Vulgo Dudu

Cir/cu/s II

Desde o dia em que virei trapezista eu não durmo mais em paz. Sonho com planícies, chão de paralelepípedos, declives acentuados, asfalto esburacado, escada rolante de shopping center para baixo, lona, tábua de passar roupas, cama de pregos, Isaac Newton e você, minha esposa e assistente de mágico, ilusória, montada em cima de mim, desaparecendo de uma vez após um breve orgasmo.

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Amo ela

Unimos as palmas da mão em sinal de fé
Como Eva e Adão, sós
Ela, fé de mais
Eu, fé de menos
Se pôs a declamar o nosso hino
Eu pensava…
…como ela trina bem a guitarra
…como ela transformava em prosa
A poesia repleta de cacofonia que saía da boca dela
Essa fada cantante, adorável
Para quem, a essas horas, já havia dado meu amor
Vou-me já, e declaro também
Amo ela! Amo ela!

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Leila

E pensar que a noite nos deixou apenas aquele rastro vermelho do sinal fechado refletido no sereno das pedrinhas brilhantes do asfalto vazio. Com o peso da gravidade, vezes a massa das nossas deformidades e o grave incomum do ruído de um contrabaixo arranhado por fios de crina de cavalo branco.

Nós perdemos o juízo, a carteira de identidade, o preservativo lubrificado, a fala, o maço de cigarros amarrotados e a conta do pouco tempo que nos restava. Agora sou obrigado a ficar sentado no meio-fio ouvindo as sirenes das ambulâncias, arrebatadoras, que não precisam gritar alto para pedir passagem antes que seja tarde demais, uma vez que as ruas estão vazias. O que elas querem é chamar a atenção.

Pense, sua porca: antes de encher as veias com morfina você podia ter pensado melhor na sua família. Porque depois, quando estiver com os braços lânguidos e furados amarrados para trás, com a boca seca de lábios miúdos espumando e sendo carregada à força por dois moços fortes vestidos de branco, você vai implorar pela intervenção divina.

Você é a noite, Leila. Tudo o que a gente pode ver. Você é a possibilidade.

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Amada pessoa

Estava escrito assim: traz a pessoa amada em dois dias. Ela percebeu a diferença. Ora, a maioria daqueles cartazes colados em postes e tapumes davam prazo de três dias. Duas vivas para a livre concorrência, que poderia melhorar e aprimorar o tratamento dos males do coração.

Anotou, telefonou e marcou visita. A tal bruxa moderna, assim se intitulava, instruiu como proceder para que o feitiço desse certo e ele, a pessoa amada em questão, viesse ao seu encontro com um dia de antecedência às datas praticadas pelo mercado. O preço era um pouco mais alto. Ninguém anda, nestes tempos violentos, com a carteira recheada de dinheiro. Problema resolvido com pagamento facilitado nos cartões de débito.

O plano era o seguinte: fazer a encomenda, montar o esquema e esperá-lo já no altar, vestida de noiva e com o padre de bíblia em punho, com o texto decorado na ponta da língua. Não é que a mandinga tinha prazo de validade, mas cabia a ela amarrar de vez o pretendido. Logo, era melhor garantir a união pelo menos no religioso. Um sonho!

Em apenas dois dias, ainda com o futuro cônjuge distante, ela conseguiu organizar toda a cerimônia, com padrinhos e madrinhas, convidados, só da noiva, mas que já eram bastante, chá de panela e reservas em um hotel de Penedo, a pequena Finlândia, para curtir uma romântica lua-de-mel. O único protocolo a ser quebrado era sua entrada antes do noivo, que foi explicada da seguinte maneira:

“Ele não acredita nestas superstições bobocas.”

No dia, hora e local marcados, o sujeito apareceu. Entrou na igreja sem entender muito bem o que acontecia, vestindo um belo fraque alugado, sapatos engraxados e um sorriso estúpido no rosto. Ouviu-se murmurosa comoção entre os convidados. A noiva se emocionou.

Quando o padre fez a famosa pergunta, ele respondeu um rasteiro e sonoro não. E explicou da seguinte maneira:

“Eu não acredito nestes sacramentos bobocas.”

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Mistério envolve 752 casos simultâneos de gravidez

No que convencionou-se chamar de Semana Binária, mais um mistério tomou conta da cidade que virou, há pouco tempo, alvo de escândalos devido às supostas aparições do pau de duas cabeças. Inexplicavelmente, em um período de sete dias, todas as mulheres da região confirmaram , após exames clínicos, que estão grávidas de gêmeos univitelinos – inclusive duas lésbicas que vivem juntas e têm união estável reconhecida legalmente.

O anúncio causou celeuma na comunidade científica, que pretende a partir de agora realizar um pré-natal mais detalhado nas 752 grávidas, que darão à luz 1.504 novos seres humanos. Um outro fato chamou a atenção dos médicos e está tirando o sono de pesquisadores: todas as gestantes estão na décima segunda semana de gravidez.

Para o padre Biel de Capadocia, as grávidas devem se apegar a Deus, alegando que somente a religião pode explicar o milagre da vida. Já o delegado, Amilka Lee, segue uma linha de investigação em que há suspeitas de crime sexual. Ele faz um apelo às gestantes:

- Estamos pedindo para que todas colaborem com a polícia, que abram suas casas aos inspetores e contem a verdade caso tenham sido vítimas de abuso. Não importa se o algoz foi um pau de uma ou de duas cabeças, o importante é denunciar.

Para Jonas Öldman, matemático da universidade local, especialista em probabilidade e física quântica, é quase impossível que o evento seja mero acaso ou capricho da natureza:

- Para que estas gestações sejam coincidentes, todos os casais daqui teriam que ter tido relação sexual em um intervalo de, pelo menos, 12 horas. A princípio, estamos trabalhando com a hipótese de contaminação da água com esperma. Ainda é cedo para estabelecermos alguma ligação com pau de duas cabeças, pois engravidar um número tão grande de mulheres e gerar gêmeos é um ato impensável até mesmo para um órgão de origem desconhecida – explica o estudioso.

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Vem cá, boneca

Ele estava encostado no canto do quarto, com aquele sorriso congelado no rosto. Ela estava um pouco mais adiante, do outro lado, de onde era possível notá-lo e fazer-se notar. Imóvel, deixava as pernas roliças e brilhosas à vista.

Ambos eram lindos. Arquétipos da beleza e da força. Vestiam pouca roupa, deixando às claras as intenções de sensualidade e provocação. Ele de sunga apertada, dorso nu e calçado vermelho. Ela, com um top de decote generoso, saia rendada, cabelos soltos e salto alto.

Passaram horas em silêncio. Um mirando o outro, na iminência paciente que precede o movimento. Foi então que ele resolveu agir. Avançou em cima dela com toda a virilidade disponível e aguardou reciprocidade. Porém, ela resistiu. Virou a cabeça e tentou afastá-lo com seus pequeninos e frágeis braços.

Um jogral angustiante começou a ganhar força. Ele, grave, investia. Ela, aguda, pedia socorro.

Quando a menina chegou ao quarto, lá estava o He-Man em cima da Barbie, quase arrancando suas roupas. Ela retirou com violência os dois bonecos da mão do primo mais velho e o interpelou com veemência:

- Não vou tolerar esse tipo de agressão, ainda mais levando em conta que meu tio é ventríloquo.

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O que é? Porra!

Eu tenho nojo das pessoas, de todas elas. Asco. Não gosto que elas esbarrem mim, me cutuquem, respirem perto de mim. Eu quero todas as pessoas longe de mim, todas elas.

Eu não gosto do jeito que as pessoas expressam felicidade. Não gosto do riso alto, da boca escancarada cheia de dentes tortos, cobertos de placa bacteriana. Não gosto do barulho que elas fazem quando estão contentes, e nem quando elas olham para mim esperando que eu ria também. Rir do quê? Porra!

Eu não gosto do jeito que as pessoas expressam tristeza. Não gosto do rosto molhado de lágrimas, todo ensopado. Da baba que fica espessa no canto dos lábios, do ranho que escorre pela narina dilatada. Não gosto da maneira que elas olham para mim esperando que eu chore também Chorar por quê? Porra!

Eu não gosto do jeito que as pessoas expressam desejo. Não gosto da respiração ofegante, como se o coração não coubesse no peito, dos pentelhos arrepiados. Não gosto da maneira como olham para mim esperando que eu também sinta desejo. Desejo do quê? Porra!

Eu não gosto das pessoas. Tenho nojo das pessoas. Não gosto da maneira como elas me olham esperando que eu sinta compaixão. Compaixão do quê? Porra!

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Evidências zootécnicas podem comprovar existência do pau de duas cabeças

Padrões de bicefalia são observados em animais. Cientistas ainda estudam a relação com os relatos sobre o pau de duas cabeças.

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Sobre os defeitos

Ela tem vários defeitos, a começar pelo nome. Putz, que nome horrível! Mas o sorriso que ela tem me derrete todo. O gosto musical é péssimo. Porra, gosta de música ruim, ruim mesmo. Imagina, dividir ap com ela? Nunca. Mas a cara dela de sono dizendo “bom dia, flor do dia” quando me acorda é sensacional. Ela usa umas roupas bem cafonas. Estilo escrota. Dá vergonha ficar ao lado dela em lugares onde exige-se etiqueta. Mas quando eu envolvo aquela cinturinha setenta e cinco centímetros, sem excessos adiposos, chego a ter uma ereção.

Ela não gosta de ler. Mas isso não chega a ser um defeito.

Caso contrário, não escreveria que ela é uma vaca. Deliciosa, mas uma vaca!

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Consonante

Não é que não queria, simplesmente não conseguia pronunciar as vogais. Tal fato casou-lhe, ao longo da vida, alguns problemas. Sua fala, inevitavelmente, causava estranheza. Era difícil se expressar de forma contundente.

Quando era criança, no parque de diversões:

“M~ , qu r r n r d g g nt !”

Ainda adolescente, na aula de matemática:

“Pr f ss r , n~ nt nd x rc´c d s…”

Jovem, na faculdade:

“Q r f z r p´s-gr d ç~ m f l s f .”

Já na idade adulta, no dia de seu casamento:

“N r q z n p br z , n d nç n s ´d , p r m r-t h nr r-t , t´ q m rt n s s p r .”

Sua simples existência foi, e assim ainda permanece, um desafio à semântica e à neo-lingüística. Todas as correntes, os filósofos, pensadores e teóricos da área nem sequer têm pistas sobre o estranho mecanismo desenvolvido pelo aparelho fono-articulatório em questão.

Dizem que somente uma vez, em toda a sua existência, sua fala foi consonante, e não apenas consoante. Foi quando, pela primeira vez, já muito velho, se apaixonou por uma senhora que era sua vizinha. Testemunhas juram que ele sussurrou, leve e faceiro, em belo português, uma expressão corriqueira apenas em terras brasileiras. Suspirou:

“Ai, ai…”

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Vulgo Dudu

Sobre
adj. 2 gén. 1. Do vulgo, da plebe. 2. Baixo, ínfimo, ordinário. 3. Que não tem nada que o faça destacar-se. = comum, frequente, inconspícuo, trivial ≠ conspícuo, extraordinário, raro 4. Reles, de nenhum valor. 5. Trivial. 6. Que não se distingue dos seus congéneres. 7. Que não se recomenda por nenhum carácter!caráter de nobreza ou de distinção. v. tr. 8. Tornar conhecido do público. = divulgar, vulgarizar s. m. 9. O vulgo, o populacho. 10. O que é costume. 11. A língua de um povo na época presente.
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