Vulgo Dudu

Dizcoteca

A música alta, as luzes piscantes, a pista cheia, o calor infernal. Não sei por que insistia em frequentar discotecas. Não sabia dançar, não era divertido, nem saía direito do lugar. Elegia um canto, uma mesa, uma pilastra para apoio e pronto. Me restava usar drogas que afetassem o meu estado de inércia com o sexo. E com o sexo oposto também. Bebia cerveja, fumava maconha e, de vez em quando, tomava um ácido daqueles que dão tesão. Dão mesmo? Só me aproximava de alguém quando os lábios estavam dormentes, quando a língua enrolava e quando acreditava ser um exímio orador.

Falei muita merda. Xinguei várias mulheres – logo eu, um sujeito tão educado, que ainda hoje em dia dá dois beijos na avó materna e pede a bênção à paterna.

Pergunta se eu peguei alguém em uma discoteca?

Peguei só o braço de uma moça, que tratou de se livrar de mim depois que baforei uísque na cara dela. Foi sem querer. Ela me arranhou.

Discoteca, hoje em dia, é coleção de discos. Eu amo os discos. Até os arranhados. Odeio as outras discotecas. Vou vivendo o paradoxo cheio de ódio no coração. Sozinho, curto os meus discos deitado na cama de solteiro, mirando o branco do teto ou o verde do display do aparelho de som que indica o número da faixa e o tempo de reprodução transcorrido.

Eu amo as mulheres. Até as arranhadas, maltrapilhas, mal cuidadas. Queria fazer coleção delas também. Ficar deitado na cama de casal com elas, mirando o branco dos olhos delas ou a penumbra na porta do quarto – meu, e não delas – que denuncia o avançar da madrugada.

Vou me drogando, sozinho, no quarto, com os discos, longe das discotecas dos outros. Vou amando as faixas, os registros, as letras, as melodias.

Eu as odeio, discotecas. As dos outros. Eu odeio os outros.

 

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Pixies? Me voy! Me voy! Me voy!

Um dos dias mais vazios e estranhos que eu já vivi foi, precisamente, o 8 de maio de 2004. Naquele fatídico sábado, em Londrina, no estado do Paraná, minha banda preferida, os Pixies, fazia um show após anos de recesso. Na qualidade de jornalista pós-recém-formado, sem dinheiro na conta, lamentei em silêncio. Aproveitei o luto para fazer uma espécie de promessa: o show seguinte em terras próximas – leia-se aí América do Sul – não passaria em branco. Era uma resolução, um objetivo.

E, assim, dia desses, no Twitter, os Pixies anunciaram uma turnê, justamente, vejam só, pela América do Sul. Primeira cidade contemplada e confirmada: Santiago, no Chile. Catei o tabuleiro do War, coloquei meus exércitos de prontidão e joguei os dados: dinheiro, dessa vez, eu tinha. Alforria paternal, também. Nem precisei jogar os dados para saber se minha mulher queria ir comigo. Ora bolas, foram anos de catequese ao som de tudo o quanto era álbum, EP, DVD, bootlegs e afins. Até camisa da banda ela tem.

O chato é que o show fazia parte de um festival, montado em uma chácara nos cafundós da capital chilena. Quem frequenta festivais bem sabe: cada banda toca, mais ou menos, míseros 45 minutos, em média. Normalmente, é programa bom para quem procura quantidade. Outro fator que causou estranhamento foi que o tal festival incentivava uma espécie de congregação ideológica de cunho ambiental, incitando as pessoas a acampar. Eu tenho pânico de acampar, em grande parte por experiências traumáticas com gnomos, duendes e hippies.

Porém, para o meu espanto, veio a notícia na internet: os Pixies também iriam tocar em Itu, a cidade no interior paulista em que tudo é grande. Até a pretensão dos organizadores do tal festival assim era: queriam eles fazer uma espécie de Woodstock caipira, com direito, novamente, a fomento à prática do camping e mensagem ecológica. De fato, era mais barato ir à terra das grandezas do que até Santiago.

E, na semana seguinte, veio a confirmação de outra cidade latina: Buenos Aires. Mais interessante que Itu, me perdoem os ituanos. Melhor ainda: eram só os Pixies, a noite inteira, num ginásio tradicional da cidade. Nem precisei pegar o tabuleiro do War novamente. Fiz as contas, pesei os prós e contras, peguei minha mulher pelo braço e disse:

“Cariño, nosostros vamos a Buenos Aires para el concierto de los Pixies.”

Comprei os ingressos e as passagens com bastante antecedência. Deu tempo até de contagiar mais um casal de grandes amigos, Beto e Camila (ele um aficcionado por Pixies como eu, ela ainda não apresentada formalmente à banda). Iríamos não só ao show mais importante das nossas vidas, mas também aproveitaríamos os bons ares da capital argentina. Simplesmente sensacional!

E lá fomos nós, com nossos pacotes turísticos devidamente comprados, nossas malas devidamente arrumadas e nossas fichas ainda a cair. Enfrentamos uma viagem bastante cansativa, que começou às 6 horas da manhã. Três conexões e algumas horas de atraso depois, lá estávamos em Buenos Aires, exaustos, a poucas horas do show. Não deu tempo nem de escolher uma roupa especial. Descemos a Avenida Corrientes a pé até Puerto Madero para retirar os ingressos na bilheteria do Luna Park. Com os ditos cujos em mãos, as tais fichas começaram a cair.

Puta que pariu! Eu ía ver os Pixies ao vivo. Sentamos num restaurante bacana, pedimos uns belisquetes e bebemos umas cervejas – poucas, pois queria estar sóbrio e de bexiga vazia no momento do show.

Quase que pontualmente, lá para as 20h:30 do dia 6 de outubro de 2010, os Pixies subiram ao palco. Começaram com “Bone machine”, faixa que abre um dos álbuns mais instigantes do rock alternativo, Surfer Rosa. Ao longo das quase duas horas de apresentação, foram tocando só os clássicos – o que, no meu entender, é um pleonasmo, já que todas as músicas, inclusive as que ficaram fora do set list, são clássicas.

Têm noção? Foi o único show em que eu sabia cantar todas as músicas. Quase duas horas de apresentação, três bis, sendo o último de luzes acesas, numa tentativa desesperada dos organizadores em pôr fim ao entusiasmo desenfreado dos fãs que lotaram o Luna Park. Aliás, o clima da última canção foi digno de nota. Foi como fazer sexo de luzes acesas: há que se ter cumplicidade para que isso aconteça. Eu e minha mulher, abraçados, cúmplices. Cantei, emocionado, com olhos marejados e voz embargada, “Wave of mutilation (UK surf)”. Foi um momento sublime, no qual entendi por que as fãs de sertanejo universitário gritam e se descabelam durante as apresentações de seus ídolos. Embora fosse diferente comigo. Estava na minha, no meu canto, numa boa, civilizadamente rodeado por gente que também gostava dos Pixies e nem por isso puxavam os próprios cabelos aos berros.

Quando o show terminou, eu estava completamente exausto. Tão exaurido, que passei os outros dias de viagem com o corpo debilitado. Todas as noites, queimava em febre no quarto do hotel. Mas foda-se, né? É, foda-se. Foi um dos dias mais felizes que eu já vivi esse 6 de outubro de 2010 – perde de lavada para o dia em que minha filha nasceu, mas foi um dos mais felizes ainda assim, intenso, incrível, inesquecível.

Eu podia aqui falar sobre a música dos Pixies. Ficaram faltando alguns parágrafos, nesse enorme relato, sobre isso. Algo que explicasse essa minha devoção ao som que eles fazem. É que os Pixies sempre foram um pouco mais do que somente música para mim. É atitude, transgressão, poesia, arte etc. Posso dizer que grande parte da minha formação intelectual se deu através dos discos e da música do quarteto estadunidense. Escuto a banda desde os meus tenros 15 anos. Quando comecei a tocar guitarra, enquanto meus amigos queriam ser Joe Satriani e Steve Vai, eu queria ser Joey Santiago. O primeiro beijo na mulher que hoje é a mãe da minha filha foi ao som de “Where is my mind?”. Minha longboard, feita sob medida, tem o nome e a logo da banda cravadas nela.

Ainda preciso explicar o som dos Pixies?

 

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O mau é legal

O negócio é o seguinte: escolhi 10 vilões – cinco calcinhas furiosas e cinco cuecas ordinárias – que marcaram a história do cinema. Ao menos a mim.

Tarefa complicada, porque eu sempre torci para o Gargamel fazer um chá de trombeta com os smurfs, para o Tom cravar os caninos naquele rato metido a sabichão do Jerry, para um dos monstros turbinados pelo Satã-Goss botar no chão o Daileon… Enfim, sou um entusiasta dos antagonistas. Seguem, em ordem aleatória.

Varla Varla (Tura Satana), de Faster, pussycat! Kill! Kill!

Essa aí é o diabo em forma de mulher! Com direito a seios fartos, decote provocante, cintura fina e botas de couro.

Edna (Pat Ast), de Reform school girls

Todo reformatório para garotas que se preze precisa de uma inspetora grande, feia e com ar de sargentona. Pat Ast, com seus métodos nada convencionais, dá conta do recado!

Gogo Yubari (Chiaki Kuriyama), de Kill Bill V.1

Olha o fetiche: japonesa, em trajes colegiais, meias três-quartos e uma bola de metal com espinhos sinistros nas mãos. Gogo é a jovem delinqüente mais estilosa que a mente fértil de Tarantino já produziu.

Beverly R. Sutphin (Kathleen Turner), de Mamãe é de morte

A ex-sexy Kathleen Turner faz de sua mãe serial killer uma das figuras mais adoráveis do cinema underground de John Waters. Matriarca zelosa e preocupada com as questões ambientais. Porém, mexeu com ela, tá lascado!

Bruxa de Blair

Impressionante como uma vilã que não aparece na tela pode deixar o espectador tenso. Eu me lembro da pré-estréia do filme, meia-noite, cinema cheio. Sinistro! Saímos todos renovados com aquela vontade de pegar uma câmera e fazer um filme.

Darth Vader (David Prowse), de Guerra nas estrelas

De que adiantou creditar David Prowse nos letreiros dos três primeiros episódios de Guerra nas Estrelas? Nem a voz era dele. Pois impactante mesmo é a máscara negra de um dos meus vilões preferidos.

Anton Chigurh (Javier Barden), de Onde os fracos não têm vez

Javier Barden é um dos grandes atores do cinema contemporâneo. E seu vilão não poderia deixar de ser inesquecível. A caracterização de Anton Chigurh, com cabelo tosco e olhos esbugalhados, é assustadoramente perfeita!

Chong Li (Bolo Yeung), de O grande dragão branco

Van Damme teve que cortar um dobrado para vencer Chong Li, o terror dos ringues – sempre enfezado e cheio de marra. Ainda mexia os peitinhos só para tirar onda.

Biff Tannen (Thomas F. Wilson), de De volta para o futuro

Apesar de ter um final melancólico já nos primeiros minutos da trilogia, já que o filme começa no presente, Biff Tannen tem lá seus méritos. Com aquele jeito paspalhão, parvalhão, bobo-alegre, é impossível não criar empatia pelo personagem.

Zé Pequeno (Leandro Firmino), de Cidade de Deus

Dadinho é o caralho! O nome dele é Zé Pequeno, porra! O trabalho de Leandro Firmino é impressionante.

 

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Princesa Duda

ERA UMA VEZ UMA PRINCESA MUITO BONITA CHAMADA MARIA EDUARDA. ELA GOSTAVA DE PASSEAR PELOS FLORIDOS CAMPOS AO REDOR DO CASTELO. DUDA, COMO ERA CONHECIDA A BELA FILHA DO REI, CORRIA DE UM LADO PARA O OUTRO. ERA AMIGA DE BORBOLETAS, PÁSSAROS, CÃES, GATOS E ATÉ DAS ONÇAS PINTADAS. SUA MÃE, A RAINHA ELAINE, ERA BASTANTE SÉRIA E PREOCUPADA. NÃO DEIXAVA A PRINCESA DUDA SAIR PARA DANÇAR NA DISCOTECA QUE FICAVA NO PRINCIPADO AO LADO. DIZIA ELA: “MINHA FILHA, AQUELE ANTRO DE PERDIÇÃO É FREQUENTADO POR BOBOS DA CORTE. ALÉM DISSO, NÃO GOSTO QUE VOCÊ VOLTE PARA CASA SOZINHA DIRIGINDO SUA CARRUAGEM MADRUGADA ADENTRO. O REI EDUARDO TINHA FAMA DE SER CIUMENTO – MAS ERA APENAS FAMA. NO FUNDO, ERA UM HOMEM BONDOSO QUE SE PREOCUPAVA COM A FELICIDADE DA FILHA. POR ISSO, DIZIA: “FILHA, VÁ LER DOSTOIEVSKY QUE VOCÊ SE DÁ BEM.” A PRINCESA DUDA ERA UMA MENINA MUITO ESPERTA PARA A POUCA IDADE QUE TINHA. AOS 2 ANOS, JÁ RECITAVA POEMAS DE FERNANDO PESSOA COM TAMANHA DESENVOLTURA, QUE ERA CONVIDADA ESPECIAL EM SARAUS E RODAS DE LEITURA DE UNIVERSIDADES LOCAIS. UM DIA, A PEQUENA RESOLVEU ENTRAR PARA O CURSO DE TEATRO. O REI, DE INÍCIO, TORCEU O NARIZ: “SABE, FILHA… SUA MÃE NÃO ME DEIXOU FAZER TEATRO COM MEDO QUE EU PEGASSE AS ATRIZES DE MALHAÇÃO. NO TEATRO TEM MUITO MACONHEIRO SAFADO QUE QUER FICAR FAMOSO. POUCOS SÃO OS ATORES DE VERDADE. A RAINHA CONTESTOU: “NADA A VER, OH, MEU GRANDE E MAGNÂNIMO REI. O TEATRO AJUDA AS PESSOAS A TER UMA VIDA MAIS FELIZ E SAUDÁVEL, LONGE DAS DROGAS. TEATRO É VIDA.” DEPOIS DE MUITA CONVERSAREM, O REI TEVE UMA GRANDE IDEIA, COMO ERA DE COSTUME: “FILHA, SE VOCÊ QUER REALMENTE FAZER TEATRO, PRECISA LER OS CLÁSSICOS DA DRAMATURGIA. ASSIM QUE CONSEGUIR DAR CONTA DA BIBLIOGRAFIA QUE LHE PASSAREI, PODE SE MATRICULAR NAS AULAS DE TEATRO. PORÉM, QUERO FICHAMENTOS DATILOGRAFADOS NO COMPUTADOR, FONTE ARIAL, CORPO 12 E ESPAÇAMENTO DUPLO.” A PRINCESA DUDA ACEITOU A PROPOSTA, APESAR DA PILHA DE LIVROS QUE SE ACUMULOU NO CRIADO MUDO DE SEU SUNTUOSO QUARTO. ANTES DE DORMIR, NOITE APÓS NOITE, SE DEDICAVA ÀS LETRAS DOS GRANDES MESTRES. BECKETT, GOGOL, SARTRE, SÓFOCLES, MOLIÈRE, PIRANDELLO E ATÉ SHAKESPEARE, VEJA BEM, CARO LEITOR, ATÉ SHAKESPEARE! OS ANOS FORAM PASSANDO E A PRINCESA DUDA NÃO FOI PERCEBENDO. À MEDIDA QUE IA CRESCENDO, TINHA CADA VEZ MENOS TEMPO DISPONÍVEL PARA TRIVIALIDADES E FUTILIDADES. A RAINHA ESTRANHAVA O FATO DA PEQUENA E DONAIROSA ADOLESCENTE NÃO INSISTIR EM SAIR PARA DANÇAR, PREFERINDO SE DEBRUÇAR SOBRE OS LIVROS. O TEMPO FOI PASSANDO CADA VEZ MAIS RÁPIDO. E AQUI, CARO LEITOR, HÁ UM GRANDE PULO NA LINHA DO TEMPO. PASSARAM-SE, VEJA SÓ, 10 ANOS. A PRINCESA DUDA JÁ ERA MOÇA FEITA E GRADUAVA-SE EM MEDICINA, COMO A MELHOR ALUNA DA UNIVERSIDADE. NO DISCURSO, EMOCIONADA, AGRADECEU: “NADA DISSO SERIA POSSÍVEL SEM A AJUDA DO MEU PAI, O REI, QUE ME APRESENTOU A UM MUNDO QUE REALMENTE VALIA A PENA, O MUNDO DA LITERATURA. ABDIQUEI DE NOITES REGADAS À BEBIDA E DROGAS SINTÉTICAS, ME MANTIVE LONGE DAS MÁS COMPANHIAS E DOS WANNA-BE-CELEBRIDADES DO CURSO DE TEATRO, PODENDO ENTÃO ME CONCENTRAR E FOCAR NA MINHA FORMAÇÃO INTELECTUAL. AO MEU PAI, O MAGNÂNIMO E INCONSTESTÁVEL REI, O MEU MUITO OBRIGADO. TE AMO, PAI!” TODOS OS SÚDITOS PRESENTES SE LEVANTARAM, AOS PRANTOS, E TAMBÉM APLAUDIRAM. O REI FICOU DE PÉ E GRITOU: “BRAVO! É MINHA FILHA!” A RAINHA, VISIVELMENTE CONTRARIADA EM UM PRIMEIRO INSTANTE, DEU O BRAÇO A TORCER E SE DEIXOU LEVAR PELA EMOÇÃO, DEBULHANDO-SE EM LÁGRIMAS. DEPOIS DA CERIMÔNIA, FORAM TODOS COMER PIZZA NA TAVERNA DA ESQUINA. E VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE. FIM.

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Posterior / anterior

Ela foi embora sem ao menos dar uma olhada para trás, para ver o estado em que me deixou. Ainda bem que ela não se virou. Veria um rosto de formas retorcidas pela tristeza. Talvez não tenha se virado porque sabia que meus olhos ainda a acompanhavam na ignóbil tentativa de reter a sua silhueta, que com o tempo fatalmente viraria um vulto borrado sem qualquer legibilidade. Talvez ela quisesse ser esquecida, talvez quisesse garantir que nenhum resquício dela permaneceria em minhas retinas. Ela, de costas, era a última coisa que eu veria, talvez assim quisesse. Talvez porque ela também estivesse com os músculos da face prestes a se contrair, não sei. Talvez para o riso, talvez para o choro, não vou saber nunca – e talvez essa tenha sido a intenção dela.

Eu a vi caminhando, indo embora.

Eu a vi mexendo as ancas num rebolado sinuoso enquanto aumentava a distância entre nós dois.

Eu vi aquela bunda indo embora.

A bunda e ela.

A bunda dela.

 

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Deus não deu o rock’n'roll a você…

Ah, meus tempos… Quando eu era moleque, aprendi a amar o rock seguindo os passos do meu pai. Em plena década de 60 era ele um rebelde por se recusar a cortar os cabelos, desobedecendo ordens de padres que dirigiam um tradicional colégio católico no Rio de Janeiro. Outra lição tirei, sem dúvida, das telas de cinema. Referências, das melhores, não faltaram.

Ah, os musicais… Na época do meu pai, havia A Hard Day’s Night, o primeiro filme de longa-metragem estrelando o quarteto de Liverpool. Depois, veio Rock’n'Roll High School, filme no qual uma jovem luta pelo rock no seu colégio com a ajuda dos Ramones. E o que dizer de The Wall, clássico subversivo do Pink Floyd?

Porra, o rock era transgressor até na tela de cinema!

Aí, inventaram High School Musical. E vieram os subprodutos.

Não é de hoje que a maioria das grandes produções musicais que apregoam o rock desafinam sempre que a tal atitude do gênero é posta à prova. Quando adolescentes pegam guitarras, baixos e microfones, o que sai nos alto-falantes são composições melosas, em acordes menores, que falam sobre desilusões amorosas. E tudo é tão bem equalizado, tão bem produzido, tão bem coreografado, que se torna inverossímil. Bom para vender trilha sonora a um público que se acostumou a consumir os enlatados de gravadora.

Não se engane: o rock adolescente de verdade é feito por desajustados. Nasce na garagem, com instrumentos comprados em prestações pelos pais, plugados em caixas improvisadas, com som distorcido, guitarras no talo e vocal incompreensível. As letras falam de qualquer bobagem. Porque poeta jovem de verdade, só Casimiro de Abreu e seus contemporâneos da segunda geração da poesia romântica.

O rock é do diabo. O terror das mães, que queimavam discos em fogueiras. Paul Stanley estava de cara limpa, ou seja, desconfigurado, perturbado e sem moral alguma quando escreveu “God Gave Rock’n'Roll To You”.

Então, pequenos roqueiros, ouvidos e olhos bem abertos!

“Se Sexo é o que Importa só o Rock é Sobre Amor” (Bidê ou Balde)

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10 filmes para serem vistos a dois – e não é pornografia!

Fernando Pessoa dizia que todas as cartas de amor são ridículas. Vai além, e conclui que se não fossem ridículas, não seriam cartas de amor. Há quem transfira os belos versos do poeta português para a sétima arte. Gente que caiu na armadilha da indústria cinematográfica e aprendeu, ao longo dos blockbusters, a se resignar com romances repletos de clichês que duvidam da capacidade intelectual do espectador.

Não se enganem: nem todo o filme de amor é ridículo. Vou além: se forem ridículos, peçam o dinheiro de volta na bilheteria. Apresento-lhes, pois, uma pequena lista com 10 filmes de amor que não subestimam o espectador. Bons roteiros, bons atores e quase nada de clichês baratos e romanescos.

Filmes para ver juntinho, debaixo do edredom. Ou não. Filmes para discutir a relação. O bacana é vê-los a dois.

Brilho eterno de uma mente sem lembrança Brilho eterno de uma mente sem lembrança (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004), de Michel Gondry
Ouso aqui escrever que este filme é a mais bela e instigante história de amor já levada à tela grande. Aí você me pergunta: “melhor que Casablanca?”. E eu respondo, sem titubear, usando advérbio de intensidade: “muito melhor!”. O roteiro, de Charlie Kaufman, é absurdamente incrível. Conta a história de um homem que, após descobrir que sua ex-namorada se submeteu a um tratamento que eliminou as lembranças do finado relacionamento, decide fazer o mesmo. Jim Carey interpreta com bastante contundência dramática o pobre protagonista. É de arrancar lágrimas do espectador mais durão.
Apenas o fim (500) dias com ela ((500) Days of Summer, 2009), de Marc Webb
Sim, é possível fazer uma comédia romântica engraçada, emocionante e, ao mesmo tempo, ousada. O roteiro de (500) dias com ela é uma pequena aula sobre o tema. Acompanhamos o período do relacionamento entre o casal citado no título, em ordem completamente aleatória – do primeiro encontro à separação, passando pelas reviravoltas. Trilha sonora descolada, fotografia caprichada, montagem eficiente e elenco afinado, com a queridinha Zooey Deschanell (um ícone das comédias românticas inteligentes) fazendo par romântico com o outrora petiz Joseph Gordon-Levitt.
Hiroshima, meu amor Hiroshima, meu amor (Hiroshima, mon amour, 1959), de Alain Resnais
Filme de amor também pode ser denso, angustiante e, no fim das contas, revolucionário. Alain Resnais, um dos grandes expoentes do cinema francês, é o autor deste filme antibelicista que fala sobre o relacionamento intenso entre uma atriz francesa e um arquiteto japonês. O casal se encontram durante as filmagens de uma produção pacifista na cidade arrasada pela bomba atômica. Lançado em 1959, a produção é até hoje considerada uma das obras mais profundas sobre o amor e a tolerância em tempos de guerra.
Apenas o fim Apenas o fim (2008), de Matheus Souza
Dirigido por um estudante de cinema da PUC-Rio, este filme comprova que o cinema nacional tem muito a oferecer. Uma boa ideia, bons atores e uma câmera na mão bastaram para que Matheus Souza filmasse a bela história de uma jovem que decide se mudar para o exterior e comunica a decisão ao então namorado. Prestes a dar cabo à relação, os dois passam uma tarde juntos reavaliando o namoro. Mesmo quem não é carioca representante da classe média-alta da Zona Sul vai se sentir envolvido com o belíssimo roteiro.
Prova de Amor Prova de amor (All the real girls, 2003), de David Gordon Green
Eu escrevi ali em cima que Zooey Deschanell era figurinha fácil em comédias românticas. Na verdade, Prova de amor não chega a ser uma comédia. Está mais para drama romântico. E o mais importante: um drama romântico inteligente. Ambientado no interior dos Estados Unidos, conta a história de um jovem que se vê apaixonado pela irmã mais nova do melhor amigo. Obviamente, a relação do casal coloca não só a amizade em xeque, como também gera uma série de conflitos existenciais. Um belo filme, com ritmo mais cadenciado, argumento denso, sequências bastante sensíveis e diálogos muito bem trabalhados.
Amantes Amantes (Two lovers, 2008), de James Gray
Joaquin Phoenix alegou que este foi seu último trabalho no cinema. Se a afirmação do ator vier a se confirmar, ele encerrou sua carreira com chave de ouro. Amantes é um excelente filme. Denso, angustiante e inteligente. O roteiro conta a história de um jovem judeu, abandonado pela noiva, que tenta retomar a rotina após ser internado por tentar cometer suicídio. De uma hora para outra, se vê diante de um impasse amoroso: viver uma aventura com a misteriosa vizinha loira (Gwyneth Paltrow, nada mal, hein?); ou se deixar acomodar num relacionamento mais conservador com a filha de amigos dos pais. O desfecho é dolorosamente brilhante.
De olhos bem fechados De olhos bem fechados (Eyes wide shut, 1999), de Stanley Kubrick
Me lembro que, depois da sessão desta obra complexa e polêmica do mestre Kubrick, muitos casais discutiram a relação ainda no foyer do cinema. Inclusive, nem o relacionamento do casal protagonista, Tom Cruise e Nicole Kidman, passou incólume por essa experiência cinematográfica devastadora. O filme conta a história de um homem que conhece uma suposta organização secreta que promove luxuosas orgias em uma mansão. Filmaço! Uma aula de direção. E um roteiro fantástico, capaz de deixar qualquer casal com uma pulga atrás da orelha.
Manhattan Manhattan (1979), de Woody Allen
Quando Woody resolve fazer cinema erudito, pode se tornar prolixo e pedante a certas plateias. Em Manhattan, assim o faz. Porém, o roteiro não deixa de ser bacana, tratando com humor bastante contundente os caminhos inesperados dos relacionamentos amorosos. Aqui, um homem bem casado resolve empurrar a amante, com quem acabou de romper o caso, para o melhor amigo. Fotografia p&b caprichada, locações encantadoras, trilha sonora refinada e aquela infindável enxurrada de referências sobre arte e filosofia.
Antes de Amanhecer Antes de amanhecer (Before sunrise, 1995), de Richard Linklater
Na minha modesta opinião, Richard Linklater é atualmente o cara que mais bem trabalha os diálogos. Prova disso é o belíssimo e irrepreensível roteiro de Antes do amanhecer: simples, estiloso e encantador. O filme conta a história de um sujeito estadunidense que conhece uma jovem francesa num trem, em trânsito pela Europa. Atraídos um pelo outro, eles têm apenas até o sol nascer para tentar viver uma paixão. Ganhou uma continuação, Antes do pôr-do-sol, igualmente bacana.
O império dos sentidos O império dos sentidos (Ai no corida, 1976), de Nagisa Oshima
Eu escrevi lá no título que não ia ter pornografia nessa lista. E não tem mesmo. Por mais que Império dos Sentidos desperte a curiosidade de muita gente pela polêmica que gerou ao ser lançado, não há nada de gratuito em suas quase duas horas de projeção. Há sim, cenas bastante ousadas, mas nada é gratuito. Aliás, trata-se de uma obra bastante amarga e violenta, que mostra o sexo e o amor de forma bem perversa. Ou seja, o clima pode estar favorável, o edredom confortável e o vinho bem envelhecido, mas os olhos dificilmente vão desgrudar da tela.

 

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10 filmes para ficar bolado

Severiano Ribeiro defendia a teoria de que o cinema é a maior diversão. Sim, o caráter lúdico das imagens em movimento é inegável. Porém, nem só de finais felizes e histórias fantásticas vive a sétima arte. Há também uma penca de produções que são capazes de chocar plateias ao redor do mundo.

Na lista abaixo estão 10 filmes que, na minha opinião, fazem jus a essa pequena parcela de cinema chocante. Foram banidos, proibidos e amaldiçoados, mas resistiram e entraram, de certa forma, para a história do cinema. São obras que, inegavelmente, têm lá o seu valor, pois trabalham com temas universais e conseguem tirar o espectador de um lugar confortável – por mais que despertem a ojeriza e o repúdio.

Lembrem-se: é a minha lista, ok? Se vocês acham que eu esqueci daquele filme búlgaro bizarro ou daquela produção escatológica da Nova Zelândia, vão em frente e façam a sua própria lista ali nos comentários.

Conheça-os. E veja-os, se tiver estômago e nervos fortes.

Hated (1984), de Todd PhillipsTodd Phillips foi o cara responsável por Se beber, não case, fantástica comédia que faz um humor incorreto e escatológico. Pois é ele o diretor de um dos documentários mais perturbadores da história. Hated conta a história de GG Allin, vocalista da banda The Murder Junkies. As pessoas iam aos seus shows não por causa da música, mas pelo festival de atrocidades promovido pelo cantor. O documentário contém cenas de Allin bebendo o mijo de uma puta, defecando no palco, jogando a merda no público, se cortando com lâminas de barbear, socando mulheres e outras atividades igualmente chocantes. Um petardo!
Holocausto canibal (Cannibal holocaust, 1984), de Ruggero DeodatoMuito antes de Bruxa de Blair, lá em 1984 o italiano Ruggero Deodato já havia tido a brilhante ideia de fazer uma mistura entre o terror e o gênero documental. Anunciou a descoberta de imagens inéditas de um grupo de antropólogos desaparecidos na selva amazônica e prometeu mostrá-las na tela grande. A estratégia deu certo. Tanto que, após a sessão de estreia de Holocausto canibal, o diretor foi preso e teve que provar que seus atores, que no filme são brutalmente assassinados por uma tribo de índios canibais da Amazônia, na verdade estavam todos vivos. O curioso é que Sérgio Leone, mestre dos westerns, escreveu uma carta a Deodato alegando que Holocausto canibal era uma obra-prima. Só por isso já vale o confere.
Freaks (1932), de Tod BrowningPense bem: para que um filme de 1932 continue a ser considerado chocante, é porque o negócio é pesado de verdade. Tod Browning deixou o mundo apavorado com Freaks. Era a primeira vez que uma produção cinematográfica usava aberrações de verdade como atores. Há um homem sem braços e pernas, gente com nanismo, irmãs siamesas e artistas com tipos variados de deformações. A história sobre uma linda trapezista que finge se apaixonar por um anão milionário é verdadeiramente assustadora. O desfecho é particularmente perturbador.
Even dwarfs started small (1970), de Werner HerzogWerner Herzog ganhou notoriedade internacional a partir de Even dwarfs started small, produção que entrou para a história do cinema underground pela ousadia da proposta. O filme mostra um grupo de anões se rebelando em uma instituição psiquiátrica quando o diretor se ausenta. Eles fazem barbaridades diante da câmera, com referências críticas e ataques à religião, à sociedade e ao modo de vida contemporâneo. Detalhe: todo o elenco é composto por anões.
Subconcious cruelty (1999), de Karim HussainSó o título já é capaz de causar arrepios. Quatro histórias bizarras, que mexem com questões existenciais, como a gravidez e a religiosidade, formam o conjunto de uma das obras mais grotescas que uma mente humana foi capaz de pensar e imprimir em um fotograma. Subconcious cruelty, dirigido por Karim Hussain, é considerado por muitos a produção mais extrema já realizada. Há quem diga que é arte, há quem diga que é lixo.
Pink Flamingos (1972), de John WatersJohn Waters e seu diferenciado senso de humor, sarcástico e ácido, deixou muita gente enojada e revoltada com o inigualável e infame Pink Flamingos. Recheado de situações bizarras, o filme mostra o enorme travesti Divine disputando com um casal de vizinhos insanos o título de pessoa mais imunda do mundo. Não foi à toa que, nas sessões de estreia, sacos de vômito eram oferecidos aos espectadores. O filme tem cenas de incesto, zoofilia, podolatria e canibalismo. Fora um ânus cantante, que abre e fecha ao som de “”Surfin’ bird”", e a célebre e imunda sequência na qual Divine come fezes fresquinhas e quentinhas de um pequeno poodle.
I spit on your grave! (1978), de Meir ZarchiNão conheço um título de filme mais bacana do que esse. E olha que esse nem é o oficial. Na verdade, I spit on your grave é um nome alternativo para Day of the woman. Trata-se de um genuíno exploitation – uma história de vingança com requintes de crueldade. Um mulher é estuprada até ser dada como morta por um grupo de homens. Porém, ela sobrevive… Aí, já viu, né? As cenas de violência sexual deixaram muita gente em estado de choque.
Salò ou os 120 dias de Sodoma (Salò o le Centoventi Giornate di Sodoma, 1975), de Pier Paolo PasoliniPasolini foi um daqueles diretores que elevou o cinema ao status de obra de arte. Conseguiu tal feito com uma filmografia contundente, na qual foi capaz de criticar o sistema e os valores do seu tempo. Saló, se não é a sua obra-prima, é certamente seu trabalho mais polêmico. Funciona como uma denúncia às praticas do fascismo. Ao longo do filme, um grupo de jovens é torturado e humilhado. São quase duas horas de cenas bastante fortes, mas que estão inseridas dentro de uma proposta contestadora.
O massacre da serra elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 1973), de Tobe HooperFoi no início da década de 70 que Tobe Hooper praticamente inaugurou um novo conceito estético nos filmes de terror. Por incrível que pareça, O massacre da serra elétrica, produção independente de baixíssimo orçamento, tem apenas quatro minutos de cenas com sangue. O resto é terror psicológico, com sequências realmente perturbadoras. Para piorar – ou melhorar -, o roteiro é baseado em uma história real, que dá conta de uma família de psicopatas que retalhava e mutilava suas vítimas. Leatherface e sua serra elétrica se transformaram em ícones do cinema do horror.
Jesus Camp (2006), de Heidi Ewing e Rachel GradyDocumentário é o meu gênero preferido. Muitos foram os que me deixaram impressionados. Porém, após conferir Jesus Camp eu fiquei realmente incomodado. O filme acompanha de perto um acampamento cristão para crianças estadunidenses. Vê-las gemendo, tremendo, se contorcendo e gritando louvores aos prantos em uma espécie de transe é uma experiência chocante e assustadora! Tão assustadora quanto as sequências nas quais as mesmas são ensinadas a adorar Jesus e Geroge W. Bush.
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Tudo azul, James Cameron?

Até pouco tempo, avatar, para mim, era aquela imagem que usávamos, não necessariamente de forma realista, nos aplicativos de internet que dispunham de identificação visual. Agora, graças a um diretor estadunidense, o termo também se refere à febre azul que contagiou plateias ao redor do mundo, promovendo um espetáculo em três dimensões. James Cameron, o sujeito por trás do filme mais caro da história do cinema, como alertaram algumas manchetes, gastou algo em torno de meio bilhão de dólares para levar à telona seu projeto dito revolucionário, o seu Avatar – que, no fundo, nada mais é do que uma obra tautológica, uma ode a sua identidade mista de cineasta e investidor especulativo.

Fato é que, se não fosse numa cabine de imprensa, ou seja, na faixa, de graça, não iria me dispor a ver Avatar na tela grande e munido de óculos 3D, como manda a cartilha de cada 9 dos 10 espectadores que passaram pela experiência. Não tenho carteira de estudante e o pé de jaca perto de casa ainda não deu dinheiro. Aliás, não estava disposto nem a pagar o aluguel do disco quando o mesmo chegasse às locadoras.

Como mantenedor de um blog sobre filmes e crítico de cinema nas horas vagas, eu sabia que não teria escapatória: cedo ou tarde precisaria conferir a produção de Cameron, um dos diretores que mais desprezo, em grande parte por ter realizado uma das obras cinematográficas mais dantescas da história, Titanic. O filme-catástrofe-de-amor, que levou milhares de espectadores a naufragarem em lágrimas, me serviu de exemplo para expor o que mais repudio na sétima arte: roteiros ruins. Mais além: roteiros ruins que se repetem. Graças aos deuses do cinema, naquela época o entretenimento em três dimensões ainda não era tendência global.

Aí veio a ideia.

Eu sempre defendi a teoria de que o mais importante em um filme é o roteiro. Não tem escapatória. Cinema, com óculos 3D ou sem eles, ainda é, em sua essência, a contação de uma história. Uma vez fui questionado sobre como avaliava os filmes que via. E a resposta foi exatamente essa. Em primeiro lugar, observo como a história é contada. É possível um bom filme ter atores medianos, fotografia simples e uma trilha sonora fraca. Se o roteiro for bom, relevo o resto quase que instintivamente. Porém, a mim o contrário é impossível. Junte os melhores atores do mundo, as câmeras mais modernas, os diretores de fotografia mais badalados e uma orquestra sinfônica para compor a trilha sonora original. Se o roteiro não for bom, o malogro é certo.

Obviamente, também canso de repetir que cinema é que nem traseiro, cada um tem o seu. Eu tenho o meu. E nele, novamente, o mais importante é o roteiro. Sendo assim, não curti a ideia de ser seduzido pela tal febre azul avatariana. Não queria me comover com sequências em três dimensões, não queria me emocionar com as cores vibrantes das florestas computadorizadas, não queria me encantar pela textura vivaz dos Na’vi. Queria, sim, experimentar a história que o próprio Cameron criou e, somente depois, emitir um juízo de gosto.

Por isso, corri em busca de uma cópia pirata, pixelada, vagabunda e mal feita. Fim de semana chuvoso, crise de rinite alérgica, TV de 14 polegadas, DVD player compacto que nem é mais fabricado, Bavaria, que não chega a ser cerveja, e aquele salgadinho vagabundo que é isopor amarelo com sal. A noite estava pronta para uma bela sessão de Avatar, com todos os cuidados necessários para que a imersão na história de um belo planeta ameaçado pela ganância dos terráqueos fosse completa.

De cara, Avatar se atropela em uma espécie de prólogo que vai explicando rapidinho que o protagonista, um fuzileiro áspero, ficou paraplégico e teve um irmão gêmeo, cientista virginal, morto num assalto. Afinal, era preciso economizar tempo, já que seriam cerca de duas horas e meia de projeção. Fica claro, nas primeiras sequências, que trata-se de uma obra maniqueísta, o bem contra o mal, dispostos em lados bem delimitados. O único que consegue atravessar a linha é o tal fuzileiro protagonista, Jake Sully, que começa humano, mau, e vai se tornando azul, bom. Ou seja, o desfecho é, inevitavelmente, previsível – ainda que não seja o mais importante no filme, uma vez que Hollywood não faz uma produção milionária sem deixar ensejo para sequências.

Ao longo de Avatar, pouca coisa realmente acontece. Aqui, me refiro à ação propriamente dita. Não há reviravoltas importantes, não há revelações surpreendentes, não há diálogos trabalhados, não há clímax, não há profundidade cênica ou qualquer outro elemento de um bom roteiro. Não há, sequer, uma cena imprescindível para que o todo faça sentido. Ou seja, o espectador que tem a bexiga solta ou o cólon irritável pode se levantar para ir ao banheiro em qualquer ponto do filme, sem que isso prejudique o entendimento do argumento proposto pelo diretor.

Pelo fato de ser um roteiro que trabalha a todo instante com caracterizações maniqueísta, as atuações ficam em segundo plano. Não há como uma interpretação se sobressair quando o papel exige rubricas cartunescas para caracterizar o bem e o mal. A única empatia que o espectador cria é mesmo com os seres azuis, meio felinos, gerados por computador, espécime cuja natureza de movimentos e expressões é um diferencial, sem possibilidades comparativas a priori.

De certa forma, Avatar comprova o momento melancólico que a sociedade estadunidense atravessa. Tão melancólico, que gasta meio bilhão de dinheiros para projetar uma raça que se entrelaça com uma espécie de Mãe Natureza, tem raízes religiosas profundas e convive pacificamente com animais selvagens. Ou seja, para serem como os Na’vi, os estadunidenses teriam que viver como nunca antes quiseram, praticamente como estereotipados hippies macrobióticos, abrindo mão de iPods, Mc Lanches Felizes, carros total flex e filmes do Steven Spielberg.

Por causa desta nova necessidade de reciclar as ideias, mas sem abrir mão do capital especulativo, o sucesso de gente como Al Gore é explicado. Seus seminários ao redor do mundo tentam convencer as multidões de que há interesse em salvar o planeta, quando na verdade o real interesse é salvar um modelo econômico onde especulação e consumo continue sendo possíveis. E aí, Cameron pega carona num metadiscurso pacifista e ecológico que o permite vir ao Brasil distribuir autógrafos enquanto fala sobre meio ambiente.

Mais ainda do que precisar abrir mão de suas convicções, os estadunidenses também teriam que engolir a própria xenofobia para absorver valores que são insustentáveis para a contemporaneidade econômica que regula suas vidas.

Avatar, lá no fundo, é um filme tão triste quanto Titanic. E o mais espantoso é que toda essa tristeza é muito bem expressada pelos alienígenas tridimensionais feitos no computador. Eles sofrem, choram, se irritam. O semblante funesto dos Na’vi quando da destruição de sua árvore-moradia se assemelha ao dos estadunidenses de carne e osso quando do desfalecimento das Torres Gêmeas, sustentáculo de toda uma crença no equilíbrio social.

No fim das contas, Avatar falha como filme. O roteiro é muito ruim. Não se sustenta na empreitada de contar uma boa história. Porém, cumpre seu papel em se tornar o centro das discussões sobre o que parece ser uma nova era para o entretenimento mundial, as super produções em três dimensões – mesmo que tenha perdido a tal estatueta da academia para um filme feito em formato digital e bancado com capital estrangeiro.

Avatar é tão ou mais chato que Titanic. Sob certo ângulo, levando-se em conta o avatar de James Cameron, são a mesma coisa. Inclusive, ambos trazem uma música cafona durante os créditos finais.

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Caça-palavras

O caça-palavras parecia normal. Como tantos outros publicados no jornal de domingo. Um amontoado de letras e suas possibilidades. Para frente, para trás, para os lados, na diagonal. Sem acentos, hifens, vírgula, maiúscula, minúscula.
Ela acordou e, enquanto tomava o café da manhã, começou a catar fonemas com o lápis em punho.
Lá em cima: hoje
Lá em baixo: você
Bem no meio: vai
À direita: encontrar
À esquerda: um
Diagonal: grande
Faltou uma palavra. Vasculhou as linhas, varreu as colunas. Pôs óculos, lentes de contato. Agarrou uma lupa. Nada. Repetiu a operação. Sem sucesso. Mais uma vez. Malogrou. Porém, não desistiu. Resolveu buscar pelas letras a, m, o e r. Com os óculos, não achou. Com as lentes de contato, não achou. Com a lupa, não achou. A solução? Só na edição do dia seguinte.
Breve pausa para o almoço.
De volta ao caça-palavras, nada.
Rápida pausa para o lanche da tarde.
De volta ao caça-palavras, nada.
Ligeira pausa para o jantar.
De volta ao caça-palavras, nada.
Resolveu sair quando ainda faltava uma hora para hoje se tornar ontem. Obstinada em encontrar um grande amor, conheceu um sujeito que parecia muito bacana. Conseguiu beijá-lo faltando apenas quinze minutos para a meia-noite. Conseguiram gozar juntos faltando apenas cinquenta e seis  segundos para a meia-noite. Trocaram telefones. Voltou para casa radiante.
No dia seguinte, ainda contente, correu para conferir a solução do caça-palavras. E a palavra que caçou estava lá, na cara dela. Nem muito para cima, nem muito para baixo. Nem mais à esquerda, nem mais à direita. Não começava com a, nem terminava com r. Era cafajeste mesmo.

O caça-palavras parecia normal. Como tantos outros publicados no jornal de domingo. Um amontoado de letras e suas possibilidades. Para frente, para trás, para os lados, na diagonal. Sem acentos, hifens, vírgula, maiúscula, minúscula.

Ela acordou e, enquanto tomava o café da manhã, começou a catar fonemas com o lápis em punho.

Lá em cima: hoje

Lá em baixo: você

Bem no meio: vai

À direita: encontrar

À esquerda: um

Diagonal: grande

Faltou uma palavra. Vasculhou as linhas, varreu as colunas. Pôs óculos, lentes de contato. Agarrou uma lupa. Nada. Repetiu a operação. Sem sucesso. Mais uma vez. Malogrou. Porém, não desistiu. Resolveu buscar pelas letras a, m, o e r. Com os óculos, não achou. Com as lentes de contato, não achou. Com a lupa, não achou. A solução? Só na edição do dia seguinte.

Breve pausa para o almoço.

De volta ao caça-palavras, nada.

Rápida pausa para o lanche da tarde.

De volta ao caça-palavras, nada.

Ligeira pausa para o jantar.

De volta ao caça-palavras, nada.

Resolveu sair quando ainda faltava uma hora para hoje se tornar ontem. Obstinada em encontrar um grande amor, conheceu um sujeito que parecia muito bacana. Conseguiu beijá-lo faltando apenas quinze minutos para a meia-noite. Conseguiram gozar juntos faltando apenas cinquenta e seis  segundos para a meia-noite. Trocaram telefones. Voltou para casa radiante.

No dia seguinte, ainda contente, correu para conferir a solução do caça-palavras. E a palavra que caçou estava lá, na cara dela. Nem muito para cima, nem muito para baixo. Nem mais à esquerda, nem mais à direita. Não começava com a, nem terminava com r. Era cafajeste mesmo.

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Vulgo Dudu

Sobre
adj. 2 gén. 1. Do vulgo, da plebe. 2. Baixo, ínfimo, ordinário. 3. Que não tem nada que o faça destacar-se. = comum, frequente, inconspícuo, trivial ≠ conspícuo, extraordinário, raro 4. Reles, de nenhum valor. 5. Trivial. 6. Que não se distingue dos seus congéneres. 7. Que não se recomenda por nenhum carácter!caráter de nobreza ou de distinção. v. tr. 8. Tornar conhecido do público. = divulgar, vulgarizar s. m. 9. O vulgo, o populacho. 10. O que é costume. 11. A língua de um povo na época presente.
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