Fernando Pessoa dizia que todas as cartas de amor são ridículas. Vai além, e conclui que se não fossem ridículas, não seriam cartas de amor. Há quem transfira os belos versos do poeta português para a sétima arte. Gente que caiu na armadilha da indústria cinematográfica e aprendeu, ao longo dos blockbusters, a se resignar com romances repletos de clichês que duvidam da capacidade intelectual do espectador.

Não se enganem: nem todo o filme de amor é ridículo. Vou além: se forem ridículos, peçam o dinheiro de volta na bilheteria. Apresento-lhes, pois, uma pequena lista com 10 filmes de amor que não subestimam o espectador. Bons roteiros, bons atores e quase nada de clichês baratos e romanescos.

Filmes para ver juntinho, debaixo do edredom. Ou não. Filmes para discutir a relação. O bacana é vê-los a dois.

Brilho eterno de uma mente sem lembrança Brilho eterno de uma mente sem lembrança (Eternal Sunshine of the Spotless Mind, 2004), de Michel Gondry
Ouso aqui escrever que este filme é a mais bela e instigante história de amor já levada à tela grande. Aí você me pergunta: “melhor que Casablanca?”. E eu respondo, sem titubear, usando advérbio de intensidade: “muito melhor!”. O roteiro, de Charlie Kaufman, é absurdamente incrível. Conta a história de um homem que, após descobrir que sua ex-namorada se submeteu a um tratamento que eliminou as lembranças do finado relacionamento, decide fazer o mesmo. Jim Carey interpreta com bastante contundência dramática o pobre protagonista. É de arrancar lágrimas do espectador mais durão.
Apenas o fim (500) dias com ela ((500) Days of Summer, 2009), de Marc Webb
Sim, é possível fazer uma comédia romântica engraçada, emocionante e, ao mesmo tempo, ousada. O roteiro de (500) dias com ela é uma pequena aula sobre o tema. Acompanhamos o período do relacionamento entre o casal citado no título, em ordem completamente aleatória – do primeiro encontro à separação, passando pelas reviravoltas. Trilha sonora descolada, fotografia caprichada, montagem eficiente e elenco afinado, com a queridinha Zooey Deschanell (um ícone das comédias românticas inteligentes) fazendo par romântico com o outrora petiz Joseph Gordon-Levitt.
Hiroshima, meu amor Hiroshima, meu amor (Hiroshima, mon amour, 1959), de Alain Resnais
Filme de amor também pode ser denso, angustiante e, no fim das contas, revolucionário. Alain Resnais, um dos grandes expoentes do cinema francês, é o autor deste filme antibelicista que fala sobre o relacionamento intenso entre uma atriz francesa e um arquiteto japonês. O casal se encontram durante as filmagens de uma produção pacifista na cidade arrasada pela bomba atômica. Lançado em 1959, a produção é até hoje considerada uma das obras mais profundas sobre o amor e a tolerância em tempos de guerra.
Apenas o fim Apenas o fim (2008), de Matheus Souza
Dirigido por um estudante de cinema da PUC-Rio, este filme comprova que o cinema nacional tem muito a oferecer. Uma boa ideia, bons atores e uma câmera na mão bastaram para que Matheus Souza filmasse a bela história de uma jovem que decide se mudar para o exterior e comunica a decisão ao então namorado. Prestes a dar cabo à relação, os dois passam uma tarde juntos reavaliando o namoro. Mesmo quem não é carioca representante da classe média-alta da Zona Sul vai se sentir envolvido com o belíssimo roteiro.
Prova de Amor Prova de amor (All the real girls, 2003), de David Gordon Green
Eu escrevi ali em cima que Zooey Deschanell era figurinha fácil em comédias românticas. Na verdade, Prova de amor não chega a ser uma comédia. Está mais para drama romântico. E o mais importante: um drama romântico inteligente. Ambientado no interior dos Estados Unidos, conta a história de um jovem que se vê apaixonado pela irmã mais nova do melhor amigo. Obviamente, a relação do casal coloca não só a amizade em xeque, como também gera uma série de conflitos existenciais. Um belo filme, com ritmo mais cadenciado, argumento denso, sequências bastante sensíveis e diálogos muito bem trabalhados.
Amantes Amantes (Two lovers, 2008), de James Gray
Joaquin Phoenix alegou que este foi seu último trabalho no cinema. Se a afirmação do ator vier a se confirmar, ele encerrou sua carreira com chave de ouro. Amantes é um excelente filme. Denso, angustiante e inteligente. O roteiro conta a história de um jovem judeu, abandonado pela noiva, que tenta retomar a rotina após ser internado por tentar cometer suicídio. De uma hora para outra, se vê diante de um impasse amoroso: viver uma aventura com a misteriosa vizinha loira (Gwyneth Paltrow, nada mal, hein?); ou se deixar acomodar num relacionamento mais conservador com a filha de amigos dos pais. O desfecho é dolorosamente brilhante.
De olhos bem fechados De olhos bem fechados (Eyes wide shut, 1999), de Stanley Kubrick
Me lembro que, depois da sessão desta obra complexa e polêmica do mestre Kubrick, muitos casais discutiram a relação ainda no foyer do cinema. Inclusive, nem o relacionamento do casal protagonista, Tom Cruise e Nicole Kidman, passou incólume por essa experiência cinematográfica devastadora. O filme conta a história de um homem que conhece uma suposta organização secreta que promove luxuosas orgias em uma mansão. Filmaço! Uma aula de direção. E um roteiro fantástico, capaz de deixar qualquer casal com uma pulga atrás da orelha.
Manhattan Manhattan (1979), de Woody Allen
Quando Woody resolve fazer cinema erudito, pode se tornar prolixo e pedante a certas plateias. Em Manhattan, assim o faz. Porém, o roteiro não deixa de ser bacana, tratando com humor bastante contundente os caminhos inesperados dos relacionamentos amorosos. Aqui, um homem bem casado resolve empurrar a amante, com quem acabou de romper o caso, para o melhor amigo. Fotografia p&b caprichada, locações encantadoras, trilha sonora refinada e aquela infindável enxurrada de referências sobre arte e filosofia.
Antes de Amanhecer Antes de amanhecer (Before sunrise, 1995), de Richard Linklater
Na minha modesta opinião, Richard Linklater é atualmente o cara que mais bem trabalha os diálogos. Prova disso é o belíssimo e irrepreensível roteiro de Antes do amanhecer: simples, estiloso e encantador. O filme conta a história de um sujeito estadunidense que conhece uma jovem francesa num trem, em trânsito pela Europa. Atraídos um pelo outro, eles têm apenas até o sol nascer para tentar viver uma paixão. Ganhou uma continuação, Antes do pôr-do-sol, igualmente bacana.
O império dos sentidos O império dos sentidos (Ai no corida, 1976), de Nagisa Oshima
Eu escrevi lá no título que não ia ter pornografia nessa lista. E não tem mesmo. Por mais que Império dos Sentidos desperte a curiosidade de muita gente pela polêmica que gerou ao ser lançado, não há nada de gratuito em suas quase duas horas de projeção. Há sim, cenas bastante ousadas, mas nada é gratuito. Aliás, trata-se de uma obra bastante amarga e violenta, que mostra o sexo e o amor de forma bem perversa. Ou seja, o clima pode estar favorável, o edredom confortável e o vinho bem envelhecido, mas os olhos dificilmente vão desgrudar da tela.

 

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