Sobre Vana

Jornalista formada pelo Centro Universitário de Osasco - UNIFIEO. Nascida em São Paulo, é fotógrafa amadora em seu tempo livre. Vive hoje no Rio de Janeiro e descobriu uma nova paixão na vida : Viajar. Hoje em dia dedica-se a descobrir o atual mundo que vive, através de viagens, literatura e pelos amigos.

Ela. uma pessoa normal. nem gorda. nem magra. dessas que você topa todo dia na rua e nem repara. Karina era seu nome. Vivia tentando descobrir para que viera ao mundo. Vivia rabiscando paredes. escrevendo sobre o não que lia. Nada dela era próprio. Nem ela mesma, nem suas roupas, nem seus sonhos. Nada . Nunca teve um namorado. Achava algo doido essa coisa de língua com língua. boca com boca. Na verdade, Karina jamais teve uma idéia boa na vida. Uma vez, desafiando por completo aquela sinfonia maldita que tocava sua vida, atiou fogo em vários papéis e tacou pela janela, na esperança de agitar o mundo. Esqueceu que morava no alto. E o vento fez o favor de acabar com sua farra. Sua diversão? Rabiscar os braços. O chão. Rabiscar a vida. Vivia pelo chão a se encantar com os insetos. Vivia perambulando pelo mundo em busca de que? Nada. Ela não havia descoberto ainda. As vezes sentia um formigamento estranho nos pés, depois descobriu que passava muito tempo sentada, então passou a fazer o mesmo com a mão. e depois do formigamento ela escrevia. Tortuosamente as paredes amorteciam as pequenas formigas que falsamente caminhavam pela sua mão. Era assim que ela achava ser o tal formigamento. uma série de formigas trabalhando ardilosamente por dentro de seu corpo. Se falava? Não sei, ninguém lhe dava trela. Era um resquício de pessoa. um pedaço perdido. desses que a gente topa em qualquer esquina do mundo, sabe? Nunca ouvi tua voz, só um certo murmurio, uma lamentação. Talvez Karina falasse um outro dialeto consigo mesma. Algo que marcava Karina era sua risada. Rasgava o silêncio da tarde em seu quarto gargalhando. E as vezes gargalhava alto, constantemente para um céu que não lhe cabia. Como as roupas que insistia em vestir. Sempre sobrava uma pele aqui outra acolá. Sobrar. Karina conhecia bem essa palavra. Sobrava nos bailes. Na festa. No jogo de voley. Karina sempre sobrava. E foi num desses pensamentos, que num dia lhe sobrou, que ela descobriu não saber o motivo ao qual viera ao mundo. Nunca contou a ninguém. Descobriu, deu um berro e gargalhou. E depois um vazio, acho que quando ela já estava prestes a sentir o vazio invadia a geladeira em busca de sonhos adocicados donos daquilo que animava a sua tarde. Já não via mais desenhos. Mas novelas sim. E de novela em novela aprendeu a se desprender da realidade para entrar em seu universo paralelo. Depois de se perder na novela arrancava todas as roupas no meio do apartamento pequeno e ia tomar uma ducha. Dentro do chuveiro só se ouvia murmurios, vez em outra uma gargalhada cortando o silêncio.

“não silencie hoje.
quero a mesma fala doce rouca da manhã
quero o mesmo colo
a mesma boca dócil

me deita em teu colo e me faz dormir
assim quem sabe você possa me dizer com o que eu sonho
sussurra em meu ouvido o silêncio
que eu não vou conseguir ouvir nunca

quero os mesmos beijos
ansejos. desejos.
quero a chuva do lado de fora, na rua
quero teu silêncio

olha pra mim. e me diz o que voce vê.
invade meu ser
e conta pra mim o que você sente.
beija minha boca
e me diz como é o gosto da minha vida

eis que sobra de mim
querer seu toque suave das mãos
com as minhas tocadas, sentir você
e me perder novamente no pensamento
macio de estar contigo

quero o sabor inquieto. a malícia inocente
a sabedoria de suas palavras
reticenciar pela manhã que cai
e sentir a reticência de seu olhar no meu

não quero o tempo
mas sim…você”

pronto, la vai ele de novo. passa tempo ladrão
pois é.
vive me roubando vida
parei. CHEGAAAAAA!
No tempo da vida eu é que vou ganhar mais
Mais um segundo agora
Me dá um agora!
vou-falar-mais-rápido-que-puder
Se você não me der, vou roubar de você
Passa tempo
e nem vem me roubar não
sai pra lá vilão tempo
nem silencia, nem grita, nem fala
o que ele faz?
ecoooooooooooooooooooaaa a palavra.
vai..xispa..me deixa..
vai roubar outra
que agora mesmo eu to sem tempo

Ai é assim, você resolve escrever, de verdade, faz toda uma opção de vida de caráter definitivo, rejeita frivolidades, pega toda tua fé naquilo que acredita e se expõe. pelo menos pra mim é assim, não consigo escrever se não for de mim mesma. e de repente no meio do caminho você se entrega totalmente. Conhece essa absurda tarefa de escrever num país com milhões e milhões de analfabetos (…) um analfabetismo funcional e habitual de gente que de duas uma: não entende o que você escreve ou distorce aquilo que você diz.

Porém a uma certa altura da vida, em um dia qualquer , eles aparecem, os supostos amantes do teu trabalho, e você se delicia, abre o peito e conta aos poucos teus medos, que você também é de carne e osso, que muitas vezes chora muito, horrorizada com a crueldade da Terra, ai alguns dias você descabela, fica bêbada – sim queridos, porque um escritor se é muito bom escritor, tem mesmo que beber – porque se ele é muito bom, ele sente muito diferente do açougueiro da esquina, do príncipe boboca também, ele sente o fundo dilatado, sofre de compaixão e impotência, vê todos os canalhas do Planeta cometendo atrocidades, conhece todos os métodos do poder para aniquilar esperanças

Então, os amiguinhos que te amavam, a essa altura depois desta exposição já te acham um lixo e dizem pros outros que ainda te amam, mas de forma diferente. Pois é, vai conviver com o gênio e aí você vai ver como ele é. “Bizarro?” “Põe bizarro nisso! E como é que vocês queriam que fosse, ele escreve coisas geniais? Certinho, arrumadinho, abstêmio, fino, dissimulado, pactuando com elegância com todos os ignóbeis donos da miséria e do Poder?”

me desculpem, mas hoje eu vim pra guerra de vermelho. Vim atear fogo na terra e quero mais é que ela QUEIME!

Havia preparado tudo. Faltava apenas a mala de viagem. Então abriu o armário e começou a escolher as roupas que levaria. pensou por um instante na forma que tratava aquele espaço onde tinha suas roupas guardadas. espaço das memórias. do olfato ao tato. cada peça dali tinha uma marca em sua existência. e cada uma levava para aquela viagem um album de fotografias cerebrais. lembrou que queria levar uma peça branca. não era ano novo. mas queria estar vestida de branco. também não desejava a paz. achava que o branco era sensual. gostaria de perceber seu corpo moreno em frente ao espelho com o destaque da peça branca. não sabia se era uma lingerie ou se levaria uma outra peça. percebeu que tinha ainda que comer antes de sair. antes de partir. Estamos indo e partindo o tempo todo, pensou. era assim que gostava de começar o dia. amanhecer na cama. ver o céu azul do lado de fora. mas ele não havia chegado. nem o céu azul. nem o sol. só o nimbus. assim que a professora havia ensinado. as nuvens em estado de nimbus. uma das poucas coisas que lhe ferviam a memória.

gostava de ficar na varanda. observar a rotina viva das pessoas. e seus guarda-chuvas coloridos na calçada. era preciso comer ainda. mas não havia nada para se comer. teria de sair e comprar algo no caminho. foi até a porta e colocou só um casaco por cima. esquecera que estava ainda imprópria para sair a rua. voltou pra varanda descalça e olhou os carros. uma cidade inteira em movimento. o mundo todo frenético dançando a música da vida. gostava de pensar coisas assim. queria muito escrever um livro. ter dons culinários melhores. não. por enquanto a vida havia escolhido outro caminho. a mala ainda estava relativamente vazia e o tempo passando. com os pés descalços na varanda. estava parada. olhando o nada. os pés? nem frios. nem quentes. estavam ali bobeando. brincando com o vento que batia. uma música de fundo bem baixinha estava tocando. mas não queria prestar atenção naquilo. estava só parada. olhando a chuva da varanda. os corpos quase molhados na calçada e a vida esvaindo.

romper por necessidade
romper por que é inevitável
romper um vicio. romper um vinculo
romper a necessidade. romper por querer
romper pela fragilidade
romper pela experiência.
romper pelo inconfundível desejo
pela própria demência
romper por prazer
por temer
por qualquer coisa
quebrar uma rotina
ter de seguir uma outra estrada
mudar o caminho.
mudar.
quando não se quer. quando se quer
ter de mudar.
não querer mudar.
com medo de perder
perder. tudo. o rumo. o prumo.
até mesmo o sumo.
romper pra perder
porque perder é mais do que necessário
perder por necessidade
romper a esperança de seguir
romper por saber que não irá durar
acabar.
perder não por que quer
mas porque está no verbo: precisar
porque é a atitude mais madura a fazer.
chorar por romper
por perder
e saber que para mudar
é sempre necessário optar
escolher.
e as escolhas nunca são fáceis
de se fazer.

eu acabei de me levantar. tomei algumas decisões. falei algumas coisas comigo mesma. tento manter esse pequeno diálogo já que não encontro alguém que me entenda. trabalhei um pouco. alguns emails chegaram. o telefone quase não toucou. algumas frases continuam aqui. discriminadas elas continuam a discutir, discutir, discutir. e não páram nunca. jamais. eu continuo ocupando algum espaço. falando ao telefone. estou vendo pessoas caminharem. na paulicéia desvairada um pequeno sinal aberto pode ser um lampejo de luz. algumas pessoas se encontram demasiadamente ocupadas. eu queria estar demasiadamente ocupada. com o pensamento inteiro ocupado. queria poder estar de tênis correndo naquela rua arborizada. ou não. ou não porque o silêncio me levaria a pensar nisto novamente. quantas vezes vou ter que pensar? se é que pensar resolve alguma coisa. um milhão de palavras querendo sair. uma verdadeira guerra atroz que ninguém assiste, que ninguém percebe. só eu. aqui. sem coletes salva-vidas nem antibalas. sem proteções. só eu tentando achar uma certa estratégia dentro dessa perdição. parei um pouco, enquanto escrevo o texto que você lê. uma pausa parecida com um ponto e vírgula. espero que você tenha tomado fôlego comigo. inutilmente eu vou matando alguns sentimentos bonitos dentro de mim. hoje sou só sentimentos vazios. sou um cão sem dono. sou um rei sem trono. sou a linha perdida de algum carretel. inutilmente hoje estou sentada na beira da estrada. esperando o que? o nada.