Hora e meia nos deparamos com situações que colocam em xeque a velha máxima de que, apesar do racismo ser realidade em nosso país, não temos uma cultura racista, ou seja, o mal existe, mas deve ser tratado como questão individual e não social, pois racistas se mostram presentes em qualquer lugar e devem ser coibidos através de lei, etc, etc, etc, e, em âmbitos gerais, o brasileiro não é racista. O americano sim, o brasileiro não, por causa disso, mais isso e aquilo, que você, leitor, deve estar cansado de ouvir ou mesmo repetir por condicionamento.

O programa Roda Viva de 4 de setembro, apresentado pela TV Brasil e disponível na internet, protagonizou uma dessas situações. O entrevistado era o sociólogo Demétrio Magnoli, crítico das cotas raciais e de políticas que incentivam um “racismo de Estado”, onde seres humanos são etnicamente definidos em lei pela cor da pele ou ancestralidade, como acontece nos Estados Unidos. Segundo Magnoli, a segregação oficializada encorajaria outra de cunho social de maneira inédita em nosso país, afastando-nos de nossa natureza etnicamente gregária, onde, no fundo, não dividimos pessoas em “raças” durante nosso interagir cotidiano. Lá pelo terceiro bloco do programa, o escritor Paulo Lins desafiou essa visão, e seu desafio culminou numa saia justa quando o mesmo declarou que todos na mesa sabiam porque ele era o único negro presente, enquanto, por trás das câmeras, havia muitos outros cumprindo funções subalternas. O mal-estar durou uns minutos até que ele e a apresentadora Marília Gabriela achassem um jeito de contornar a situação.

A dissonância entre Lins e Magnoli é a dissonância entre o Brasil das palavras e o dos fatos. Todos sabem que não existe raça. A genética já mostrou isso. Mas daí a imaginar que os costumes assimilaram ou assimilarão essa idéia em breve é outra história. O caráter cultural – em vez de natural – da etnia não diminui sua força de verdade, não nos faz reprogramar nossos inconscientes e apagar a carga histórica que nos foi implantada e para a qual servimos como elos no leito de um rio gigante iniciado muito antes de nascermos. Podemos sim, influenciar o fluxo e o direcionamento desse rio para as gerações seguintes, mas a discussão do tema não se limita a um futuro longínquo, a como será a vida dos netos e bisnetos de quem, no presente, requisita o auxílio de ações afirmativas. Em suma, não dá para falar no tema sem considerar a existência das “raças”, ou “cores”, ou “etnias” do Brasil, ainda que elas habitem mais a informalidade das relações do que os postulados e papéis timbrados. Isso não as torna menos presentes, ou reais. Pelo contrário. O que é a lei do papel sem a prática? Melhor o oposto, não? Admitir nossas idéias de cor, ainda que difusas ou contraditórias, nossos “quadros étnicos” para que se neutralize seu poder segregador no Brasil “de carne e osso” e se crie uma igualdade real em vez de abstrata, mesmo que para isso seja necessário realçar diferenças em vez de camuflá-las sob a fachada da miscigenação “que não vê cores”. A revista Raça Brasil, quando contrabalança a ínfima presença negra em publicações “multiraciais” de caráter similar, faz isso; e não é racista, como muitos dizem. A multiracialidade brasileira é uma verdade, como também é sua natureza desigual. Ela não prega as virtudes de todas as “raças” de modo equidistante, por exemplo. É viciada. Torta. Contaminada com séculos de um Brasil envergado, escravista, cheio de “complexos de vira-lata”, racista nas linhas e entrelinhas por duzentos motivos. Enumerar esses motivos, as diferenças, o tratamento diverso para com cada componente de nossa idolatrada mistura não é atentar contra a mistura, mas contra as injustiças que ela abriga.

A rota principal para se fugir dessa questão é mantê-la no âmbito individual. “Existe racismo no Brasil, mas o Brasil não é racista.” Quando dizemos isso, afirmamos categoricamente que o racismo é um problema do outro, não meu, não “nosso”, e isso funciona como um álibi para mantermos seu lado institucional intocado. O grande racismo a se combater no Brasil não é o de meia dúzia de neo-nazistas, que levam a culpa por todo o resto, mas o do dia-a-dia, da “patroa e empregada”, da Casa Grande e Senzala, onde todos “se dão bem” e cada um conhece seu lugar. “Sinhozinho”, “coroné”, o Brasil colonial que se repete na letra miúda do cotidiano. O olhar torto de desprezo, o guarda desconfiado, uma frase mal dita ou interpretada, idéias de limpo e sujo, feio e bonito, burro e inteligente, “melhorar a raça”, cabelo ruim, elevador de serviço, exclusão dos referenciais de desejo coletivo refletidas na auto-estima de quem neles não se vê, admissão de um negro para excluir os demais “sem ser racista”, cabeças baixas por inércia, postura indignada quando o preto foge do script, e, claro, a irrupção do racismo coletivo velado no comportamento individual declarado. Nessa hora, vemos a sujeira sair e culpamos o autor, que, na maioria das vezes, era só mais um elo da grande rede, não tão diferente dos demais, mas que se permitiu romper. O racismo da rede cai matando sobre ele; expurga-o de seu seio para purificar a imagem e a idéia que tem de si, mostrar-se correto, “do lado bom”, e que o racista era uma exceção. Não era. E enquanto nossa relação com esse preconceito se limitar aos flagrantes, aos “casos isolados”, manteremos sua força no inconsciente coletivo que ampara as palavras do detrator. No fundo, pouco mudará, a não ser para quem cometeu o pecado de quebrar o silêncio. O problema de saias-justas como a do Roda Viva é o medo que todos têm de ser o próximo, e nos esquecemos que o mal maior não é o indivíduo, mas as idéias que ganham vida dentro dele e transitam impunes depois do “hospedeiro” ser exposto. Não defendo, claro, a não-punição para o crime de racismo, previsto em lei, já que se deve atribuir reponsabilidade ao autor por sua coduta e papel na manutenção do estado geral das coisas. Tampouco alego que somos racistas em igual proporção. Somos, sim, igualmente vítimas de um mesmo “ar cultural” que carrega o veneno em suas entranhas e nos faz absorvê-lo na educação e interação, comumente sem saber, até que, em ato falho ou descontrole, o racismo emerja da fonte mais insuspeita. Talvez nem ela conhecesse esse seu lado. Por isso, é insuficiente atribuir aos flagrados todo o peso de um problema que possui seu lado pessoal, mas tem raízes e causas culturais. Se não as conhecemos, fica complicado combatê-las com a postura individual adequada, e acabamos por alimentá-la com o silêncio ou com discursos vazios.

 

Complicado explicar porque, mas nunca tive lá muita confiança em guru usando terno. Digo… para mim, não são exatamente gurus, longe disso, mas a pretensão é se passar por um. O cara veste terno e gravata, livrinho na mão, projetor, PowerPoint, e começa um discurso motivacional que vai mudar sua vida. “Senhoras e senhores, dispensemos meias-palavras; sei porque estão aqui. Sei que estou diante de pessoas inteligentes, então cortemos os borogodós”, e começa a falar de VOCÊ. SUA vida. SEU drama pessoal-existencial-financeiro. “Sim, eu te entendo. Sei pelo que passa.” Do Amway ao “Perca peso, pergunte-me como”, do “Novo encontro com Jesus” ao “Como maximizar seu eu-produtivo em uma semana”, passando pelas palestras pré-cozidas dos porta-vozes do sucesso, cada um deles tem uma história para contar, de como um dia foram como você, de como após perder tudo para dívidas ou drogas, ou o filho ser internado na UTI, entenderam como as coisas funcionam e acordaram. Remodelaram a vida. Conheceram alguém (ou leram um livro) que lhes abriu portas para a redenção. Jesus, Amway, “Filosofia alimentar do novo milênio”. Você dá nome ao messias. Os gurus de terno sofriam o SEU sofrimento, mas uma luz os acolheu e os passou para o outro lado do muro, onde ficam os vencedores. Cada um deles descobriu “O segredo do sucesso”, e agora quer partilhá-lo com você, porque VOCÊ TAMBÉM É ESPECIAL. VOCÊ TAMBÉM PODE CONHECER O SEGREDO.

Pois é. Lembrou do livro, imagino. Segundo este, e o filme homônimo, qualquer sucesso, qualquer personalidade que tenha marcado a história, inventor, artista, sábio, escritor, estadista, cientista, profeta, guru, e hoje aparece na galeria dos “vencedores consolidados”, só o faz porque conhecia O SEGREDO. É a velha fábula da história como FIM. “Tudo converge para ISTO”, ESTA fórmula, ESTE concentrado do que realmente importa saber das psicologias de todas as civilizações que existiram, agora disponível por 39,99. Seja um Gandhi você também! Encontre o Einstein que existe no lado direito mágico de seu cérebro!

Coisa velha, ver a história como FIM, mas nada resiste a uma embalagem nova e convidativa. O guru de terno é uma versão “bussiness” do arauto da transcendentalidade. Pode ser um pastor fazendo milagres por atacado, o vendedor “manager” que está no alto da pirâmide vulgo “marqueting de rede”. Não importa. Ambos vão mudar sua vida num estalar de dedos em troca de dinheiro, devoção e mais membros para o rebanho. “Investimento”, dizem. Apelam a seu desamparo, sua fome por soluções e respostas consolantes, sua disposição em “correr atrás”. “Sim, eu posso, consigo, quero, tenho fé! Não vou desistir!” Sua mente aquiesce enquanto incorpora o discurso do guru que tem a velocidade da banda larga. Tecno-guru. Fala em Jung, Nietzsche, Gates, Confúcio e John Lennon em uma única volta retórica. Vai de Platão à Madre Teresa em oito segundos. Sem solavancos. Sem escalas. Para ele e para você, tempo é dinheiro, portanto, mais impacto, menos reflexão, mais linhas retas, menos devaneios. Este neo-sábio não medita, dispensa o silêncio, põe no ouvido o celular para sentir o gozo da tecnologia zumbindo em seu cérebro. Neurônios vibrando em 220, ecoando Rock Farofa a 500 decibéis para as caixas de som das cordas vocais, que transformam cacofonia em verbo. A platéia goza por tabela. Ri, chora, aplaude, grita “Aleluia” e reage a cada comando como um Bonecão do Posto recebendo santo. Eis o milagre do guru, que não promete, faz. Melhor ainda: faz prometendo. Seu produto como vendedor é o próprio ato de vender.

Mas em tempos de chiado e desinformação circulando em todo lugar, outdoors entupindo a visão, berros, urros e sirenes ofuscando o nexo porque precisam chamar você, não há brechas disponíveis ao processamento, não há equilíbrio que propicie análise e boas escolhas. Os sentidos viciaram no estímulo. Querem mais. Silêncio virou angústia e FALTA. “Preciso sentir para o vazio sumir”. “Quero choque em meus neurônios, batidão, tesão no tímpano e pico na veia! Padres são maçantes, Buda é gordo, vago, chato, e aquele ali do livro, complicado. Faz o seguinte… Pega os três, mais esse, esse e esse, põe no liquidificador e faz um chá de citações para mim, sim? E eu ainda posso botar no perfil do Orkut.”

O guru de terno não representa uma saída às doenças da modernidade. É um sintoma. Oferece milagres, soluções e certezas como se vende carrões na TV. Seduz com as armas da publicidade, e tem objetivos semelhantes. Quais? Ah, não te contaram essa parte, não é? Pois o verdadeiro segredo está aí, não nas prateleiras. Não por 39,99.