Pensamento acerca do tempero que tanta falta faz nas prateleiras do mercado

Quando comecei a aprender meus primeiros acordes no violão, ouvi falar que atitude é o principal elemento no som de todo grande músico e que a combinação de atitude e talento era o segredo do sucesso. Durante anos acreditei nessas afirmações, mas faz tempo que minha fé anda abalada. Hoje em dia, ligo o rádio e corro o dial de um lado pro outro, procurando alguma coisa diferente das músicas sem conteúdo que são empurradas para a massa todos os dias, mas tem tanto lixo na programação das emissoras que só tenho vontade de desligar o aparelho. Às vezes, até de quebrá-lo.

Há tempos que as grandes gravadoras decidem o quê e como os artistas devem cantar, como devem se vestir e principalmente quem é a bola da vez no panorama musical, o que gera uma enxurrada de artistas pré-fabricados, com sonoridade e visual praticamente idênticos se acotovelando por quinze minutos de fama, enquanto veteranos e jovens talentos que insistem em preservar suas identidades não têm vez no mainstream. Aliás, não existe termo melhor para definir o mainstream musical do que “mercado”, afinal sujeitar os artistas a espremerem sua criatividade em três minutos e meio de música que seguem a fórmula padrão do pop estrofe I + estrofe II + refrão + ponte + refrão = hit não é promover cultura, é comércio puro. Infelizmente, cultura é o que menos importa no mercado, importante mesmo é o lucro. Desde que se obtenha lucro, não importa se um álbum tem dez músicas exatamente iguais, letras pobres que transmitem valores nocivos ou um encarte apelativo. Sim, o lucro é um fator importantíssimo, mas não deveria vir em primeiro lugar, não quando o assunto é cultura. E o que mais me impressiona em toda essa engrenagem é que, mesmo com as gravadoras perdendo terreno progressivamente por conta da maior acessibilidade aos equipamentos físicos e às tecnologias virtuais de gravação, aliada à facilidade de divulgação via internet, os supostos donos da atitude, os músicos, nada fazem para modificar o panorama. Simplesmente cruzam os braços e esperam chegar o dia quando magicamente tudo vai mudar, alheios ao fato de que as portas da senzala, há muito, estão abertas.

É inadmissível que tantos artistas cujo talento não conhece fronteiras, filhos de uma cultura musical de proporções colossais como a nossa, aceitem calados serem padronizados e vendidos como comida enlatada; e que tantos outros talentos sejam relegados ao underground por se recusarem a ter sua liberdade criativa limitada por supostos gênios da produção musical, que defendem o conceito de “quanto mais podre, melhor” visando apenas o lucro pessoal. Não é possível aceitar que um palco tão grande quanto o da música brasileira tenha apenas um microfone. Há espaço para todos e todos merecem estar no show.

Onde está a atitude? É possível parar a engrenagem, já que somos nós o combustível que a alimenta.

Deixe uma resposta

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong> 

requerido