Sobre Márcio Silva

Nascido no Rio de Janeiro em 1978, Márcio Silva é músico por profissão e escritor por esporte. Vive na Ilha do Governador, bairro da Zona Norte carioca, cujo cotidiano o inspira a compor suas músicas, elaborar seus textos e tramar novas formas de acabar com as Kombis.

IV.

Walter olhou-se no espelho: tinha agora 40 anos, mas ninguém acreditava que ele tivesse mais do que 35 anos. Tirando uma ou duas entradas e alguns fios grisalhos em sua barba, a natureza o havia poupado do resto dos sinais de envelhecimento, como manchas ou linhas de expressão. Nem todos os homens chegavam aos 40 anos com o físico que ele exibia, a maioria de seus amigos estava fora do peso, mas Walter tinha o corpo de um ginasta. Exercitava-se 4 horas por dia, todo santo dia. Mas o que o fazia sentir-se mais jovem não era seu abdômen, mas a beleza de Fernanda. Aos 32 anos, Fernanda estava mais bonita do que nunca. Era impossível não notá-la, onde quer que ela estivesse. Seu corpo era perfeito nas medidas, nada faltando ou exagerado. Seu rosto parecia esculpido de tão belo e Walter costumava dizer que o rosto de Fernanda era a imagem da perfeição. E talvez fosse mesmo, pois ninguém conseguia desviar os olhos daquela mulher ou de seus olhos amendoados. Walter não se cansava de admirá-la. Sentou-se na beira da cama e afagou os cabelos da esposa, que dormia tranqüilamente. Andando devagar para não acordá-la, ele voltou ao escritório e juntou as contas que estavam espalhadas no chão, colocando-as de volta à bancada do computador. Na tela do aparelho, um ícone piscava, indicando que havia e-mails novos. O cursor do mouse correu pela tela e o empresário começou a separar os e-mails pessoais dos e-mails profissionais. “Eu devia contratar alguém para fazer isto para mim”, ele pensou, enquanto enviava a propaganda de um site pornográfico para a lixeira virtual. O último e-mail recebido chamou a atenção de Walter: apenas lia-se “espero que seu aniversário de casamento seja uma ocasião inesquecível”, assinado por alguém com o nome de Celeste.

– Você me ajuda com meu trabalho de geografia? – disse uma voz suave, vinda da porta. Era a voz de Amanda. Amanda era a única filha de Walter e Fernanda e a maior alegria que Deus tinha dado ao empresário. Os professores desfiavam elogios à sua inteligência, os pais se desmanchavam ante a sua candura. O falecido pai de Walter costumava dizer a todos que sua neta era com um raio de sol em um dia de chuva, e para Walter ela realmente era: mesmo quando o dia era difícil no trabalho e ele chegava em casa de mau-humor, era no carinho da única filha que ele encontrava o seu sorriso.
– Claro, amor. Você pode esperar o papai terminar de checar os e-mails? – ele disse com doçura.
– Ah, você fica muito tempo na frente do computador, pai – ela disse e franziu a testa. Tinha os mesmos olhos amendoados da mãe.
– Não é porque eu quero, filhota – ele disse e a puxou para perto de si, abraçando-a. – Façamos o seguinte: eu vou deixar os e-mails para amanhã. Agora nós vamos terminar o seu trabalho e vamos sair para tomar um sorvete. O que você me diz? – ele sorriu e desligou o monitor.
– Eu quero de morango – ela sorriu e abraçou o pai com força.
– Então de morango será! – ele a segurou no colo e a levou para fora do escritório.

V.

Escondida dentro de uma gaveta, no armário da roupa de cama, ficava uma caixa de charutos feita em madeira onde Fernanda costumava guardar fotos dos seus anos de solteira. Momentos da infância no Rio Grande do Sul, fotografias de colégio, momentos imortalizados na passarela. Se algum dos admiradores – e eram muitos – de Fernanda olhasse bem aquelas fotos, com certeza afirmaria que o conteúdo da caixa uma mostra da evolução da beleza dela. A cada pose de Fernanda parecia superar a anterior e nenhuma delas batia a do último evento onde desfilara, 10 anos antes. Era a foto preferida dela, depois de uma das fotos de infância onde ela brincava com dois patinhos. Fernanda gostava de apertá-la contra o peito e fechar os olhos, este era o modo como ela fazia sua mente voltar no tempo. Sentia novamente o calor dos holofotes fazendo-a transpirar e sentia a vista incomodada pelos flashes das câmeras. Sim, Fernanda sentia em sua carne mais uma vez o desejo nos olhares da platéia e ouvia seus aplausos, assobios e até mesmo seus gracejos. E foi incontável a quantidade de gracejos que ela ouviu enquanto sua carreira de manequim durou. Muitos homens e mulheres desejaram o que apenas Walter conseguiu: possuir Fernanda em corpo e espírito.

Ela colocou as fotos mais uma vez na caixa, com um suspiro longo e um sorriso nos lábios e a escondeu sob uma colcha antiga, no fundo do gavetão. Aquelas recordações a faziam sentir-se leve e ela saiu do closet com um semblante de felicidade pura. A luz do fim de tarde venceu as nuvens de chuva e avermelhou as paredes do quarto, enquanto ela debruçou-se no parapeito da janela do quarto, que dava vista para a piscina e área para churrascos, onde Walter ajudava Amanda com seu dever de casa. “Cada dia maior”, ela pensou, enquanto olhava para a menina e acariciava o próprio ventre. Ela sorriu ao lembrar-se do dia em que Amanda nasceu: a agitação do marido, as dores, o medo de que seu corpo não fosse mais o mesmo. Bem, realmente não era, já que seus seios aumentaram um pouco por causa do leite, mas mantiveram a mesma firmeza, quase que por milagre. Ela sorria ao pensar na inveja que as amigas sentiam dela por não ter tido varizes em excesso ou por seus seios não terem ficado flácidos. “Deus me quer bonita”, ela divertia-se em repetir isso quando alguém duvidava que ela já havia dado à luz e seu corpo permanecia inalterado. Sorrindo, saiu da janela e prostrou-se em frente ao grande espelho que ficava ao lado de seu leito conjugal. Ajustou o espelho e despiu-se do roupão, observando seu belo corpo bronzeado. Sem tirar os olhos do espelho, deitou-se lentamente e afastou suas longas pernas, levando as duas mãos ao ventre. “Deus me quer bonita”, repetia, quase sussurrando, entre gemidos.

Continua

III.

Durante quatro anos, Gérson ouviu seu chefe dizer que havia dois segredos para uma boa carne: o bom manejo de faca amolada e uma vaca que não se mova muito. A parte das vacas era fácil, já que o gado de corte era criado em uma fazenda do dono da rede de boutiques de carne onde Gérson trabalhava. Na tal fazenda, boa parte dos bois era colocada em cercados que eram pouco maiores que os animais e isso fazia com que tudo que os animais faziam era comer, deitar e levantar, evitando que seus músculos fossem exercitados e a carne endurecesse. O gado criado na fazenda Dortella produzia, segundo revistas especializadas e o paladar dos consumidores, a carne mais macia do país. “É como fazer churrasco de seda”, diziam os anúncios de rádio e TV. A parte do manejo da faca não foi fácil, mas Gérson aprendeu. Seu chefe era muito exigente em relação ao corte da carne. Fazia questão de ir pessoalmente conhecer os funcionários que trabalhavam em sua fábrica e em suas lojas e os ensinava o segredo do corte. Como usar a faca, que tipos de faca, como conservar as facas bem amoladas. Walter Dortella era tão preciso com uma faca quanto um médico com seu bisturi.

Em quatro anos, Gérson aprendeu tudo que podia ter aprendido sobre carnes com Walter. Havia até quem dissesse que ele era tão bom quanto o chefe e foi esse boato que fez com que o chefe pousasse seus olhos sobre o rapaz. Gérson tinha 21 anos quando começou a trabalhar para a família Dortella e aos 23 anos já era gerente regional. Claro, havia o talento, mas a simpatia que Walter tinha por Gérson o ajudou bastante em sua ascensão profissional. Walter via no rapaz um possível sucessor, pois o rapaz era inteligente e ambicioso. Por isso Walter o encarregou de fazer as inspeções e as demonstrações. Não havia quem não gostasse daquele rapaz de cabelos que caiam pelo rosto e de seu sorriso franco, o sorriso que os jovens sempre exibem em seus rostos isentos de marcas de preocupação. Ou quase sem marcas de preocupação.

Um pequeno envelope azul-celeste jazia sobre a escrivaninha no quarto de Gérson. Ao seu lado, o jogo de facas do rapaz. Eram facas bem trabalhadas, cabos sólidos e lâminas bem forjadas. Com uma pequena pedra preta, Gérson amolava cada lâmina daquele jogo, presente de seu chefe, de seu amigo Walter Dortella. O suor brotava da testa do rapaz e pingava na madeira escura do móvel. Sob a única luz de uma pequena luminária para leitura, os dedos ágeis do rapaz espremiam a pedra preta contra o aço espanhol. O suor escorria pela sua face, que ainda exibia uma ou duas espinhas como recordação da adolescência. Suas mãos também estavam suadas e trêmulas. Descuidou-se e a lâmina beijou-lhe a mão e o sangue jovem brotou alguns segundos depois da linha estreita ser marcada na carne do rapaz. Com a mão na boca, Gérson praguejou e encaminhou-se ao banheiro. Atrás do espelho do banheiro havia éter e ataduras, que Gérson usou para fazer o curativo. Seus olhos alcançaram um pequeno frasco escondido atrás de um pote com algodão. “Isto vai manter meus nervos em ordem”, ele pensou, carregando a frasco para o quarto e despejando o conteúdo sobre a lâmina de uma das facas. Com outra faca, ajeitou uma carreira e aspirou com força o pó. Apertou os olhos por alguns segundo, com o rosto chanfrado em uma careta e logo os abriu, como se nada tivesse acontecido e voltou a amolar as facas. Agora ele não podia se dar ao luxo de ter facas cegas em casa.

Continua

I.

– Precisamos conversar – a voz de Gérson praticamente escorregou pelo fone, tão trêmula que estava. Suas mãos suavam.
– Não tenho nada a tratar com o senhor – Fernanda respondeu, seca, enquanto observava a rua através de uma fresta nas cortinas de renda. Havia acabado de amarrar o cordão do roupão branco.
– Nanda, a gente precisa conversar – Gérson disse com a voz embargada.
– Já disse que não temos nada para conversar. Por favor, não me ligue mais – Fernanda sibilou, fazendo uma concha com a mão direita. Era a terceira vez que Gérson telefonava naquela semana, desrespeitando o pedido que Fernanda fizera havia um mês. Será que ele não percebia que estava sendo inconveniente, ligando para a casa de uma mulher bem casada e mãe de uma linda menina, ainda mais quando ela o tinha dispensado? E se sua filha ou seu marido atendesse? Fernanda não queria nem pensar naquilo. Odiava escândalos.

II.

A fina chuva de verão chocava-se contra o vidro e era recolhida pelo pára-brisa do carro de Walter. Faltava cinco dias para seu aniversário de casamento e ele era só sorrisos. Em verdade, sempre fora um homem sorridente, simpático e bem-quisto por todos em sua vizinhança, dono de um sorriso sincero e largo, composto por dentes extremamente alinhados e brancos. Mas naquele dia em especial, seu sorriso estava mais branco e mais brilhante: havia conseguido o presente ideal para sua esposa. Foram meses de procura, mas ele havia enfim encontrado o vestido que sua esposa tanto queria. Seu sorriso abria-se cada vez mais toda vez que ele imaginava o corpo perfeito de Fernanda coberto pelo tecido fino, seus lindos seios marcando a seda e suas coxas aparecendo pela fenda lateral da roupa. Sim, ela ficaria lindíssima em seu novo vestido de seda vermelho-sangue e ofuscaria todas as mulheres que estivessem presentes na comemoração de suas bodas. Doze anos de casamento e ela ainda continuava linda como no dia em que eles se conheceram. O sorriso de Walter não poderia estar mais brilhante.

Estacionou o carro e, com muito cuidado, escondeu o vestido em uma caixa na mala do carro. “Ela vai ter uma surpresa e tanto”, Walter pensou. Subiu a rampa da garagem e caminhou até a caixa de correios, onde as contas de luz, telefone, do cartão de crédito e da TV por assinatura o aguardavam. Pegou os envelopes e, enquanto os examinava, percebeu um pequeno envelope azul-celeste endereçado a ele, sem remetente. Sem importar-se, colocou o envelope entre os outros e caminhou até a entrada da casa, respirando profundamente o cheiro das plantas molhadas que ladeavam o pequeno caminho de largos seixos que conduzia à porta principal. Enquanto a chave girava na engrenagem da fechadura, Walter ouviu o bater de pequenas patas e unhas na madeira escura da porta. Era Zazá, a pequena cadela pinscher de Fernanda, que latia e batia as pequenas patas na porta, esperando Walter entrar para fazer-lhe festa. Walter ajoelhou-se sobre o tapete da entrada e acariciou a barriga de Zazá, que latia ininterruptamente. Ergueu-se, apoiando uma das mãos na parede e adentrou na sala, onde sua esposa estava colocando o telefone no gancho.

– Olá, amor. Era para mim? – Walter perguntou, beijando com suavidade os lábios de sua esposa.
– Não, era do bufê perguntando se queríamos filet mignon ou camarão para o jantar do nosso aniversário de casamento – ela respondeu, olhando Walter nos olhos e sorrindo.
– Diga que você pediu o camarão – Walter sorriu, franzindo a testa.
– Anda enjoado da carne, querido? – Fernanda sorriu e beijou-lhe os lábios.
– Passe o dia inteiro dentro de um açougue e você vai me entender – ele respondeu, beijando-lhe a testa e indo em direção ao escritório, para guardar as contas.
– Boutique de carnes! Açougue era aquilo que o seu pai tinha – ela retrucou, torcendo o nariz.
– O que meu pai tinha era um abatedouro, ele matava os bois. Eu vendo carnes, o que faz de mim um açougueiro – ele disse, ligando o computador e separando os envelopes das contas.
– Você é um empresário, Walter. Açougueiros passam o dia cortando carne e você não faz mais isso, graças a Deus. Hoje você é proprietário de uma rede de boutiques de carne – ela falou severa, olhando-o separar os envelopes por cima de seus ombros. – Alguma carta para mim?
– Não, mas se você quiser ficar com a fatura do cartão de crédito, fique à vontade – ele virou-se na direção de Fernanda e estendeu-lhe a correspondência, com um sorriso no canto direito da boca.
– Dispenso, querido. Esse é o pequeno preço que você paga por ter uma mulher bonita como eu – ela disse e sorriu, puxando o cordão do roupão, que caiu a seus pés e revelou a bela nudez de Fernanda, um corpo perfeito ainda salpicado com gotas d’água. Ela sentou-se no colo de Walter, que a abraçou, beijando com avidez os mamilos rosados e intumescidos de sua esposa. Ele a tomou no colo e a colocou em cima da bancada do computador e, com as mãos trêmulas, abriu o zíper de sua calça e encaixou-se entre as coxas grossas de Fernanda. Os papéis cairam do móvel enquanto o casal se entregava ao desejo e o chão ficou coberto com as contas de água, luz, TV por assinatura, orçamentos de consertos de um motor de um refrigerador e um pequeno envelope azul-celeste, onde lia-se em letras pretas apenas o nome de Walter.

Continua

– Bom dia! Em que posso ajudá-lo?
– Bom dia. Eu trabalho no setor de vendas e fiquei sabendo que abriu ou está para abrir uma vaga de gerência… eu gostaria de me candidatar ao cargo.
– Sim, sim… essa vaga na gerência abriu faz dois dias e resolvemos dar prioridade ao pessoal que já trabalha aqui dentro. Vou preencher um pequeno formulário com os seus dados e encaminhar à diretoria. Como é mesmo o seu nome?
– Paulo, mas a grafia é um pouco diferente.
– Tudo bem, é só soletrar.
– A-N-D-R-É.
– Como???
– A-N-D…
– Isto é alguma brincadeira? Foi o Rogério do departamento financeiro que mandou você vir aqui gastar o meu tempo, rapaz?
– Calma, calma, não é brincadeira. Como eu já disse, a grafia do meu nome é um pouco diferente…
– Um pouco? É completamente diferente!
– Pois é, o sonho do meu falecido pai (que Deus o tenha!) era que seu filho tivesse um nome único, mas como ele não conseguiu pensar em nenhum nome completamente original e ele detestava as alterações comuns na grafia dos nomes que a gente vê no dia a dia – como Luís e Luiz – ele resolveu que ia reinventar a grafia do meu nome, compreende?
– Em parte, eu acho, mas isso é absurdo. Em nenhum lugar do mundo “Paulo” pode ser escrito daquele jeito.
– Se o senhor pensar bem, vai ver que até tem um pouco de lógica. Como o senhor sabe, em alguns países as letras têm sons diferentes sob certas circunstâncias, concorda?
– Bem, em inglês o “H” tem som de “R”, no hebraico “J” tem som de “I”…
– Foi baseado nisso que meu pai me batizou. O “A” com som de “P”, o “N” com som de “A”, o “D” com som de “U”, o “R” com som de “L” (essa eu acho que ele tirou do Cebolinha, meu pai adorava a Turma da Mônica,) e o “É” com som de “O”. Claro que houve empecilhos: Minha mãe achou que meu pai estava ficando maluco e quase se separou dele, o padre da nossa paróquia por pouco não realiza o batizado, sem contar a grana que meu pai gastou para molhar a mão do escrivão no cartório. Às vezes, como hoje, essa grafia me traz alguns probleminhas, mas é a vontade do meu falecido pai (que Deus o tenha!) que este seja o meu nome, então assim será.
– Meu Deus, que história impressionante!
– Se pensarmos bem… sim, é uma história impressionante, sim.
– Ok, então vamos ao formulário. A-N-D-R-É… Paulo, como a vontade do seu falecido pai. E o sobrenome?
– É, Godoy, senhor: B-R-A-G-A…

No princípio havia apenas o blues. Então Deus disse “faça-se o soul” e o achou bom. No primeiro dia, o Senhor criou o baterista de soul e disse “sob tua responsabilidade ficará a condução, reta e precisa, mas nunca perderás o swing“. No segundo dia Deus criou o baixista de soul e disse “A ti confio o groove e tu farás dele a alma do soul”. No terceiro dia, Deus criou o pianista de soul e disse “a ti entrego a harmonia e tu farás dela um instrumento da Minha vontade”. No quarto dia, Deus criou o naipe de metais e disse “soprai e soprai com precisão, pois vosso sopro acalentará o coração dos que verdadeiramente amam o soul”. No quinto dia Deus criou o vocalista de soul e disse “forte e melodiosa será tua voz, e tu emocionarás os amantes do soul cantando para eles como se cantasses apenas para Mim”. No sétimo dia o Senhor descansaria, mas depois de dois dias ouvindo os outros músicos de soul e os guitarristas de outros estilos musicais, Ele não sabia o que fazer exatamente com o guitarrista de soul. Depois de muito pensar, o Senhor, em Sua infinita sapiência, apontou para o fundo do palco e disse “vai para lá e faze teu blim-blim bem baixinho, para não atrapalhar o resto da banda”.

*Dedicado ao meu amigo Felipe Barão, que adora quando eu faço essas graças.

– Otávio? T@vito? – ela perguntou, tocando-lhe o ombro esquerdo.
– Fernanda? Nandinha25ES? – perguntou, virando-se e fitando-a de baixo a cima, e detendo-se em seus olhos.
– É, eu mesma – ela disse, com um sorriso tímido no canto dos lábios.

Houve um breve instante de silêncio, onde eles apenas se olharam.

– Alguma coisa errada? – ela perguntou, prendendo a respiração. Afastou com a ponta dos dedos uma mecha que cismou em cobrir-lhe o rosto.
– Não, nada errado. É que você é um pouco mais alta do que eu imaginava – ele respondeu quase de imediato, com um sorriso amplo.
– Descrições de Internet são não lá muito precisas, não? – ela sorriu e olhou para o chão. Ele realmente usava tênis coloridos, como havia mencionado em um e-mail.
– Alguma coisa errada? – ele perguntou, enfiando as mãos nos bolsos. Não queria que ela visse seus dedos trêmulos.
– Não, de forma alguma – ela sorriu, voltando a olhá-lo nos olhos. – Bom, sua voz pode não ser tão grave quanto soa nas minhas caixas de som, mas você tem muito mais cabelo do que a maioria garante ter – ela disse, desalinhando os cabelos dele.

E os dois começaram a rir. Ele achou bonito o jeito como as narinas dela tremiam enquanto ela ria. Tantas vezes a vira pela câmera e esse detalhe havia passado desapercebido.

– Café? – ele perguntou, apontando para o balcão. – Forte, sem açúcar?
– Forte, com adoçante. – ela respondeu, deixando que ele a conduzisse até o balcão. – Pensei que sua memória era… como você disse mesmo? Prodigiosa? – ela disse, sorrindo e erguendo uma das sobrancelhas.
– Costuma ser quando eu tenho o histórico dos chats à mão – ele sorriu e olhou para o chão. Ela calçava sapatos de boneca, que ele achou apropriados, pois combinavam com seu sorriso e sua pele, alva como louça. – Estou adorando estar aqui com você. A gente só descobre de verdade quem está do outro lado do monitor em momentos assim.
– Eu brindo a isso – ela disse, soprando a fumaça do café e sorrindo para ele.

Durante horas conversaram e riram, tentando se acostumar com a ausência do barulho das teclas. Acharam graça de como nunca haviam se visto, mas sentiam-se confortáveis um com o outro como se o laço que os unia fosse mais do que os muitos quilômetros de cabos telefônicos, como se estivessem juntos desde a maternidade.

– E agora, o que você quer fazer? – Otávio perguntou, segurando a mão de Fernanda e ajudando-a a passar pela porta entreaberta da cafeteria, quando as luzes se apagaram. – Quer conhecer os bares da cidade? Ir a um restaurante? Encontrar uma LAN house 24 horas e escrever sobre o seu dia em seu blog? – ele a olhava nos olhos, sorrindo.
– Talvez descobrir o que mais esconde o outro lado do monitor – ela disse e o beijou, sob a luz do letreiro de neon.