Sobre Vana

Jornalista formada pelo Centro Universitário de Osasco - UNIFIEO. Nascida em São Paulo, é fotógrafa amadora em seu tempo livre. Vive hoje no Rio de Janeiro e descobriu uma nova paixão na vida : Viajar. Hoje em dia dedica-se a descobrir o atual mundo que vive, através de viagens, literatura e pelos amigos.

Eis que ele chega. como um intruso maldito. ele chega. se apega. preenche. transborda. eis que ele chega e me irrita, me imita. percorre. não entendo. não me entendo. acho que é como Clarice dizia “isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender”. então ela se transforma em desassossego. nem me interessa mais o livro. palavras demais. nem me interessa entender. entender é sempre limitado. então tudo pára. com a ponta do lápis ela pára. sossega. vou escrever mais um pouco. quem sabe ele não vai embora? descobri que não quero entender mais nada. nem ela. nem eu. nem nada. não entender pode não ter fronteiras. então posso ser muito mais completa quando não entendo. é uma benção estranha, como ter loucura sem ser doido. é um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. então não entendo nada. me faço de tonta. eis que saracutia novamente. quero entender tudo de uma vez. uma obstante inquietação: quero entender um pouco. não demais: nem de menos. mas pelo menos entender que não entendo.

tudo nela era novo. como um livro que ainda não se comprou. o livro que você folheia na livraria. ali nos trechos, não muito bem escolhidos, há uma espécie de cadência. uma falha. algo que não te faz levar o livro embora. você recita algumas palavras em busca de algo que te chame atenção, mas nada. parece que não há nada nele. de repente. uma frase. e depois de semanas. quando nada mais se espera [do livro] ele muda você. em algum momento. o livro te pega pelo estômago e muda você. então depois de dias, sentado em algum canto, enquanto a sua vida passa, o momento do livro retorna. ele não era encantador. mas te mudou de alguma forma…”

Eu bem tentaria te explicar, mas não posso. A posição de “rainha da verdade absoluta” não me cai bem, nem ao menos procuro dar respostas prontas aos que me perguntam. A única coisa que sei é que um dia você vai cair da cama, depois de chorar horrores por um amor mal resolvido e vai descobrir que nada é perfeito. Pode demorar uma hora, cem dias, uma vida, mas esse dia chega. Essa realidade medonha, que apavora, encosta as mãos no seu ombro e te dá a pior notícia que você pode receber depois de anos de ilusão: Seu príncipe encantado não vai bater na tua porta e te levar pra Terra do Nunca e que nada do que te disseram para acreditar é verdade. Sim, relacionamentos acabam. Sutilmente ou árduamente, escandalosamente, com histórias hilárias, muita raiva ou rancor…mas certo dia eles chegam a um ponto da estrada em que precisam ser acabados. Então toda aquela história de amor vira um capítulo a parte na sua vida e você chora as pitangas até os olhos esbugalharem de fronte ao espelho.

E eu, nem to sendo tão fria quanto parece viu. Acho mesmo é que a gente não nasceu pra perder, mas perde. Nem nasceu pra entender essa história por completo, mas entende. Na marra. Com gosto amargo na boca e uma tentativa frustrante interna dizendo pra si mesmo: eu vou mudar essa história! (Será? não sei..mas se for..boa sorte! Você vai precisar). O amor virou item de prateleira no supermercado chamado vida. Ele é só mais uma das representações embaraçosas que a nossa linda sociedade pós moderna criou.

Como quem se esfola na rua depois da queda, descobrir o fato real dessa coisa “amor” é como perder o meio que tem dentro da gente. Sentir-se um pouco (ou totalmente) vazio. Destruir um pouco da mágica da infância sadia e costumeira de cada um. A bem da verdade – doa a quem doer – é que você chega a um certo estágio da vida e descobre que essa coisa chamada amor pintada de cor de rosa azul vermelho e la vai cassetada não existe. foi realmente coisa que colocaram na sua cabeça. E isso não é regra, claro que existe gente que se acha. Dentro de 100 mil exemplos é possível achar um – ou não, depende de quanto a sua ótica é distorcida né?. O importante mesmo é saber lidar com a situação. seja por bem ou por mal uma hora você terá de enfrentá-la. é como fechar um ciclo vicioso. quando termina, nem parece que foi tão difícil assim.

Vou pintar a rua
e vou ficar nua
Vou pinta-la
Despí-la de benevolência
malevolência
atar-me-ei ao seu asfalto íngreme
Vou pintar a rua
e vou ficar nua
tua. completa
encarnarei a atriz de novela
vou ser mais você
do que eu mesma
dizer sem palavras
nem corpo, sentimento
o que eu nunca direi
vou pintar a rua
e irei embora do mundo
em cima da mala
toda dor
malícia sadia
imperatriz sadia
eu serei.
vou pintar a rua
e ir embora
de vez
nua.

não sei porque. mas me faltam.
como se eu soubesse que perdi o segundo
como se a água que escorre a pia
pudesse em vez de se perder
saciar a sede que tenho
e tenho tanta sede
que o sol habita dentro de mim

não sei de que, mas me sobram
não os restos de comida. nem as roupas no armário
mas sim, vontades estranhas de querer
de tanto querer conseguir
das pernas que correm. e se cansam deste caminhar
com as correntes nas pernas. atada
me vejo aqui. PARADA no meio do nada.

mas se me faltam e me sobram
ainda que me queiram retirar da cena
me restam ainda muitas portas
apostas; janelas, frestas
uma vida-vivida descontínua. contida.
me restam muitas decepções. lágrimas nos olhos
mentiras desgarradas. me restam desencontros amorosos
e muitas. mas muitas falsas promessas

de querer viver melhor
de querer ser alguém melhor
de tanto correr a. faltar e sobrar vontades de saciar
a fome.
a vontade.
o desejo.

das que me restam para faltar ou sobrar
ainda possuo, com a sujeira no corpo
com os porcos pisando sobre a pele
um sorriso largo e vasto no rosto
a determinância no corpo
o suor da pele
e a certeza que tudo
passa.
sempre.

no peito pulsam alegrias. tristezas. fantasias. devaneios.
coração. que acelera, músculo involuntário diria Marisa em uma de suas belíssimas canções
o que não bate. sacode. remexe. vibra. mistura de fábula.

não me deixe quieta. quero andar sobre o mundo.
girar como a terra, andar como as nuvens no céu.
quero caprichar no visual.sair na rua descalça.
queimar a sola. fazer cinema. deitar na grama, ler um livro.
gritar. sambar. sei lá. me perder de ti.
me achar em você. esquecer pronomes possessivos
reconhecer os adjetivos, superlativos, diminutivos. palavrear e soltar palavrões.
assim como a água que escorre e transborda a torneira.
quero prosa, silêncio.
GRITO
d-e-s-m-e-d-i-d-o.
___quero a pausa. a virgula. EXCLAMAÇÂO. interrogação?
Quero as rosas, o amarelo. azul anil. verde elefante. turquesa.
Quero dia com noite, danada madrugada intensa.
manhã na cama. na lama. na sujeira. no chuveiro
lençóis limpos. quero o sexo sem medo.
o orgasmo sem pranto.
a vida sem rodeios. sem meios. inteiros.
quero saladas. comidas. a fome. de tanto querer comer o mundo.
antropofagia persistente
o sono. insônia. quero tanto tudo.
que o que tenho não me basta nunca.
e fico assim. nessa querência sem fim”

feliz 2005 pra vocês. QUE A LUA BRILHE MUITO EM NÓS