– O próximo!
– Bom dia, doutor.
– Ah, Sr. Villas… sente-se, por favor. Eu já estou com o resultado dos seus exames.
– E então, doutor?
– Eu vou lhe ser sincero, Sr. Villas… o resultado é bem preocupante. Não é fácil dizer isso, Sr. Villas, mas o senhor sofre de licantropia.
– …
– A boa notícia é que existe tratamento.
-… licantropia?
– Eu sei, os casos de licantropia são raríssimos, mas infelizmente, ainda existem registros.
– … de licantropia?
– Sim, senhor. Inclusive no ano passado foi registrado um no interior do Pará. Mas, como eu dizia, existe tratamento.
– … licantropia? O senhor tem certeza que eu sofro de licantropia?
– Sr. Villas, eu entendo o que o senhor está passando por um momento complicado, mas o senhor foi diagnosticado com licantropia não apenas por mim, um colega meu confirmou o diagnóstico.
– Licantropia é a maldição do lobisomem, doutor! Quem mais seria maluco de confirmar um diagnóstico absurdo desses?
– Absurda é essa sua atitude de questionar o meu diagnóstico! Fique o senhor sabendo, Sr. Villas, que eu exerço medicina faz trinta anos. E saiba também que o meu colega, o Pai Totonho de Campinho é um profissional do mais alto gabarito!
– …
– Bom, o importante é que eu tenho aqui comigo o tratamento, o senhor vai querer ou não?
– Doutor… abaixa essa arma, por favor…
– Sr. Villas, o senhor tem licantropia e o único jeito de curar licantropia é com balas de prata.
– Olha… calma, doutor. Vamos conversar… não tem outro remédio?
– Infelizmente o genérico está em falta…

Era praticamente impossível destacar Paulo Roberto da Graça no meio de uma multidão, pois ele era apenas mais um cidadão comum e completamente despido de qualquer atributo que pudesse realçá-lo entre as demais pessoas perambulavam pelo centro da cidade. Acordava dez minutos antes do despertador, fazia a barba durante o banho, comia seu desjejum apressadamente, beijava sua esposa e saía para trabalhar. Aos domingos acordava um pouco mais tarde, ia à missa, levava sua esposa para almoçar em algum restaurante recomendado pelos amigos do escritório e depois se ancorava no sofá até que a programação esportiva se esgotasse na TV. Então, deitava ao lado da esposa, beijava-lhe a testa e dormia, preparando-se para recomeçar tudo outra vez. Por dezessete anos essa foi a rotina do pacato cidadão Paulo Roberto da Graça, baiano de nascimento e capixaba honorário, gerente de vendas, torcedor do Rio Branco, católico praticante e marido dedicado.

E numa noite de terça-feira, tudo isso mudou.

O ônibus parou no ponto e Paulo Roberto da Graça desceu, enxugando o suor da testa com a manga do paletó. Tudo que queria naquele momento era tomar uma boa chuveirada, comer alguma coisa e cair na cama. Afrouxou o nó da gravata, esperou os carros seguirem seu caminho e atravessou a rua. Ao procurar por suas chaves, já próximo à portaria do prédio, notou que as luzes da rua começaram a perder a intensidade. “Maravilha! Só me faltava subir escada e tomar banho gelado a esta altura do campeonato”, pensou consigo enquanto abria o portão. Subitamente, Paulo Roberto ouviu um estampido e sentiu uma forte corrente de ar girar ao redor de seu corpo e puxá-lo para cima, em alta velocidade. Completamente assustado, Paulo Roberto da Graça tentava entender o que estava acontecendo, mas o rodopio da esfera de ar o fez perder a consciência. Antes de desmaiar, vou fortes luzes azuladas e o maior par de olhos vermelhos que seus olhos já fitaram.

***

Com as pálpebras pesadas, Paulo Roberto da Graça começou a despertar. Estava deitado de bruços sobre algo extremamente confortável e assim que recobrou completamente a consciência, descobriu que o que ele pensara ser o melhor colchão do mundo era uma cama feita de um material gelatinoso, inodoro e incolor. Levantou da cama, com o corpo levemente dolorido e notou que trajava uma espécie de bata branca e que não havia nem sinal de suas antigas roupas no pequeno cômodo quadrado onde se encontrava. Caminhou lentamente até uma vidraça que ficava defronte a cama e, quando seus dedos tocaram o vidro, um feixe de luz se acendeu sobre Paulo Roberto.

– Apresente-se – disse uma voz por trás do vidro. Era uma voz harmonizada, composta de um som extremamente grave e de outro várias oitavas acima, que soava como uma membrana vibrando.
– Meu nome é Paulo… Paulo Roberto da Graça – disse, tentando não parecer assustado. Seus joelhos tremiam.
– Seja bem-vindo à nave de coleta do Zoológico de Ne’haal, Paulo Roberto da Graça – o dono da voz aproximou-se do vidro. Era uma criatura alta e magra, com a pele acinzentada e enormes olhos vermelhos, os mesmos olhos que Paulo viu antes de desmaiar. – Meu nome Wop.
– Eu quero ir para casa – Paulo disse, mas não conseguiu encarar os grandes olhos de Wop. Morria de medo dos alienígenas do cinema e a idéia de estar diante de um extraterrestre de verdade fazia seus joelhos tremerem ainda mais.
– Impossível. A nave não possui combustível suficiente para voltar e não posso comprometer a missão – Wop aproximou-se ainda mais do vidro. – Sua espécie corre grande risco de extinção e fui enviado ao seu planeta para recolher um macho e uma fêmea antes que seja tarde demais.
– Risco de extinção? Existem mais de seis bilhões de nós! – Paulo Roberto disse em meio a um riso nervoso.
– Incorreto. Segundo minhas informações, o número de habitantes de Marte não passa de oitocentos mil espécimes – Wop disse, tentando decifrar a expressão que se formava no rosto de Paulo Roberto.
– Marte? Jesus me defenda… isto não pode estar acontecendo! – Paulo levou as mãos ao rosto.
– Jesus é como se chama o campeão da sua espécie, marciano? Clamar por ele de nada adiantará, estamos muito afastados do seu planeta – Wop disse e começou a se afastar do vidro.
– Eu não sou marciano, eu sou da Terra! – Paulo Roberto disse, esmurrando o vidro. – Deixe-me sair daqui, eu não sou marciano!
– Impossível! A Terra é o segundo planeta à partir do seu Sol. Minha missão era resgatar dois espécimes do terceiro planeta à partir do Sol e foi o que fiz. E, segundo os relatórios, os terráqueos não possuem inteligência ou tecnologia necessária para viagens interplanetárias, logo você não pode ser um terráqueo, marciano – disse Wop, percebendo na expressão de Paulo Roberto que aquela discussão ainda não estava acabada.
– O terceiro planeta à partir do Sol é a Terra! Sol, Mercúrio, Vênus e Terra! – Paulo Roberto repetiu inúmeras vezes, mostrando os dedos para Wop, que acompanhava os movimentos com seus grandes olhos vermelhos.
– Ilógico. Mercúrio não é um planeta – Wop rebateu, acompanhando as mãos de Paulo Roberto com seus olhos massivos.
– Olha… Wop, é Wop o seu nome, não? – os olhos do alienígena encontraram os de Paulo Roberto nesse momento, que engoliu em seco e continuou – Eu não sou astrônomo, sou um gerente de vendas. Eu não sei se Mercúrio é um planeta, eu não sei se Plutão é um planeta, mas eu sei que Marte é um planeta vermelho e a Terra é um planeta azul. Você me pegou em um planeta azul, não?
– A minha visão é monocromática, eu sou incapaz de diferenciar vermelho de azul – Wop disse, apontando para seus olhos vermelhos. – Mas isso é relevante. Minha missão era resgatar dois espécimes do terceiro planeta telúrico e…
– E você foi ao planeta errado! – Paulo berrou, interrompendo o alienígena. – Sol, Mercúrio… – disse e voltou a mostrar os dedos.
– Mercúrio não é um planeta! – a voz de Wop soou áspera e fez Paulo Roberto se calar. – Não entendo o motivo de tanta comoção. A sua fêmea parece completamente em paz com a sua atual situação.

Wop gesticulou e a parede ao lado da cama tornou-se translúcida. Havia outro cômodo, idêntico ao que Paulo estava. Sentada na cama, usando uma bata mais curta e mascando chicletes estava Gisele, pele negra, curvas exageradamente generosas e cheia de malícia no sorriso.

– Demora muito para sair a janta de semana passada, olhudo? Quero ver você explicar no Zoológico porque a fêmea marciana chegou morta – Gisele disse para Wop, sem tirar os olhos das próprias unhas. – Oi, bonitinho! – disse, acenando e sorrindo para Paulo Roberto.
– Olá! – Paulo Roberto acenou para Gisele e encostou-se no vidro. – Wop, nós precisamos conversar.
– Já dialogamos o suficiente por hoje, marciano. – Wop disse e afastou-se do vidro. – Agora é hora de alimentar a sua fêmea.
– Wop… ela não é a minha fêmea – Paulo disse entre os dentes.
– Ih, o bonitinho já é casado? Não tem problema não, meu lindo! Eu não sou ciumenta – Gisele disse, às gargalhadas.
– Paulo Roberto da Graça, assim como sua fêmea anterior terá de prosseguir sem você em Marte, você terá de prosseguir no Zoológico de Ne’haal sem ela. Lá, Gisele Mamadeira será sua fêmea, vocês copularão, procriarão e sua espécie será preservada – disse Wop, enquanto pressionava em um dos painéis da nave uma seqüência de botões que serviu o jantar.
– Sobre isso… podemos falar em particular, Wop? – Paulo sussurrou, acenando para Gisele, que não parava de piscar para ele desde que a se falou em cópula.
– Não vejo razão, mas se isso o fizer parar de se comportar de forma estranha – o alienígena acenou e a parede tornou a ficar escura.
– Wop, eu não posso copular com ela – Paulo Roberto sussurrou.
– Compreendo – Wop disse, baixando o volume de sua voz harmonizada. – Você teme que a fêmea não o aceite como parceira por conta de alguma disfunção em seu aparelho reprodutor. Isso não será um problema, Paulo Roberto da Graça. Posso lhe assegurar que podemos coletar suas células reprodutivas de uma forma indolor.
– Não, não é isso! – Paulo respondeu, ofendido – Não há nada errado com o meu aparelho reprodutor! Meu aparelho reprodutor funciona muito bem, fique o senhor sabendo! Eu posso copular com ela quantas vezes eu quiser – disse em tom de desafio. – Eu não quero copular com ela.
– Tem certeza que não há nada errado com o seu aparelho reprodutor, marciano? Consta na minha base de dados que os machos da sua espécie adoram copular – os grandes olhos de Wop fixaram-se na virilha de Paulo.
– Tire os olhos daí e não me chama de marciano, eu já disse que eu sou da Terra! – Paulo disse entre os dentes. – Não há nada de errado comigo, eu adoro copular, adoraria inclusive ter copulado mais do que eu já copulei até hoje. O que eu estou tentando explicar é que eu não posso copular com ela não porque eu seja incapaz de copular, mas porque ela não é uma fêmea.
– E o que você tem a ver com isso, seu intrometido? – a parede subitamente ficou translúcida e Gisele estava encostada no vidro, visivelmente furiosa com Paulo. Wop gesticulou e a parede ficou escura, mas logo ficou translúcida de novo – Escuta aqui, olhudo… esse negócio de gesticular e as coisas acontecerem não é exclusividade sua. Eu domino essa arte desde que eu tinha treze anos, está me entendendo? Se você desligar essa parede na minha cara outra vez, eu me solto dessa cela e te ensino com quantos paus se faz uma canoa, você está me entendendo?
– Um e bem grande – Paulo Roberto murmurou. Wop continuava sem entender aquele situação.
– E você comeu Palhacitos e está se achando muito engraçadinho, não é? Fique você sabendo que é grande o bastante para… – Gisele fechou os olhos e começou a contar até dez em voz alta, depois respirou fundo e prosseguiu, moderando o tom de voz. – Eu sou uma dama e damas não gritam. Damas são controladas e é assim que eu sou. Eu sou uma dama, não uma feirante.
– Eu não compreendo, Paulo Roberto da Graça. Gisele Mamadeira não é uma fêmea marciana? – indagou Wop, confuso. Seus grandes olhos vermelhos fitavam agora a virilha de Gisele, que a cobria com as mãos.
– Eu é que não compreendo como, com dois olhos desse tamanho, você não viu isso de primeira – Paulo Roberto disse, tentando não rir.
– Eu não compreendo! Com um par de glândulas mamárias tão desenvolvido eu presumi que… – Wop andava de um lado para o outro e sua voz parecia cada vez mais estranha.
– Eu ainda não sou completamente fêmea, mas estou em processo, ô Inimigo Meu – Gisele interrompeu, transtornada. – Quando você me disse que eu tinha sido escolhida para ser a fêmea que ia salvar a minha raça da extinção e que eu ia ter que fazer mais nada da vida além de comer, dormir e… como se diz mesmo? Copular? É, copular… bem, eu achei que seria uma boa. Além do quê, se naquele um planetinha totalmente atrasado que se chama Terra já tem cirurgia de mudança de sexo há anos, eu pensei que onde fica esse tal desse Zoológico de sei-lá-o-que teria algum procedimento de última geração, sei lá – Gisele disse, olhando para o chão. – Eu quero muito e sei que um dia eu vou ser cem por cento fêmea, mas marciana eu não sou e nem posso ser, chuchu – Gisele disse e ergueu seus olhos na direção de Wop. O alienígena parou de andar e virou-se na direção de Paulo Roberto.
– Então vocês são mesmo terráqueos? E a vida em Marte? – Wop perguntou, transtornado.
– Como eu já disse, não sou astrônomo, não sei nada de outros planetas. O pouco que eu sei é o que eu vejo nos jornais e, segundo dizem, os astronautas da Terra nunca encontraram sinais de vida em Marte. Sinto muito! – Paulo disse, olhando para Wop e depois para Gisele. Ela esboçou um sorriso.
– Obrigado pela sua simpatia, mas lamentações de nada adiantam, Paulo Roberto da Graça. Eu fui enviado para resgatar dois espécimes marcianos e é isso que eu farei. Vou retraçar o curso da nave para a unidade de reabastecimento mais próxima e depois posso deixá-los onde os apanhei – disse Wop, dirigindo-se para o painel principal da nave.

Por um breve instante, os três ficaram em silêncio.

– Wop, já ouviu falar em efeito estufa? – Paulo perguntou ao alienígena.
– Não, do que se trata – Wop indagou, tentando entender o que o humano pretendia.
– É quando a temperatura de um planeta aumenta por conta da poluição e da destruição da camada de ozônio. Dizem que está acontecendo na Terra e que o planeta não deve sobreviver mais do que alguns séculos – Paulo explicou e olhou para Gisele, esperando que ela dissesse alguma coisa.
– Ah, eu vi um programa de televisão sobre isso – Gisele disse, olhando para as unhas. – Outra raça em risco de extinção, a humanidade…
– … e eu aposto que os seus chefes ficariam muito satisfeitos se você economizasse tempo e combustível já levando junto com os marcianos alguns espécimes da Terra, não? – Paulo disse, fitando os grandes olhos vermelhos de Wop. Já não os temia tanto assim.
– Improvável, mas não é impossível – Wop balançou a cabeça.
– Bom, se você me garantir que onde quer para aonde a gente vai depois de Marte tem o raio da cirurgia que eu preciso, eu até ajudo a procurar os homenzinhos verdes que você tanto quer – disse Gisele, sorrindo.
– E eu também não me incomodo de ajudar na sua busca, se você puder dar um pulinho na Terra para eu buscar a minha esposa. Temos um acordo, Wop? – Paulo Roberto perguntou, sorrindo.
– Paulo Roberto da Graça e Gisele Mamadeira, sua proposta foi aceita. Vamos reabastecer a nave e depois iremos até Marte – Wop disse com sua voz harmonizada. Parecia esboçar um sorriso.
– Salve minha mãe Yemanjá, que enfim vou me tornar uma mulher completa! E uma mulher de outro mundo! – Gisele começou a gritar e pular. – E quando eu estiver operada e toda gostosona você vai querer copular comigo e eu vou dizer não, bonitinho – Gisele disse mostrando a língua para Paulo Roberto, com as mãos na cintura, sorrindo.

Paulo Roberto da Graça sorriu de volta e se deitou em sua cama. Apesar de ser uma pessoa despida de qualquer atrativo que o destacasse das outras pessoas comuns, estava vivendo algo que as pessoas da televisão e das capas de revista jamais sonhariam em viver. Sentiu-se orgulhoso de si como há muito não se sentia.

– Ô Darth Vader, tira uma dúvida: se Mercúrio não é planeta, que bosta é aquilo lá afinal? – Gisele perguntou, no exato momento que a nave de coleta do Zoológico de Ne’haal mergulhou no hiperespaço.

É um filme…

Vai se tornar cult (se já não for)…

E não é apenas bom…

É Alucinógeno!

É uma mistura de ficção, religião, ilusão, romance, críticas a sociedade, e ainda conta com uma das melhores trilhas sonoras baseadas na década de 80, onde as músicas tocam quase inteiras, e o filme, se transforma em belos clips musicais…

Se você como eu, é daqueles que gostam de pensar no final do filme, que tal pensar durante o filme inteiro?

Em Vanilla Sky…

Era tudo um sonho? Tudo realidade?

Em Planeta dos Macacos (2001 – Tim Burton)…

Eles estavam no Planeta Terra?

Em Blade Runner – O Caçador de Andróides…

Ele era um andróide?

Em Efeito Borboleta…

Ele era Louco?

Pense bem…

Tem certeza?

O filme Donnie Darko, consegue ser tão distinto, e bom, que é impossível formular apenas uma pergunta ao término da projeção… E eu, maluco que sou, não quero acreditar que o final seja o que eu entendi…

O filme nos deixa continuar buscando respostas…

Eu continuo…

 

Donnie Darko: – Por que você usa esta máscara idiota de coelho?

Coelho Gigante!?: – Por que você usa esta máscara idiota de humano?

 

E falando em música, se você não quiser assistir ao filme, ouça a sua trilha sonora! E lamente junto comigo as músicas que escutamos hoje em dias nas nossas FMs da vida…

1. INXS- Never Tear Us Apart
2. Tears For Fears- Head Over Heels
3. The Church- Under the Milky Way
4. Sam Bauer & Gerard Bauer- Lucid Memory
5. Gerard Bauer & Mike Bauer- Lucid Assembly
6. Giulio Caccine & Paul Pritchard- Ave Maria
7. Steve Baker & Carmen Daye- For Whom The Bell Tolls
8. Quito Colayco & Tony Hertz- Show Me (Part 1)
9. Duran Duran- Notorious
10. Oingo Boingo- Stay
11. Joy division- love will tear us apart
12.
Echo & The Bunneymen- The Killing Moon


P.S. Há uma continuação intitulada S. Darko que ainda não tive ‘coragem’ de assistir.

 

Eu sou igual criança quando acaba o Natal. Fico tristonha, conto os dias pro próximo e o ano que segue vira uma eterna espera.

Tenho até meus motivos para não gostar tanto dessa data, mas talvez por ter essa festividade como algo tão especial que tenha sido capaz de suportar os motivos que poderiam te-lo estragado.

Tenho coleção de enfeites de natal. Cada ano invento um tema diferente para decorar minha árvore (esse ano foi verde e dourado, mas o vermelho teve que acabar entrando pra complementar).

Uma das coisas que mais amo nessa época são as músicas natalinas, internacionais e ou nacionais.

Inclusive não estranhe se em pleno Junho entrar no meu carro e estiver tocando um belo cd de natal… rssss

Sendo assim vou deixar aqui uma pequena contagem regressiva musical. Espero que gostem!

Hora e meia nos deparamos com situações que colocam em xeque a velha máxima de que, apesar do racismo ser realidade em nosso país, não temos uma cultura racista, ou seja, o mal existe, mas deve ser tratado como questão individual e não social, pois racistas se mostram presentes em qualquer lugar e devem ser coibidos através de lei, etc, etc, etc, e, em âmbitos gerais, o brasileiro não é racista. O americano sim, o brasileiro não, por causa disso, mais isso e aquilo, que você, leitor, deve estar cansado de ouvir ou mesmo repetir por condicionamento.

O programa Roda Viva de 4 de setembro, apresentado pela TV Brasil e disponível na internet, protagonizou uma dessas situações. O entrevistado era o sociólogo Demétrio Magnoli, crítico das cotas raciais e de políticas que incentivam um “racismo de Estado”, onde seres humanos são etnicamente definidos em lei pela cor da pele ou ancestralidade, como acontece nos Estados Unidos. Segundo Magnoli, a segregação oficializada encorajaria outra de cunho social de maneira inédita em nosso país, afastando-nos de nossa natureza etnicamente gregária, onde, no fundo, não dividimos pessoas em “raças” durante nosso interagir cotidiano. Lá pelo terceiro bloco do programa, o escritor Paulo Lins desafiou essa visão, e seu desafio culminou numa saia justa quando o mesmo declarou que todos na mesa sabiam porque ele era o único negro presente, enquanto, por trás das câmeras, havia muitos outros cumprindo funções subalternas. O mal-estar durou uns minutos até que ele e a apresentadora Marília Gabriela achassem um jeito de contornar a situação.

A dissonância entre Lins e Magnoli é a dissonância entre o Brasil das palavras e o dos fatos. Todos sabem que não existe raça. A genética já mostrou isso. Mas daí a imaginar que os costumes assimilaram ou assimilarão essa idéia em breve é outra história. O caráter cultural – em vez de natural – da etnia não diminui sua força de verdade, não nos faz reprogramar nossos inconscientes e apagar a carga histórica que nos foi implantada e para a qual servimos como elos no leito de um rio gigante iniciado muito antes de nascermos. Podemos sim, influenciar o fluxo e o direcionamento desse rio para as gerações seguintes, mas a discussão do tema não se limita a um futuro longínquo, a como será a vida dos netos e bisnetos de quem, no presente, requisita o auxílio de ações afirmativas. Em suma, não dá para falar no tema sem considerar a existência das “raças”, ou “cores”, ou “etnias” do Brasil, ainda que elas habitem mais a informalidade das relações do que os postulados e papéis timbrados. Isso não as torna menos presentes, ou reais. Pelo contrário. O que é a lei do papel sem a prática? Melhor o oposto, não? Admitir nossas idéias de cor, ainda que difusas ou contraditórias, nossos “quadros étnicos” para que se neutralize seu poder segregador no Brasil “de carne e osso” e se crie uma igualdade real em vez de abstrata, mesmo que para isso seja necessário realçar diferenças em vez de camuflá-las sob a fachada da miscigenação “que não vê cores”. A revista Raça Brasil, quando contrabalança a ínfima presença negra em publicações “multiraciais” de caráter similar, faz isso; e não é racista, como muitos dizem. A multiracialidade brasileira é uma verdade, como também é sua natureza desigual. Ela não prega as virtudes de todas as “raças” de modo equidistante, por exemplo. É viciada. Torta. Contaminada com séculos de um Brasil envergado, escravista, cheio de “complexos de vira-lata”, racista nas linhas e entrelinhas por duzentos motivos. Enumerar esses motivos, as diferenças, o tratamento diverso para com cada componente de nossa idolatrada mistura não é atentar contra a mistura, mas contra as injustiças que ela abriga.

A rota principal para se fugir dessa questão é mantê-la no âmbito individual. “Existe racismo no Brasil, mas o Brasil não é racista.” Quando dizemos isso, afirmamos categoricamente que o racismo é um problema do outro, não meu, não “nosso”, e isso funciona como um álibi para mantermos seu lado institucional intocado. O grande racismo a se combater no Brasil não é o de meia dúzia de neo-nazistas, que levam a culpa por todo o resto, mas o do dia-a-dia, da “patroa e empregada”, da Casa Grande e Senzala, onde todos “se dão bem” e cada um conhece seu lugar. “Sinhozinho”, “coroné”, o Brasil colonial que se repete na letra miúda do cotidiano. O olhar torto de desprezo, o guarda desconfiado, uma frase mal dita ou interpretada, idéias de limpo e sujo, feio e bonito, burro e inteligente, “melhorar a raça”, cabelo ruim, elevador de serviço, exclusão dos referenciais de desejo coletivo refletidas na auto-estima de quem neles não se vê, admissão de um negro para excluir os demais “sem ser racista”, cabeças baixas por inércia, postura indignada quando o preto foge do script, e, claro, a irrupção do racismo coletivo velado no comportamento individual declarado. Nessa hora, vemos a sujeira sair e culpamos o autor, que, na maioria das vezes, era só mais um elo da grande rede, não tão diferente dos demais, mas que se permitiu romper. O racismo da rede cai matando sobre ele; expurga-o de seu seio para purificar a imagem e a idéia que tem de si, mostrar-se correto, “do lado bom”, e que o racista era uma exceção. Não era. E enquanto nossa relação com esse preconceito se limitar aos flagrantes, aos “casos isolados”, manteremos sua força no inconsciente coletivo que ampara as palavras do detrator. No fundo, pouco mudará, a não ser para quem cometeu o pecado de quebrar o silêncio. O problema de saias-justas como a do Roda Viva é o medo que todos têm de ser o próximo, e nos esquecemos que o mal maior não é o indivíduo, mas as idéias que ganham vida dentro dele e transitam impunes depois do “hospedeiro” ser exposto. Não defendo, claro, a não-punição para o crime de racismo, previsto em lei, já que se deve atribuir reponsabilidade ao autor por sua coduta e papel na manutenção do estado geral das coisas. Tampouco alego que somos racistas em igual proporção. Somos, sim, igualmente vítimas de um mesmo “ar cultural” que carrega o veneno em suas entranhas e nos faz absorvê-lo na educação e interação, comumente sem saber, até que, em ato falho ou descontrole, o racismo emerja da fonte mais insuspeita. Talvez nem ela conhecesse esse seu lado. Por isso, é insuficiente atribuir aos flagrados todo o peso de um problema que possui seu lado pessoal, mas tem raízes e causas culturais. Se não as conhecemos, fica complicado combatê-las com a postura individual adequada, e acabamos por alimentá-la com o silêncio ou com discursos vazios.

 

Toda vez que me pego a falar sozinha
É a você que me dirijo
Toda vez que me pego a pensar em alguém
É em você que me inspiro
Toda vez que me pego a escrever sem querer
É pra você que dedico
Toda vez que me pego a sonhar acordada
É com você meu delírio