O seu quarto já não é grande o suficiente para o seu talento? As rodinhas de violão já não dão o mesmo barato que costumavam dar? Seus vizinhos já não chamam a polícia quando você começa a tocar? Talvez seja hora de atender ao chamado do banquinho e alçar vôos mais altos noite afora! Mas não se iluda achando que é só sentar no banco e ir tocando, a noite é traiçoeira e os incautos são devorados vivos antes mesmo do primeiro refrão. Pensando nos pobres pés inexperientes dos jovens membros da Geração Coca Zero, ávidos por seus primeiros passos no caminho do músico profissional, resolvi passar adiante o conhecimento que adquiri colhendo alguns louros (e muitos pepinos!) através deste pequeno guia de como sobreviver na selva dos bares da vida. Não saia de casa sem ele!

1. O INSTRUMENTO

Quando se pensa em música de bar, a maioria das pessoas visualiza uma pessoa sentada em um banquinho, cantando e tocando violão. Ok, essa é uma cena muito comum na maioria dos bares, mas não é regra. Pode-se ter mais de um músico e outro instrumento que não seja o violão, desde que seja um instrumento harmônico (ou seja, um instrumento que possibilite tocar acordes. É por isso que vocês nunca verão em um bar um show de trombone de vara e voz ou coisa parecida), como o piano, por exemplo. Se você toca um instrumento harmônico e não canta, arrume um vocalista. Se você canta e não toca instrumento algum, arrume um instrumentista. Se você canta e toca piano, procure um bar que tenha o instrumento ou arrume uma boa equipe de carregadores que não cobrem muito caro, porque isso vai sair do seu cachê. Ou arrume um teclado, é uma solução mais barata. O que realmente importa é que o instrumento harmônico que você vai levar para o bar não pode ser nem muito vagabundo nem top de linha, porque um instrumento vagabundo não vai produzir um bom som e um instrumento top de linha é muito visado e pode lhe ser roubado na saída do trabalho. Escolha com sabedoria.

2. O EQUIPAMENTO DE SOM

Há música ao vivo em pelo menos 70% dos bares do país, mas menos de 30% desses estabelecimentos possuem o equipamento necessário para que se tenha música. E 100% desses proprietários dirão que cada músico gosta de trazer seu próprio som (como vocês sabem, nada me deixa mais feliz do que carregar caixas de som, mas não estamos falando de mim aqui), logo, se você foi contratado para tocar em um estabelecimento que possui som próprio, erga as mãos e agradeça à sua divindade favorita pela graça alcançada. Se você não conseguiu esse feito raro, como a maioria de nós, meros mortais, é bom investir em equipamento. Infelizmente o preço do equipamento completo é um tanto alto para quem está começando. Alugar parte do equipamento e comprar o essencial (o seu instrumento harmônico, um microfone e bons cabos) é uma opção, mas isso pode sair do seu cachê. Ou não, depende do seu acordo com o dono do bar. Tente sempre jogar essa pepinosa para cima dele!

3. O REPERTÓRIO

Uma coisa que todo músico tem que colocar em sua cabeça antes de acomodar suas nádegas no banquinho é que, apesar dele se considerar um artista, a maioria das pessoas que estão no bar está pouco se fodendo para isso. Com amor, carinho e Sazón, claro! A maioria das pessoas vai aos bares para beber, namorar, encontrar os amigos, paquerar e, por acaso, você está lá fazendo o fundo musical para isso tudo, mais ou menos como um rádio que atende pedidos. Então não fique chateado se as pessoas não aplaudirem todas as músicas que você tocar, porque isso não quer dizer que eles não estão gostando da sua apresentação ou que não estão prestando atenção. Você já viu alguém aplaudindo um rádio toda vez que toca a música que essa pessoa gosta? Escolha as músicas com sabedoria e eles aplaudirão! Misture os sucessos atuais com os clássicos, toque no repertório aquela música que não é tão conhecida assim, mas que faz as pessoas balbuciarem a letra. Todo mundo gosta de um repertório com surpresas, mas dentro de um contexto. Tocar Metallica no meio de apresentação de samba é, por exemplo, o tipo de surpresa que você deve evitar ao máximo. Se você compõe suas próprias músicas, toque-as e diga que são suas! Mas com parcimônia. Lembre-se sempre: enquanto seu nome não estiver escrito com letras garrafais nos letreiros das grandes casas de show, ninguém vai pagar para ouvir um show autoral seu no bar. Talvez sua mãe, seus amigos e aquela menina ruivinha que é secretamente apaixonada por você desde a 6ª série, mas a maioria das pessoas não vai pagar e são essas as pessoas que você precisa agradar para pagar as suas contas. Então, bota o galho dentro e toca Raul!

4. O TEMPO DA APRESENTAÇÃO

Não existe uma regra exata para o tempo de uma apresentação de bar, geralmente combina-se antes com o proprietário. A maioria das casas pede entre duas e quatro horas de música, mas há locais que pedem uma hora e já vi alguns pedindo seis horas de show. Se você tem amor aos seus tendões e pregas vocais, fuja das maratonas como o Felipe Melo foge de quem assistiu Brasil x Holanda. Se o dono do bar não estipular uma duração, sugira uma apresentação de três horas com um intervalo de trinta minutos no meio. Nem muito curto nem muito longo, na medida.

5. O CACHÊ

Por último, o tópico mais controverso: a hora do biro-biro. A tabela de cachês do Sindicato dos Músicos Profissionais do Rio de Janeiro diz que, atualmente, todo músico que se apresenta na noite carioca deve receber R$362,00 por apresentação. Antes que você diga “Uau! Com quatro trabalhos fixos por semana, em pouco tempo eu posso comprar um carro, uma casa e propor casamento à menina ruivinha”, a coisa não é bem por aí. Infelizmente o músico profissional não é tão valorizado no Brasil e não é todo dia que recebemos esse valor. Muitas casas trabalham com couvert artístico, que em 90% dos casos é uma forma que os proprietários têm de tirar o seu da reta na hora de pagar o músico. Se você conseguiu arrumar um trabalho que paga a tabela do seu estado ou um valor fixo bem próximo desse número, erga as mãos e agradeça à sua divindade favorita pela graça alcançada. Se você arrumou um trabalho que pagará seu cachê através de couvert artístico, é bom saber contar. Contar o número de pessoas que entraram na casa durante a apresentação e multiplicar pelo valor do couvert para ter uma idéia geral de quanto vai cair no seu bolso e contar com a sorte para que o dono do bar seja honesto e repasse toda a grana.

Por enquanto é só, p-pessoal!

Ah, meus tempos… Quando eu era moleque, aprendi a amar o rock seguindo os passos do meu pai. Em plena década de 60 era ele um rebelde por se recusar a cortar os cabelos, desobedecendo ordens de padres que dirigiam um tradicional colégio católico no Rio de Janeiro. Outra lição tirei, sem dúvida, das telas de cinema. Referências, das melhores, não faltaram.

Ah, os musicais… Na época do meu pai, havia A Hard Day’s Night, o primeiro filme de longa-metragem estrelando o quarteto de Liverpool. Depois, veio Rock’n’Roll High School, filme no qual uma jovem luta pelo rock no seu colégio com a ajuda dos Ramones. E o que dizer de The Wall, clássico subversivo do Pink Floyd?

Porra, o rock era transgressor até na tela de cinema!

Aí, inventaram High School Musical. E vieram os subprodutos.

Não é de hoje que a maioria das grandes produções musicais que apregoam o rock desafinam sempre que a tal atitude do gênero é posta à prova. Quando adolescentes pegam guitarras, baixos e microfones, o que sai nos alto-falantes são composições melosas, em acordes menores, que falam sobre desilusões amorosas. E tudo é tão bem equalizado, tão bem produzido, tão bem coreografado, que se torna inverossímil. Bom para vender trilha sonora a um público que se acostumou a consumir os enlatados de gravadora.

Não se engane: o rock adolescente de verdade é feito por desajustados. Nasce na garagem, com instrumentos comprados em prestações pelos pais, plugados em caixas improvisadas, com som distorcido, guitarras no talo e vocal incompreensível. As letras falam de qualquer bobagem. Porque poeta jovem de verdade, só Casimiro de Abreu e seus contemporâneos da segunda geração da poesia romântica.

O rock é do diabo. O terror das mães, que queimavam discos em fogueiras. Paul Stanley estava de cara limpa, ou seja, desconfigurado, perturbado e sem moral alguma quando escreveu “God Gave Rock’n’Roll To You”.

Então, pequenos roqueiros, ouvidos e olhos bem abertos!

“Se Sexo é o que Importa só o Rock é Sobre Amor” (Bidê ou Balde)

“A internet é o futuro”: talvez seja esta a frase mais repetida da última década e não é preciso ser vidente para perceber que este é um fato incontestável. Muitas tarefas e prazeres do nosso dia a dia, como pagar contas, fazer compras e agendar viagens, já são feitas online. Com a produção e divulgação musical também não seria diferente.

Nos dias de hoje, a tecnologia de áudio avança a passos largos e fica cada vez mais acessível. Além disso, o surgimento de cursos de produção musical por todo o país, que ensinam desde o ABC aos truques de mestre da captura e tratamento de som, associado ao número cada vez maior de sites que divulgam gratuitamente o trabalho dos artistas independentes na rede, fica cada vez mais nítido que o processo de confecção e disseminação de conteúdo caminhe para o seguinte roteiro: produzir álbuns inteiros com qualidade profissional sem sair de casa, expor som, fotos, vídeos, release e agenda em sites como o MySpace e afins e, por fim divulgar, tudo isso utilizando as redes sociais. E a nitidez é tanta que a cada dia aumenta o número de artistas consagrados lançando seus trabalhos inéditos na rede, prensando cada vez menos álbuns em mídia física. Claro que o boom da pirataria e dos sites de transferência de dados peer-to-peer e a produção/consumo em massa de aparelhos eletrônicos com entrada USB (que lêem mídia digital direto de flash drives e HDs externos com muito mais espaço de armazenamento que os 750Mb dos CDs ou 4Gb dos DVDs) ajudaram bastante a solidificar esse novo processo, mas os altos custos de confecção e divulgação de álbuns em mídia física também foram decisivos para que a realização desses processos online ganhasse o gosto dos artistas.

Os músicos que fazem parte da Geração Coca Zero podem não acreditar, mas quem possui mais de trinta primaveras lembra de que, não muitos anos antes de surgirem os primeiros mp3 players, ainda era preciso entrar em estúdio, gravar as músicas em fita e editar os trechos com lâminas de barbear e fita adesiva, até chegar ao produto final. Com a modernização do processo de gravação, o analógico deu lugar ao digital e os discos de vinil e a fitas-cassete foram depostos pelo CD, que reinou absoluto como a mídia padrão do mercado na última década do século passado. O processo mudou, mas os gastos continuaram os mesmos: o artista que não tinha o apoio de uma gravadora arcava os com os custos de pré-produção, gravação, mixagem, masterização, criação da arte do encarte, prensagem e divulgação do seu trabalho. Somando os valores de todas as etapas desse processo, chegamos a uma cifra com muitos zeros no final, quantia que a maioria dos artistas independentes não possui e que prefere investir em um home studio. E mesmo hoje em dia, com a mídia física perdendo espaço para a digital (seja ela legalizada ou pirata), as prensadoras – grandes culpadas pelo boom da pirataria que fez a mídia digital por em xeque o CD por conta dos altos custos de prensagem –, ainda acreditam que podem cobrar preços exorbitantes por um produto que correr risco de desaparecer das prateleiras, em tempos de entradas USB, flash drives, HDs externos e internet banda larga.

Sim, o CD está em xeque, mas não xeque-mate. O LP também foi desenganado várias vezes e ainda está por aí, graças aos poucos, porém fiéis apreciadores, que mantêm acesa a chama das mídias abandonadas pelo grande público. E não é preciso ser vidente para enxergar que o futuro das mídias físicas é virar tiragem limitada.

Pensamento acerca do tempero que tanta falta faz nas prateleiras do mercado

Quando comecei a aprender meus primeiros acordes no violão, ouvi falar que atitude é o principal elemento no som de todo grande músico e que a combinação de atitude e talento era o segredo do sucesso. Durante anos acreditei nessas afirmações, mas faz tempo que minha fé anda abalada. Hoje em dia, ligo o rádio e corro o dial de um lado pro outro, procurando alguma coisa diferente das músicas sem conteúdo que são empurradas para a massa todos os dias, mas tem tanto lixo na programação das emissoras que só tenho vontade de desligar o aparelho. Às vezes, até de quebrá-lo.

Há tempos que as grandes gravadoras decidem o quê e como os artistas devem cantar, como devem se vestir e principalmente quem é a bola da vez no panorama musical, o que gera uma enxurrada de artistas pré-fabricados, com sonoridade e visual praticamente idênticos se acotovelando por quinze minutos de fama, enquanto veteranos e jovens talentos que insistem em preservar suas identidades não têm vez no mainstream. Aliás, não existe termo melhor para definir o mainstream musical do que “mercado”, afinal sujeitar os artistas a espremerem sua criatividade em três minutos e meio de música que seguem a fórmula padrão do pop estrofe I + estrofe II + refrão + ponte + refrão = hit não é promover cultura, é comércio puro. Infelizmente, cultura é o que menos importa no mercado, importante mesmo é o lucro. Desde que se obtenha lucro, não importa se um álbum tem dez músicas exatamente iguais, letras pobres que transmitem valores nocivos ou um encarte apelativo. Sim, o lucro é um fator importantíssimo, mas não deveria vir em primeiro lugar, não quando o assunto é cultura. E o que mais me impressiona em toda essa engrenagem é que, mesmo com as gravadoras perdendo terreno progressivamente por conta da maior acessibilidade aos equipamentos físicos e às tecnologias virtuais de gravação, aliada à facilidade de divulgação via internet, os supostos donos da atitude, os músicos, nada fazem para modificar o panorama. Simplesmente cruzam os braços e esperam chegar o dia quando magicamente tudo vai mudar, alheios ao fato de que as portas da senzala, há muito, estão abertas.

É inadmissível que tantos artistas cujo talento não conhece fronteiras, filhos de uma cultura musical de proporções colossais como a nossa, aceitem calados serem padronizados e vendidos como comida enlatada; e que tantos outros talentos sejam relegados ao underground por se recusarem a ter sua liberdade criativa limitada por supostos gênios da produção musical, que defendem o conceito de “quanto mais podre, melhor” visando apenas o lucro pessoal. Não é possível aceitar que um palco tão grande quanto o da música brasileira tenha apenas um microfone. Há espaço para todos e todos merecem estar no show.

Onde está a atitude? É possível parar a engrenagem, já que somos nós o combustível que a alimenta.