Sobre Vulgo Dudu

adj. 2 gén. 1. Do vulgo, da plebe. 2. Baixo, ínfimo, ordinário. 3. Que não tem nada que o faça destacar-se. = comum, frequente, inconspícuo, trivial ≠ conspícuo, extraordinário, raro 4. Reles, de nenhum valor. 5. Trivial. 6. Que não se distingue dos seus congéneres. 7. Que não se recomenda por nenhum carácter!caráter de nobreza ou de distinção. v. tr. 8. Tornar conhecido do público. = divulgar, vulgarizar s. m. 9. O vulgo, o populacho. 10. O que é costume. 11. A língua de um povo na época presente.

No que convencionou-se chamar de Semana Binária, mais um mistério tomou conta da cidade que virou, há pouco tempo, alvo de escândalos devido às supostas aparições do pau de duas cabeças. Inexplicavelmente, em um período de sete dias, todas as mulheres da região confirmaram , após exames clínicos, que estão grávidas de gêmeos univitelinos – inclusive duas lésbicas que vivem juntas e têm união estável reconhecida legalmente.

O anúncio causou celeuma na comunidade científica, que pretende a partir de agora realizar um pré-natal mais detalhado nas 752 grávidas, que darão à luz 1.504 novos seres humanos. Um outro fato chamou a atenção dos médicos e está tirando o sono de pesquisadores: todas as gestantes estão na décima segunda semana de gravidez.

Para o padre Biel de Capadocia, as grávidas devem se apegar a Deus, alegando que somente a religião pode explicar o milagre da vida. Já o delegado, Amilka Lee, segue uma linha de investigação em que há suspeitas de crime sexual. Ele faz um apelo às gestantes:

– Estamos pedindo para que todas colaborem com a polícia, que abram suas casas aos inspetores e contem a verdade caso tenham sido vítimas de abuso. Não importa se o algoz foi um pau de uma ou de duas cabeças, o importante é denunciar.

Para Jonas Öldman, matemático da universidade local, especialista em probabilidade e física quântica, é quase impossível que o evento seja mero acaso ou capricho da natureza:

– Para que estas gestações sejam coincidentes, todos os casais daqui teriam que ter tido relação sexual em um intervalo de, pelo menos, 12 horas. A princípio, estamos trabalhando com a hipótese de contaminação da água com esperma. Ainda é cedo para estabelecermos alguma ligação com pau de duas cabeças, pois engravidar um número tão grande de mulheres e gerar gêmeos é um ato impensável até mesmo para um órgão de origem desconhecida – explica o estudioso.

Ele estava encostado no canto do quarto, com aquele sorriso congelado no rosto. Ela estava um pouco mais adiante, do outro lado, de onde era possível notá-lo e fazer-se notar. Imóvel, deixava as pernas roliças e brilhosas à vista.

Ambos eram lindos. Arquétipos da beleza e da força. Vestiam pouca roupa, deixando às claras as intenções de sensualidade e provocação. Ele de sunga apertada, dorso nu e calçado vermelho. Ela, com um top de decote generoso, saia rendada, cabelos soltos e salto alto.

Passaram horas em silêncio. Um mirando o outro, na iminência paciente que precede o movimento. Foi então que ele resolveu agir. Avançou em cima dela com toda a virilidade disponível e aguardou reciprocidade. Porém, ela resistiu. Virou a cabeça e tentou afastá-lo com seus pequeninos e frágeis braços.

Um jogral angustiante começou a ganhar força. Ele, grave, investia. Ela, aguda, pedia socorro.

Quando a menina chegou ao quarto, lá estava o He-Man em cima da Barbie, quase arrancando suas roupas. Ela retirou com violência os dois bonecos da mão do primo mais velho e o interpelou com veemência:

– Não vou tolerar esse tipo de agressão, ainda mais levando em conta que meu tio é ventríloquo.

Eu tenho nojo das pessoas, de todas elas. Asco. Não gosto que elas esbarrem mim, me cutuquem, respirem perto de mim. Eu quero todas as pessoas longe de mim, todas elas.

Eu não gosto do jeito que as pessoas expressam felicidade. Não gosto do riso alto, da boca escancarada cheia de dentes tortos, cobertos de placa bacteriana. Não gosto do barulho que elas fazem quando estão contentes, e nem quando elas olham para mim esperando que eu ria também. Rir do quê? Porra!

Eu não gosto do jeito que as pessoas expressam tristeza. Não gosto do rosto molhado de lágrimas, todo ensopado. Da baba que fica espessa no canto dos lábios, do ranho que escorre pela narina dilatada. Não gosto da maneira que elas olham para mim esperando que eu chore também Chorar por quê? Porra!

Eu não gosto do jeito que as pessoas expressam desejo. Não gosto da respiração ofegante, como se o coração não coubesse no peito, dos pentelhos arrepiados. Não gosto da maneira como olham para mim esperando que eu também sinta desejo. Desejo do quê? Porra!

Eu não gosto das pessoas. Tenho nojo das pessoas. Não gosto da maneira como elas me olham esperando que eu sinta compaixão. Compaixão do quê? Porra!

Ela tem vários defeitos, a começar pelo nome. Putz, que nome horrível! Mas o sorriso que ela tem me derrete todo. O gosto musical é péssimo. Porra, gosta de música ruim, ruim mesmo. Imagina, dividir ap com ela? Nunca. Mas a cara dela de sono dizendo “bom dia, flor do dia” quando me acorda é sensacional. Ela usa umas roupas bem cafonas. Estilo escrota. Dá vergonha ficar ao lado dela em lugares onde exige-se etiqueta. Mas quando eu envolvo aquela cinturinha setenta e cinco centímetros, sem excessos adiposos, chego a ter uma ereção.

Ela não gosta de ler. Mas isso não chega a ser um defeito.

Caso contrário, não escreveria que ela é uma vaca. Deliciosa, mas uma vaca!

Não é que não queria, simplesmente não conseguia pronunciar as vogais. Tal fato casou-lhe, ao longo da vida, alguns problemas. Sua fala, inevitavelmente, causava estranheza. Era difícil se expressar de forma contundente.

Quando era criança, no parque de diversões:

“M~ , qu r r n r d g g nt !”

Ainda adolescente, na aula de matemática:

“Pr f ss r , n~ nt nd x rc´c d s…”

Jovem, na faculdade:

“Q r f z r p´s-gr d ç~ m f l s f .”

Já na idade adulta, no dia de seu casamento:

“N r q z n p br z , n d nç n s ´d , p r m r-t h nr r-t , t´ q m rt n s s p r .”

Sua simples existência foi, e assim ainda permanece, um desafio à semântica e à neo-lingüística. Todas as correntes, os filósofos, pensadores e teóricos da área nem sequer têm pistas sobre o estranho mecanismo desenvolvido pelo aparelho fono-articulatório em questão.

Dizem que somente uma vez, em toda a sua existência, sua fala foi consonante, e não apenas consoante. Foi quando, pela primeira vez, já muito velho, se apaixonou por uma senhora que era sua vizinha. Testemunhas juram que ele sussurrou, leve e faceiro, em belo português, uma expressão corriqueira apenas em terras brasileiras. Suspirou:

“Ai, ai…”

O velho Fusca verde, ano 1978, bem conservado, calotas brancas e pingente de dados felpudos pendurado no retrovisor era um instrumento. Mais que um mero carro com um simples motor movido a álcool. Uma máquina com vida própria, extensão dos braços e pernas do motorista, ramificação dos neurônios humanos em fios e cabos que conduziam os componentes elétricos.

E uma buzina. Alta. Sarcástica.

Samuel, ah, Samuel, sujeito destemperado que mantinha uma das mãos no volante aveludado do coche e a outra no câmbio, com bola de vidro trabalhado. Punha todo o seu coração naquela direção. Era arrojado. Transformava as rodas em pés e as chapas de aço, em músculos. O piloto perfeito.

A caminho da pista de boliche, viu à frente um ponto de ônibus com dez pessoas à espera do coletivo. Era tarde da noite. Elas esperavam. Porque precisavam. Não possuíam automóvel. Samuel, sim, possuía. E era possuído também. Tinha raiva de andar de ônibus. Todo mundo apertado, suando, gente se esfregando involuntariamente, de vez em quando até voluntariamente, passando sufoco. Gente entrando mesmo percebendo que não tem lugar nem para uma mosca. Ô gente burra! No inverno não tinha suor, mas tinha meningite, gripe e outros vírus e bactérias pairando sobre o ambiente, com aquelas janelas fechadas ou emperradas. Que perigo!

Não pensou duas vezes: engatou a quinta marcha, calculou o efeito da guinada no volante, analisou o atrito dos pneumáticos no asfalto e usou como medida as faixas contínuas da avenida. Atropelou oito, fazendo com que duas pessoas, uma em cada canto do ponto, permanecessem em pé, atônitas, em choque.

Jogada S2. Uma das mais difíceis: derrubar as posições 7 e 10.

Deu ré, cumpriu todo o ritual preparatório novamente e acertou em cheio o homem que estava na posição 7. Este caiu de lado e, por sua vez, derrubou a mulher que estava na posição 10.

Strike!

Chegou finalmente na pista de boliche. Vestiu sua luva especial e cravou os dedos em sua bola personalizada, verde como o Fusca. Usou as setas ao longo do piso para se certificar da melhor posição, acelerou o passo e pôs efeito na munheca.

Canaleta.