O velho Fusca verde, ano 1978, bem conservado, calotas brancas e pingente de dados felpudos pendurado no retrovisor era um instrumento. Mais que um mero carro com um simples motor movido a álcool. Uma máquina com vida própria, extensão dos braços e pernas do motorista, ramificação dos neurônios humanos em fios e cabos que conduziam os componentes elétricos.

E uma buzina. Alta. Sarcástica.

Samuel, ah, Samuel, sujeito destemperado que mantinha uma das mãos no volante aveludado do coche e a outra no câmbio, com bola de vidro trabalhado. Punha todo o seu coração naquela direção. Era arrojado. Transformava as rodas em pés e as chapas de aço, em músculos. O piloto perfeito.

A caminho da pista de boliche, viu à frente um ponto de ônibus com dez pessoas à espera do coletivo. Era tarde da noite. Elas esperavam. Porque precisavam. Não possuíam automóvel. Samuel, sim, possuía. E era possuído também. Tinha raiva de andar de ônibus. Todo mundo apertado, suando, gente se esfregando involuntariamente, de vez em quando até voluntariamente, passando sufoco. Gente entrando mesmo percebendo que não tem lugar nem para uma mosca. Ô gente burra! No inverno não tinha suor, mas tinha meningite, gripe e outros vírus e bactérias pairando sobre o ambiente, com aquelas janelas fechadas ou emperradas. Que perigo!

Não pensou duas vezes: engatou a quinta marcha, calculou o efeito da guinada no volante, analisou o atrito dos pneumáticos no asfalto e usou como medida as faixas contínuas da avenida. Atropelou oito, fazendo com que duas pessoas, uma em cada canto do ponto, permanecessem em pé, atônitas, em choque.

Jogada S2. Uma das mais difíceis: derrubar as posições 7 e 10.

Deu ré, cumpriu todo o ritual preparatório novamente e acertou em cheio o homem que estava na posição 7. Este caiu de lado e, por sua vez, derrubou a mulher que estava na posição 10.

Strike!

Chegou finalmente na pista de boliche. Vestiu sua luva especial e cravou os dedos em sua bola personalizada, verde como o Fusca. Usou as setas ao longo do piso para se certificar da melhor posição, acelerou o passo e pôs efeito na munheca.

Canaleta.

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