Sobre Márcio Silva

Nascido no Rio de Janeiro em 1978, Márcio Silva é músico por profissão e escritor por esporte. Vive na Ilha do Governador, bairro da Zona Norte carioca, cujo cotidiano o inspira a compor suas músicas, elaborar seus textos e tramar novas formas de acabar com as Kombis.

A melhor aluna de português da classe era Dulce. Seus cadernos eram um exemplo de capricho, limpos e recheados da letra redondinha que apenas as alunas aplicadas possuem. Eram impecáveis, como o pequeno diário onde Dulce escrevia, suspirando, toda noite antes de dormir. Dulce também era a melhor aluna em Ciências, sabia que o ponto de fusão da água se deva à temperatura de 0° Celsius e que essa temperatura equivalia a 32° Fahrenheit e 273,15° Kelvin. Sabia também que seu sangue parecia evaporar quando, olhando pela janela da sala de aula, seus olhos encontravam o sorriso de Lacerda, bebericando aguardente e jogando bilhar no botequim do outro lado do cruzamento. Ninguém tinha notas mais altas em Francês que Dulce, sua pronúncia e fluência eram impecáveis, seu domínio da língua impressionava a professora e os colegas de classe. E também impressionou Lacerda, que descobriu o frescor dos contornos adolescentes de Dulce na viela atrás do Bar do Carreirinha, quase na hora da missa. Dulce era a melhor aluna de matemática do colégio: sabia de cor a tabuada de 7 e sabia diferenciar um triângulo escaleno de um isósceles. Entretanto, a aritmética a traiu um dia, quando 1+1 deu 3 e o pai de Dulce foi tirar a prova dos nove com Lacerda no bar do cruzamento, arrastando-a consigo pelos cabelos. Dulce era melhor aluna em Religião, sabia de cor as rezas e o nome dos apóstolos e sabia que os suicidas não podem cruzar os portões do Paraíso, mas isso não a impediu de se atirar na frente de um carro de praça quando viu o vermelho brotar no branco brim do paletó do seu primeiro amor.

Gotas d’água chocavam-se violentamente contra a janela, endossando a notícia que o locutor de voz sorumbática acabava de transmitir no rádio: aquele seria o maior temporal que a cidade via em cinco anos. Sentado na beira da grande cama de casal, alheio à barulheira da chuva martelando janelas, calhas e telhas, ele olhava fixamente uma velha fotografia em preto e branco como se quisesse mergulhar nas recordações impressas naquele pedaço de papel fotográfico em suas mãos, que mostrava um dia completamente diferente daquele dia chuvoso e plúmbeo. Um dia feliz, um sábado perfeito de sol.

Alguém batia à porta do quarto, mas seus ouvidos estavam inundados com o riso das crianças que corriam pela grama do parque naquela tarde de sábado em que ele ajudara àquela bela desconhecida recuperar o cachorro que havia se soltado da coleira. Bastou lembrar da primeira troca de olhares para um turbilhão de recordações inundasse seu pensamento com a mesma força da chuva que caia pesadamente sobre a cidade. Reviveu jantares, passeios, sussurros, brigas, beijos, o som da respiração pesada; e assim como o céu cinzento, ele chorou copiosamente.

As batidas na porta do quarto aumentaram de intensidade e ele despertou de seu devaneio. Olhou pelo vidro semi-embaçado e fitou a enchente carregando correnteza abaixo a sujeira das ladeiras próximas, então escancarou a janela e deixou a chuva entrar e molhar-lhe o corpo, como se toda tristeza que sentia pudesse ser carregada pela água e desaparecer no carpete, junto com suas lágrimas. As batidas aumentaram de intensidade e, mesmo com o barulho do temporal castigando tudo sob o firmamento, era possível ouvir uma voz fora do quarto pedindo que ele abrisse a porta. Lentamente ele encaminhou-se para o armário, enquanto a maçaneta girava violentamente. De dentro do armário tirou um terno preto, com corte italiano. Os gritos e as batidas continuavam do lado de fora do cômodo, mas ele pacientemente deu o nó na gravata e, sentado à beira da cama, laceou os sapatos. Segurou mais uma vez a fotografia e um sorriso brotou de seus lábios no mesmo instante que uma chave destravou a fechadura e a porta se abriu, batendo contra uma pesada cômoda que barricava a porta.

– Abra! – disse o dono do braço que tentava avançar pela fresta da porta entreaberta. – Abra, pelo amor de Deus! Sou eu, seu irmão!
– No momento que eu a vi sabia que ela era perfeita para mim – ele disse, olhando para o belo rosto em preto e branco na fotografia.
– Pelo amor de Deus, não faça nenhuma besteira. – o braço tentava, inutilmente, empurrar a porta. – Uma mulher que abandona um homem bom como você no altar não merece que você cometa uma estupidez, irmão! Abra esta porta! Você vai encontrar uma mulher que o mereça de verdade!
– Já a encontrei, irmão. Já a encontrei. – ele disse e com delicadeza beijou a testa da moça que jazia sem vida, vestida de noiva, na grande cama de casal – Ela está mais bonita do que quando nos conhecemos – ele disse, ajeitando o retrato em preto e branco sobre seus seios e deitando-se ao lado dela. Abriu a gaveta do criado mudo e de lá tirou uma pistola. O vento forte fez com que as gotas de chuva alcançassem a cama, diluindo no colchão o vermelho que se espalhou após o estampido.

A pálida luz que tremia sobre a entrada do beco morreu quando Max Porter jogou a guimba do cigarro em uma poça d’água, antes de esgueirar-se viela adentro. Chovia o suficiente para abafar o barulho de seus passos, mas a chuva e o barulho eram a menor de suas preocupações: era hoje o dia do acerto de contas. Parou atrás de uma caçamba de lixo e observou a porta dos fundos do Havana Club se abrir e seu proprietário, o empresário Wilson Creed, sair sozinho em seu impecável smoking branco, abrir despreocupadamente o guarda-chuva e caminhar na direção de um sedan azul-marinho estacionado em frente à porta. A mão direita de Porter alcançou o cabo da pistola e o apertou com força. Aquela era a hora do acerto de contas. Porter saiu de trás da caçamba e, com a arma em punho, rendeu o empresário.

– Parado aí, Creed. Temos algumas contas a acertar.

Wilson Creed parou e levantou a mão livre, em sinal de rendição. O sorriso de Porter se abriu: teria enfim sua vingança, assistiria sua arma cuspir chumbo quente contra o corpo do homem que lhe custou dez anos na prisão e, depois que o corpo de Creed estivesse estirado sem vida sobre o chão do beco, enfim poderia beijar pela última vez seus lábios.

– Prepare-se para morrer, Creed. É hora de você… ei, ei, ei! Dá para repetir a última frase?

(…) enfim poderia beijar pela última vez seus lábios.

– Desculpa, mas isso não vai acontecer. Por que eu tenho que beijá-lo?

Porque é o que está no roteiro.

– Então faça o favor de reescrever o roteiro, porque eu não vou beijar esse cara. Para início de conversa, isso tudo não faz o menor sentido: eu chego aqui no beco querendo encher o sujeito de chumbo porque ele me fez passar dez anos na cadeia e no final eu beijo ele na boca?

Bom, muitos homens se descobrem gays após longos períodos na prisão.

– O quê? Você está falando sério? Muitos homens são estuprados nas prisões, isso sim.

Você quer dizer que ninguém pode se descobrir na prisão sem que haja violência sexual? Ninguém tem revelações sobre sua própria vida na cadeia?

– Não estou dizendo isso… mas também não é esse o caso. O caso é que eu não vou beijar esse sujeito!

Posso saber por que não?

– Porque não, ué.

Ué, uma explicação têm que ter.

– Que tal esta: eu não quero beijar o sujeito?

Mas é só uma cena!

– Ah, é só uma cena? Então por que você não vem até aqui e termina a cena para mim?

Eu não posso ir até aí, eu sou o narrador.

– Ah, sei…

O que você quer dizer com isso.

– Eu quero dizer que você é um hipócrita. É muito fácil mandar os outros beijarem o sujeito no beco, mas você mesmo não beijaria o cara.

Você está distorcendo as minhas palavras… podemos continuar com o texto?

– Claro que não. Eu não continuo enquanto você não admitir que não beijaria o… Creed, é esse o nome dele não? Sim, é sim. Então… eu não continuo enquanto você não admitir que não beijaria o Creed e enquanto não alterar o final da cena.

Eu não tenho que admitir nada. Eu sou o narrador, a minha função é esta e eu a estou cumprindo, ao passo que você, que deveria ter beijado o Creed para que o texto continuasse, não está cumprindo o seu papel. Você não é profissional.

– Eu não sou profissional? Eu não sou profissional? Eu estou aqui num beco mal iluminado, debaixo de chuva e porque eu me recuso a beijar um cara pelo fato de eu não ver nexo nesse ponto da trama, enquanto você tenta se agarrar na sua desculpinha esfarrapada de “eu sou o narrador” e não quer admitir que você também não beijaria esse sujeito aqui com esse terninho cafona…

– Que foi? Vai ficar mudinho agora? Não vai mais falar comigo?

– Vai me dar tratamento de silêncio? Depois eu que não sou profissional. Você é um crianção.

Porter abre seu sobretudo, revelando-se vestido de corpete, cinta-liga e meia-calça arrastão vermelhos, e começa a rebolar em volta de Creed.

– Ei, ei, ei… pára com isso, rapaz!

Ué, você não quer mudar a cena? Pois eu estou mudando a cena. Seja feita a vossa vontade.

– Escuta aqui, rapaz: você quer resolver isso no braço?

Eu? Brigar com você?

– Desce aqui e a gente resolve isso.

Eu não vou descer até aí.

– Mariquinha…

Não me chame de mariquinha!

– Mariquinha! Mariquinha! O narrador é um maricas.

Pára de me chamar assim. Eu não sou maricas!

– É um maricão, isso sim! Mariquinha, Maricota! Vai chorar, seu maricas?

Pára… de… me… pára…

– Err… você está chorando mesmo? É sério isso?

Não… eu não estou chorando. São as minhas alergias…

– Rapaz, também não precisa chorar, eu só estava…

Só estava atrapalhando o meu trabalho! Eu não escrevi o texto, eu sou apenas o narrador. E ainda tenho que aturar essa… humilhação? Ser chamado publicamente de mariquinha? Eu não tenho culpa de nada, eu sou apenas o narrador. Se eu pudesse, eu mudava a cena, mas eu não posso! Eu só leio o que está escrito.

– Ok, ok, eu peço desculpas. Você não é mariquinha.

Mesmo?

– Mesmo.

Obrigado. Podemos continuar com o trabalho?

– Tudo bem, tudo bem… já que não foi você quem escreveu esse texto, não pode modificar e eu preciso mesmo da grana vamos lá… deixe-me ler a cena de novo. Ok, a arma cospe chumbo, vamos lá e… pronto, Creed está morto. Agora o corpo dele está jogado no chão do beco, seja o que Deus quiser… pronto, está beijado. E agora?

A vingança de Porter estava concluída, mas ele ainda precisava correr para alcançar sua amada Jane Lee antes que o último trem partisse… eu não posso ler isso. É clichê demais!

– Ei, ei, ei! Como assim? Vai terminar de ler sim, senhor! Eu acabei de beijar um cara, por que você não vai ler o texto?

Depois dessa cena, o texto vira um amontoado de lixo! Clichê em cima de clichê! Eu me recuso a tomar parte disso!

– Ah, você se recusa, seu mariquinhas? Eu vou aí na cabine e eu quero ver você não ler esse texto!

Não me chame de mariquinhas!

A banda alemã Dunkle Macht (1980-1982) é considerada, por muitos estudiosos do rock ‘n’roll, uma das mais revolucionárias de todos os tempos. O quarteto, formado por Andreas Kuttner, Karl Göbber, Maik Üller e Sven Klauswassen, surpreendeu o cenário underground de Berlim Ocidental com seu som ultrapesado e sua formação, completamente fora dos padrões do heavy metal oitentista: Andreas no bombardão, Karl no trombone de vara, Maik nos saxofones alto e soprano e Sven no vocal e no flautim. O som do Dunkle Macht foi batizado pela mídia como schlag metall (metal de sopro) e tinha tudo para dar certo, mas infelizmente a carreira promissora do grupo foi interrompida por um grupo de skinheads, que espancou o quarteto até a morte no camarim da boite Große Wurst, logo após sua primeira e única apresentação. Os poucos fãs do Dunkle Macht ainda visitam o pequeno monumento erguido em homenagem à banda na Potsdamer Platz e lá depositam flores e instrumentos de sopro, no aniversário da tragédia.

– Amor?
– Sim, querida?
– Podia me trazer um rolo de papel higiênico? Acabou aqui no banheiro.
– Já vou levar, bem. Deixe-me só colocar uma…
– Ok!
– … camisa… ué?
– O que foi, amor?
– Querida, cadê a minha camiseta?
– Qual delas, amor?
– A minha camiseta! Aquela camiseta do Uriah Heep.
– Ah, meu bem… aquele trapo?
– Querida, eu não estou encontrando a minha camiseta…
– Não sei porque você gosta tanto daquela coisa velha, Antônio Carlos.
– Meu bem, onde está a minha camiseta?
– Eu joguei fora.
– Como foi que você disse? Pensei ter ouvido você dizer que tinha jogado fora minha camiseta.
– Joguei fora! Passou um rapaz pedindo roupas velhas e eu dei a ele.
– Jesus amado, Maria Fernanda! Você deu a minha camiseta preferida sem me consultar?
– Ah, pára de show, Antônio Carlos. Aquele… troço, estava todo ruço e desfiado, a gola toda puída…
– A minha camiseta autografada do Uriah Heep, Maria Fernanda? Você deu a minha camiseta autografada?
– Era praticamente um pano de chão e você sabe disso. Dei mesmo, porque eu não agüentava mais vê-lo andando maltrapilho por aí. Você acha que eu gosto de ver o meu marido andando por aí como um mendigo? Antônio Carlos, eu só quero o melhor para você… e vamos esquecer essa droga de camiseta? Pode trazer o papel higiênico, por favor?
– Ok, ok… papel higiênico. Aqui está.
– Muito obrigada. Um dia você ainda vai me agradecer e… ei, ei! O que é isto? Antônio Carlos! Isto não é papel higiênico, é a nossa certidão de casamento!
– E existe papel mais importante no mundo, Maria Fernanda? Eu só quero o melhor para você…

VIII.

Com os olhos vermelhos e as pupilas dilatadas, Gérson encontrava-se sentado no vão entre o sofá de couro preto e a parede, segurando duas facas de açougueiro. Sua respiração era pesada e seu coração batia em ritmo acelerado, como se ele acabasse de disputar a final dos cem metros rasos em uma Olimpíada. Os olhos giravam inquietos nas órbitas, escaneando cada centímetro do apartamento. “Ninguém vai me pegar, ninguém vai me pegar”, ele sussurrava com as facas cruzadas à frente de seu rosto. Uma gota de suor escorreu pelo seu rosto e mergulhou na barba por fazer. Fazia duas noites que ele não dormia. Gérson tinha medo que o matassem em seu sono e ninguém o mataria sem uma luta.

Levantou-se olhando com cuidado cada canto da sala e foi ao banheiro. Empurrou as portas do corredor com os ombros, entrando em cada um dos dois quartos com as facas em riste antes de entrar no banheiro. Nunca cairia em uma tocaia. Abriu o armário sob o espelho e procurou o pequeno frasco, mas lembrou-se que havia consumido o resto da cocaína minutos atrás, quando quase caíra no sono. E ele não podia dormir. Se ele cochilasse, talvez não acordasse mais. Gérson não queria morrer, era jovem demais para deitar-se em um caixão com chumaços de algodão nas narinas enquanto as pessoas comentavam como ele era jovem e bonito e que era um grande desperdício de vida um rapaz tão novo ir ao encontro do Criador sem ter se casado, sem ter tido filhos, sem ter tido cabelos brancos, sem ter conhecido todo o país e sem ter visto a Seleção jogando no Maracanã, sem ter comido acarajé, sem ter comido vatapá e sem sequer ter comido uma baiana. Gérson não queria fazer aquilo tudo, mas e se ele um dia quisesse? Morto ele não ia poder fazer. Então ele decidiu que não dormiria. Mas precisava de mais brilho. Seus olhos começavam a perder a vigilância, piscando cada vez mais. Era difícil mantê-los abertos sem o brilho. Suas mãos tremiam novamente, tremiam como varas verdes, tremiam como o México tremeu naquele grande terremoto nos anos 80. Ele precisava de mais, precisava de mais, não muito mais, apenas o que o mantivesse acordado e vivo. Teria que sair. Teria que ir buscar. Foi até o quarto e calçou um par de tênis que estava embaixo da cama e abriu o armário em busca de uma camiseta limpa. Vestiu-se, pegou a chave do carro em cima da escrivaninha e saiu em direção à porta, mas ao tocar na maçaneta, lembrou-se que não podia sair com as facas. Algum guarda poderia pará-lo, talvez extorquir algum dinheiro, mas isso seria mal para sua carreira. As pessoas não gostam de pessoas com ficha policial. Colocou as facas em cima da pia e abriu a porta. O corredor do prédio estava mergulhado no breu. Gérson ficou temeroso de sair. Estava desarmado, seria um alvo fácil, mas ele precisava da cocaína. Respirou fundo e colocou o primeiro pé fora do apartamento, depois o outro. Virou-se para trancar a porta do apartamento, sentiu alguém agarrar com força seus cabelos. Ele tentou gritar, mas outra mão colocou-se em frente a sua boca, silenciando-o. Gérson tentou, em vão pedir socorro. Seus gritos, abafados, perderam a força quando sentiu entre as costelas a rigidez fria do golpe de uma lâmina. Seus olhos se arregalaram quando sentiu que o metal avançou pele e músculo adentro e perfurou seu fígado. O sangue quente e escuro escorreu por suas pernas trêmulas e ele ainda tentou lutar, mas outra estocada atingiu-lhe o diafragma e Gérson começou a soluçar, golfando sangue. Seu corpo dobrou-se para frente e ele caiu de joelhos sobre o capacho da porta. Com as mãos segurando o abdômen, ele emitiu um gemido fraco, quase um miado, e então sentiu a lâmina tocar sua bochecha e arrastar-se vagarosamente por sobre seu rosto livre se rugas de preocupação, abrindo um fino corte de onde seu sangue jovem desceu imediatamente em um fino filete escarlate. E então sua mente turvou-se e a última coisa que Gérson sentiu foi a pressão da lâmina arrebentando sua traquéia quando a faca trespassou seu pescoço. Então tudo ficou escuro e quieto.

IX.

– Você viu o Gérson na festa, amor? – Walter sussurrou no ouvido de Fernanda, que conversava com as esposas de dois diretores da fábrica Dortella. Como ele pensou, todos no salão não tiravam os olhos de Fernanda. O vestido ficara ainda mais bonito envolvendo o belo corpo da sra. Dortella.
– Acho que ele não veio, querido – ela respondeu, ainda sorrindo para as duas senhoras. E já está começando a ficar tarde. É melhor mandar servir o jantar.

O salão nobre Jóquei Clube estava cheio de gente. Empresários, políticos, jogadores de futebol, socialites e alguns parentes compunham a lista dos trezentos e cinqüenta convidados para as bodas de Walter e Fernanda Dortella. A banda tocava light jazz e as pessoas conversavam sobre a festa, sobre o jantar e sobre as vidas das outras pessoas na festa, enquanto os garçons circulavam com bandejas de champanha e uísque importado. Precisamente à meia-noite, a banda parou de tocar e Walter e Fernanda subiram ao palco para fazer um brinde. Os convidados fizeram silêncio e Fernanda começou seu discurso.

– Eu gostaria de, acima de tudo, agradecer a todas as pessoas que hoje estão aqui presentes, pois sem vocês esta noite não seria tão brilhante – ela disse e virou-se para Walter. – E queria também agradecer ao meu marido, pois sem ele eu não estaria aqui, feliz e completa. Obrigado, meu amor.

O salão inteiro aplaudiu o discurso de Fernanda, que colocou as mãos na frente da boca e lançou um beijo à multidão e depois beijou o marido nos lábios. Grande parte dos homens no salão daria um braço para estar no lugar de Walter naquela hora. Após receber a carícia da esposa, o empresário pegou o microfone, olhou para as pessoas no salão e começou a falar.

– Bom, primeiro eu gostaria de avisar que a segurança tem ordem de expulsar quem não bater palmas – o salão inteiro explodiu em gargalhadas. – Brincadeiras à parte: muito obrigado a vocês por dividirem conosco esta alegria que é comemorar doze anos de uma união maravilhosa, que me deu mais alegrias do que eu podia esperar – ele disse e piscou para Amanda, que retribuiu a piscadela do pai com um sorriso. – E gostaria também de agradecer a minha esposa por ter segurado minha mão nas horas de dificuldade, por ter sorrido nas horas de alegria, por ter me amado em todas as ocasiões do nosso relacionamento e, principalmente, por ter me dado a Amanda, que é a maior alegria que eu tenho neste mundo – um garçom subiu ao palco com duas taças de champanha em uma bandeja. Walter as pegou e entregou uma à sua esposa, erguendo sua taça e olhando nos olhos de Fernanda. – Eu brindo ao seu amor, Fernanda.

Todas as taças do salão se ergueram e os aplausos encheram o ar. Os olhos de Fernanda encheram-se de lágrimas e ela brindou com o marido, brindou ao amor que Walter sentia por ela e pelo amor que ela sentia por ele. E brindou pela noite maravilhosa que estava se desenrolando. Tudo era belo demais, feliz demais, as luzes brilhantes demais. E então, após um clarão, as luzes se apagaram.

X.

Um calor incômodo fez com que Fernanda despertasse. Onde ela estava? Que horas eram? Sentia um cheiro enjoativo de bosta de vaca. Abriu os olhos, mas sua vista estava embaçada e ela achou que estava em um tipo de barracão. Havia moscas zumbindo e pousando em seus cabelos, mas quando ela tentou espantar uma grande mosca-varejeira que pousara em seu rosto, percebeu que não conseguiu mexer os braços. Quando seus olhos voltaram ao foco, ela pode ver que estava amarrada a uma pilastra de madeira. Suas roupas haviam sumido e havia alguém amarrado ao seu lado. Ela piscou algumas vezes e então conseguiu identificar o rosto próximo ao seu.

– Gérson? Cadê o Walter? O que estamos fazendo aqui?
– Eu estou aqui, Nanda. E pode parar de gritar, pois o Gérson não vai acordar – disse Walter, sorrindo. Estava sujo e sem camisa, arrastando um grande saco de lona.
– Walter, o que está acontecendo? O que está acontecendo, amor? – ela perguntou, piscando.
– Durante doze anos eu te amei, mas meu amor não era o suficiente, não? – ele disse, seco, abrindo o saco e tirando de lá de dentro uma pá. – Eu amei, cuidei… até cozinhei para você. Aliás, você gostou da comida não? Carne à chinesa. Você sabia que eles comem cachorro na China?

O estômago de Fernanda se contraiu e ela vomitou. Ela não vira Zazá o dia inteiro.

– Enojada? Fique sabendo que você me enojou muito mais – ele disse, lacônico.
– Do que você está falando, Walter? – A voz de Fernanda começou a ficar chorosa. Suas mãos transpiravam.

Fernanda sentiu o rosto arder quando a mão do marido a acertou, espalmada, no rosto. Sentiu que havia sangue correndo de onde o tapa a acertara.

– Você ainda tem a pachorra de perguntar do que eu estou falando, sua puta? – a voz de Walter perdera o gelo. Agora estava carregada de raiva.
– Walter, é mentira. Eu juro que é mentira – Fernanda começou a chorar. Seu rosto ardia muito.

Outro tapa estalou e Fernanda gemeu, chorando e soluçando. Walter mexeu no bolso traseiro da calça e puxou de lá o envelope azul-celeste, abrindo-o e tirando uma fotografia de seu interior.

– Isto aqui é mentira? Isto aqui é mentira? – ele esfregava a foto no rosto de Fernanda. Era uma foto de Fernanda e Gérson. Estavam nus. – Você estava sorrindo, sua puta. Vai dizer que ele te estuprou? Ele te estuprou e você sorriu? Estava sendo estuprada e estava sorrindo, na minha cama, sua vagabunda? – Walter espumava de raiva. Seu rosto estava vermelho.

Fernanda abaixou a cabeça e começou a gemer baixinho. Não havia mais defesa. Tudo o que podia fazer era suplicar a Walter que a deixasse ir embora. Ela jurou que não pediria pensão e que esqueceria da filha, mas ele não a olhava, apenas despejava com a pá aos pés da esposa o conteúdo do saco. Carvão vegetal.

– Você sabe qual é o segredo da carne Dortella? – ele disse, rindo. – Uma vaca que passe o dia inteiro deitada e um bom corte – ele disse, aproximando-se dela, com uma grande faca de açougueiro.

Fernanda encolheu-se e começou a gritar, pedindo para que Walter não a cortasse, mas ele apenas colocou a faca paralela ao rosto dela e começou a gargalhar. Ao abrir os olhos, Fernanda entrou em desespero: o reflexo na lâmina mostrava seu belo rosto todo cortado. Por isso a ardência e o sangue. Ele escrevera “puta” várias vezes com a ponta da faca em seu rosto. O desespero aumentou quando ela percebeu que não era apenas o rosto, mas nos braços e pernas, no corpo todo. Ela começou a chorar convulsivamente e Walter apenas ria. Abaixou-se e tirou do saco de lona um saco menor, abrindo-o com os dentes e derramando um punhado do conteúdo em sua mão.

– Sabe por que precisamos de um bom corte? Porque só com um bom corte o sal pega direito na carne – ele disse esfregou com força a mão pelo rosto e pelo corpo de Fernanda. Ela gritou, com o corpo ardendo. A brutalidade de Walter fez com que os cortes se abrissem e jorrassem pequenos filetes de sangue e o sal encarregou-se do resto do tormento. Fernanda sacudia-se em desespero. Queria que aquilo fosse um pesadelo, queria despertar logo daquele pesadelo. Com os olhos cheios de lágrimas ela viu que Walter dançava, às gargalhadas, com seu vestido de seda à mão. Ele o atirou com força contra o rosto de Fernanda. – Eu sempre disse que eu era um açougueiro, amor. Agora aproveite, Nanda – ele disse, banhando a esposa e o cadáver do assistente em gasolina. – este sim vai ser um churrasco de seda.

Fernanda nada fez quando Walter riscou o fósforo. O fogo tomou envolveu rapidamente os corpos dos dois amantes e espalhou-se pelo abatedouro que um dia fora do pai de Walter. Sentindo o cheiro de sua carne queimando, Fernanda sorriu. Talvez por saber que o sofrimento havia terminado, talvez por saber que o fogo não permitiria que ninguém visse seu corpo perfeito todo retalhado. “Sim, Deus me quer bonita”, ela pensou, enquanto as chamas a conduziam à inconsciência.

Epílogo

– Quanto tempo até chegarmos em Miami, pai? – Amanda perguntou, abraçando o pai na fila do check-in.
– Algumas horas, filha – ele respondeu, com um sorriso pálido que mal mostrava seus dentes perfeitamente alinhados.
– E nós vamos à Disney todo fim de semana mesmo? – ela olhou para Walter, com um sorriso nos lábios que lembrava muito o sorriso de Fernanda.
– Sempre que você quiser, meu amor – ele sorriu e beijou a filha na testa. – Vamos, é a nossa vez – ele disse e encostou-se no balcão da companhia aérea, onde despachou suas grandes malas de couro e encaminhou-se em direção à sala VIP de mãos dadas com Amanda, que estava linda em seu vestido favorito, azul-celeste.

VI.

Sentado em frente à televisão, Walter fazia hora para ir dormir assistindo a um filme de caubói e bebendo uma cerveja. Já fazia isso havia tanto tempo que Fernanda nem mais se preocupava em chamá-lo para a cama. Ela não entendia como ele tinha paciência para assistir àqueles filmes em preto e branco, mas Walter era apaixonado por clássicos do western. Seu sonho de criança era desmontar de um cavalo preto empunhando duas Colt 45 e instaurar a ordem na cidade. Fernanda não sabia, mas quando pequeno Walter contava os dias para o fim de semana chegar, para que seu avô o levasse ao cinema para ver os filmes de caubói. Hoje ele os assistia sozinho em frente à sua TV. Todas as noites antes de dormir, como um pequeno ritual, uma homenagem à sua infância.

Assim que o filme terminou, Walter desligou a TV e caminhou para a cozinha. Colocou a garrafa de cerveja vazia na lixeira e bebeu um último copo d’água, apagou a luz e foi em direção ao quarto. Ao passar em frente ao escritório, viu pela porta entreaberta que o computador ainda estava funcionando, apenas o monitor estava desligado. Entrou no escritório e ligou o monitor. A tela foi clareando e a página que aparecia era da sua caixa de correios. Lá estava a mensagem que ele ia ler quando Amanda entrou no escritório. A mensagem da tal Celeste.

– Quem é você, Celeste? – disse ele, enquanto clicava na única mensagem não lida.

Apenas lia-se no e-mail a frase “espero que seu aniversário de casamento seja uma ocasião inesquecível”. Walter coçou o queixo, olhando para a tela sem entender a mensagem. Apagou o e-mail e desligou o computador, indo para o quarto e deitando-se ao lado de Fernanda. Abraçou a esposa e fechou os olhos, mas nem a cerveja nem o calor do corpo ao seu lado conseguiam fazer a mente de Walter parar de trabalhar. As engrenagens em sua cabeça trabalhavam movidas pelo enigma do remetente do e-mail. Quem era Celeste? Será que aquela mensagem era apenas um desejo de felicidades de alguma funcionária que ele não recordava o nome? Possível, já que Walter era dono de 25 lojas só no Estado do Rio de Janeiro. Levantou-se com cuidado para não acordar Fernanda e foi até o escritório. Ligou o computador, conectou-se e recuperou o e-mail apagado. Ficou algumas dezenas de minutos olhando fixamente para a tela, talvez esperando encontrar no e-mail de Celeste alguma mensagem oculta. Levou as mãos aos cabelos castanhos e curtos, e olhou para cima, como se a solução fosse cair do teto. Ao baixar os olhos para a bancada, um pedaço de papel azul no meio das contas chamou sua atenção. Era um pequeno envelope azul. Azul-celeste. Com sua mão direita, apanhou no porta-canetas um abridor de cartas em forma de gládio e começou a abrir o envelope com cuidado para não danificar o conteúdo, pois talvez naquele pequeno envelope estivesse a resposta de sua dúvida.

VII.

– É lindo! É lindo, Walter! – Fernanda saltava em torno do marido, abraçada com o vestido vermelho.
– Não tão lindo quanto você, meu amor – Walter sorria, exibindo seus dentes perfeitos em um sorriso que parecia dizer “sabia que você ia gostar”.
– Eu nem sei o que dizer, querido. É lindo demais! – os olhos de Fernanda brilhavam de felicidade.
– Você não precisa dizer nada, Nanda. Apenas tem que vesti-lo hoje à noite, na festa – Walter sorriu e beijou os lábios da esposa com paixão. – Agora deixe o vestido aí e vamos aproveitar que a Amanda está na casa da minha irmã e vamos para a sala de jantar, pois eu preparei um almoço especial para você.

A sala de jantar da casa dos Dortella, como as outras dependências da casa, era um cômodo amplo e arejado. As paredes brancas refletiam a sala a luz que entrava pelo janelão panorâmico no fundo do cômodo, que brindava a todos com uma vista espetacular da pedra nua de um morro próximo e a vegetação densa à sua volta. De frente para aquela paisagem, à cabeceira da mesa, Walter fez com que sua esposa se sentasse. Colocou ao lado do prato os talheres envoltos em um guardanapo de linho e saiu, voltando minutos depois trazendo a comida em uma bandeja de prata polida. Na louça branca do prato octogonal, tiras crocantes de cenoura e salsão ornavam um belo pedaço de carne mal-passada, coberto de alho e cebolinha. Fernanda respirou sobre a comida e começou a salivar ao sentir cheiro de gengibre e pimenta vermelha.

– O que é isso, Walter? Está bem cheiroso – ela perguntou, desenrolado os talheres e pousando o guardanapo no colo.
– É carne à chinesa. Não me pergunte o nome em chinês, pois é capaz de eu dar um nó na minha língua – ele sorriu enquanto abria uma garrafa de vinho tinto.
– Onde você conseguiu essa receita, amor? Está delicioso! – Fernanda disse, bebendo um gole do vinho recém-servido.
– Na Internet. É impressionante o que a gente encontra na Internet – ele sorriu, servindo-se de uma taça de vinho.
– Realmente está ótimo. Você não vai comer, amor? – ela perguntou, estendendo-lhe o garfo.
– Não, senhora – Walter colocou-se com as costas eretas, colocando um braço atrás do corpo e o em frente ao abdômen, com o guardanapo no antebraço. – Hoje sou apenas o seu garçom.
– Acho que sei como vou pagar a conta do restaurante – Fernanda sorriu maliciosamente, escorregando por baixo da mesa e abrindo a calça do marido. – Depois da sobremesa você me leva ao salão de beleza? – ela disse, olhando Walter nos olhos enquanto lambia seu sexo.
– Você já é bonita, amor – Walter sussurrou, com os olhos fechados.
– Mas vou ficar muito mais bonita para o meu homem – ela disse, beijando a virilha do marido.
– Levo… levo… – ele sussurrou, segurando-se com força no encosto da cadeira.
– Você gosta de me ver bonita, não gosta? – ela disse, fazendo bico e esfregando o pênis em seu rosto e levando-o à boca mais uma vez.
– Eu adoro… adoro… adoro… – os dentes de Walter se crisparam. O corpo do empresário se jogou para frente em um espasmo e ele segurou com força os cabelos da esposa, que soltou uma gargalhada e pegou o guardanapo do braço de Walter e enxugou a boca.
– Estou te esperando no carro, querido – ela disse, com um sorriso maroto nos lábio, deixando a sala de jantar, metade do prato e Walter com um sorriso bobo no canto da boca.

Continua