Sobre Vulgo Dudu

adj. 2 gén. 1. Do vulgo, da plebe. 2. Baixo, ínfimo, ordinário. 3. Que não tem nada que o faça destacar-se. = comum, frequente, inconspícuo, trivial ≠ conspícuo, extraordinário, raro 4. Reles, de nenhum valor. 5. Trivial. 6. Que não se distingue dos seus congéneres. 7. Que não se recomenda por nenhum carácter!caráter de nobreza ou de distinção. v. tr. 8. Tornar conhecido do público. = divulgar, vulgarizar s. m. 9. O vulgo, o populacho. 10. O que é costume. 11. A língua de um povo na época presente.

Definitivamente, eu não sei usar o encosto de braço que alguns ônibus gentilmente oferecem aos seus passageiros. Aquele micro-espaço entre uma poltrona e outra, da grossura de um Modess, que teria a finalidade de confortar nossos braços tornando nossa viagem menos cansativa, para mim, nunca foi útil.

Sempre que alguém se senta ao meu lado a porcaria do encosto perde sua razão de ser. Isso porque as pessoas, todas elas mal educadas, tomam todo o espaço disponível, como se você não tivesse um braço. Chego a trágica conclusão de que nenhuma pessoa bem educada (o que vale dizer: alguém que dividisse irmamente o encosto para o braço), até hoje, já se sentou ao meu lado.

Como já escrevi antes, sou um cara chato. Ou seja, evito qualquer esbarrão. Se alguém se senta ao meu lado, apóia o braço no encosto e esbarra mesmo que acidentalmente no meu braço, eu recolho-o imediatamente. Ato reflexivo, instantâneo. Odeio pessoas se esbarrando em mim; odeio quando pisam no meu pé; odeio quando me cutucam. Não tenho mais idade para ficar medindo forças, disputando com o passageiro ao lado quem consegue manter o braço no encosto por mais tempo, em uma espécie de queda-de-braço sem fim nem razão. Também me resguardo de ter que usar minhas cordas vocais para pedir:

“Por favor, será que dava para chegar o seu braço mais pra lá, porque tá me incomodando?”

Outro dia, estava eu sentado no ônibus, na minha, filosofando sobre a vida e seus desdobramentos, quando se sentou um passageiro ao meu lado. A princípio, mantive meu braço no encosto, imóvel. Estranhei o fato do cara do lado nem esboçar um movimento para roubar de uma vez o encosto. Foi então que minha perna coçou. Não teve jeito: tive que movimentar o braço para que meus dedos alcançassem o local da coceira. Dois segundos depois, o infeliz tinha estendido todo o seu braço na porcaria do encosto, como se fosse o dono do mesmo, senhor de todos os encostos, soberano dos apoios para os braços!

Por que não fazem um encosto maior? Ou então, por que não arrancam de forma dolorosa e animalesca os braços de toda esta escória humana que não respeita o descanso braçal dos outros? Eu hein…

Cinema de arte é legal;
chatas são as pessoas que gostam de cinema de arte.

Jazz é legal;
chatas são as pessoas que gostam de jazz.

J.R.R. Tolkien é legal;
chatas são as pessoas que gostam de J.R.R. Tolkien.

Surf é legal;
chatas são as pessoas que gostam de surf.

Música eletrônica é legal;
chatas são as pessoas que gostam de música eletrônica.

Beber whisky é legal;
chatas são as pessoas que gostam de beber whisky.

Internet é legal;
chatas são as pessoas que gostam de Internet.

Karl Marx é legal;
chatas são as pessoas que gostam de Karl Marx.

Filosofia é legal;
chatas são as pessoas que gostam de filosofia.

Música erudita é legal;
chatas são as pessoas que gostam de música erudita.

Visitar museus é legal;
chatas são as pessoas que gostam de visitar museus.

Tomar um porre é legal;
chatas são as pessoas que gostam de tomar um porre.

Teatro é legal;
chatas são as pessoas que gostam de teatro.

Basquete é legal;
chatas são as pessoas que gostam de basquete.

Eu sou um cara chato;
legais são as pessoas que gostam de mim…

Sempre me utilizei do choro feminino para saber se realmente amaria uma mulher. Costumava levá-las ao cinema para assistirem a um filme dramático, onde no final o amor se torna eterno por falta de rolo cinematográfico para continuar a história. Se por acaso oferecesse a minha convidada um lenço, o qual sempre levava em meu bolso, ela estava reprovada. Porém, se sentisse vontade de enxugar as lágrimas com um beijo no olho lacrimejante, estava aprovada. Na verdade, eu detestava filmes dramáticos, mas esta minha tática parecia infalível.

Muitos foram os filmes, muitas foram as reprovadas – apesar da boa vontade e do desejo de encontrar a mulher perfeita para mim. Aquela com a qual dividiria os meus dias de riso e as noites de choro, ou ao contrário, tanto faz.

Até que me apareceu Scarlet, a mais enigmática mulher que eu já conheci. Gostava de rock, como eu. Lia Rubem Fonseca, como eu. Gostava de dias frios e cinzentos, como eu. Era de Aquário com ascendente em Peixes, como eu – seja lá o que isso signifique. Enfim, com Scarlet eu sentia uma identificação inexplicável. Sempre que nos abraçávamos, parecíamos duas peças que faltavam em um quebra-cabeça. Quando conversávamos, um dava a resposta antes da pergunta do outro, como telepatia. Diversas vezes, após noites de amor explícito, me beliscava feito louco para ter a certeza de estar acordado. O mais impressionante era que Scarlet pertencia a uma linhagem de mulheres raríssima: era inteligente, atraente e, por incrível que pareça, humilde.

Um dia, enquanto estávamos abraçados deitados na cama, Scarlet sussurrou em meu ouvido que estava “gostando muito” de mim. Esta foi a deixa para iniciar o mais esperado teste de cinema até então realizado. Teria que escolher o filme perfeito, pois na verdade morria de medo de não sentir vontade de beijar aqueles olhos azuis enormes e cheios de ternura.

Fomos assistir a “Casablanca”. Eu, pela milésima vez; ela, pela primeira. Tinha a certeza, e na verdade torcia por isso, de que Scarlet não se conteria e iria derramar algumas lágrimas. Então beijaria seus olhos com um largo sorriso de aprovação e, mais que isso, de alívio por ter a certeza de poder amá-la. Ocorreu exatamente como havia planejado. No exato momento em que Humphrey Bogart beijou Ingrid Bergman, os olhos de Scarlet começaram a umedecer. Acontece que, ao perceber a iminência do momento em que a veria chorando, notei uma lágrima tentando se desprender de minha retina e molhar meu rosto. Eu estava emocionado. Não com o filme, mas com Scarlet. Tapei a cara com as duas mãos, para que ela não percebesse o que estava acontecendo. Sendo assim, não tinha ainda a certeza de poder amá-la ou não. Não via nada, mas percebi que, naquele instante, ela chorava fluentemente. Podia escutar um leve soluço, acompanhado de um suspiro carente. Precisava olhar para ela e beijá-la!

Destapei meus olhos, engoli o orgulho das minhas lágrimas e não acreditei no que vi. Inesperadamente, Scarlet havia retirado de sua bolsa um pacote de lenços de papel e enxugado qualquer resquício de choro de seu rosto. Comecei a chorar mais ainda, mas agora era de aflição. O desespero tomou conta de mim. Como poderia saber se aquela garota sentada ao meu lado, que me completava e me fazia feliz, era realmente a mulher da minha vida? Lentamente, a mão de Scarlet foi se aproximando de meus olhos. Sem perguntar ou dizer coisa alguma, ela enxugou com seu lenço, demoradamente, todas as lágrimas que eu chorava.