Sobre Mariana Elis

Profissional crítica, ariana instável, mãe coruja. Gastrônoma e arquiteta frustrada. Futura doula.

– “Quando as nuvens correm negras no céu como um bando de corvos errantes, e a lua desmaia Omo a luz de uma lâmpada sobre a alvura de uma beleza que dorme, que melhor noite que a passada o reflexo das taças?”

– A noite sempre é negra para quem já não tem alguém por quem sentir o coração bater no peito, como o rufar de tambores africanos em noite de guerra nos confins do continente negro. Negro como a noite! Por isso, bebamos companheiros! Deixemos que Baco nos inunde e nos transborde intensa e incessantemente nesta longa noite trágica.

– “Vinho! Vinho! Não vês que as taças estão vazias e bebemos o vácuo, como um sonâmbulo?

– É o fichtismo na embriaguez! Espiritualista, bebe a imaterialidade da embriaguez!”

– O Espírito de Baco se bebe pelo vinho, mas uma vez tomados por ele, que importa o que bebemos ou o que não bebemos? Importa que esta embriaguez espiritual nos leva à imortalidade da alma! Um brinde à imortalidade da alma!

– “Calai-vos, malditos! A imortalidade da alma? Pobres doidos! E porque a alma é bela, porque ao concebeis que esse ideal possa tornar-se em lodo e podridão, como as faces belas da virgem morta, não podeis crer que ele mora? Doidos! Nunca velada levastes porventura uma noite à cabeceira de um cadáver? E então não duvidastes que ele não era morto, que aquele peito e aquela fronte iam palpitar de novo, aquelas pálpebras iam abrir-se, que era apenas o ópio do sono que emudecia aquele homem? Imortalidade da alma! E porque também não sonhar a das flores, a das brisas, a dos perfumes? Oh! Não mil vezes! A alm não é, como a lua, sempre moça, nua e bela em sua virgindade eterna! A vida não é mais que a reunião ao acaso das moléculas atraídas; o que era um corpo de mulher vai porventura transformar-se num cipreste ou numa nuvem de miasmas; o que era um corpo do verme vai alvejar-se no cálice da flor ou na fronte da criança mais loira e bela. Como Schiller o disse, o átomo da inteligência de Platão foi talvez para o coração de um ser impuro. Por isso e vô-lo direi: se entendeis a imortalidade pela metempsicose, bem! Talvez eu creia um pouco: – pelo platonismo, não!”

– Ora, vamos! A alma é sim imortal, e principalmente imaterial! Não vos deixeis influenciar por estes pensadores malditos, e penseis por vos próprios! Tenho chegado às minhas idéias, por ter experimentado as minhas verdades. E cada verdade é subjetiva, por isso vos digo que aqui, companheiros, cada qual possui uma verdade distinta da outra, creiam os outros nela ou não. O que importa é cada qual creia na verdade que lhe melhor servir. E por isso, brindemos, pois à verdade subjetiva destes velhos boêmios!

– “A nós frontes queimadas pelo mormaço do sol da vida, a nós sobre cuja cabeça a velhice regelou os cabelos, essas crianças frias! A nós os sonhos do espiritualismo!”

– Brindemos, então a Deus!

– “Deus! Crer em Deus! Sim, como o grito íntimo o revela nas horas frias do medo – nas horas em que se tirita de susto e que a morte parece roçar úmida por nós! Na jangada do náufrago, no cadafalso, no deserto – sempre banhado do suor frio – do terror é que vem a crença em Deus! – Crer nele como a utopia do bem absoluto, o sol da luz e do amor, muito bem! Mas se entendeis por ele os ídolos que os homens ergueram banhados de sangue, e o fanatismo beija em sua inanimação de mármore d há cinco mil anos! Não creio nele!

– E os livros santos?

– Miséria! Quando me vierdes falar em poesia eu vos direi: aí há folhas inspiradas pela natureza ardente daquela terra como nem Homero as sonhou – como a humanidade inteira ajoelhada sobre os túmulos do passado nunca mais lembrará! Mas quando me falarem em verdades religiosas, em visões santas, nos desvarios daquele povo estúpido – eu vos direi – miséria! Miséria! Três vezes miséria! Tudo aquilo é falso – mentiram como as miragens do deserto!”

– Pois então, brindemos à criatividade que levou aqueles pobres homens a escreverem tais ilusões e a creditarem a estas o posto de verdades absolutas. Mas não nos esqueçamos, que quando digo Deus não me remeto somente ao Deus carnal católico, mas a todas as entidades que a mente humana já criou ao longo da historia e que são idolatradas e adoradas pelo ser que teme a algo desconhecido por saber ser seu poder sobre o mundo e sobre si próprio extensamente limitado. Brindemos, pois à imaginação! Por ser esta a única vantagem da racionalidade humana!

– “Bravo! Bravo!”

Agradeço à imaginação, em primeiro lugar.

E, portanto, também devo agradecer as fontes em que essa bebeu.

Agradeço à transpiração, (ou seria perspiração?) que levou a imaginação ao status de realidade.

Agradeço, pois, ao mundo de amigos que me cercam, e de cujo apoio necessitei tanto nas horas difíceis.

Agradeço à família que segurou as rédeas dos meus descontroles nervosos e das crises de preguiça que me tomaram.

Agradeço aos mestres que me ensinaram a trilhar este caminho magnífico de descobertas.

Agradeço à Santa Paciência. A que tive eu, e a que tiveram todos que comigo convivem.

Agradeço aos livros que li, aos discos que ouvi e filmes que assisti, que fizeram de mim essa pessoa consciente que sou.

Agradeço, por fim, à natureza que nos deu a vida para cuidarmos uns dos outros, e de nós mesmos.

Obrigada!

P.S. Estes agradecimentos foram retirados do meu Trabalho de Conclusão de Curso em Turismo, recém terminado e entregue!

Depois de tudo, as cinzas, acompanhadas do terrível odor da morte. Toda a destruição e a desesperança. A dor e a descrença. A raiva e o temor.
A vida antes tão abundante agora predomina apenas em uma pessoa. Um homem jovem que acompanhou a tudo sem nada poder fazer para evitar. Era seu destino.
Apenas e olhar e ver. Ouvir e temer. Gritar e chorar para nada. Ninguém podia vê-lo ou ouví-lo. Era seu destino.
Amarrdo às pedras do alto da montanha mais alta de que já se teve notícia. Esperava agora, talvez, por um milagre ivino. Pois sua fé era o único sentimento que permanecia inabaável.
Orava e chorava. Compulsivamente, pois era tudo o que lhe restava agora.
Da Terra lá embaixo, abriu-se uma cratera de onde surgiu a luz mais forte que já pôde ver. Luz esta que quase o cegou.
Por um instante imaginou ser o inferno tomando seu lugar na Terra destruída, porém a luz trazia consigo uma paz. E esta paz tomou-lhe conta do ser e do pensar.
E viu todos os corpos sendo deixados pelas almas que caminhavam em direção a tal luz. E todas as dores foram sendo abandonadas. E tudo se acabou na luz. e a cratera se fechou, e as cinzas do mundo ficaram como uma recordaçào do que aquele mundo já tinha sido.
E ele assistiu a tudo parado e pasmado. Era seu destino.

Era uma vez dois glutões que se preparavam para participar de um concurso mundial de glutões. Eram considerados os melhores de seus países. Haviam recém vencido o concurso de seus respectivos continentes.
O evento do qual participariam era o mais importante. E esperava-se para aquele ano um duelo entre ocidentais e orientais. As duas partes do mundo, ansiosas, postavam-se diante da TV, e aguardavam o que seria o maior espetáculo da Terra.
É chegado o grande dia! Arena montada, platéia dividida, e entra o apresentador:
“Senhoras e Senhores de todo o mundo!” (Ele falava em inglês que é a língua “universal”, ou talvez porque os patrocinadores do dito evento fossem aquelas marcas que todos conhecemos, e representam a elite capitalista imperialista que tanto detestamos!)
“Bem vindos ao maior espetáculo da Terra! Hoje realizaremos o maior duelo de glutões, de todos os tempos! De um lado temos: Gianfrancesco Milani, italiano; 35 anos; 1,80m,; 215 Kg; branco; europeu; de família tradicional, temor dos rodízios de massa!
E o adversário: Li Yu Chan, chinês; 27 anos; 1,65m; 98Kg; asiático; pobre; que resolveu comer de tudo depois te ter passado tanta fome.”
Depois da apresentação, da entrada dos dois glutões sob aplausos ao som de músicas típicas de seus países remixadas por um DJ famosíssimo, começa a comilança!
Duas mesas enormes cobertas de guloseimas de todos os tipos. Doces e salgados típicos de todas as regiões do mundo.
Os dois se atracam com as comidas todas, e da-lhe a festa da torcida. No início a disputa é tão acirrada que é impossível dizer quem vencerá!
Giuseppe demonstra-se mais profissional, enquanto Chan devora tudo o que vê pela frente, na esperança de sair-se vitorioso, pois com o prêmio reformará o casebre de sua mãe.
Grande parte do mundo subdesenvovlido começa a se identificar com o rapaz chinês, que come tanto por conta do tanto de fome que já apssou, e a torcida para o mesmo é quase unâninime. Até mesmo alguns italianos menos providos da abastança de Giuseppe, voltam-se as suas energias por berrar pelo chinesinho desesperado.
Depois de horas comendo, é dado o sinal que interrompe a festa, para revelar o grande glutão do mundo.
Giuseppe, com certa dificuldade, levanta-se da mesa e aconchega-se numa poltrona macia, preparada especialmente por um de seus patrocionadores.
Chan permanece imóvel! Apenas recosta a cabeça sobre a mesa e deixa-se descansar. Entra novamente o apresentador com um envelope em mãos!
“Os senhores jurados desta prova, já avaliaram o desempenho de cada um dos participantes. Primeiramente, gostaria de parabenizar ambos pela coragem e pela determinação que os permitiu chegar ao final da prova! E agora vamos anunciar o resultado, vamos nomear o maior glutão da face da Terra, que será agraciado com a soma de 1 milhão de dólares, como prêmio, por tamnho sacrifício.”
Giuseppe sorri e pensa: “Sacrificio algum fazer o que mais se gosta e ainda ganhar dinheiro com isso!”
O apresentador depois de algum suspense finalmente anuncia: “E o grande ganhador é… Sr. Li Yu Chan, da China, que comeu 450g a mais do que Giuseppe, e leva para casa a soma de 1 milhão de dólares, para ajudar sua família tão necessitada!”
As câmaras fecham na figura de Chan, que permanece imóvel. O apresentador se aproxima e sacode o ombro do chinês, que despenca da cadeira. Morto! O grande glutão da Terra morreu, depois de tanto comer, de um ataque fulminante, devido à emoçào que sentiu ao saber-se campeão! Mas todos acharam que foi de indigestão!

Inicio hoje essa série, pois publicarei aqui alguns poemas e pensamentos antigos meus, que reencontrei milagrosamente, perdidos no fundo do armário.

Mudança (21/12/01)

Um novo tempo,
de novas expectativas
Uma antiga forma de ver o mundo
Com uma roupa moderna
Um destino ignorado,
uma espécie diferente
Um caminho estranho,
uma necessidade ultrapassada.
Uma velha maneira de encarar as coisas,
com olhos de criança
Uma certeza confiável,
de uma criatura irresponsável.
Um sonho abandonado,
a busca do mercado
Uma consciência abalada,
um tiro incerto
Uma idéia interminável,
de um estranho pensamento
Um futuro devastado,
pelas durezas do tempo.

Numa pacata cidade interiorana, paira a ressaca da eleição! As pessoas começam a se recordar da noite anterior, onde acompanhavam a apuração dos votos para prefeito e vereadores.
Havia uma enorme expectativa de mudança, de renovação. Havia esperança de que as coisas melhorassem para a população, principalmente quanto às questões básicas: saúde, educação, segurança e emprego!
As pessoas estavam cansadas de esperar por três anos por uma operação de érnia. Estavam cansadas de esperar dias para marcar uma consulta para daqui há meses, para tratar de uma doença que luta contra o tempo pela vida.
As crianças já não querem mais passar fome na escola, porque a verba para a merenda foi desviada para a realização de orgias particulares.
Os velhos estão cheios de quase serem atropelados pelos motoristas dos ônibus, que não os esperam subir!
Os jovens estão sem paciência para sair de casa e apanhar, por causa de richas bobas de tribos antagônicas que comandam as ruas.
E chegado o dia de votar e mudar esta situação, a gente não sabe o que acontece, quantas dentaduras, churrascos ou showmícios, mas tudo continua o mesmo.
O mesmo prefeito – reeleito
Os mesmo vereadores – reeleitos.
Fica a impressão que essa eleição só serviu, para a retirada dos 8 vereadores que ficariam a mais na câmara, com a reforma que esta sofreu.
Foram escolhidos quem seriam os renegados, e só!
Do resto, um pouco de mais do mesmo!

Quando vejo essa sua nuca
nua
desfilando sob meus olhares mais exaltados
Fico doido
Desespero
Surge uma vontade incontrolavel de agarrar-te
de beijar essa nuca linda
de soprar devagarinho e te ver arrepiar
De mordiscar bem de levinho
te deixando assim, descontrolada como eu
eu juro, meu amor, eu te amo
E não deixe esse cabelo crescer
e cobrir essa nuca nua linda tua