Crônica

O Pseudo-Intelectual

Cara, não querendo ser estraga prazer ou coisa do tipo, lá vem ele. De novo. Esqueça tudo o que conhece ou aprendeu. Ele é intolerante, insolente e megalomaníaco. Sim, ele que tudo vê e tudo sabe. Ele. Não se iluda com os livros de Kafka, Sartre ou mesmo os de culinária que ele carrega debaixo do braço. Se a discussão se enveredar por um lado mais, digamos, real e árduo (idéias que façam você e o meio em que vive se moverem, meu caro), pronto, o assunto acaba voltando para o lançamento do último filme do novo cinema tanzaniano (tá bom, admito, é o efeito Copa do Mundo). Por quê é tão importante se afirmar como uma pessoa culta, mas sem uma consciência social e política realmente importante, ou mesmo interessante? E todo esse conhecimento vale alguma coisa de verdade, ou é apenas status perante outras pessoas que não são ligadas nesse “mundinho descolado legal único de minha vida”?  Será que o não votar é tão descolado assim? E colocar a culpa dessa situação (sua, do país, tanto faz, você faz parte de todas) em alguém, estrategicamente falando, com uma porção de palavras bonitas e frases feitas de grandes pensadores, (alternativos, é claro!) também é ser legal?

Esse culto ao cérebro anabolizado de idéias e conceitos vagos podia muito bem ser proibido (por quem, eu não sei, mas que deveria ser feito rápido, deveria), pois mostra um dos piores comparativos que eu já vi na vida: O que é pior, uma pessoa culta, inteligente, que sabe que pode mudar o panorama da sua sociedade, mas que nada faz (sem motivo aparente, apenas não o faz) ou o ser humano que nada faz, pelo simples motivo de não saber o poder que tem, ou por não ser descolado o suficiente?

Mas vamos deixar de lado todo esse papo de ser adulto, chato e responsável, o que vale é garantir o lugar na fila para comprar o último disco do coral banda jazz-rock-samba-soul Nasci em Montevideo (é, se a ortografia está certa eu não sei, mas que é descolado, é!).  Não me leve a mal, mas estou indo embora, antes que eu fique culto demais!

 

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A carta

Rio de Janeiro, 19 de outubro de 2020.

Olá Letícia,

Finalmente chegou a data tão esperada para que pudesse abrir esta carta. Dez anos se passaram desde que a escrevi, projetando sonhos e idealizando planos. Espero que ao lê-la sinta-se realizada.

Dez anos, dez anos atrás, correspondiam a 20% de uma vida. Para sua surpresa hoje já corresponde a 10%. Por isso, não se decepcione se você ainda não tiver plantado uma árvore, gerado um filho ou escrito um livro. Você ainda tem alguns anos para fazê-lo (se assim o quiser).

Decidi não perguntar como anda sua carreira, se continua escrevendo ou se mantém seus conflitos entre produzir e realizar coisas. Sei que continua envolvida com as artes, mas isto não importa agora. Minha maior curiosidade, dez anos depois, é saber se entendeu por que está aqui, se consegue ser feliz todos os dias ao ver o sol nascer ou a chuva cair. Os anos passam e acreditamos que devemos fazer parte de uma rotina sem fim que envolve trabalho, estudos e família. Espero que depois de dez anos tenha descoberto que isto não é uma verdade. Seu futuro certamente já deve ter lhe mostrado isso. Espero.

Você pode ter feito muitas coisas ao longo destes dez anos. Mas o que realmente quero saber é o que fez de bom para as pessoas que a cercam, quais foram suas atitudes que mais lhe deram orgulho, o que você aprendeu ao longo de todo este tempo. Quando você escreveu esta carta, tinha 30 anos. Era casada, feliz, estava finalmente se realizando profissionalmente sem perder sua individualidade e cuidando de si mesma, ao seu tempo, sem pressa. Seu primeiro livro havia recém sido escrito e você o deixou de lado por alguns dias, com medo de que ele pudesse ser verdadeiramente publicado. Certamente publicou outros livros, não é mesmo? Por favor, não me diga que ele continua na gaveta.

Naquela época sua maior preocupação era para onde viajar no Ano Novo. Você já sabe para onde vai agora aos 40 anos? Conseguiu dar a volta ao mundo nos últimos anos? Conheceu pessoas, lugares, comidas, culturas? Ou mudou completamente seu jeito de ser e fica extremamente feliz apenas com o conforto de um ar condicionado?

Continua sorrindo todas as manhãs simplesmente porque pode acordar e ver a luz do sol ou sentir o cheiro de terra molhada pela chuva? Espero que o tempo não tenha sido capaz de mudar sua essência. Dez anos parece muito, mas não passa de um breve suspiro marcado por uma carta que enviou para si mesma.

Desejo profundamente que continue querendo apenas ser feliz e fazer com que outros, ao seu redor, também o sejam. Há dez anos, aos 30, você tinha o dom de alegrar os amigos com seu jeito de ser, com seus textos e com a maneira que levava sua vida. Espero que não tenha perdido isto aos 40. E se estiver verdadeiramente frustrada com o que se tornou agora que suas mãos refletem um pouco mais de idade, não se decepcione consigo mesma, pois é sempre tempo de recomeçar.

Pegue uma folha de papel e uma caneta – se é que elas ainda existem e não se transformaram em alguma outra coisa com uma maçãzinha prateada gravada – e escreva uma nova carta para si mesma. Desta vez a data será 19 de outubro de 2030 e ao abrí-la, você terá 50 anos e muitos outros pela frente. Você vai conseguir e mais uma vez, ficar surpresa ao abri-la.

Felicidade, lembre-se que é a única coisa que realmente importa. Nos vemos novamente em dez anos.

 

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Café em Paris

Minha “vó” faleceu em 1994. Eu tinha apenas 14 anos e ela 64. Foi cedo demais para quem sonhava conhecer a França. Cedo demais para que eu pudesse sentir sua falta. Quando completei vinte anos, decidi escrever sua história. Descobri traços de sua personalidade passados de mãe para filha. Traços passados de filha para neta. Comecei admirá-la como adulta. Lamentei não ter ficado mais tempo ao seu lado. Lamentei não tê-la visitado mais vezes. Não ouvi suas histórias pessoalmente. Não a abracei tanto quanto deveria. Já quase não lembro de sua fisionomia senão por retratos. Mas ela será eternamente a minha avó onde quer que esteja. E por isso jamais abandonou meus cadernos e escrita. Sua história de vida é tão linda quanto os romances que lia. E por isso precisei dez anos para concluí-la. [Apesar de não considerá-la terminada ainda.] Minha “vó” se tornou página, livro, narrativa e história. E se um dia ela quiser, agora posso levá-la através das palavras para passar uma tarde em um café de Paris.

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Viva les femme!!!

“O amor é uma escolha! Ele era, racionalmente, a melhor coisa para mim!”

“Tenho um namorado, to procurando um marido!”

“Você já casou, se divorciou…agora é minha vez…também quero casar e me divorciar!”

- E eu continuo solteira…

 

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Morte feliz

Na vida, são tantos os que procuram a felicidade e não a encontram. Desde a infância, quando começamos a tomar consciência de quem somos. Na adolescência quando a todo tempo tentamos reafirmar essa nossa consciência. Na vida adulta, essa consciência atrelada à maturidade, nos permitindo reflexões sobre a vida, mas… e a morte?

Buscando a felicidade na vida e não a encontrando, me pergunto por que não tentar o inverso. De fato, muitos já tentaram e ainda outros mais tentarão, equivocando-se. Porque assim como nos equivocamos com o conceito de vida, ao aniquilá-la, biologicamente falando, também nos equivocamos com o conceito de morte.

O homem ainda apresenta dificuldades em lidar com a morte, e todas as crenças em torno desse conceito se perdem quando descobrimos o que de fato é verdadeiramente viver e morrer. René Descartes disse:

“Penso, logo existo”

Se existo, sofro. Se sofro, não vivo. Se não vivo, morro. Se morro, não mais existo.

Eu fiz diferente. Sofria vivendo em busca do que almejo, quando na verdade eu deveria matar o que não desejo. Parei de alimentar sonhos fora de mim e passei a aniquilar os pesadelos dentro de mim. Finalmente tive uma morte feliz.

Se morro, não mais existo, então morri. Morri em parte, porque nem tudo em mim era sofrimento. Um espaço abriu-se em mim para que tudo o que almejo pudesse entrar. Hoje sou a parte boa que sobrou de mim, antes sufocada, agora livre pra respirar. Respirar é vida. Respiro, logo vivo!

O medo da morte é ainda o medo do novo. A destruição faz parte do ciclo da natureza e é extremamente necessária para a transformação. A transformação em algo melhor.

Sobre a felicidade? Ah, sim! eu não fui mais buscá-la. Ela simplesmente veio, instalou-se e hoje posso afirmar que vivo de verdade, não aquela falsa, aquela imposta pela sociedade, mas a verdadeira felicidade.

 

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Adestramento Infantil

  1. Arrume uma criança;
  2. Forneça colo e carinho;
  3. Brinque com ela.
  4. Cante pra ela dormir. Mesmo que sua voz pareça a da Simony ou do Mauricio Mattar;
  5. Coloque-a no berço e fique olhando-a deitada, até o seu sono chegar;
  6. Acorde no meio da noite, tendo seu descanso interrompido por um choro cortante;
  7. Pegue a mamadeira, com o leite já previamente aquecido e dê para criança;
  8. Apoie a criança em seu braço direito e lhe dê suaves tapinhas em sua região dorsal superior, para provocar eructação (vulgo arroto);
  9. Troque sua fralda;
  10. Cante mais um pouco;
  11. Coloque-a no berço;
  12. Repita do passo 6 ao 11 aproximadamente de 10 a 15 vezes por noite;
  13. Acorde pela manhã cansado, com aquela sensação de que não dormiu o suficiente;
  14. Tome seu banho com cuidado, sem fazer muito barulho, se arrume, tome seu café e vá trabalhar;
  15. Após o serviço, recomece do passo 2, e só vá para o passo adiante daqui a 3 anos;
  16. Se você chegou aqui, parabéns! Considere-se mais um que concluiu com êxito o adestramento infantil.

Sua criança fez um belo trabalho com você.

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Malditos Sedentários!

Reclamar de tudo e de todos, mas sem sair de cima da nossa zona de conforto (isso mesmo meu querido, o seu precioso sofá!), está virando um dos esportes favoritos do brasileiro. Talvez esteja virando não, com certeza, é a nova mania nacional.

Imagina só se eu, importante e preguiçoso (e presunçoso também, por que não?), vou sair de meu trono pessoal, para fazer valer os meus direitos? Jamais o faria, mas não por ter de brigar por algo, mas por medo de perder a novela, sabe? As últimas semanas e os próximos capítulos serão imperdíveis, então, não terei muito tempo de participar daquela passeata por um transporte público melhor, ou ainda, corrida para arrecadar fundos para o lar-asilo-escola panamenho Señor Gutierrez. O trocar de canais do controle remoto (da TV ou do meu cérebro, hein?) já me desgasta demais.

Mas prometo praticar algum esporte ainda esta semana, mas só após os jogos de futebol e a análise da rodada, que por sinal, vai ser mais curta, pois aquele repórter chato vai entrevistar um político qualquer, candidato a algum cargo sem importância (aliás, alguém aí quer ser presidente? Temos uma vaga para preencher!). Mas, depois dessa coisa sem sentido, vai rolar algum filme, tipo desses em que o cara vira um herói nacional, só porque lutou contra algum vilão ou regime governamental tirano! Onde já se viu isso? Só em filme mesmo, e olha, já to cansado de tanta agitação. Talvez só aquela bebida energética do comercial para me ajudar a espantar o já recorrente cansaço que me assola. Pode ser que eu saia para comprar uma lata, mas só depois de saber o que vai ter de bom na programação (ah, que deve ser minha, só pode!). Será que tem diet?

 

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Uma e outra

Uma quer largar tudo e se tornar voluntária no Nepal. A outra quer poder esquiar no próximo feriado em algum lugar da América do Sul. Uma quer abrir mão de uma carreira de sucesso e ser uma pessoa normal. A outra quer enviar o curriculo para a UNICEF, UNESCO ou ONU e fazer algo de bom pelo mundo. Uma quer se mudar para outro país e aprender outra cultura. A outra quer comprar um apartamento e ter um escritório aconchegante dentro de casa. Uma quer escrever. Outra quer ser produtora. Uma que trabalha pouco, paga suas contas e curtir as pequenas coisas da vida. A outra quer trabalhar muito, gastar sempre que tiver vontade e realizar sonhos extravagantes. Uma quer trabalhar com turismo. A outra quer atuar com responsabilidade social. Uma quer fazer acrobacia aérea. A outra prefere assistir a um DVD em casa. Uma não pode entrar em uma livraria. A outra, não consegue dar conta de todos os livros que compra. Uma adora uma taça de vinho. A outra bebe fácil uma garrafa de champagne. Uma quer aprender italiano. A outra prefere parler français. Uma gosta de trabalhar demais. A outra não entende até hoje por que trabalha tanto. Uma se considera bem sucedida. A outra não liga de ser uma fracassada. Uma gosta de ficar entre amigos. A outra prefere manter relações solitárias. Uma gosta de banho bem quente. A outra prefere recitar mantras para Ganesha. Uma adora andar de metrô. A outra não suporta ter que sair de casa. Uma é normal e equilibrada. A outra tem crises e neurosos que a deixam louca. Uma sonha em conhecer a Espanha. A outra adoraria fazer um mochilão pela Ìndia. Uma não pode viver sem chocolate. A outra pensa em um dia parar de comer carne. Na maior parte das vezes as duas brigam o tempo inteiro. Em outras convivem em perfeita harmonia. E só mesmo quando as duas estão juntas… é que eu existo completamente. Sou uma e outra simultaneamente.

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É só o que sabemos fazer

Existe algo que nos faz prosseguir. Mais forte do que todos os nãos, do que todas as cadeiras vazias, do que todas as páginas não lidas. Se me perguntarem por que insisto em fazer cultura, responderei que simplesmente não sei fazer outra coisa. Na verdade, nem tenho tanta certeza de que sei fazer isso a que chamam “cultura” direito. Mas se não o fizesse, nada mais faria. Sentido. Trabalhamos na maior parte das vezes de maneira solitária, colocando no papel algo que não se pode mensurar. Não sabemos quem está do outro lado da tela, escondido no escuro do cinema ou observando uma obra de arte em uma parede qualquer. Jamais ficamos sabendo de que forma nossa arte vai atingir o outro, quando ela verdadeiramente se aproxima dele.

Vez ou outra surgem as palmas, os elogios rasgados, os agradecimentos fortuitos. Nunca acreditamos. Não é por isso que fazemos cultura. Fazemos porque não há mais nada a fazer. Porque é só isso e mais nada que sabemos fazer. Esta é a nossa natureza, quer você vire a página ou não, quer você leia este texto até o fim ou não, quer bata palmas em pé ou sentado (ou simplesmente saia escondido no intervalo entre o primeiro e o segundo ato).

Somos movidos pela transformação. Se não em você, no leitor, no espectador, na platéia, pelo menos em nós. Mudamos a todo instante em favor de nossa arte. Somos artistas e quando finalmente assumimos isso para nós mesmos, não há mais nada a temer. Somos artistas. Artistas. Arte. Queremos transformar, mobilizar, mexer, instigar. Mas acima de tudo, queremos fazer. Porque se não o fizéssemos, o que seria de nós?

Somos artistas de nossas próprias vidas. Se não fazemos “cultura”, pelo menos criamos a nós mesmos… Infinitamente.

 

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Gurus de Terno

Complicado explicar porque, mas nunca tive lá muita confiança em guru usando terno. Digo… para mim, não são exatamente gurus, longe disso, mas a pretensão é se passar por um. O cara veste terno e gravata, livrinho na mão, projetor, PowerPoint, e começa um discurso motivacional que vai mudar sua vida. “Senhoras e senhores, dispensemos meias-palavras; sei porque estão aqui. Sei que estou diante de pessoas inteligentes, então cortemos os borogodós”, e começa a falar de VOCÊ. SUA vida. SEU drama pessoal-existencial-financeiro. “Sim, eu te entendo. Sei pelo que passa.” Do Amway ao “Perca peso, pergunte-me como”, do “Novo encontro com Jesus” ao “Como maximizar seu eu-produtivo em uma semana”, passando pelas palestras pré-cozidas dos porta-vozes do sucesso, cada um deles tem uma história para contar, de como um dia foram como você, de como após perder tudo para dívidas ou drogas, ou o filho ser internado na UTI, entenderam como as coisas funcionam e acordaram. Remodelaram a vida. Conheceram alguém (ou leram um livro) que lhes abriu portas para a redenção. Jesus, Amway, “Filosofia alimentar do novo milênio”. Você dá nome ao messias. Os gurus de terno sofriam o SEU sofrimento, mas uma luz os acolheu e os passou para o outro lado do muro, onde ficam os vencedores. Cada um deles descobriu “O segredo do sucesso”, e agora quer partilhá-lo com você, porque VOCÊ TAMBÉM É ESPECIAL. VOCÊ TAMBÉM PODE CONHECER O SEGREDO.

Pois é. Lembrou do livro, imagino. Segundo este, e o filme homônimo, qualquer sucesso, qualquer personalidade que tenha marcado a história, inventor, artista, sábio, escritor, estadista, cientista, profeta, guru, e hoje aparece na galeria dos “vencedores consolidados”, só o faz porque conhecia O SEGREDO. É a velha fábula da história como FIM. “Tudo converge para ISTO”, ESTA fórmula, ESTE concentrado do que realmente importa saber das psicologias de todas as civilizações que existiram, agora disponível por 39,99. Seja um Gandhi você também! Encontre o Einstein que existe no lado direito mágico de seu cérebro!

Coisa velha, ver a história como FIM, mas nada resiste a uma embalagem nova e convidativa. O guru de terno é uma versão “bussiness” do arauto da transcendentalidade. Pode ser um pastor fazendo milagres por atacado, o vendedor “manager” que está no alto da pirâmide vulgo “marqueting de rede”. Não importa. Ambos vão mudar sua vida num estalar de dedos em troca de dinheiro, devoção e mais membros para o rebanho. “Investimento”, dizem. Apelam a seu desamparo, sua fome por soluções e respostas consolantes, sua disposição em “correr atrás”. “Sim, eu posso, consigo, quero, tenho fé! Não vou desistir!” Sua mente aquiesce enquanto incorpora o discurso do guru que tem a velocidade da banda larga. Tecno-guru. Fala em Jung, Nietzsche, Gates, Confúcio e John Lennon em uma única volta retórica. Vai de Platão à Madre Teresa em oito segundos. Sem solavancos. Sem escalas. Para ele e para você, tempo é dinheiro, portanto, mais impacto, menos reflexão, mais linhas retas, menos devaneios. Este neo-sábio não medita, dispensa o silêncio, põe no ouvido o celular para sentir o gozo da tecnologia zumbindo em seu cérebro. Neurônios vibrando em 220, ecoando Rock Farofa a 500 decibéis para as caixas de som das cordas vocais, que transformam cacofonia em verbo. A platéia goza por tabela. Ri, chora, aplaude, grita “Aleluia” e reage a cada comando como um Bonecão do Posto recebendo santo. Eis o milagre do guru, que não promete, faz. Melhor ainda: faz prometendo. Seu produto como vendedor é o próprio ato de vender.

Mas em tempos de chiado e desinformação circulando em todo lugar, outdoors entupindo a visão, berros, urros e sirenes ofuscando o nexo porque precisam chamar você, não há brechas disponíveis ao processamento, não há equilíbrio que propicie análise e boas escolhas. Os sentidos viciaram no estímulo. Querem mais. Silêncio virou angústia e FALTA. “Preciso sentir para o vazio sumir”. “Quero choque em meus neurônios, batidão, tesão no tímpano e pico na veia! Padres são maçantes, Buda é gordo, vago, chato, e aquele ali do livro, complicado. Faz o seguinte… Pega os três, mais esse, esse e esse, põe no liquidificador e faz um chá de citações para mim, sim? E eu ainda posso botar no perfil do Orkut.”

O guru de terno não representa uma saída às doenças da modernidade. É um sintoma. Oferece milagres, soluções e certezas como se vende carrões na TV. Seduz com as armas da publicidade, e tem objetivos semelhantes. Quais? Ah, não te contaram essa parte, não é? Pois o verdadeiro segredo está aí, não nas prateleiras. Não por 39,99.

 

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