Pálido e franzino, Acácio era a personificação da invisibilidade social. Alunos e professores pareciam alheios à sua presença tanto em sala de aula como nos corredores do Educandário Santo Inácio de Antioquia. Durante o recreio, ficava sozinho em um canto vazio do pátio, com os ombros curvados e o rosto enfiado em um caderno, rabiscando seus desenhos longe do olhar das outras crianças que corriam e brincavam umas com as outras até o soar da sirene. Teria passado despercebido por todo ensino médio se, durante uma aula de História do Brasil, a professora não o tivesse posto diante da classe para responder uma arguição. Aquela foi a primeira vez que as outras crianças tomaram ciência de que entre eles havia aquela pálida e franzina figura que miava as respostas do questionário em um débil fio de voz.

– Fale para fora, menino! – disse a professora em tom firme, batendo com a mão na mesa.

As palavras morreram em sua garganta. As mãos suadas tentaram traduzir as palavras que a boca trêmula não pronunciava. Os olhos se fecharam quando o calor da urina desceu por suas pernas e empoçou no frio piso da sala de aula. E o riso dos outros alunos quase cobriu a voz da professora, berrando impropérios durante o soar da sirene do recreio. Mandado ao banheiro masculino, Acácio tentou, em vão, secar a calça mijada com as toalhas de papel, quando um golpe na nuca o fez se chocar contra a pia de granito e cair no chão. Sua visão começou a escurecer e ele não pode ver nem quem nem quantos chutavam sua cabeça e seu corpo. Assim como o sangue, um sorriso brotou de seus lábios inchados. Era, enfim, visível.

A primeira vez em que almas se encontram é quando tudo realmente acontece. Os bons momentos, as boas sensações, as conversas inesgotáveis, os gostos comuns, as bobagens que serão lembradas por toda uma vida, com um perpétuo gostinho de quero mais.

No segundo encontro das almas há certa magia inicial. Após longa distância física, enfim o mutuamente desejado reencontro. E logo, a alegria de poder reviver todo o velho encantamento é substituída pela triste constatação de que algo ficou perdido nos distintos caminhos, às vezes antagônicos.

O terceiro encontro já não é de almas, apenas físico, e ainda assim, distante. No lugar da empatia, a apatia. Ali já não há mais nada, no máximo um incômodo constrangimento de tanta confidência e intimidade trocadas com um, agora, estranho. E talvez a lição para vigilarmos nossas melhores relações, a fim de que elas permaneçam sempre em seu primeiro, único, e aí sim, quem sabe, eterno encontro de almas.

 

– A senhora se considera uma mulher feliz? – ele perguntou, enquanto folheava o bloco de notas, vasculhando os registros anteriores.
– Se eu fosse feliz não estaríamos conversando. Feliz é uma palavra muito ampla – ela respondeu, ajeitando-se no divã. O velho estofamento era mais incômodo que a pergunta.
– Então a senhora não se considera feliz? – ele perguntou enquanto ajeitava os óculos que teimavam em correr para a ponta de seu nariz.
– Eu me considero uma mulher satisfeita, essa é a palavra adequada – ela disse olhando para o teto. Pensou em perguntar onde ele havia comprado aquele lustre.
– Lembro-me que, naquela entrevista que deu para a TV uma ou duas semanas atrás, a senhora afirmou que era muito feliz – disse ele, conseguindo manter os óculos fixos no rosto. Detestava-os e não sabia por qual motivo não usava lentes de contato.
– Se o senhor acredita em tudo que se diz em entrevistas, também deve acreditar em tudo que os políticos dizem em seus comícios, doutor – ela disparou, virando-se e olhando para o terapeuta pela primeira vez desde que instalou-se no divã. Havia um sorriso debochado em seus lábios vermelhos. – Eu disse o que se espera que uma pessoa pública diga em uma entrevista. O populacho quer sonhar com a vida perfeita das celebridades vendida pela mídia, eles não se interessam em saber que tudo não passa de fumaça e espelhos.
– Então a senhora não se considera uma mulher comum? – indagou com olhos fixos no verde implacável dos olhos dela. Enxugou a testa, forçando-se a não descer a vista até o decote.
– Sou exatamente igual a qualquer outra mulher do planeta, doutor. Apenas tive mais oportunidades que a maioria delas – ela sentenciou e voltou seu olhar ao lustre, pensando que o escritório do apartamento de Ipanema ficaria perfeito com um lustre igual. – Por isso eu me considero uma mulher satisfeita: a minha vida é ótima, não tenho do que reclamar! Sou jovem, bonita, tenho posses e tenho influência.
– Influência? – perguntou enquanto rabiscava qualquer coisa no bloco de notas. Seus olhos estavam perdidos nos fartos seios dela, que se empinavam mais ainda a cada vez que ela se ajeitava no divã.
– Três meses atrás fui fotografada usando uma saia que foi desenhada por uma estilista amiga minha e poucos dias depois todas as vitrines do Sudeste tinham uma peça igual em exposição. Semana passada eu mudei o corte do cabelo e só no caminho da minha casa até aqui eu vi cinco mulheres com o mesmo penteado. Influência, doutor – ela disse, abrindo a bolsa e pegando um maço de cigarros.
– Carisma – ele retrucou, cruzando as pernas para esconder a excitação. – Peço que a senhora não fume durante a sessão.
– Seis e meia-dúzia – ela deu de ombros, retornando o maço de cigarros à bolsa. – Como eu dizia, vivo bem e não tenho do que me queixar. Agora, felicidade… felicidade é uma coisa que eu realmente não possuo. Não sou uma pessoa triste, mas não acordo sorrindo todas as manhãs apenas por começar um novo dia.
– A senhora se sente solitária? – ele arguiu, colocando as mãos no colo e fitando o lustre. Se não tirasse os olhos dela, a ereção não passaria.
– O senhor só pode estar brincando, doutor. Com a minha assessoria, agenda, fãs e paparazzi, eu só fico sozinha na hora de dormir. E se o senhor está se referindo à minha vida amorosa, a minha cama só fica vazia quando eu quero – ela disse, com um sorriso malicioso.
– E ainda assim a senhora sente que falta alguma coisa na sua vida. – ele pontuou, ajeitando-se na cadeira. A dor na virilha era quase tão forte quanto sua vontade de possuí-la no chão do consultório.
– Sim, falta. Falta alguma coisa que eu não faço ideia do que seja, mas que ainda assim me deixa muito angustiada. – ela suspirou, levando a mão à bolsa. Precisava de um cigarro.
– Infelizmente o tempo acabou, mas falaremos mais sobre a sua angústia na próxima sessão. Nos vemos na próxima semana? – ele perguntou, abrindo a porta do consultório e escondendo meio corpo da mesma, tentando desafivelar o cinto de uma forma que ela não percebesse.
– Com certeza, doutor. – ela sorriu, louca por um cigarro e por nunca mais se deitar naquele divã incômodo.

Eu sou assim mesmo….tímida e exagerada.

Falo baixo com medo de repressão, mas grito pois não sei ser de outro jeito.
Finjo que não quero, só para não me expor.
Fujo com medo de perder…corro atrás para não deixar fugir.
Faço graça quando fico sem graça…falo sério quando o coração bate forte.
Eu sou assim mesmo…desse jeitinho atrapalhado, mas sempre EU!

Medo.

Medo de tentar, de errar, de se iludir…Medo de dar certo.

Medo de ficar sozinha, de não saber estar junto…Medo de
sonhar demais.

Medo de querer, de desesperar, de não saber…Medo de não
perder o Medo.

– O próximo!
– Bom dia, doutor.
– Ah, Sr. Villas… sente-se, por favor. Eu já estou com o resultado dos seus exames.
– E então, doutor?
– Eu vou lhe ser sincero, Sr. Villas… o resultado é bem preocupante. Não é fácil dizer isso, Sr. Villas, mas o senhor sofre de licantropia.
– …
– A boa notícia é que existe tratamento.
-… licantropia?
– Eu sei, os casos de licantropia são raríssimos, mas infelizmente, ainda existem registros.
– … de licantropia?
– Sim, senhor. Inclusive no ano passado foi registrado um no interior do Pará. Mas, como eu dizia, existe tratamento.
– … licantropia? O senhor tem certeza que eu sofro de licantropia?
– Sr. Villas, eu entendo o que o senhor está passando por um momento complicado, mas o senhor foi diagnosticado com licantropia não apenas por mim, um colega meu confirmou o diagnóstico.
– Licantropia é a maldição do lobisomem, doutor! Quem mais seria maluco de confirmar um diagnóstico absurdo desses?
– Absurda é essa sua atitude de questionar o meu diagnóstico! Fique o senhor sabendo, Sr. Villas, que eu exerço medicina faz trinta anos. E saiba também que o meu colega, o Pai Totonho de Campinho é um profissional do mais alto gabarito!
– …
– Bom, o importante é que eu tenho aqui comigo o tratamento, o senhor vai querer ou não?
– Doutor… abaixa essa arma, por favor…
– Sr. Villas, o senhor tem licantropia e o único jeito de curar licantropia é com balas de prata.
– Olha… calma, doutor. Vamos conversar… não tem outro remédio?
– Infelizmente o genérico está em falta…