Sobre Vulgo Dudu

adj. 2 gén. 1. Do vulgo, da plebe. 2. Baixo, ínfimo, ordinário. 3. Que não tem nada que o faça destacar-se. = comum, frequente, inconspícuo, trivial ≠ conspícuo, extraordinário, raro 4. Reles, de nenhum valor. 5. Trivial. 6. Que não se distingue dos seus congéneres. 7. Que não se recomenda por nenhum carácter!caráter de nobreza ou de distinção. v. tr. 8. Tornar conhecido do público. = divulgar, vulgarizar s. m. 9. O vulgo, o populacho. 10. O que é costume. 11. A língua de um povo na época presente.

Ele dedicou horas dos seus dias ao treino exaustivo da correta utilização da guitarra. A postura adequada, a empunhadura perfeita, o melhor ajuste da correia. Produziu excesso de pele na ponta dos dedos, calos, para que as cordas não as machucassem. Virou o garoto do colégio que, apesar de desajeitado e espinhento, era o centro das atenções femininas.

Decorou cifras, tons, cordas, a ordem das notas de trás para frente: dó, si, lá, sol, fa, mi, ré, dó. E as dizia em velocidade impressionante. Palhetava as cordas alternadamente, para cima e para baixo. Memorizou escalas pentatônicas, diatônicas, pentatônicas com blue note. Aprendeu a fazer harpejos. Se tornou o único garoto da rua que tinha uma banda de rock.

Desenvolveu ouvido absoluto. Tocava de olhos fechados, com a guitarra nas costas e de cabeça para baixo, pendurado em uma barra de exercícios. Conhecia os efeitos disponíveis, os possíveis e também os inimagináveis. Era um músico, sem dúvida alguma.

E tudo isso para um dia, diante de milhares de pessoas, estraçalhar o instrumento contra uma parede enorme de caixas acústicas, até fazer com que restasse em suas mãos apenas lascas de madeira com curtos pedaços de aço dependurados.

Agora sim, era homem. Sem dúvida alguma.

Eu deixo que a raiva se apodere de mim. Do meu corpo, do meu pensamento, do meu subconsciente se assim for preciso. Eu deixo o ódio tomar conta de mim. Dos meus instintos, do meu arco reflexo, da minha imagem disforme refletida no espelho emporcalhado do banheiro. Eu deixo a agressividade falar por mim. Por minha postura inadequada, por gestos obscenos, por minha fala entrecortada por palavras de baixo calão.

Sou um sociopata encaixado perfeitamente na contemporaneidade das minhas ações. Engulo drogas lícitas para adormecer. Fumo drogas lícitas para me preencher. Bebo drogas lícitas para me esquecer.

Porém, eu amo meus filhos, minha mulher e o meu cachorro. Não duvide: eu faço tudo isso por eles, seu filho de uma puta!

Um. O elevador tem espelho. Os botões vão do um ao doze, arranjados em duas colunas iguais. O térreo é representado pela letra a. A de térreo? O botão de emergência é vermelho. Emergência. Para estes casos, existe um interfone que se comunica diretamente à mesa de controle da portaria.

Dois. Há câmeras. Sorria, você está sendo filmado. Baixarias em elevadores são adoráveis. Filmes eróticos, não pornográficos, porque eróticos têm história, ficam deliciosos vistos de cima, em preto e branco, com qualidade inferior.

Três. A porta pantográfica. Ah, a porta pantográfica. Mantenha as mãos longe das portas pantográficas. Aquelas pelas quais é possível observar o concreto assustador e odioso entre os pavimentos.

Quatro. Um interruptor para luz. Será que há pessoas que preferem subir no escuro? Talvez as mesmas pessoas que fazem sexo no elevador. Ou não. Pois sexo em um elevador com câmera é vouyerismo.

Cinco. É possível ouvir os cabos. Eles estalam, fazem barulhos ensurdecedores. São complexos cabos de aço, resistentes, reforçados. Quando passam por um pavimento completo fazem um ruído engraçado. Não rio. É um barulho engraçado, como se ele pudesse sorrir amarelo.

Seis…

Ela mora no sete. Mas este é o seis? Eu posso ver no mostruário antigo, que fica acima da porta pantográfica. O número fica aceso. O seis está aceso. Mas não ouço aquele barulho amarelo. A luz pode falhar. O interfone, ocupado. Emergência! Emergência! Emergência.

Ah, se ela soubesse. Que o meu coração dispara, minhas mãos suam frio, minha espinha se arrepia e é preciso afrouxar o colarinho. Não por causa da iminência de encontrá-la, mas porque o elevador pode parar. Ah, se ela me visse neste instante, desabando do alto da sanidade como um doente, me entregando por completo ao pânico, com as mãos para cima e o corpo mole feito marionete desalinhavada.

Ainda o seis.

Sete. A porta pantográfica abre-se esplêndida, coreografada. Me recomponho e toco a campainha feito macho reprodutor que preciso ser. Vamos direto para o quarto e fazemos sexo feito animais selvagens. Ela me chama de garanhão, pede palmadas no bumbum e que eu a chame de puta.

Ah, se ela soubesse que o meu coração dispara.

É para você deitar de barriga para cima, com as pernas levemente arqueadas para dentro e as palmas das mãos viradas para cima. Respire lentamente. Deixa a cabeça pender sobre o travesseiro e pense apenas no bem que você fez. Esqueça todo o mal, pois ainda há tempo para a redenção. Eu recomendo que você feche os olhos. Fica mais fácil deste jeito.

Imagine uma praia paradisíaca, onde todos os seus sentidos podem descansar. Sinta os estímulos do mar, da areia, do vento. Esvazie a consciência de preocupações ou angústias. Depois de alguns segundos, sua mente deve ficar completamente descontraída e em branco. Mesmo que o pescoço se enrijeça um pouco, não se assuste.

Agora você vai sentir uma leve picada. Logo depois, um calor vai percorrer todo o seu corpo. É a química da injeção letal abrindo caminho até o coração, dilatando as suas veias. Em pouco tempo estará tudo acabado.

Que deus lhe receba de braços abertos.

Eu segui exatamente as indicações que você desenhou no guardanapo. Encontrei as referências em retângulos sublinhados. Virei nas ruas com nomes abreviados, em letra de forma. Não era assim?

“Olha, você pega essa rua aqui, segue reto, ela só dá mão pra cá. Aí você vai ver um posto de gasolina na esquina. Não vira. Mais à frente tem uma livraria enorme. Aí você pega essa rua, à direita, e segue até o fim. De repente tem uma bifurcação. Vira à esquerda e vai reto-toda-a-vida. Lá no final, você vai ver um bar bonitinho, com mesas na calçada. Meu prédio fica ao lado. Número XXX, apartamento X02.”

Eu só queria ter um mapa como esse para o nosso pequenino labirinto particular.

Quando o menino ouviu um barulho na sala, que ficava no pavimento de baixo, arregalou os olhos e se levantou de uma vez. O sol ainda não havia nascido, mas em breve as primeiras linhas de luz cairiam sobre o céu.

Foi se espreitando pelo corredor até a escada e olhou com certa cautela para baixo. Viu o que esperava: um homem gordo, de camisa vermelha e com um saco na mão. Sem barba branca, mas calçando botas tipo militar. Algo parecido com um coturno.

Desceu os degraus o mais rápido possível, com os braços abertos para um reconfortante e agradável abraço. O sujeito segurava uma lanterna, e apontou o feixe de luz para os pequenos olhos da criança. Tinha tanto para conversar com ele.

“Esperei o ano inteiro por você! Fui um bom menino. Você trouxe minha bicicleta?”

O vulto escondido por detrás da luminosidade ofuscante começou a caminhar lentamente em direção à criança, sem dizer uma palavra. O sapato perto da árvore enfeitada, vazio.

Antes que a voz infantil pudesse indagar pelo presente, ou apenas perguntar sobre as renas, teve a boca tapada pela luva de pelica. Foi jogada dentro do saco volumoso e fedorento. Então, percebeu do que se tratava. O Velho do Saco.

RÚSSIA – Dimitri Ruskalnóv, 58 anos, um cirurgião plástico russo de renome, foi finalmente encontrado após quatro anos desaparecido. Ele perambulava, irreconhecível, pelas ruas de Kiev, dormindo debaixo de marquises e revirando o lixo para sobreviver.

A polícia descobriu que Ruskalnóv, para testar um novo método cirúrgico que prometia rejuvenescer a aparência em até 20 anos, usou-se como cobaia. Seguindo todos os procedimentos médicos sem a ajuda de assistentes ou enfermeiros, após modificar seu rosto ele acordou e não se reconheceu.

Os parentes só descobriram a verdadeira identidade de Dimitri ao perceberem um bêbado que coçava o saco escrotal e depois cheirava os próprios dedos – mania da qual o médico, desde a adolescência e mesmo com a ajuda de terapeutas, não conseguiu se livrar.

Produtores de Hollywood já entraram em contato com a família para comprar os direitos autorais da história do médico que modificou o rosto e não se reconheceu. Dolph Lundgren, o Drago de “Rocky IV”, é o ator mais cotado para protagonizar o filme.