Sobre Márcio Silva

Nascido no Rio de Janeiro em 1978, Márcio Silva é músico por profissão e escritor por esporte. Vive na Ilha do Governador, bairro da Zona Norte carioca, cujo cotidiano o inspira a compor suas músicas, elaborar seus textos e tramar novas formas de acabar com as Kombis.

Todos os dias, antes de dormir, acendia uma vela e pedia que nunca mais despertasse, pois muito havia desde que sua sede pela vida terrena sumira. Viajou pelos cinco continentes, visitou os maiores teatros e museus, teve filhos, escreveu livros, plantou árvores, desvendou os mistérios do sexo oposto. E então raiou o dia em que acreditou já ter visto o sol nascer o suficiente. Progressivamente, a comida ficou insípida, a vida perdeu as cores e até mesmo a libido se extinguiu; a única coisa que restou foi a fé em um novo começo, além da carne e do sangue. Assim começou sua rotina de acender velas e pedir pela chegada do fim. Por acreditar que, por nascer aqui sob o signo de Peixes, recomeçaria outro ciclo em outro plano com o sol em Áries.

Saudade é faca cega rasgando o coração
Mas também é bálsamo que cura ferida
Saudade é vento que enche vela de embarcação
E também é beco sem saída

Saudade às vezes é motivo de morte
Mas, às vezes, é razão de vida
Saudade é a brisa suave que sopra do norte
É trago forte de cachaça curtida

Saudade é o caminho que corre ligeiro
Ou a estrada comprida que leva ao nada
Saudade é olhar o relógio, fitar o ponteiro
Prostrar-se em frente à porta fechada

Saudade é canção que agrada ao ouvido
Saudade é cartilha a ser estudada
Saudade é meio suspiro e gemido
Saudade é o primeiro passo de uma caminhada.

– Amoreco, que tal uma viagem na próxima semana?
– Pode ser, chuchu. Já faz um tempo que não passamos uns dias fora.
– Que bom, amoreco! Vou fazer as malas agora. Mas, amor… para onde vamos?
– Que tal Paris? Paris é linda nessa época do ano.
– Ah, não! Sempre vamos para Paris na primavera. Eu quero variar, paixão!
– Hmmm.. então Roma! Decidido: nós vamos para Roma! Nós vamos ao Coliseu, vamos ao Arco de Constantino, à Fontana de Trevi, ao Pantheon, ao estádio San Paolo assistir Roma e Lazio…
– Tá doidão, homem? Você acha que eu vou para a Itália comer pizza, nhoque, canelone, rigatone e mandar o meu regime direto para o inferno sem escalas? Para a Itália eu não vou.
– E que tal Cancun? Muita tequila, festa, salsa, rumba!
– E ter diarréia só de beber água? Eu não vou para Cancun. Não vou, não vou, não vou!
– Para onde você quer ir então, meu amor?
– Ah, como eu comprei um biquíni novo a gente podia curtir uma semana em Búzios. O que me diz?
– Em Búzios? Qual é a graça de lá? Todo canto que a gente olha só vê estrangeiro…

– Bom dia!
– Bom dia. Como o senhor quer o corte?
– Hmmm… faz o seguinte: dá uma aparada, mas não tira muito em cima, ok?
– Sim, senhor.
– …
– …
– …
– …
– E o Botafogo? Será que sobe mesmo este ano?
– …
– O time vem jogando bem, acho que tem chances.
– …
– E esse lance da Previdência? Será que vai dar certo?
– …
– Será que o povo vai tomar na tarraqueta de novo com essa reforma? Não sei, não sei…
– …
– Com licença… pode parar de cortar um minuto?
– Claro, senhor. Algum problema com o corte?
– De forma alguma, o corte está ficando ótimo. O problema é que o senhor não fala enquanto corta.
– Não estou entendo, senhor.
– Oras, todo barbeiro que se preza é tagarela.
– O senhor me desculpe, mas é que eu me concentro muito no que faço…
– Mas não pode esquecer de tagarelar. Você não sabe como isso é importante durante um corte de cabelo!
– Como assim, senhor?
– Mas será que não te ensinaram nada na escola de barbeiros, rapaz? A barbearia é um local onde os homens se reúnem pra conversar sobre o universo masculino: futebol, economia, política, mulher pelada, carros, essas coisas. É como um botequim, só que sem a birita, entendeu? Um corte de cabelo sem conversa é como… ir ao motel e não transar.
– Entendi, senhor. Vou conversar mais com a clientela a partir de hoje!
– É assim que se fala, garoto!
– Pois bem, senhor: como vai a esposa?
– …
– …
– …
– Algum problema, senhor?
– Faz 3 meses que ela fugiu com o balconista do açougue.
– …
– …
– …
– …
– Pronto. Ficou bom?
– Ficou ótimo. Mês que vem eu volto.
– Bom dia, senhor.
– Bom dia, rapaz.

Sempre detestei a fase de adaptação que inicia toda mudança. Toda essa coisa de ter que começar do zero… ah, isso sempre me deu no saco, principalmente a sensação de ser observado o tempo todo. Mesmo contra sua vontade, você se torna o centro das atenções, já que você é o cara novo. É impressionante como ser o novato chama a atenção das pessoas! Em todo lugar que você vai as pessoas lhe olham, as pessoas querem lhe cumprimentar… aliás, “querem” não: elas têm uma necessidade patológica de lhe cumprimentar, de conversar com você, de querer saber da sua vida. E ainda esperam que você retribua o mesmo sorriso imbecil que elas trazem estampados no rosto, enquanto conversam consigo. Ah, faça-me o favor… por que eu sou obrigado a passar por isso em toda mudança?

Para ser honesto, se os graúdos não me obrigassem a me transferir para cá, eu não viria mesmo! Eu já achei um saco quando me transferiram para lá onde eu estava! E quando eu finalmente me adaptei, eles batem o martelo e me mandam para cá. E para passar por todo o transtorno desnecessário que foi o raio da minha viagem de ida. Ontem, já no primeiro dia! Era para ser uma viagem tranqüila; relativamente demorada e cansativa, mas tranqüila. Mas não, foi um pandemônio de vinte e duas horas! Tem idéia do que são vinte e duas horas de viagem? E quando eu chego, enfim, cansado e com fome, ainda tenho que aturar todos aqueles olhares e aquela multidão de bobos alegres com seus sorrisinhos idiotas. Ninguém merece!

Bom, tive que vir, então eu vim. Sob protestos, mas eu vim. E tomara que seja a última vez que eu reencarno. Não tenho mais paciência para outra dessas.

A respiração de Edivaldo acelerava o passo a cada instante. Seus olhos pesavam, mas ele sabia que não podia fechá-los. Precisava manter-se acordado a qualquer custo. Deitado no chão áspero sob a janela, segurava o abdômen ferido com a mão esquerda, enquanto a outra tateava as gavetas da cômoda atrás do velho revólver Rossi. Estava perdendo muito sangue, muito rápido. “Não posso morrer agora”, Edivaldo pensou, com os dentes crispados. Seu olhar se detive na fotografia de seus pais, na parede oposta à janela. Fitava o rosto do pai e sua expressão endureceu ainda mais. Odiava aquele rosto, detestava tanto a imagem do próprio pai que a pendurou em frente à própria cama para que toda manhã saísse de casa inspirado para trabalhar. Edivaldo era matador.

Uma bala zuniu pela janela e estourou a lâmpada do cômodo. Do lado de fora, uma voz gritou em tom de escárnio:

– Perdeu, Edivaldo! A gente vai te quebrar, filho da puta!

A mão direita, trêmula, apertou o cabo do revólver com mais força. Sabia que o grito tinha sido dado pelo sargento Oswaldo. De todas as pessoas que Edivaldo detestava, Oswaldo ocupava o topo da lista muito antes de se tornar o policial desonesto que prestava serviço ao tráfico, quando ainda era o moleque mau-caráter que judiava de meninos menores da favela apenas por diversão. Edivaldo era um desses meninos menores.

Uma segunda bala varou a parede e alojou-se na porta do armário.

– Aparece p’ra morrer, seu merda! Se você não vier aqui, a gente vai invadir e vai te apagar de qualquer jeito!

Edivaldo começou a sentir frio. Olhou para a mão esquerda, que cobria o rombo feito por uma 765 e jurou por seu sangue que se aquele era a hora da sua morte, levaria Oswaldo com ele. Não morreria antes de ver o corpo de Oswaldo sem vida não chão, antes que seu sangue imundo lavasse a calçada de sua casa e o vingasse de sua vida miserável, de todas as surras e das curras que deram a Edivaldo o apelido que ele sempre odiou e que fez com que seu pai o escorraçasse de casa e usasse o velho Rossi para covardemente findar sua vergonha.

– Vamos invadir essa porra! Chegou a tua hora, Caga Leite!

A mão esquerda esqueceu a ferida e alcançou a 9mm que estava às costas. Num último esforço, Edivaldo levantou-se e, aos berros, descarregou sob forma de chumbo quente sua fúria sobre Oswaldo e seus homens. Após 21 disparos, o cheio de pólvora invadiu a rua e Edivaldo fechou os olhos, perguntando-se se conheceria, enfim, a paz.

Uma gota de suor correu pela testa de dona Idalina e perdeu-se no xale amarelo de lã que abraçava seu pescoço. Era uma tarde comum de domingo e o sol brando brilhava sobre o Rio de Janeiro. Ela olhou para o céu e franziu a testa, enquanto ajeitava seus grandes óculos de aro grosso: não lembrava se havia tomado ou não seu remédio para pressão alta antes de sair de casa. Ajeitou o xale ao sentir a brisa que começou a soprar e voltou a apoiar-se na bengala de peroba. Temia que o tempo mudasse, porque toda vez que o tempo mudava seus joelhos doíam. Voltou então a se concentrar em seu tricô. Queria terminar os sapatinhos da filha da vizinha de baixo antes do fim da semana.

– A senhora está pronta, dona Idalina? – perguntou o árbitro, estendendo a mão para ajudá-la a levantar-se do banco.

Ela agradeceu a ajuda e levantou-se, deixando as agulhas de tricô em cima do banco. Sob os gritos das torcidas, dona Idalina caminhou lentamente pelo gramado do Maracanã em direção à meta. Quando chegou à entrada da grande área, o goleiro titular a entregou seu par de luvas e gentilmente beijou-lhe a testa, desejando boa sorte. Em seus lábios brotou um sorriso que apenas os octogenários sabem sorrir e agradeceu ao rapaz por cima dos bifocais. Calçou as luvas e colocou-se em cima da linha, apoiada na bengala de peroba. Desejou ter uma bala de tamarindo, mas mesmo que tivesse alguma em sua bolsa, seria difícil pegá-la com aquelas luvas desajeitadas. Enquanto dona Idalina pensava em onde poderia comprar balas de tamarindo nas redondezas, a bola foi colocada a dois metros da grande área e o juiz aproximou-se da idosa, pousando gentilmente a mão em seu ombro.

– Posso autorizar a cobrança, dona Idalina? – ele perguntou, em voz baixa.

Ela balançou a cabeça de forma afirmativa, sorrindo. Ajeitou os óculos mais uma vez e soltou a bengala, abrindo os braços e flexionando os joelhos. E então soou o apito e a bola subiu em arco por sobre a barreira, indo em direção ao canto superior esquerdo. As varizes de dona Idalina pareciam querer estourar a pele de suas frágeis pernas quando ela tomou impulso e saltou. Em pleno ar ela esticou braço esquerdo ao máximo que pôde, mais do que quando ela conseguiu vencer a multidão de mulheres que cercavam Lupicínio Rodrigues e tocar seu rosto, na saída de um show na década de 50. Nos dois lados da arquibancada o silêncio imperava, até que veio a comemoração: dona Idalina havia conseguido tocar a bola com a ponta dos dedos, mas não conseguiu impedir o gol. O placar mostrava 3×1, resultado que sagrava o time adversário campeão. Sob aplausos, fogos e vaias, ela pegou sua bengala e caminhou lentamente para fora do campo, sentando-se no banco de reservas, ao lado do goleiro titular, visivelmente transtornado. Com um gesto ela chamou o técnico, que se aproximou dos dois com a cabeça baixa.

– O senhor tem alguma coisa a dizer a ele? – ela disse, voltando a tricotar os sapatinhos da filha da vizinha.
– Você estava certo e eu peço desculpas – disse o técnico, envergonhado. – Nem mesmo a sua avó conseguiria defender aquela bola.