande preocupação?

Ora, que o homem tenta brincar de Deus, todo mundo sabe já faz tempo. Ovelhas clonadas, ratos com orelhas nas costas, boatos sobre a carne do Mc Donald’s: escolha seu tópico e teremos horas e horas agradáveis de conversa sem medo de ficar sem assunto. Temos o conhecimento, mas é de nosso conhecimento que nunca aprendemos a usá-lo direito. Descobrimos a pólvora e criamos bombas e armas de fogo, descobrimos como voar e criamos uma maneira de ceifar vidas sem o combate corpo a corpo, descobrimos a energia nuclear e vaporizamos milhares de pessoas, descobrimos o DNA e inventamos doenças que matam em questão de horas. E agora, o que faremos? Será que vamos pesquisar a cura das doenças que nos prendem aos preservativos, aos leitos ou às urnas funerárias? Qual será o mal que criaremos desta vez? Será um vírus mortal que aniquila soldados em questão de segundos? Pode muito bem ser um exército de soldados perfeitos, sem moral ou compaixão, sem preocupação com família ou filhos, uma perfeita máquina de guerra. Isso poderia ser feito! Bastaria apenas uma célula, alguns bilhões investidos e um estoque inesgotável de falta de escrúpulos. Temos isso de sobra por aí, não?

Por que sempre nos ajoelhamos e damos oferendas à guerra? Por que não usar nosso conhecimento em prol da vida em vez de tentar aniquilá-la? É uma pena que aqueles que tudo controlam sentados no trono não enxerguem que sua sede de governar lhes fará reis de um reino deserto.

Trevo de quatro folhas, pé de coelho, figa: todo mundo tem uma receitinha que aprendeu com a vovó ou com a vizinha para espantar a má sorte. Você pode não acreditar na má sorte, mas que ela existe, existe. Sabe quando você está doido para fumar e só tem um cigarro no maço? Sabe quando você está tirando o xampu e acaba a água? Isso é má sorte. Não confunda com azar, que é muito mais complicado: azar é descobrir que sua mulher está grávida, sendo você estéril e ela um travesti.

Como tive a má sorte de não ter inspiração para escrever um texto bonito e bem escrito para encher os olhos dos leitores do Mondo, resolvi contar uma história sobre a má sorte. Espero que vocês gostem.

Era um domingo bonito, sol forte, mar de almirante, um daqueles dias que dá vontade de abrir a janela e tirar uma fotografia de qualquer coisa, pois tudo é belo sob o firmamento. E mais do que isso: era a final do campeonato Estadual e Zé Alberto estava empolgadíssimo. Abriu o armário e tirou de lá um embrulho, sentou-se na cama e começou a desfazer o embrulho, com muito cuidado para não rasgar o papel de presente. Embrulho desfeito, puxou com cuidado uma camisa, desfazendo a dobra frente ao seu rosto risonho: a camisa 10 do Flamengo. Cheirou-a como cheirou o cangote de sua esposa na lua de mel e beijou-a como beijou seu primeiro filho, após o parto. Então a apertou contra o peito e sorriu, olhando para a parede e sorrindo para o pôster do Zico, seu maior herói, o maior herói do seu clube. Com delicadeza, esticou-a na cama e foi tomar banho. Para Zé Alberto, vestir a camisa do Flamengo não era como vestir uma roupa qualquer: era como vestir um terno de missa, uma veste sagrada que não podia ser maculada pelo suor do trabalho diário! Para vestir a camisa do Flamengo – ainda mais a camisa 10, a camisa do Zico – era preciso estar puro, imaculado, banhado e cheiroso. E assim o fez: tomou banho, fez a barba, lavou os cabelos, cortou as unhas, tomou banho de perfume e vestiu sua camisa. Ah, como era bom sentir aquele tecido fino deslizando, envolvendo…

– Zé Alberto!!! Seu primo está lhe esperando para ir ao Maracanã. Vista-se rápido que eu estou saindo com as crianças para a casa da minha mãe e o Moura está sozinho na sala. Beijos!

Zé Alberto pegou o rádio de pilha e, junto com o primo Moura, entrou em seu carro e colocou a bandeira para fora da janela. O vento batia em seu rosto e tudo era lindo, tudo era belo, tudo era rubro-negro. Estacionou o carro e foi andando em direção à entrada do Maracanã: seu coração batia no ritmo acelerado da marcação dos surdos da torcida e, mesmo sem perceber, cantava músicas de torcida e o hino de seu time. A roleta se aproximava, Zé Alberto pegou sua carteira, abriu-a e… vazia. Onde estavam os ingressos? Pânico, medo, horror! Em plena final do Estadual, Maracanã lotado e Zé Alberto havia esquecido os ingressos em casa.

– Eu vou pegar o carro – disse ele, coração acelerado.
– Espera, Zé! Se você pegar o carro não vai encontrar lugar para estacionar – disse Moura.
– E como é que eu faço então, Moura? Diz para mim o que eu tenho que fazer! – desesperou-se Zé Alberto.
– Corre ali, primo! Pega um táxi que eu te espero aqui! – disse o primo Moura, apontando para um táxi vazio, estacionado.

E lá foi Zé Alberto. Sentindo o desespero do coitado, o taxista concordou em fazer a corrida com o pé na tábua, mas cobrou-lhe R$ 50,00 por alguma multa que pudesse tomar pelo meio do caminho. E lá foram eles, correndo como o vento pelas ruas do Rio de Janeiro.

Ao descer do táxi, Zé Alberto abriu pulou o portão e correu em direção à porta da sala, que insistia em não abrir. Procurou a chave em seu bolso e não a encontrou: havia deixado a chave no porta-luvas do carro. Zé Alberto olhou o relógio: o juiz já havia dado início à partida e já se passavam 20 minutos de jogo. Forçou a porta, mas a maldita resistiu a todas as suas investidas e sua esposa não podia dar-lhe passagem, já que estava na casa da mãe. Olhou para o alto e viu que a janela do quarto de seu filho mais velho estava aberta. Então subiu no muro e foi se esgueirando até a janela e conseguiu, com muito custo, entrar em casa. Desceu as escadas feito uma flecha e apanhou os ingressos. Foi até a porta e… trancada. Teve que subir as escadas, pular a janela e se esgueirar pelo muro. Quando desceu e já estava com a mão na maçaneta do táxi, algo lhe puxou pelo pescoço.

Teje preso, meliante. Pensa que não o vi saindo pela janela, seu gatuno? – disse o policial, já enquadrando Zé Alberto.

E foi um Deus nos acuda: Zé Alberto chorava dali, PM se aborrecia daqui, Zé Alberto pedia socorro de lá, o PM mandava ele ficar quieto de cá. Foi aí que apareceu uma vizinha e disse que Zé Alberto era morador da casa e que não era ladrão. O PM aliviou, avisando que estaria de olho nele e que um passo fora da linha ia ser a conta. Zé Alberto agradeceu, entrando no táxi e saindo no maior desespero: Faltavam 30 minutos para o fim da partida.

Chegando ao Maracanã, ele deu de cara com Moura, que disse que o jogo estava empatado em 2 x 2, placar que daria o título ao Flamengo. Passaram pelas roletas e foram em direção à arquibancada, que era só festa: faltava cinco minutos para o fim do jogo! Faltava três minutos, faltava dois minutos, 1 minuto.

– Não deixa o Aílton cruzar!!! – gritou Zé Alberto.

O placar marcava 3 x 2 para o Fluminense. O juiz apitou e o som do apito ecoou na cabeça de Zé Alberto desde a saída do Maracanã até o portão de sua casa, trajeto que ele fez sem dar um pio. Ao saltar do carro, seu primo abraçou-o e disse:

– Fique assim não, primo. Sempre tem o ano que vem – disse Moura, sorrindo.
– O ano que vem? Tem o ano que vem? – disse Zé Alberto – Eu vou te mostrar o ano que vem! – e disse isso pegando um porrete que jazia no chão e avançando para cima de seu primo.

No exato momento que Zé Alberto ia desferir a porretada certeira na cabeça de seu primo, sentiu algo lhe agarrar pelo pescoço.

– Não falei que eu estava de olho em você, meliante? – disse o PM, gargalhando de forma sinistra.