Sobre Vulgo Dudu

adj. 2 gén. 1. Do vulgo, da plebe. 2. Baixo, ínfimo, ordinário. 3. Que não tem nada que o faça destacar-se. = comum, frequente, inconspícuo, trivial ≠ conspícuo, extraordinário, raro 4. Reles, de nenhum valor. 5. Trivial. 6. Que não se distingue dos seus congéneres. 7. Que não se recomenda por nenhum carácter!caráter de nobreza ou de distinção. v. tr. 8. Tornar conhecido do público. = divulgar, vulgarizar s. m. 9. O vulgo, o populacho. 10. O que é costume. 11. A língua de um povo na época presente.

O pau de duas cabeças voltou a ser o principal assunto nos jornais. Uma jovem professora de vinte e três anos foi atacada pelo falo misterioso. Ela concordou em ceder um depoimento, respeitando o pedido pelo anonimato quanto ao seu verdadeiro nome. Confira este relato emocionante, na íntegra.

Eram onze horas da noite. Eu estava acabando de corrigir umas provas ainda na sala de aula e resolvi levar trabalho para casa, justamente porque sabia do pau de duas cabeças e não queria dar bobeira. Eu sou moça recatada, religiosa, cumpridora dos meus deveres, trabalhadora. Eu arrumei as carteiras, apaguei a luz e tranquei a sala. Ainda dei tchau para o zelador e saí. Quando eu dobrei a esquina, mais ou menos uns duzentos metros da escola, eu tive a sensação de que alguém estava me seguindo. Como a iluminação pública aqui é muito ruim, eu olhava para trás e não via nada, só breu. O problema é que eu ia passar ainda pelo muro do cemitério, que me dá muito medo. Eu tenho medo de fantasma. Mais medo de gente viva do que de assombração, é verdade. Mas também tenho medo de fantasma, da mulher de branco, da loira do banheiro, do velho do saco, da kombi que pega criança, do jason, da gangue que tira os seus rins e te deixa numa banheira cheia de gelo. Enfim, viver é perigoso. Como disse uma vez o João Kléber: para morrer, basta estar vivo. Eu não via nada, mas ouvia direitinho, eu tenho ouvido bom. Ouvia tipo um gemido, era estranho. Até porque não ouvia passos. Eram só os gemidos mesmo. Não deu outra: quando eu passei pelo muro do cemitério, senti uma fungada no cangote! Saí correndo sem olhar para trás e, não sei por quê, entrei no cemitério. Quando eu vi, já estava lá perdida no meio daqueles túmulos todos, completamente perdida. Tinha até névoa pairando sobre o chão. Coisa de novela. E o pior é que o gemido continuava atrás de mim. Acabei indo parar em um mausoléu, todo de chumbo, sinistro demais. A portinhola estava aberta, e lá dentro, ainda bem, as câmaras mortuárias estavam concretadas. Mas tinha muita barata e um cheiro de mofo terrível. Por uns instantes, o gemido parou. Ainda fiquei ali encolhida uma hora inteira com medo de sair no escuro. O problema é que só ia amanhecer em quatro horas. Resolvi correr. Eu corria bem quando era adolescente. Era da equipe de corrida do colégio. Ganhei até uma medalha de bronze. Então, abri a porta do mausoléu e saí correndo. De repente, lá estava o gemido e a fungada no cangote atrás de mim. Acelerei o passo e acabei tropeçando, caindo de bruços no chão. E foi assim mesmo que fiquei. Eu me lembro direitinho de como fui atacada. Eu não conseguia levantar porque havia um peso enorme nas minhas costas. Estava de saia e senti que ela era levantada. Foi então que percebi duas pontas grossas subindo as minhas pernas, uma de cada lado. Elas foram entrando pela calcinha e, sem arriá-la, se instalaram lá dentro. Ficaram roçando minha bunda um bom tempo, tipo assim, fazendo as preliminares. Eu desesperada, me arrepiando toda, imagina, logo eu, moça recatada de família, ia ser devorada pelo pau de duas cabeças? Só podia ser um pau de duas cabeças, porque dali em diante, foi dupla penetração. Era um vai e vem danado, quer dizer, um vão e vêm, uma coisa louca, na vagina, no ânus, em todos os meus buracos, uma cabeça em cada buraco, as duas no mesmo, revezamento, um verdadeiro trabalho em equipe. Eu tentava gritar por socorro, mas não conseguia. Gritava era de tesão. E ficava preocupada. Eu tentava parar de gritar de tesão, mas não conseguia. Logo eu, moça de família, gritando coisas horríveis como “põe tudo lá dentro, anda, depressa, porra!”, “não pára, que eu vou gozar” e “tá vindo de novo, ai meu deus, de novo”. Tive orgasmos múltiplos, fiquei toda lambuzada e assim foi até as cinco e meia da manhã, quando o sol nasceu. Eu acordei com um funcionário do cemitério me cutucando com uma vassoura. Paguei mico: fui logo agarrando o cabo da vassoura, bêbada de sono e êxtase, e pedindo mais… O moço não entendeu nada… ai que horror, logo eu, moça recatada de família. Tipo assim, eu estou triste, sabe? Não queria que fosse assim. Agora ficou com essa lembrança aqui, dessa noite no cemitério. Tenho muito medo de passar por lá de novo, não saio mais sozinha e muito menos à noite. Porém, ainda me arrepio quando me lembro do pau de duas cabeças. Nossa, quanto vigor! Eu estou sendo acompanhada por um psicólogo. Gatinho, ele. O pau dele nem tem duas cabeças. Como eu sei? Ah, bom… é… ele me disse. Foi. Ele me contou um dia que gostaria de estudar Eros x psique com ênfase no pau de duas cabeças. Algo assim. É só isso. Ah, gostei da entrevista. Tava nervosa, mas você me deixou à vontade. Você é tão jeitoso, agradável. Então, quer meu telefone, de repente para fazer mais perguntas? Sei lá, a gente podia conversar mais… O que você acha?

Três palavras triviais, a santíssima trindade, os três porquinhos, os três patetas, três pratos de trigo para três tigres tristes, tríade, triângulo, trimestre, tri legal.

Três marias, tricampeonato, trinca, três mosqueteiros, três amigos, três rios rj, três corações mg, três horas, trigêmeos, faixa três, trivela, trio los angeles, diga trinta e três.

Três pontos, múltiplos de três, tripé, trevo, trem fantasma, não, é três, não é trem, três oitão, três de paus, triciclo, três parágrafos, três linhas, três palavras cruciais.

Eu lembro quando corria atrás de você só para puxar o seu cabelo, bagunçar o laçarote de fita ou simplesmente desmontar o penteado que sua mãe fazia com tanto afinco. Rasgava a sua camisa, sujava a calça de barro na aula de Educação Artística e riscava todo o seu braço com hidrocor.

Mais tarde, botava o pé na frente para você tropeçar, roubava o seu estojo e pendurava a mochila no ventilador. Bolava apelidos e alcunhas desagradáveis que faziam você corar de raiva e depois de vergonha. Falava palavrões cabeludos na sua frente e espalhava para todos que você era estranha demais. Alta demais, magra demais, não tinha peito nem bunda. E que usava sutiã à toa, uma vez que tinha duas bolinhas de tênis de mesa debaixo da blusa.

Mais tarde, implicava com seus dentes blindados, com a sua voz meio esganiçada e com a foto daquela banda de garotos cafonas, dançarinos, de gel no cabelo e sorrisos falsos. Tentava borrar o seu batom e fazia guerra de brilho com a maquiagem que você levava para a escola.

Mais tarde, até lhe tirei para dançar, mas foi jogo rápido. Perfume demais. Frescura demais também. Você não deixava eu chegar muito perto, não deixava minha mão boba descer um pouco mais do que a cintura.

Mais tarde eu até lhe convidei para sair. Você meio receosa, mas com um decote formidável. Cheirosa, bem arrumada e do alto de saltos que lhe colocavam à altura de uma mulher. O primeiro beijo foi antes do resultado do vestibular.

Mais tarde, eu e você na cama. E aí, então, percebi que realmente algo havia mudado. Agora era você quem pedia para que eu puxasse o seu cabelo. Você pedia para que eu rasgasse logo as suas roupas. Você pedia para que eu falasse palavrões. E ficava vermelha de luxúria. Era eu quem pedia que você comprasse sutiã, daqueles de renda, meio transparentes. Sutiã e calcinha. Eu que acabava borrado com o seu batom. Eu que ficava segurando duas bolas de boliche que mal cabiam nas minhas mãos. Você me colocava apelidos fofinhos demais, que também me envergonhavam quando ditos em público.

Voltamos ao princípio. Talvez para perceber que nunca é tarde demais.

*Título surrupiado da obra do escritor italiano Antonio Tabucchi, que em nada tem a ver com este mísero texto…

Por toda a cidade a história já é famosa, espécie de mito que figura entre os mais inacreditáveis do vasto folclore local. Trata-se do pau de duas cabeças.

Muita gente já o viu por aí. E não somente mulheres, como era de se esperar em uma sociedade paternalista. Homens também já o viram, por entre as penumbras das alcovas mais recatadas. Dizem até que o pau de duas cabeças já desbravou hábitos eclesiásticos. E atrás da igreja. Não importa se é preto ou branco, jovem ou velho. O pau de duas cabeças só perdoa as crianças, porque criança é coisa linda de deus.

A medicina não trata de explicar a aberração – se é que assim pode ser chamada tal característica – pelos meios da ciência. Mera crendice popular, dizem os catedráticos, como a espinhela caída e a dor no meio. Nenhum médico, nem enfermeiro, alega ter avistado o pau de duas cabeças. Desconfia-se que tal fato se deve ao medo de virar motivo de chacota. Vale ressaltar que a cidade não tem funcionárias atuando na área de saúde.

Como não podia deixar de ser, considerando a língua um elemento vivo e em constante transmutação, diversos ditos populares foram criados, ou melhor, recriados, tomando como ponto de partida o pau de duas cabeças. Como os que seguem:

“Duas cabeças fodem melhor que uma”
“Mais vale um pau na mão do que duas cabeças voando”

O comércio também se apropriou da figura do pau de duas cabeças e aumentou vigorosamente o volume de vendas. Souvenirs, pequenos mimos e objetos decorativos são a principal fonte de renda da cidade, que outrora lucrava com a comercialização de sapatos de couro nelore. A única sex shop, localizada no centro da cidade, desenvolveu o consolo de duas cabeças, que funciona com apenas duas pilhas tamanho médio, exatamente como um aparelho convencional. O sucesso do invento é tamanho, que o produto já começa a ser exportado para Ásia e Oceania.

Desde os primeiros relatos da aparição do membro inusitado, alguns xingamentos e outras ofensas ficaram proibidas, sob pena de reclusão por caracterizar atentado grave ao pudor, mesmo sem conter palavras de baixo calão, como o caso citado abaixo:

“Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. Ou é ruim das cabeças, ou doente do pé.”

Pouco ainda se sabe sobre o pau de duas cabeças. Porém, a Defesa Civil e a Vigilância Sanitária, em operação conjunta com a Polícia Militar, estão espalhando cartazes e promovendo campanhas de conscientização. O Disque Denúncia vai pagar uma boa recompensa para quem der pistas concretas sobre o órgão genital modificado. Mandar alguém tomar no cu, temporariamente, está proibido em toda a região.

Abdicar do direito de aproveitar horas de sono, as quais se perdem durante os dias úteis, viajar sob mau tempo e chuva forte, tomar café da manhã cedo demais e só alimentar-se novamente umas seis horas depois. Não é tortura. Pois, para que assim seja, o motivo precisa ser muito bom.

Vestir uma camisa de lycra apertada, alongar-se e correr por alguns minutos para tentar aquecer o corpo, entrar na água gelada, molhando primeiro a nuca e os punhos, movimentar os braços com remadas fortes para superar a arrebentação, se posicionar em relação à maré e ficar um bom tempo sentado na prancha, esperando. Não é tortura. Pois, para que assim seja, o motivo precisa ser muito bom.

E então, eis que vem a série. As maiores ondas, que se erguem em larga extensão, grandiosas, imponentes, destacando-se da homogeneidade do resto do mar. Escolhe-se uma, posiciona-se perante a mesma, rema-se e faz-se o drope.

Enquanto escuta-se o farfalhar da onda, que se despedaça aos poucos, é possível contemplar praia, barcos, pássaros e amigos. Tudo de um prisma diferente.

Então, assim sendo, depois disso, qualquer motivo vale a pena.

PS1: Rosa, minha longboard, obrigado, querida!
PS2: “Endless summer 2”, de Bruce Brown
PS3: tá vendo como surfar desestressa? Futebol é o caralho…

Elizeth, não deixe que eu pinte o seu rosto de branco, com pó de arroz e base. Não deixe que eu cubra sua pele inteira e só deixe de fora os olhos, a boca e o nariz. Não deixe que eu marque as suas bochechas com aquele alaranjado que simula o enrubescer.

Não deixe que eu passe batom nos seus lábios. No inferior e no superior, ao mesmo tempo, com as linhas de pintura arqueadas para cima, meio borradas, fora das proporções normais.

Não deixe que eu faça uma bola vermelha bem na ponta do seu nariz. Vermelho vivo, vermelho sangue. Uma bola lustrosa e volumosa de contornos certos.

E não deixe que eu faça com que riam de você. Não deixe, Elizeth.

João tinha cinco anos e uma certeza: queria um dragão de Komodo. Cheio de sua obstinação infantil, partiu para empreitadas na tentativa de conseguir o jurássico bichano.

Sentou-se no colo de Papai Noel. Quando interrogado pelo bom velhinho, alegou ter sido um menino de boa índole, que comia verduras, respeitava pai e mãe e dormia antes das nove horas da noite. Assim sendo, sentia-se no direito de escolher um presente diferenciado. Não hesitou em dizer o que queria ganhar: um dragão de Komodo. Espalhou pela casa bilhetes adesivos, onde lia-se ‘não esqueça o meu dragão de Komodo’. Junto a sua meia, no pé da árvore, colocou também alimento para o futuro animal de estimação. Foi inútil, pois Papai Noel o presenteou com um videogame.

Mais tarde, no aniversário de oito anos, passados alguns natais e descoberta a farsa de Papai Noel, argüiu o pai sobre a possibilidade de ganhar um bicho. Cachorro, papagaio, gato, hamster chinês? Nada disso, queria um dragão de Komodo E estava disposto à malcriação para isso. O pai tentou argumentar.

Filho, dragões de Komodo vivem em uma ilha da Indonésia. É muito longe.

Não adiantou.

Filho, dragões de Komodo são muito grandes. Medem 3,5 metros e pesam 125 quilos.

Não adiantou.

Filho, dragões de Komodo se alimentam de animais de grande porte, incluindo seres humanos.

Não adiantou. João só entendeu que chorar não iria adiantar em nada por volta dos 12 anos. Foi quando começou a aprender a desenhar o lagartão. Decorava as bordas das folhas pautadas do caderno com pequenos dragões de Komodo, feitos de esferográfica azul, rastejando por entre pedras e matas fechadas, em ilhas paradisíacas de águas cristalinas. No intervalo das aulas, aproveitava para adornar o quadro negro com dragões de Komodo feitos de giz branco, que ganhavam vida em contraste com o verde.

Se aos quinze anos alguém perguntasse ‘João, se você pudesse ser um animal, qualquer um, qual seria?’, a resposta estava na ponta da língua: um dragão de Komodo. Por quê? Porque sim. Ah, mas ‘porque sim’ não é resposta! Mas ‘porque sim não é resposta’ também não é argumento. E assim, prosseguia querendo ser o antigo réptil.

Ao completar 18 anos, fez uma tatuagem enorme, que cobriu as suas costas. Era um dragão de Komodo se alimentando de um búfalo enorme. Fez promessa e vestibular. Passou para biologia e fez mestrado em répteis, com doutorado na vida reprodutiva do dragão de Komodo. Conseguiu emprego em uma renomada universidade européia e, ao completar o quadragésimo aniversário e a primeira dezena de milhar na conta bancária, bancou uma viagem com toda a família, que era constituída por mulher e dois filhos, batizados Karen, Kyan e Klaus, tudo com k de Komodo, para a Indonésia. Ia ficar frente à frente com um dragão de Komodo.

Assim o fez. Observado pelos olhos dos filhos e pelas lentes da câmera da esposa. Aproximou-se de um exemplar da espécie e tomou uma surra com sua comprida e robusta calda. Caiu no chão sem defesas e começou a ser devorado. A família entrou em estado de desespero. Enquanto era mastigado, já sob efeito das nocivas e letais bactérias que habitam a boca dos dragões de Komodo, disse em tom de voz delirante palavras para suavizar o momento.

Mulher, filhos, este é um momento sublime para o papai. Por favor, perdoem o dragão de Komodo. Não odeiem esta linda e maravilhosa criatura.

João foi sumindo, lentamente, dilacerado e triturado, por detrás das mandíbulas do animal ameaçado de extinção. Sua vida virou filme. Mais tarde, livro. Mais tarde ainda, prêmio de biologia.

O último dragão de Komodo do planeta morreu caçado, 50 anos depois.