Sobre Márcio Silva

Nascido no Rio de Janeiro em 1978, Márcio Silva é músico por profissão e escritor por esporte. Vive na Ilha do Governador, bairro da Zona Norte carioca, cujo cotidiano o inspira a compor suas músicas, elaborar seus textos e tramar novas formas de acabar com as Kombis.

De tanto assistir à propaganda eleitoral gratuita e dar de cara com pessoas de todas as raças, credos e demagogias pedindo o meu voto para conseguir uma bocada no governo, resolvi que na próxima eleição presidencial, quando eu atingir a idade mínima de trinta e seis anos, tentarei chegar à cadeira de Grande Cacique do Brasil. Ainda não defini o partido ao qual hei de me filiar para disputar a presidência, mas desde já apresento a todos a minha plataforma:

  1. Criarei o programa Babaquice Zero: guardas armados até os dentes patrulharão as ruas atrás de pitboys, celebridades temperamentais e pessoas que estacionam seus carros, abrem o porta-malas e colocam som alto. As pessoas detidas terão direito a um minuto para se defender das acusações e, caso não consigam convencer o juiz, serão condenados à morte por espancamento por truta congelada;
  2. Criarei o Projeto Sopão. Um projeto existente ajuda moradores de rua, barbeando-os e alimentando-os com sopa, mas meu projeto é bem diferente: o Projeto Sopão barbeará os integrantes do Los Hermanos, que em seguida terão sopa quente derramada na virilha (uma tigela para cada vez que Ana Júlia tocou em rádio);
  3. Criarei da Lei de Critério Musical: toda música executada em qualquer mídia deverá ter ritmo, melodia e harmonia. No caso das canções, letra bem escrita. Português correto e afinação serão obrigatórios a qualquer intérprete. O descumprimento desta lei será punido com espancamento por truta congelada;
  4. Criarei a Lei de Regulamentação da Arte: toda peça de arte abstrata se tornará, obrigatoriamente, calço de mesa ou sofá. O descumprimento desta lei será punido com espancamento por truta congelada;
  5. Darei continuidade ao projeto Sede Zero: o preço das cervejas deverá cair 80% e proibirei a venda de Schincariol. Quem for pego bebendo Schincariol será condenado à morte por espancamento por truta congelada;
  6. Reformularei o Projeto Ficha Limpa: político acusado de corrupção será condenado a espancamento diário por truta congelada até o fim das investigações. Caso o acusado seja considerado culpado, seus direitos políticos serão cassados e o réu será condenado a espancamento por truta congelada e sodomização por surubim congelado;
  7. O Brasil será um país realmente laico. A religião não fará parte da educação pública e privada, política ou mídia. Quer religião? Vá procurar uma igreja, sinagoga, mesquita, centro, terreiro ou qualquer outro lugar que as pessoas se reúnem para rezar;
  8. Os reality shows são considerados ilegais. Todo indivíduo que descumprir esta lei será condenado a participar de um reality showonde os participantes são espancados até a morte por truta congelada;
  9. Proibirei que o Galvão Bueno vibre a língua toda vez que fala “Ronaldinho” ou qualquer palavra que comece com a letra “R”. Toda vez que ele vibrar a língua, Arnaldo César Coelho baterá em seu nariz com uma truta congelada;
  10. Poodles serão ilegais.

Conto com o seu voto!

Para todo músico que se preze, o instrumento é muito mais que um objeto de madeira, metal ou material sintético. É uma extensão do seu próprio corpo, o veículo que dá voz às idéias de quem o toca, e por isso sua escolha deve ser feita com muito cuidado. Acústicos ou elétricos, instrumentos podem ser classificados em duas categorias: instrumentos de série e instrumentos custom made, com prós e contras que devem ser levados em conta na hora da compra.

A maioria dos instrumentos que vemos por aí são de série, produzidos em escala industrial segundo as especificações do fabricante. Em outras palavras, o som da marca. O preço dos instrumentos de série varia de acordo com a qualidade do material utilizado em sua fabricação, mas fator que realmente determina o preço de um instrumento é o peso que a sua marca possui no mercado. E é este fator que garante a grande vantagem dos instrumentos de série: o preço de revenda. A desvalorização dos modelos usados mais comuns é baixa em relação aos novos e os modelos top de linha valorizam (e como valorizam!) com o passar dos anos. Vide o caso do guitarrista André Christovam (ex-Golpe de Estado), que comprou um apartamento com o dinheiro da venda de sua Fender Stratocaster 1962.

Os instrumentos custom made, como o nome já diz, são fabricados sob especificação do músico. Materiais, design e pegada escolhidos a dedo em prol de um som com personalidade única. Um grande exemplo é a Red Special, a lendária guitarra do mestre das seis cordas Brian May (Queen), que foi construída pelo próprio May e seu pai, utilizando materiais incomuns como madeira retirada de uma lareira e peças de uma motocicleta. Entretanto, possuir um pássaro de canto único possui um preço alto: fabricar de uma guitarra custom made é, na maioria das vezes, muito caro e demorado. E ainda existe o fator revenda! Se seu instrumento custom madenão for feito por um luthier renomado, revendê-lo pode ser bem complicado.

Comprar pronto ou mandar fazer, eis a questão! Escolha com cuidado suas armas, pois o seu som (e a saúde do seu bolso) dependem disso.

 

O seu quarto já não é grande o suficiente para o seu talento? As rodinhas de violão já não dão o mesmo barato que costumavam dar? Seus vizinhos já não chamam a polícia quando você começa a tocar? Talvez seja hora de atender ao chamado do banquinho e alçar vôos mais altos noite afora! Mas não se iluda achando que é só sentar no banco e ir tocando, a noite é traiçoeira e os incautos são devorados vivos antes mesmo do primeiro refrão. Pensando nos pobres pés inexperientes dos jovens membros da Geração Coca Zero, ávidos por seus primeiros passos no caminho do músico profissional, resolvi passar adiante o conhecimento que adquiri colhendo alguns louros (e muitos pepinos!) através deste pequeno guia de como sobreviver na selva dos bares da vida. Não saia de casa sem ele!

1. O INSTRUMENTO

Quando se pensa em música de bar, a maioria das pessoas visualiza uma pessoa sentada em um banquinho, cantando e tocando violão. Ok, essa é uma cena muito comum na maioria dos bares, mas não é regra. Pode-se ter mais de um músico e outro instrumento que não seja o violão, desde que seja um instrumento harmônico (ou seja, um instrumento que possibilite tocar acordes. É por isso que vocês nunca verão em um bar um show de trombone de vara e voz ou coisa parecida), como o piano, por exemplo. Se você toca um instrumento harmônico e não canta, arrume um vocalista. Se você canta e não toca instrumento algum, arrume um instrumentista. Se você canta e toca piano, procure um bar que tenha o instrumento ou arrume uma boa equipe de carregadores que não cobrem muito caro, porque isso vai sair do seu cachê. Ou arrume um teclado, é uma solução mais barata. O que realmente importa é que o instrumento harmônico que você vai levar para o bar não pode ser nem muito vagabundo nem top de linha, porque um instrumento vagabundo não vai produzir um bom som e um instrumento top de linha é muito visado e pode lhe ser roubado na saída do trabalho. Escolha com sabedoria.

2. O EQUIPAMENTO DE SOM

Há música ao vivo em pelo menos 70% dos bares do país, mas menos de 30% desses estabelecimentos possuem o equipamento necessário para que se tenha música. E 100% desses proprietários dirão que cada músico gosta de trazer seu próprio som (como vocês sabem, nada me deixa mais feliz do que carregar caixas de som, mas não estamos falando de mim aqui), logo, se você foi contratado para tocar em um estabelecimento que possui som próprio, erga as mãos e agradeça à sua divindade favorita pela graça alcançada. Se você não conseguiu esse feito raro, como a maioria de nós, meros mortais, é bom investir em equipamento. Infelizmente o preço do equipamento completo é um tanto alto para quem está começando. Alugar parte do equipamento e comprar o essencial (o seu instrumento harmônico, um microfone e bons cabos) é uma opção, mas isso pode sair do seu cachê. Ou não, depende do seu acordo com o dono do bar. Tente sempre jogar essa pepinosa para cima dele!

3. O REPERTÓRIO

Uma coisa que todo músico tem que colocar em sua cabeça antes de acomodar suas nádegas no banquinho é que, apesar dele se considerar um artista, a maioria das pessoas que estão no bar está pouco se fodendo para isso. Com amor, carinho e Sazón, claro! A maioria das pessoas vai aos bares para beber, namorar, encontrar os amigos, paquerar e, por acaso, você está lá fazendo o fundo musical para isso tudo, mais ou menos como um rádio que atende pedidos. Então não fique chateado se as pessoas não aplaudirem todas as músicas que você tocar, porque isso não quer dizer que eles não estão gostando da sua apresentação ou que não estão prestando atenção. Você já viu alguém aplaudindo um rádio toda vez que toca a música que essa pessoa gosta? Escolha as músicas com sabedoria e eles aplaudirão! Misture os sucessos atuais com os clássicos, toque no repertório aquela música que não é tão conhecida assim, mas que faz as pessoas balbuciarem a letra. Todo mundo gosta de um repertório com surpresas, mas dentro de um contexto. Tocar Metallica no meio de apresentação de samba é, por exemplo, o tipo de surpresa que você deve evitar ao máximo. Se você compõe suas próprias músicas, toque-as e diga que são suas! Mas com parcimônia. Lembre-se sempre: enquanto seu nome não estiver escrito com letras garrafais nos letreiros das grandes casas de show, ninguém vai pagar para ouvir um show autoral seu no bar. Talvez sua mãe, seus amigos e aquela menina ruivinha que é secretamente apaixonada por você desde a 6ª série, mas a maioria das pessoas não vai pagar e são essas as pessoas que você precisa agradar para pagar as suas contas. Então, bota o galho dentro e toca Raul!

4. O TEMPO DA APRESENTAÇÃO

Não existe uma regra exata para o tempo de uma apresentação de bar, geralmente combina-se antes com o proprietário. A maioria das casas pede entre duas e quatro horas de música, mas há locais que pedem uma hora e já vi alguns pedindo seis horas de show. Se você tem amor aos seus tendões e pregas vocais, fuja das maratonas como o Felipe Melo foge de quem assistiu Brasil x Holanda. Se o dono do bar não estipular uma duração, sugira uma apresentação de três horas com um intervalo de trinta minutos no meio. Nem muito curto nem muito longo, na medida.

5. O CACHÊ

Por último, o tópico mais controverso: a hora do biro-biro. A tabela de cachês do Sindicato dos Músicos Profissionais do Rio de Janeiro diz que, atualmente, todo músico que se apresenta na noite carioca deve receber R$362,00 por apresentação. Antes que você diga “Uau! Com quatro trabalhos fixos por semana, em pouco tempo eu posso comprar um carro, uma casa e propor casamento à menina ruivinha”, a coisa não é bem por aí. Infelizmente o músico profissional não é tão valorizado no Brasil e não é todo dia que recebemos esse valor. Muitas casas trabalham com couvert artístico, que em 90% dos casos é uma forma que os proprietários têm de tirar o seu da reta na hora de pagar o músico. Se você conseguiu arrumar um trabalho que paga a tabela do seu estado ou um valor fixo bem próximo desse número, erga as mãos e agradeça à sua divindade favorita pela graça alcançada. Se você arrumou um trabalho que pagará seu cachê através de couvert artístico, é bom saber contar. Contar o número de pessoas que entraram na casa durante a apresentação e multiplicar pelo valor do couvert para ter uma idéia geral de quanto vai cair no seu bolso e contar com a sorte para que o dono do bar seja honesto e repasse toda a grana.

Por enquanto é só, p-pessoal!

“A internet é o futuro”: talvez seja esta a frase mais repetida da última década e não é preciso ser vidente para perceber que este é um fato incontestável. Muitas tarefas e prazeres do nosso dia a dia, como pagar contas, fazer compras e agendar viagens, já são feitas online. Com a produção e divulgação musical também não seria diferente.

Nos dias de hoje, a tecnologia de áudio avança a passos largos e fica cada vez mais acessível. Além disso, o surgimento de cursos de produção musical por todo o país, que ensinam desde o ABC aos truques de mestre da captura e tratamento de som, associado ao número cada vez maior de sites que divulgam gratuitamente o trabalho dos artistas independentes na rede, fica cada vez mais nítido que o processo de confecção e disseminação de conteúdo caminhe para o seguinte roteiro: produzir álbuns inteiros com qualidade profissional sem sair de casa, expor som, fotos, vídeos, release e agenda em sites como o MySpace e afins e, por fim divulgar, tudo isso utilizando as redes sociais. E a nitidez é tanta que a cada dia aumenta o número de artistas consagrados lançando seus trabalhos inéditos na rede, prensando cada vez menos álbuns em mídia física. Claro que o boom da pirataria e dos sites de transferência de dados peer-to-peer e a produção/consumo em massa de aparelhos eletrônicos com entrada USB (que lêem mídia digital direto de flash drives e HDs externos com muito mais espaço de armazenamento que os 750Mb dos CDs ou 4Gb dos DVDs) ajudaram bastante a solidificar esse novo processo, mas os altos custos de confecção e divulgação de álbuns em mídia física também foram decisivos para que a realização desses processos online ganhasse o gosto dos artistas.

Os músicos que fazem parte da Geração Coca Zero podem não acreditar, mas quem possui mais de trinta primaveras lembra de que, não muitos anos antes de surgirem os primeiros mp3 players, ainda era preciso entrar em estúdio, gravar as músicas em fita e editar os trechos com lâminas de barbear e fita adesiva, até chegar ao produto final. Com a modernização do processo de gravação, o analógico deu lugar ao digital e os discos de vinil e a fitas-cassete foram depostos pelo CD, que reinou absoluto como a mídia padrão do mercado na última década do século passado. O processo mudou, mas os gastos continuaram os mesmos: o artista que não tinha o apoio de uma gravadora arcava os com os custos de pré-produção, gravação, mixagem, masterização, criação da arte do encarte, prensagem e divulgação do seu trabalho. Somando os valores de todas as etapas desse processo, chegamos a uma cifra com muitos zeros no final, quantia que a maioria dos artistas independentes não possui e que prefere investir em um home studio. E mesmo hoje em dia, com a mídia física perdendo espaço para a digital (seja ela legalizada ou pirata), as prensadoras – grandes culpadas pelo boom da pirataria que fez a mídia digital por em xeque o CD por conta dos altos custos de prensagem –, ainda acreditam que podem cobrar preços exorbitantes por um produto que correr risco de desaparecer das prateleiras, em tempos de entradas USB, flash drives, HDs externos e internet banda larga.

Sim, o CD está em xeque, mas não xeque-mate. O LP também foi desenganado várias vezes e ainda está por aí, graças aos poucos, porém fiéis apreciadores, que mantêm acesa a chama das mídias abandonadas pelo grande público. E não é preciso ser vidente para enxergar que o futuro das mídias físicas é virar tiragem limitada.

Pensamento acerca do tempero que tanta falta faz nas prateleiras do mercado

Quando comecei a aprender meus primeiros acordes no violão, ouvi falar que atitude é o principal elemento no som de todo grande músico e que a combinação de atitude e talento era o segredo do sucesso. Durante anos acreditei nessas afirmações, mas faz tempo que minha fé anda abalada. Hoje em dia, ligo o rádio e corro o dial de um lado pro outro, procurando alguma coisa diferente das músicas sem conteúdo que são empurradas para a massa todos os dias, mas tem tanto lixo na programação das emissoras que só tenho vontade de desligar o aparelho. Às vezes, até de quebrá-lo.

Há tempos que as grandes gravadoras decidem o quê e como os artistas devem cantar, como devem se vestir e principalmente quem é a bola da vez no panorama musical, o que gera uma enxurrada de artistas pré-fabricados, com sonoridade e visual praticamente idênticos se acotovelando por quinze minutos de fama, enquanto veteranos e jovens talentos que insistem em preservar suas identidades não têm vez no mainstream. Aliás, não existe termo melhor para definir o mainstream musical do que “mercado”, afinal sujeitar os artistas a espremerem sua criatividade em três minutos e meio de música que seguem a fórmula padrão do pop estrofe I + estrofe II + refrão + ponte + refrão = hit não é promover cultura, é comércio puro. Infelizmente, cultura é o que menos importa no mercado, importante mesmo é o lucro. Desde que se obtenha lucro, não importa se um álbum tem dez músicas exatamente iguais, letras pobres que transmitem valores nocivos ou um encarte apelativo. Sim, o lucro é um fator importantíssimo, mas não deveria vir em primeiro lugar, não quando o assunto é cultura. E o que mais me impressiona em toda essa engrenagem é que, mesmo com as gravadoras perdendo terreno progressivamente por conta da maior acessibilidade aos equipamentos físicos e às tecnologias virtuais de gravação, aliada à facilidade de divulgação via internet, os supostos donos da atitude, os músicos, nada fazem para modificar o panorama. Simplesmente cruzam os braços e esperam chegar o dia quando magicamente tudo vai mudar, alheios ao fato de que as portas da senzala, há muito, estão abertas.

É inadmissível que tantos artistas cujo talento não conhece fronteiras, filhos de uma cultura musical de proporções colossais como a nossa, aceitem calados serem padronizados e vendidos como comida enlatada; e que tantos outros talentos sejam relegados ao underground por se recusarem a ter sua liberdade criativa limitada por supostos gênios da produção musical, que defendem o conceito de “quanto mais podre, melhor” visando apenas o lucro pessoal. Não é possível aceitar que um palco tão grande quanto o da música brasileira tenha apenas um microfone. Há espaço para todos e todos merecem estar no show.

Onde está a atitude? É possível parar a engrenagem, já que somos nós o combustível que a alimenta.

Alguma coisa no jeito como ela se movimenta mexe diretamente com o meu básico instinto. Não é algo óbvio como os trajes minúsculos ou como ela rodopia no poste, mas um pequeno detalhe imperceptível ao resto da platéia, algo indetectável pelo olhar dos interessados apenas na farta trivialidade que a blusa amarrada e a minúscula saia quadriculada nem se esforçam em esconder. Talvez o jeito como as gotículas de suor brilham sob a luz negra e transformam-se em raios azulados a cada giro ou como o estroboscópio a faz sorrir quadro a quadro, um perfeito ensaio fotográfico que, a cada rodopio, ganha o movimento felino contido no seu engatinhar preguiçoso pela passarela. Talvez a idéia paradoxal de ver sem poder tocar, não sei ao certo. Apenas sei que alguma coisa no jeito como ela se movimenta me estimula além do racional, naquela área que toda pessoa de bem e temente a Deus se envergonha de mostrar mesmo com a luz da mesinha de cabeceira apagada, nos breves instantes de petit mort com a pessoa amada; alguma coisa em cada passo dado sobre os saltos agulha corta dos meus ouvidos a batida drum ’n’ bass e remove da minha vista tudo que não seja a sua silhueta, inunda minhas narinas com seu cheiro e faz minha pele arder em febre, fazendo-me salivar. Alguma coisa no jeito que ela se movimenta desperta-me o cio e a vontade quase irresistível de saciá-lo segurando-a pelas ancas em uma das mesas do bar, com toda agressividade e beleza de um casal de tigre copulando. É alguma coisa no jeito que ela se movimenta, eu só não sei o que é.

Mais de dois bilhões de habitantes do terceiro planeta à partir do Sol, tomados por um incrível sentimento de perplexidade, franziram a testa ao mesmo tempo ao notar que seus calendários, que deveriam registrar o primeiro dia de março, mostravam-lhes um trigésimo dia em fevereiro. O barulho dos bilhões de computadores sendo resetados ao mesmo tempo, somado ao ruído de bilhões de calendários de papel sendo manuseados fez com que pássaros por todo o mundo se assustassem e alçassem vôo rumo a um céu estranhamente cintilante, que fez com que os pilotos de todos os aeroportos do planeta se mantivessem em solo, observando boquiabertos, juntamente com suas tripulações e passageiros, o estranho brilho prateado que descia do firmamento e lentamente dourava o chão. Então, ouviu-se um estrondo como nenhum outro, que fez com que todos parassem o que estavam fazendo e saíssem de suas casas para assistir um carro de fogo surgir nas nuvens e cortar o céu dos trópicos em alta velocidade. O bólido incandescente desacelerou e pousou com suavidade no canteiro central de uma avenida movimentada, fazendo que os transeuntes se aglomerassem à sua volta, assustados e atraídos pelas labaredas azuladas. Subitamente, as portas do carro de fogo se abriram e seu passageiro se revelou para os que assistiam a chegada do enviado do Céu.

– Véio, é Jesus! – disse um motoboy, agarrando-se à touca que usava. – Mas ele não tá meio… fortinho?
– Que Jesus o quê, mano… Jesus tem cabelão, a testa do sujeito aí vai quase na nuca, ‘tá ligado? – sussurrou um contínuo, tamborilando os dedos no envelope de papel pardo. – Será que é Moisés? Eu não ‘tô vendo cajado nenhum…
– Vocês são dois ignorantes. – disse uma velhinha, abrindo caminho na multidão para ver o carro de fogo mais de perto. – Se o calendário está marcando 30 de fevereiro, esse só pode ser São Nunca.

O santo limpou a garganta e a multidão ficou em silêncio. Então sua voz grave ribombou pela avenida.

– Ouvi e ouvi com atenção, pois quem vos fala é emissário d’ Aquele cujo nome é Eu Sou! Venho do Reino dos Céus para avisar-lhes que Deus está muito descontente com o rumo das coisas aqui na Terra e… o que a senhora acha que está fazendo? – disse São Nunca, indignado com a velhinha, que passava a bengala nas chamas do carro.
– É o mesmo carro de fogo que levou Elias ao Céu, não? – perguntou a velhinha, examinando a bengala por cima dos bifocais. Não havia marcas de queimadura.
– Sim, é o mesmo carro que levou o Elias. – respondeu São Nunca, fingindo paciência. – Se a senhora me dá licença, eu preciso falar ao povo sobre…
– Dá licença, santidade! – disso o contínuo, retirando os fones de ouvido enquanto se aproximava do santo. – Desculpa aí a intromissão da mina terceira idade, mas é que o povo não ‘tá acostumado a ver essas carretas de fogo por aí, ‘tá ligado? Aliás, sem querer ser parecer abusado nem nada… qual é o consumo?
– Oito quilômetros por litro na cidade, onze na estrada e nada no Inferno, onde tudo é quebra-molas. – respondeu o santo, impacientando-se. – Jesus amado… é para isso que me tiraram do Céu? Nem um minuto e já tem gente atrapalhando o meu serviço! Quer saber? Eu não vou é falar mais nada com vocês. Para que lado fica essa tal de ONU?
– Ih, mano… tu ‘tá longe. A ONU fica lá… lá… lá fora do Brasil, ‘tá ligado? – Disse o motoboy, encolhendo-se diante do santo, visivelmente zangado. – Mas pra alguém que já fez dois milagres num dia só, fazer aparecer 30 de fevereiro no calendário e parar as duas pistas da Paulista sem ninguém reclamar nem tomar multa, chegar lá é moleza, certo? – disse e sorriu para São Nunca, que não parecia menos mal-humorado.
– Nova Iorque. – disse a velhinha, firmando-se na bengala.
– Capital dos Estados Unidos! – o motoboy e o contínuo disseram em uníssono e se abraçaram, entre risos.
– A capital dos Estados Unidos é Washington, seus ignorantes! – a velhinha ralhou com os dois, sem tirar os olhos do santo. – É uma cidade enorme, no norte das Américas.
– Já que é tão sabida, a senhora vai comigo até a ONU – decretou São Nunca e as portas do carro de fogo se abriram. – E vocês dois vão junto para ajudá-la. – mal o santo falou e ambos correram para ajudar a velhinha a entrar no carro.

São Nunca olhou para o céu, que ainda cintilava, mais uma vez antes de entrar no carro de fogo e fez o sinal da cruz, pedindo paciência a Deus na próxima etapa de sua jornada. Então o carro de fogo subiu e apontou para o norte, desaparecendo do olhar incrédulo dos transeuntes da Paulista em meio ao firmamento prateado.

Continua