Trevo de quatro folhas, pé de coelho, figa: todo mundo tem uma receitinha que aprendeu com a vovó ou com a vizinha para espantar a má sorte. Você pode não acreditar na má sorte, mas que ela existe, existe. Sabe quando você está doido para fumar e só tem um cigarro no maço? Sabe quando você está tirando o xampu e acaba a água? Isso é má sorte. Não confunda com azar, que é muito mais complicado: azar é descobrir que sua mulher está grávida, sendo você estéril e ela um travesti.

Como tive a má sorte de não ter inspiração para escrever um texto bonito e bem escrito para encher os olhos dos leitores do Mondo, resolvi contar uma história sobre a má sorte. Espero que vocês gostem.

Era um domingo bonito, sol forte, mar de almirante, um daqueles dias que dá vontade de abrir a janela e tirar uma fotografia de qualquer coisa, pois tudo é belo sob o firmamento. E mais do que isso: era a final do campeonato Estadual e Zé Alberto estava empolgadíssimo. Abriu o armário e tirou de lá um embrulho, sentou-se na cama e começou a desfazer o embrulho, com muito cuidado para não rasgar o papel de presente. Embrulho desfeito, puxou com cuidado uma camisa, desfazendo a dobra frente ao seu rosto risonho: a camisa 10 do Flamengo. Cheirou-a como cheirou o cangote de sua esposa na lua de mel e beijou-a como beijou seu primeiro filho, após o parto. Então a apertou contra o peito e sorriu, olhando para a parede e sorrindo para o pôster do Zico, seu maior herói, o maior herói do seu clube. Com delicadeza, esticou-a na cama e foi tomar banho. Para Zé Alberto, vestir a camisa do Flamengo não era como vestir uma roupa qualquer: era como vestir um terno de missa, uma veste sagrada que não podia ser maculada pelo suor do trabalho diário! Para vestir a camisa do Flamengo – ainda mais a camisa 10, a camisa do Zico – era preciso estar puro, imaculado, banhado e cheiroso. E assim o fez: tomou banho, fez a barba, lavou os cabelos, cortou as unhas, tomou banho de perfume e vestiu sua camisa. Ah, como era bom sentir aquele tecido fino deslizando, envolvendo…

– Zé Alberto!!! Seu primo está lhe esperando para ir ao Maracanã. Vista-se rápido que eu estou saindo com as crianças para a casa da minha mãe e o Moura está sozinho na sala. Beijos!

Zé Alberto pegou o rádio de pilha e, junto com o primo Moura, entrou em seu carro e colocou a bandeira para fora da janela. O vento batia em seu rosto e tudo era lindo, tudo era belo, tudo era rubro-negro. Estacionou o carro e foi andando em direção à entrada do Maracanã: seu coração batia no ritmo acelerado da marcação dos surdos da torcida e, mesmo sem perceber, cantava músicas de torcida e o hino de seu time. A roleta se aproximava, Zé Alberto pegou sua carteira, abriu-a e… vazia. Onde estavam os ingressos? Pânico, medo, horror! Em plena final do Estadual, Maracanã lotado e Zé Alberto havia esquecido os ingressos em casa.

– Eu vou pegar o carro – disse ele, coração acelerado.
– Espera, Zé! Se você pegar o carro não vai encontrar lugar para estacionar – disse Moura.
– E como é que eu faço então, Moura? Diz para mim o que eu tenho que fazer! – desesperou-se Zé Alberto.
– Corre ali, primo! Pega um táxi que eu te espero aqui! – disse o primo Moura, apontando para um táxi vazio, estacionado.

E lá foi Zé Alberto. Sentindo o desespero do coitado, o taxista concordou em fazer a corrida com o pé na tábua, mas cobrou-lhe R$ 50,00 por alguma multa que pudesse tomar pelo meio do caminho. E lá foram eles, correndo como o vento pelas ruas do Rio de Janeiro.

Ao descer do táxi, Zé Alberto abriu pulou o portão e correu em direção à porta da sala, que insistia em não abrir. Procurou a chave em seu bolso e não a encontrou: havia deixado a chave no porta-luvas do carro. Zé Alberto olhou o relógio: o juiz já havia dado início à partida e já se passavam 20 minutos de jogo. Forçou a porta, mas a maldita resistiu a todas as suas investidas e sua esposa não podia dar-lhe passagem, já que estava na casa da mãe. Olhou para o alto e viu que a janela do quarto de seu filho mais velho estava aberta. Então subiu no muro e foi se esgueirando até a janela e conseguiu, com muito custo, entrar em casa. Desceu as escadas feito uma flecha e apanhou os ingressos. Foi até a porta e… trancada. Teve que subir as escadas, pular a janela e se esgueirar pelo muro. Quando desceu e já estava com a mão na maçaneta do táxi, algo lhe puxou pelo pescoço.

Teje preso, meliante. Pensa que não o vi saindo pela janela, seu gatuno? – disse o policial, já enquadrando Zé Alberto.

E foi um Deus nos acuda: Zé Alberto chorava dali, PM se aborrecia daqui, Zé Alberto pedia socorro de lá, o PM mandava ele ficar quieto de cá. Foi aí que apareceu uma vizinha e disse que Zé Alberto era morador da casa e que não era ladrão. O PM aliviou, avisando que estaria de olho nele e que um passo fora da linha ia ser a conta. Zé Alberto agradeceu, entrando no táxi e saindo no maior desespero: Faltavam 30 minutos para o fim da partida.

Chegando ao Maracanã, ele deu de cara com Moura, que disse que o jogo estava empatado em 2 x 2, placar que daria o título ao Flamengo. Passaram pelas roletas e foram em direção à arquibancada, que era só festa: faltava cinco minutos para o fim do jogo! Faltava três minutos, faltava dois minutos, 1 minuto.

– Não deixa o Aílton cruzar!!! – gritou Zé Alberto.

O placar marcava 3 x 2 para o Fluminense. O juiz apitou e o som do apito ecoou na cabeça de Zé Alberto desde a saída do Maracanã até o portão de sua casa, trajeto que ele fez sem dar um pio. Ao saltar do carro, seu primo abraçou-o e disse:

– Fique assim não, primo. Sempre tem o ano que vem – disse Moura, sorrindo.
– O ano que vem? Tem o ano que vem? – disse Zé Alberto – Eu vou te mostrar o ano que vem! – e disse isso pegando um porrete que jazia no chão e avançando para cima de seu primo.

No exato momento que Zé Alberto ia desferir a porretada certeira na cabeça de seu primo, sentiu algo lhe agarrar pelo pescoço.

– Não falei que eu estava de olho em você, meliante? – disse o PM, gargalhando de forma sinistra.

cena do filme Cidade de Deus

Ataque do império online, Cidade Alerta, Museu da Morte, “Cidade de Deus”, e a lógica nessa história? Mais um espetáculo chamado violência
Sempre gostei muito de cinema, aliás, artes em geral. Nunca gostei de filmes violentos, tenho um certo repúdio com cenas violentas [provavelmente alguma sequela psicológica], e hoje fico chocada com a quantidade de pessoas que adoram ver atos violentos.

Se você está dizendo assim: Eu não? Pergunto eu, quantas vezes você viu o ataque do WTC? Quantas vezes você viu ante ontem a morte do policial na frente do Palácio do Governo? Quantos filmes, novelas, desenhos, video gaimes você viu e condicionou isso a uma realidade normal?

Muitas vezes eu me questiono sobre isso, quando me deparo com uma criança passando fome na rua – e sem demagogia nenhuma viu gente – quando vejo alguém com aquele olhar de ‘cadáver ambulante’. Você se questiona, como pode, dentro de um país tão grande haver tanta gente seduzida pela violência? É a violência de todos os aspectos. E a maior violência, não te machuca, mas sim, tira seu senso crítico, inibe sua capacidade de reflexão.

Muitas pessoas que assistem a esses programas ‘violentos’, assistem para ter informação, para saber qual é a situação atual, como anda a violência. Muitas delas ficam tão paranóicas que adoecem, com uma famosa doença psicológica chamada Sindrome do Pânico, algumas dizem – Não vou sair mais de casa. – Minha filha, nunca, balada jamais, com a violência lá fora, ela pode ser estuprada… E por ai seguem todas as ações de quem está condicionado a sedução do medo, porque faz parte do cotidiano, porque ilustra a realidade daquela pessoa, do mundo no qual ela vive.

É só observar, e notar. As pessoas que assistiram a cena do WTC, tornou-se uma ação tão ‘robótica’ que era considerada uma naturalidade – lembrando que estamos falando de violência, um assunto que não retrata beneficíos – e aquela cena ia se repetindo, repetindo, como se o próprio Bush estivesse dentro da cabeça de cada um dizendo “MATEM OS TERRORISTAS…MATEM OS TERRORISTAS”.
Não aceito as ações terroristas, condeno-as mais do que ninguém, mas a violência que a mídia causou em cada uma das pessoas que assistiam a cena, foi muito maior que um ato terrorista. Por sinal, essa “guerra da mídia” em tirar todo mundo da órbita já vem sendo disputada há muito tempo, e ganha proporções cada vez maiores com o decorrer do tempo.

1% da população brasileira tem acesso as universidades, 0,025% desse pessoal conclui a faculdade, como é que o resto se vira? Com o que podem, com o que tem. E se vivenciamos uma situação de caos total no mundo hoje é porque aceitamos. É a velha frase “quem cala, consente” e se consente não reclama.

Toda a ação, sujeita uma reação. Sei que é uma utopia pensar em um mundo melhor, sei que é uma utopia sonhar com uma sociedade com menos violência – porque não existe sociedade sem violência. Mas posso me chamar de utópica, sonhadora, pelo menos eu continuo apostando no meu país.

Algumas pessoas me perguntaram do que se trata este blog. Minha resposta é simples: o Mondo, assim como o Mundo, é redondo e cinza! Esta expressão, o mundo é cinza, é o princípio da lógica difusa, ou Lógica Fuzzy.

Explico: para muitos casos, a lógica exata nos permite resolver todos os problemas. Assim, dois mais dois são quatro e isto é totalmente verdadeiro. A chamada verdade absoluta, no entanto, quase sempre é um piso falso. Definir as coisas como preto ou branco, sim ou não, um ou zero, é limitar demasiadamente a gama de possibilidades a que estamos expostos. Você poderia me dizer, por exemplo, quando alguém deixa de ser magro e passa a ser gordo? E o copo, está meio cheio ou meio vazio?!

O conceito de difusão é o que nos permite definir algo como verdadeiro até certo ponto. E nada é definitivo.

Vamos extrapolar um pouco a idéia de decisão fuzzy e pensarmos no conceito de boa música. O que é uma boa música? E quando ela deixa de ser boa? E pra quem ela é boa ou ruim? Definitivamente, as verdades absolutas são um erro. Um grande erro.

E por que o Mondo é, além de Redondo, cinza? Qual a relação entre a lógica fuzzy e este blog comunitário repleto de pessoas que se diferem tanto na maneira de pensar quanto na maneira de se expressar? A resposta é direta… Não tem como definir a cara e a temática deste blog com rótulos, dizendo “este blog é isto” ou “este blog é aquilo”. Ele é preto às vezes, e outras vezes branco. Mas na maior parte do tempo, ele é cinza.

Hmm… Talvez a comparação tenha sido tola, ou talvez eu não tenha sido claro. Digamos que foi válida até certo ponto, e clara até certo ponto, mesmo que este ponto seja bem raso à escala. :o)