Sobre Vulgo Dudu

adj. 2 gén. 1. Do vulgo, da plebe. 2. Baixo, ínfimo, ordinário. 3. Que não tem nada que o faça destacar-se. = comum, frequente, inconspícuo, trivial ≠ conspícuo, extraordinário, raro 4. Reles, de nenhum valor. 5. Trivial. 6. Que não se distingue dos seus congéneres. 7. Que não se recomenda por nenhum carácter!caráter de nobreza ou de distinção. v. tr. 8. Tornar conhecido do público. = divulgar, vulgarizar s. m. 9. O vulgo, o populacho. 10. O que é costume. 11. A língua de um povo na época presente.

Não utilize faca para comer massas. Enrole o macarrão no garfo com a ajuda de uma colher. No caso de uma lasanha, corte-a com o garfo.

Ao mastigar um peixe com espinha não perca a classe. A forma mais sutil de se livrar dela é cobrir a boca com a mão esquerda em forma de concha, pegar a espinha com os dedos polegar e indicador e colocá-la num canto do prato.

Se o pedaço de frango tiver osso, não hesite: pegue-o com a mão. Se não tiver, corte-o normalmente com a faca.

Para comer pudim, sorvete ou creme use sempre a colher e, se precisar de uma ajuda, use o garfo.

Em mesas finas não há paliteiros. Nunca, mas nunca mesmo, palite os dentes na mesa. O ideal é deixar os palitos visíveis para os convidados no banheiro social.

Pegue os salgadinhos com a mão. O guardanapo serve apenas para limpar os dedos e os lábios antes de levar o copo à boca.
Nunca fale enquanto estiver mastigando, nem mastigue de boca aberta.

Os guardanapos não devem ser trocados a cada novo salgado.

Caso você morda um salgadinho e o queijo insista em esticar, o ideal é cobrir a boca com um guardanapo para poder partir o queijo com os dentes e remover o excesso com o próprio guardanapo.

Não se deve nem encher o prato, nem misturar muitas comidas de uma vez.

E tudo isso para, momentos depois, arriar as calças e defecar tudo, tudinho, em forma de enormes e fedorentos bolos fecais. Com as veias inchadas, as pupilas dilatadas, fazendo força para sair tudo, tudinho, de dentro de você.

No banheiro não há regras de etiqueta.

Eu aperto as marcas roxas das pessoas que eu amo para tentar ver o que elas realmente sentem. Pressiono com força, usando o dedo indicador. Não tenho nojo de pus ou casquinha, aperto mesmo assim. No fundo, é porque gosto de ver as pessoas que eu amo chorando.

Não importa se de tristeza ou alegria. Eu gosto é de observar da iminência até a execução. Os músculos da face se contraindo, os lábios se arqueando para baixo, o nariz entupindo e aquela pequenina poça d’água nas pálpebras.

Depois, a voz ficando anasalada, ranho escorrendo pelas narinas, filetes de baba espessa pelos flancos da boca. E os soluços, um atrás do outro, atrapalhando a tentativa desesperada de uma justificativa para a deformação do rosto.

Enquanto isso eu observo, e rio. Rio. Com vontade, compaixão e certo escárnio. Rio até que me deforme, entorte os próprios olhos para que o canal lacrimal não produza uma só gota de líquido. Porque homem não chora. Não, não chora.

Ele tinha um tic nervoso. Era mais ou menos assim, na ordem em que acontecia: o olho direito fechava, o nariz fungava, o olho esquerdo fechava, os lábios faziam bico, os dentes de cima batiam nos de baixo, o queixo se recolhia e tentava encostar no peito, as orelhas eram eriçadas, a cabeça girava para um lado, depois para o outro, os ombros se arqueavam para trás, um braço estalava, depois o outro, barriga para dentro, o esfíncter era comprimido, o joelho arqueava, ficava na ponta dos pés, devolvia os calcanhares ao solo com força, contava até três, mentalmente, três vezes, inspirava e soltava o ar dizendo “ã”.

E ainda tinha tempo para viver.

Sadanodnaba sanitnepres sa e sodirrav oãs setefnoc so, adnif ailof a, abaca odut odnauq e. Megami amu sanepa uos, ohlepse ao etnerf ed. Adan rezid mereuq oãn euq otidure otxet mu me sairótaela sartel omoc. Levigiletni, ariegnartse augnil me osrucsid mu omoc.

Irfos, ierohc, ietnac, irros: oãsserpxe ed sacram sa. Sortuo mec siam e ue iuf. Méugnin iuf oãn opmet omsem oa e.

Uecetnoca euq o odut radrocer arap açrof rezaf osicerp é e. Odnopmocer em uov e, dniwer, wer, oãtob o atrepa. Ohlepse od odal ortuo od zevlat. Olucidir.

Quando eu tinha cinco anos, estudava em um colégio grande. Lembro que havia uma escadaria comprida que ligava a sala ao pátio. Na minha turma, Jardim II, tinha um garoto chamado Ian. Eu não gostava dele. Implicava muito comigo. Me batia, xingava. Eu acabava sempre chorando na sala da diretora.

Um dia, o professor de música me viu de canto, cabisbaixo, e perguntou o que havia acontecido. Eu contei que o Ian tinha pisado no meu sanduíche e me empurrado na frente de todo o mundo. Aí, ele me disse que eu precisava reagir. Que se eu gritasse ou também empurrasse o Ian, ele iria parar com as provocações.

No dia seguinte, na volta do recreio, o Ian me deu uma rasteira e eu caí de quatro no topo da escada, quando faltava apenas um degrau para chegar na sala. Ninguém riu, porque todo mundo já tinha entrado. Porém, mesmo assim, eu fiquei com raiva. Me lembrei do que o professor havia dito e resolvi dar um empurrão nele. Fui com toda a força que podia. Ele acabou tropeçando e rolando escada abaixo, batendo com a cabeça à cada degrau. E ficou lá embaixo, deitado.

Fiquei esperando ele chorar, soluçar. Nada. O chamei uma vez, duas, três. Nada. Então, resolvi chamar a Tia Edna, a professora. Eu disse a ela que o Ian estava dormindo e não queria acordar de jeito nenhum. Ela foi até lá e virou o Ian de barriga para cima. Ficou visível uma mancha de sangue ao lado da cabeça dele.

Eu lembro que a tia começou a chorar. A gente, da turma, não sabia o que fazer: se chorava também ou não. Se olhava, ou não. O Ian foi embora de ambulância, dormindo.

Só mais tarde, aos quinze anos, eu fiquei sabendo a verdade. Eu matei uma criança quando tinha apenas cinco anos.

Tomar a pílula da verdade, “soma”, traz alguns efeitos colaterais. Durante os dois dias seguintes à realidade, é comum ter reações como: coceira nas mãos, acúmulo de ranho nas vias aéreas, falta de sono, olho seco e flatulência noturna.

No entanto, com o passar do tempo, o paciente sente um alívio reconfortante, descrito por uma das maiores autoridades no assunto, o Dr. Roberto Lepedizck, do Centro de Controle de Desordens Inverossímeis da Universidade Federal de Pindamonhangaba, como “alforria da escravidão das faculdades mentais”.

As pontas dos dedos já estavam lambuzadas. Pintavam o rosto inteiro à medida que os cravos e espinhas eram coçados com intemperança pelas unhas emporcalhadas. Ela segurava com atroz volúpia, contra os enormes seios, uma travessa que continha um considerável volume de torta de chocolate.

Ali estava a adrenalina, a fome e a volúpia. Desejava comer o resto de torta que não lhe pertencia. Por isso, precisava saciar seu apetite no silêncio do anonimato, à surdina, para que não fosse lavrado flagrante. Excitava-se, quieta.

Dispensou prato, talheres, guardanapo. Deixava o doce sujar-lhe as mãos, apertando-o com voracidade até perceber a textura do recheio ganhando o meio externo. O conteúdo mal cabia em sua boca, mas mesmo assim ela forçava a entrada. Limpava-se usando a camiseta folgada, branca, com manchas de cobertura de glacê.

Engolia depressa tudo o que podia, até o diafragma reclamar por meio de soluços. Então, fechava os olhos, se encolhia e deixava uma lufada de arroto varrer-lhe o esôfago. Prosseguia com avidez neste exercício árduo e prazeroso.

Chupava os próprios dentes, emitindo sons agudos mixados com grunhidos graves, sinais claros de uma revolução estomacal. Era possível ouvir os primeiros trabalhos da digestão lenta e gradual que acontecia dentro dela. Comprimia com a língua o máximo de doce que conseguia no céu da boca para facilitar a ingestão.

Queria mais. Muito mais. A comida não saciava seu desejo por completo. Solitária, com os pés paralelos sobre a interseção de dois azulejos, espiou as portas e janelas que davam acesso à cozinha. Certificou-se de que ninguém estava à espreita e arriou a calça, depois a calcinha. Ali mesmo, despudorada pelo efeito da glicose, começou a esfregar o doce contra o clitóris, em movimentos contínuos. Deitou-se no chão para abrir melhor as pernas. Começou então a enfiar pedaços inteiros de torta, com glacê e recheio, dentro da própria vagina. Foi assim até sumir com tudo, até não restar farelo algum. Nem para as formigas.

Ali mesmo, defecou. E ali mesmo dormiu. Lambuzada, cagada.

Porém, doce.