Sobre Vulgo Dudu

adj. 2 gén. 1. Do vulgo, da plebe. 2. Baixo, ínfimo, ordinário. 3. Que não tem nada que o faça destacar-se. = comum, frequente, inconspícuo, trivial ≠ conspícuo, extraordinário, raro 4. Reles, de nenhum valor. 5. Trivial. 6. Que não se distingue dos seus congéneres. 7. Que não se recomenda por nenhum carácter!caráter de nobreza ou de distinção. v. tr. 8. Tornar conhecido do público. = divulgar, vulgarizar s. m. 9. O vulgo, o populacho. 10. O que é costume. 11. A língua de um povo na época presente.

Severiano Ribeiro defendia a teoria de que o cinema é a maior diversão. Sim, o caráter lúdico das imagens em movimento é inegável. Porém, nem só de finais felizes e histórias fantásticas vive a sétima arte. Há também uma penca de produções que são capazes de chocar plateias ao redor do mundo.

Na lista abaixo estão 10 filmes que, na minha opinião, fazem jus a essa pequena parcela de cinema chocante. Foram banidos, proibidos e amaldiçoados, mas resistiram e entraram, de certa forma, para a história do cinema. São obras que, inegavelmente, têm lá o seu valor, pois trabalham com temas universais e conseguem tirar o espectador de um lugar confortável – por mais que despertem a ojeriza e o repúdio.

Lembrem-se: é a minha lista, ok? Se vocês acham que eu esqueci daquele filme búlgaro bizarro ou daquela produção escatológica da Nova Zelândia, vão em frente e façam a sua própria lista ali nos comentários.

Conheça-os. E veja-os, se tiver estômago e nervos fortes.

Hated (1984), de Todd PhillipsTodd Phillips foi o cara responsável por Se beber, não case, fantástica comédia que faz um humor incorreto e escatológico. Pois é ele o diretor de um dos documentários mais perturbadores da história. Hated conta a história de GG Allin, vocalista da banda The Murder Junkies. As pessoas iam aos seus shows não por causa da música, mas pelo festival de atrocidades promovido pelo cantor. O documentário contém cenas de Allin bebendo o mijo de uma puta, defecando no palco, jogando a merda no público, se cortando com lâminas de barbear, socando mulheres e outras atividades igualmente chocantes. Um petardo!
Holocausto canibal (Cannibal holocaust, 1984), de Ruggero DeodatoMuito antes de Bruxa de Blair, lá em 1984 o italiano Ruggero Deodato já havia tido a brilhante ideia de fazer uma mistura entre o terror e o gênero documental. Anunciou a descoberta de imagens inéditas de um grupo de antropólogos desaparecidos na selva amazônica e prometeu mostrá-las na tela grande. A estratégia deu certo. Tanto que, após a sessão de estreia de Holocausto canibal, o diretor foi preso e teve que provar que seus atores, que no filme são brutalmente assassinados por uma tribo de índios canibais da Amazônia, na verdade estavam todos vivos. O curioso é que Sérgio Leone, mestre dos westerns, escreveu uma carta a Deodato alegando que Holocausto canibal era uma obra-prima. Só por isso já vale o confere.
Freaks (1932), de Tod BrowningPense bem: para que um filme de 1932 continue a ser considerado chocante, é porque o negócio é pesado de verdade. Tod Browning deixou o mundo apavorado com Freaks. Era a primeira vez que uma produção cinematográfica usava aberrações de verdade como atores. Há um homem sem braços e pernas, gente com nanismo, irmãs siamesas e artistas com tipos variados de deformações. A história sobre uma linda trapezista que finge se apaixonar por um anão milionário é verdadeiramente assustadora. O desfecho é particularmente perturbador.
Even dwarfs started small (1970), de Werner HerzogWerner Herzog ganhou notoriedade internacional a partir de Even dwarfs started small, produção que entrou para a história do cinema underground pela ousadia da proposta. O filme mostra um grupo de anões se rebelando em uma instituição psiquiátrica quando o diretor se ausenta. Eles fazem barbaridades diante da câmera, com referências críticas e ataques à religião, à sociedade e ao modo de vida contemporâneo. Detalhe: todo o elenco é composto por anões.
Subconcious cruelty (1999), de Karim HussainSó o título já é capaz de causar arrepios. Quatro histórias bizarras, que mexem com questões existenciais, como a gravidez e a religiosidade, formam o conjunto de uma das obras mais grotescas que uma mente humana foi capaz de pensar e imprimir em um fotograma. Subconcious cruelty, dirigido por Karim Hussain, é considerado por muitos a produção mais extrema já realizada. Há quem diga que é arte, há quem diga que é lixo.
Pink Flamingos (1972), de John WatersJohn Waters e seu diferenciado senso de humor, sarcástico e ácido, deixou muita gente enojada e revoltada com o inigualável e infame Pink Flamingos. Recheado de situações bizarras, o filme mostra o enorme travesti Divine disputando com um casal de vizinhos insanos o título de pessoa mais imunda do mundo. Não foi à toa que, nas sessões de estreia, sacos de vômito eram oferecidos aos espectadores. O filme tem cenas de incesto, zoofilia, podolatria e canibalismo. Fora um ânus cantante, que abre e fecha ao som de “”Surfin’ bird””, e a célebre e imunda sequência na qual Divine come fezes fresquinhas e quentinhas de um pequeno poodle.
I spit on your grave! (1978), de Meir ZarchiNão conheço um título de filme mais bacana do que esse. E olha que esse nem é o oficial. Na verdade, I spit on your grave é um nome alternativo para Day of the woman. Trata-se de um genuíno exploitation – uma história de vingança com requintes de crueldade. Um mulher é estuprada até ser dada como morta por um grupo de homens. Porém, ela sobrevive… Aí, já viu, né? As cenas de violência sexual deixaram muita gente em estado de choque.
Salò ou os 120 dias de Sodoma (Salò o le Centoventi Giornate di Sodoma, 1975), de Pier Paolo PasoliniPasolini foi um daqueles diretores que elevou o cinema ao status de obra de arte. Conseguiu tal feito com uma filmografia contundente, na qual foi capaz de criticar o sistema e os valores do seu tempo. Saló, se não é a sua obra-prima, é certamente seu trabalho mais polêmico. Funciona como uma denúncia às praticas do fascismo. Ao longo do filme, um grupo de jovens é torturado e humilhado. São quase duas horas de cenas bastante fortes, mas que estão inseridas dentro de uma proposta contestadora.
O massacre da serra elétrica (The Texas Chainsaw Massacre, 1973), de Tobe HooperFoi no início da década de 70 que Tobe Hooper praticamente inaugurou um novo conceito estético nos filmes de terror. Por incrível que pareça, O massacre da serra elétrica, produção independente de baixíssimo orçamento, tem apenas quatro minutos de cenas com sangue. O resto é terror psicológico, com sequências realmente perturbadoras. Para piorar – ou melhorar -, o roteiro é baseado em uma história real, que dá conta de uma família de psicopatas que retalhava e mutilava suas vítimas. Leatherface e sua serra elétrica se transformaram em ícones do cinema do horror.
Jesus Camp (2006), de Heidi Ewing e Rachel GradyDocumentário é o meu gênero preferido. Muitos foram os que me deixaram impressionados. Porém, após conferir Jesus Camp eu fiquei realmente incomodado. O filme acompanha de perto um acampamento cristão para crianças estadunidenses. Vê-las gemendo, tremendo, se contorcendo e gritando louvores aos prantos em uma espécie de transe é uma experiência chocante e assustadora! Tão assustadora quanto as sequências nas quais as mesmas são ensinadas a adorar Jesus e Geroge W. Bush.

Até pouco tempo, avatar, para mim, era aquela imagem que usávamos, não necessariamente de forma realista, nos aplicativos de internet que dispunham de identificação visual. Agora, graças a um diretor estadunidense, o termo também se refere à febre azul que contagiou plateias ao redor do mundo, promovendo um espetáculo em três dimensões. James Cameron, o sujeito por trás do filme mais caro da história do cinema, como alertaram algumas manchetes, gastou algo em torno de meio bilhão de dólares para levar à telona seu projeto dito revolucionário, o seu Avatar – que, no fundo, nada mais é do que uma obra tautológica, uma ode a sua identidade mista de cineasta e investidor especulativo.

Fato é que, se não fosse numa cabine de imprensa, ou seja, na faixa, de graça, não iria me dispor a ver Avatar na tela grande e munido de óculos 3D, como manda a cartilha de cada 9 dos 10 espectadores que passaram pela experiência. Não tenho carteira de estudante e o pé de jaca perto de casa ainda não deu dinheiro. Aliás, não estava disposto nem a pagar o aluguel do disco quando o mesmo chegasse às locadoras.

Como mantenedor de um blog sobre filmes e crítico de cinema nas horas vagas, eu sabia que não teria escapatória: cedo ou tarde precisaria conferir a produção de Cameron, um dos diretores que mais desprezo, em grande parte por ter realizado uma das obras cinematográficas mais dantescas da história, Titanic. O filme-catástrofe-de-amor, que levou milhares de espectadores a naufragarem em lágrimas, me serviu de exemplo para expor o que mais repudio na sétima arte: roteiros ruins. Mais além: roteiros ruins que se repetem. Graças aos deuses do cinema, naquela época o entretenimento em três dimensões ainda não era tendência global.

Aí veio a ideia.

Eu sempre defendi a teoria de que o mais importante em um filme é o roteiro. Não tem escapatória. Cinema, com óculos 3D ou sem eles, ainda é, em sua essência, a contação de uma história. Uma vez fui questionado sobre como avaliava os filmes que via. E a resposta foi exatamente essa. Em primeiro lugar, observo como a história é contada. É possível um bom filme ter atores medianos, fotografia simples e uma trilha sonora fraca. Se o roteiro for bom, relevo o resto quase que instintivamente. Porém, a mim o contrário é impossível. Junte os melhores atores do mundo, as câmeras mais modernas, os diretores de fotografia mais badalados e uma orquestra sinfônica para compor a trilha sonora original. Se o roteiro não for bom, o malogro é certo.

Obviamente, também canso de repetir que cinema é que nem traseiro, cada um tem o seu. Eu tenho o meu. E nele, novamente, o mais importante é o roteiro. Sendo assim, não curti a ideia de ser seduzido pela tal febre azul avatariana. Não queria me comover com sequências em três dimensões, não queria me emocionar com as cores vibrantes das florestas computadorizadas, não queria me encantar pela textura vivaz dos Na’vi. Queria, sim, experimentar a história que o próprio Cameron criou e, somente depois, emitir um juízo de gosto.

Por isso, corri em busca de uma cópia pirata, pixelada, vagabunda e mal feita. Fim de semana chuvoso, crise de rinite alérgica, TV de 14 polegadas, DVD player compacto que nem é mais fabricado, Bavaria, que não chega a ser cerveja, e aquele salgadinho vagabundo que é isopor amarelo com sal. A noite estava pronta para uma bela sessão de Avatar, com todos os cuidados necessários para que a imersão na história de um belo planeta ameaçado pela ganância dos terráqueos fosse completa.

De cara, Avatar se atropela em uma espécie de prólogo que vai explicando rapidinho que o protagonista, um fuzileiro áspero, ficou paraplégico e teve um irmão gêmeo, cientista virginal, morto num assalto. Afinal, era preciso economizar tempo, já que seriam cerca de duas horas e meia de projeção. Fica claro, nas primeiras sequências, que trata-se de uma obra maniqueísta, o bem contra o mal, dispostos em lados bem delimitados. O único que consegue atravessar a linha é o tal fuzileiro protagonista, Jake Sully, que começa humano, mau, e vai se tornando azul, bom. Ou seja, o desfecho é, inevitavelmente, previsível – ainda que não seja o mais importante no filme, uma vez que Hollywood não faz uma produção milionária sem deixar ensejo para sequências.

Ao longo de Avatar, pouca coisa realmente acontece. Aqui, me refiro à ação propriamente dita. Não há reviravoltas importantes, não há revelações surpreendentes, não há diálogos trabalhados, não há clímax, não há profundidade cênica ou qualquer outro elemento de um bom roteiro. Não há, sequer, uma cena imprescindível para que o todo faça sentido. Ou seja, o espectador que tem a bexiga solta ou o cólon irritável pode se levantar para ir ao banheiro em qualquer ponto do filme, sem que isso prejudique o entendimento do argumento proposto pelo diretor.

Pelo fato de ser um roteiro que trabalha a todo instante com caracterizações maniqueísta, as atuações ficam em segundo plano. Não há como uma interpretação se sobressair quando o papel exige rubricas cartunescas para caracterizar o bem e o mal. A única empatia que o espectador cria é mesmo com os seres azuis, meio felinos, gerados por computador, espécime cuja natureza de movimentos e expressões é um diferencial, sem possibilidades comparativas a priori.

De certa forma, Avatar comprova o momento melancólico que a sociedade estadunidense atravessa. Tão melancólico, que gasta meio bilhão de dinheiros para projetar uma raça que se entrelaça com uma espécie de Mãe Natureza, tem raízes religiosas profundas e convive pacificamente com animais selvagens. Ou seja, para serem como os Na’vi, os estadunidenses teriam que viver como nunca antes quiseram, praticamente como estereotipados hippies macrobióticos, abrindo mão de iPods, Mc Lanches Felizes, carros total flex e filmes do Steven Spielberg.

Por causa desta nova necessidade de reciclar as ideias, mas sem abrir mão do capital especulativo, o sucesso de gente como Al Gore é explicado. Seus seminários ao redor do mundo tentam convencer as multidões de que há interesse em salvar o planeta, quando na verdade o real interesse é salvar um modelo econômico onde especulação e consumo continue sendo possíveis. E aí, Cameron pega carona num metadiscurso pacifista e ecológico que o permite vir ao Brasil distribuir autógrafos enquanto fala sobre meio ambiente.

Mais ainda do que precisar abrir mão de suas convicções, os estadunidenses também teriam que engolir a própria xenofobia para absorver valores que são insustentáveis para a contemporaneidade econômica que regula suas vidas.

Avatar, lá no fundo, é um filme tão triste quanto Titanic. E o mais espantoso é que toda essa tristeza é muito bem expressada pelos alienígenas tridimensionais feitos no computador. Eles sofrem, choram, se irritam. O semblante funesto dos Na’vi quando da destruição de sua árvore-moradia se assemelha ao dos estadunidenses de carne e osso quando do desfalecimento das Torres Gêmeas, sustentáculo de toda uma crença no equilíbrio social.

No fim das contas, Avatar falha como filme. O roteiro é muito ruim. Não se sustenta na empreitada de contar uma boa história. Porém, cumpre seu papel em se tornar o centro das discussões sobre o que parece ser uma nova era para o entretenimento mundial, as super produções em três dimensões – mesmo que tenha perdido a tal estatueta da academia para um filme feito em formato digital e bancado com capital estrangeiro.

Avatar é tão ou mais chato que Titanic. Sob certo ângulo, levando-se em conta o avatar de James Cameron, são a mesma coisa. Inclusive, ambos trazem uma música cafona durante os créditos finais.

O caça-palavras parecia normal. Como tantos outros publicados no jornal de domingo. Um amontoado de letras e suas possibilidades. Para frente, para trás, para os lados, na diagonal. Sem acentos, hifens, vírgula, maiúscula, minúscula.
Ela acordou e, enquanto tomava o café da manhã, começou a catar fonemas com o lápis em punho.
Lá em cima: hoje
Lá em baixo: você
Bem no meio: vai
À direita: encontrar
À esquerda: um
Diagonal: grande
Faltou uma palavra. Vasculhou as linhas, varreu as colunas. Pôs óculos, lentes de contato. Agarrou uma lupa. Nada. Repetiu a operação. Sem sucesso. Mais uma vez. Malogrou. Porém, não desistiu. Resolveu buscar pelas letras a, m, o e r. Com os óculos, não achou. Com as lentes de contato, não achou. Com a lupa, não achou. A solução? Só na edição do dia seguinte.
Breve pausa para o almoço.
De volta ao caça-palavras, nada.
Rápida pausa para o lanche da tarde.
De volta ao caça-palavras, nada.
Ligeira pausa para o jantar.
De volta ao caça-palavras, nada.
Resolveu sair quando ainda faltava uma hora para hoje se tornar ontem. Obstinada em encontrar um grande amor, conheceu um sujeito que parecia muito bacana. Conseguiu beijá-lo faltando apenas quinze minutos para a meia-noite. Conseguiram gozar juntos faltando apenas cinquenta e seis  segundos para a meia-noite. Trocaram telefones. Voltou para casa radiante.
No dia seguinte, ainda contente, correu para conferir a solução do caça-palavras. E a palavra que caçou estava lá, na cara dela. Nem muito para cima, nem muito para baixo. Nem mais à esquerda, nem mais à direita. Não começava com a, nem terminava com r. Era cafajeste mesmo.

O caça-palavras parecia normal. Como tantos outros publicados no jornal de domingo. Um amontoado de letras e suas possibilidades. Para frente, para trás, para os lados, na diagonal. Sem acentos, hifens, vírgula, maiúscula, minúscula.

Ela acordou e, enquanto tomava o café da manhã, começou a catar fonemas com o lápis em punho.

Lá em cima: hoje

Lá em baixo: você

Bem no meio: vai

À direita: encontrar

À esquerda: um

Diagonal: grande

Faltou uma palavra. Vasculhou as linhas, varreu as colunas. Pôs óculos, lentes de contato. Agarrou uma lupa. Nada. Repetiu a operação. Sem sucesso. Mais uma vez. Malogrou. Porém, não desistiu. Resolveu buscar pelas letras a, m, o e r. Com os óculos, não achou. Com as lentes de contato, não achou. Com a lupa, não achou. A solução? Só na edição do dia seguinte.

Breve pausa para o almoço.

De volta ao caça-palavras, nada.

Rápida pausa para o lanche da tarde.

De volta ao caça-palavras, nada.

Ligeira pausa para o jantar.

De volta ao caça-palavras, nada.

Resolveu sair quando ainda faltava uma hora para hoje se tornar ontem. Obstinada em encontrar um grande amor, conheceu um sujeito que parecia muito bacana. Conseguiu beijá-lo faltando apenas quinze minutos para a meia-noite. Conseguiram gozar juntos faltando apenas cinquenta e seis  segundos para a meia-noite. Trocaram telefones. Voltou para casa radiante.

No dia seguinte, ainda contente, correu para conferir a solução do caça-palavras. E a palavra que caçou estava lá, na cara dela. Nem muito para cima, nem muito para baixo. Nem mais à esquerda, nem mais à direita. Não começava com a, nem terminava com r. Era cafajeste mesmo.

Desde o dia em que virei trapezista eu não durmo mais em paz. Sonho com planícies, chão de paralelepípedos, declives acentuados, asfalto esburacado, escada rolante de shopping center para baixo, lona, tábua de passar roupas, cama de pregos, Isaac Newton e você, minha esposa e assistente de mágico, ilusória, montada em cima de mim, desaparecendo de uma vez após um breve orgasmo.

Unimos as palmas da mão em sinal de fé
Como Eva e Adão, sós
Ela, fé de mais
Eu, fé de menos
Se pôs a declamar o nosso hino
Eu pensava…
…como ela trina bem a guitarra
…como ela transformava em prosa
A poesia repleta de cacofonia que saía da boca dela
Essa fada cantante, adorável
Para quem, a essas horas, já havia dado meu amor
Vou-me já, e declaro também
Amo ela! Amo ela!

E pensar que a noite nos deixou apenas aquele rastro vermelho do sinal fechado refletido no sereno das pedrinhas brilhantes do asfalto vazio. Com o peso da gravidade, vezes a massa das nossas deformidades e o grave incomum do ruído de um contrabaixo arranhado por fios de crina de cavalo branco.

Nós perdemos o juízo, a carteira de identidade, o preservativo lubrificado, a fala, o maço de cigarros amarrotados e a conta do pouco tempo que nos restava. Agora sou obrigado a ficar sentado no meio-fio ouvindo as sirenes das ambulâncias, arrebatadoras, que não precisam gritar alto para pedir passagem antes que seja tarde demais, uma vez que as ruas estão vazias. O que elas querem é chamar a atenção.

Pense, sua porca: antes de encher as veias com morfina você podia ter pensado melhor na sua família. Porque depois, quando estiver com os braços lânguidos e furados amarrados para trás, com a boca seca de lábios miúdos espumando e sendo carregada à força por dois moços fortes vestidos de branco, você vai implorar pela intervenção divina.

Você é a noite, Leila. Tudo o que a gente pode ver. Você é a possibilidade.

Estava escrito assim: traz a pessoa amada em dois dias. Ela percebeu a diferença. Ora, a maioria daqueles cartazes colados em postes e tapumes davam prazo de três dias. Duas vivas para a livre concorrência, que poderia melhorar e aprimorar o tratamento dos males do coração.

Anotou, telefonou e marcou visita. A tal bruxa moderna, assim se intitulava, instruiu como proceder para que o feitiço desse certo e ele, a pessoa amada em questão, viesse ao seu encontro com um dia de antecedência às datas praticadas pelo mercado. O preço era um pouco mais alto. Ninguém anda, nestes tempos violentos, com a carteira recheada de dinheiro. Problema resolvido com pagamento facilitado nos cartões de débito.

O plano era o seguinte: fazer a encomenda, montar o esquema e esperá-lo já no altar, vestida de noiva e com o padre de bíblia em punho, com o texto decorado na ponta da língua. Não é que a mandinga tinha prazo de validade, mas cabia a ela amarrar de vez o pretendido. Logo, era melhor garantir a união pelo menos no religioso. Um sonho!

Em apenas dois dias, ainda com o futuro cônjuge distante, ela conseguiu organizar toda a cerimônia, com padrinhos e madrinhas, convidados, só da noiva, mas que já eram bastante, chá de panela e reservas em um hotel de Penedo, a pequena Finlândia, para curtir uma romântica lua-de-mel. O único protocolo a ser quebrado era sua entrada antes do noivo, que foi explicada da seguinte maneira:

“Ele não acredita nestas superstições bobocas.”

No dia, hora e local marcados, o sujeito apareceu. Entrou na igreja sem entender muito bem o que acontecia, vestindo um belo fraque alugado, sapatos engraxados e um sorriso estúpido no rosto. Ouviu-se murmurosa comoção entre os convidados. A noiva se emocionou.

Quando o padre fez a famosa pergunta, ele respondeu um rasteiro e sonoro não. E explicou da seguinte maneira:

“Eu não acredito nestes sacramentos bobocas.”