Um dos dias mais vazios e estranhos que eu já vivi foi, precisamente, o 8 de maio de 2004. Naquele fatídico sábado, em Londrina, no estado do Paraná, minha banda preferida, os Pixies, fazia um show após anos de recesso. Na qualidade de jornalista pós-recém-formado, sem dinheiro na conta, lamentei em silêncio. Aproveitei o luto para fazer uma espécie de promessa: o show seguinte em terras próximas – leia-se aí América do Sul – não passaria em branco. Era uma resolução, um objetivo.

E, assim, dia desses, no Twitter, os Pixies anunciaram uma turnê, justamente, vejam só, pela América do Sul. Primeira cidade contemplada e confirmada: Santiago, no Chile. Catei o tabuleiro do War, coloquei meus exércitos de prontidão e joguei os dados: dinheiro, dessa vez, eu tinha. Alforria paternal, também. Nem precisei jogar os dados para saber se minha mulher queria ir comigo. Ora bolas, foram anos de catequese ao som de tudo o quanto era álbum, EP, DVD, bootlegs e afins. Até camisa da banda ela tem.

O chato é que o show fazia parte de um festival, montado em uma chácara nos cafundós da capital chilena. Quem frequenta festivais bem sabe: cada banda toca, mais ou menos, míseros 45 minutos, em média. Normalmente, é programa bom para quem procura quantidade. Outro fator que causou estranhamento foi que o tal festival incentivava uma espécie de congregação ideológica de cunho ambiental, incitando as pessoas a acampar. Eu tenho pânico de acampar, em grande parte por experiências traumáticas com gnomos, duendes e hippies.

Porém, para o meu espanto, veio a notícia na internet: os Pixies também iriam tocar em Itu, a cidade no interior paulista em que tudo é grande. Até a pretensão dos organizadores do tal festival assim era: queriam eles fazer uma espécie de Woodstock caipira, com direito, novamente, a fomento à prática do camping e mensagem ecológica. De fato, era mais barato ir à terra das grandezas do que até Santiago.

E, na semana seguinte, veio a confirmação de outra cidade latina: Buenos Aires. Mais interessante que Itu, me perdoem os ituanos. Melhor ainda: eram só os Pixies, a noite inteira, num ginásio tradicional da cidade. Nem precisei pegar o tabuleiro do War novamente. Fiz as contas, pesei os prós e contras, peguei minha mulher pelo braço e disse:

“Cariño, nosostros vamos a Buenos Aires para el concierto de los Pixies.”

Comprei os ingressos e as passagens com bastante antecedência. Deu tempo até de contagiar mais um casal de grandes amigos, Beto e Camila (ele um aficcionado por Pixies como eu, ela ainda não apresentada formalmente à banda). Iríamos não só ao show mais importante das nossas vidas, mas também aproveitaríamos os bons ares da capital argentina. Simplesmente sensacional!

E lá fomos nós, com nossos pacotes turísticos devidamente comprados, nossas malas devidamente arrumadas e nossas fichas ainda a cair. Enfrentamos uma viagem bastante cansativa, que começou às 6 horas da manhã. Três conexões e algumas horas de atraso depois, lá estávamos em Buenos Aires, exaustos, a poucas horas do show. Não deu tempo nem de escolher uma roupa especial. Descemos a Avenida Corrientes a pé até Puerto Madero para retirar os ingressos na bilheteria do Luna Park. Com os ditos cujos em mãos, as tais fichas começaram a cair.

Puta que pariu! Eu ía ver os Pixies ao vivo. Sentamos num restaurante bacana, pedimos uns belisquetes e bebemos umas cervejas – poucas, pois queria estar sóbrio e de bexiga vazia no momento do show.

Quase que pontualmente, lá para as 20h:30 do dia 6 de outubro de 2010, os Pixies subiram ao palco. Começaram com “Bone machine”, faixa que abre um dos álbuns mais instigantes do rock alternativo, Surfer Rosa. Ao longo das quase duas horas de apresentação, foram tocando só os clássicos – o que, no meu entender, é um pleonasmo, já que todas as músicas, inclusive as que ficaram fora do set list, são clássicas.

Têm noção? Foi o único show em que eu sabia cantar todas as músicas. Quase duas horas de apresentação, três bis, sendo o último de luzes acesas, numa tentativa desesperada dos organizadores em pôr fim ao entusiasmo desenfreado dos fãs que lotaram o Luna Park. Aliás, o clima da última canção foi digno de nota. Foi como fazer sexo de luzes acesas: há que se ter cumplicidade para que isso aconteça. Eu e minha mulher, abraçados, cúmplices. Cantei, emocionado, com olhos marejados e voz embargada, “Wave of mutilation (UK surf)”. Foi um momento sublime, no qual entendi por que as fãs de sertanejo universitário gritam e se descabelam durante as apresentações de seus ídolos. Embora fosse diferente comigo. Estava na minha, no meu canto, numa boa, civilizadamente rodeado por gente que também gostava dos Pixies e nem por isso puxavam os próprios cabelos aos berros.

Quando o show terminou, eu estava completamente exausto. Tão exaurido, que passei os outros dias de viagem com o corpo debilitado. Todas as noites, queimava em febre no quarto do hotel. Mas foda-se, né? É, foda-se. Foi um dos dias mais felizes que eu já vivi esse 6 de outubro de 2010 – perde de lavada para o dia em que minha filha nasceu, mas foi um dos mais felizes ainda assim, intenso, incrível, inesquecível.

Eu podia aqui falar sobre a música dos Pixies. Ficaram faltando alguns parágrafos, nesse enorme relato, sobre isso. Algo que explicasse essa minha devoção ao som que eles fazem. É que os Pixies sempre foram um pouco mais do que somente música para mim. É atitude, transgressão, poesia, arte etc. Posso dizer que grande parte da minha formação intelectual se deu através dos discos e da música do quarteto estadunidense. Escuto a banda desde os meus tenros 15 anos. Quando comecei a tocar guitarra, enquanto meus amigos queriam ser Joe Satriani e Steve Vai, eu queria ser Joey Santiago. O primeiro beijo na mulher que hoje é a mãe da minha filha foi ao som de “Where is my mind?”. Minha longboard, feita sob medida, tem o nome e a logo da banda cravadas nela.

Ainda preciso explicar o som dos Pixies?

 

4 pensamentos em “Pixies? Me voy! Me voy! Me voy!

  1. Não precisa explicar Pixies! Pixies é autoexplicativo! Cara, o primeiro beijo na pessoa da sua vida ao som de “Where´s my mind?” é algo que acho que quero pra mim, no dia em que eu finalmente encontrar o meu! Parabéns, adorei o relato!

    Responder
  2. Falaram deste blogue na minha escola, então resolvi passar por aqui e gostei muito do que tenho encontrado, muitos
    parabéns

    Responder

Deixe uma resposta

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong> 

requerido