Pálido e franzino, Acácio era a personificação da invisibilidade social. Alunos e professores pareciam alheios à sua presença tanto em sala de aula como nos corredores do Educandário Santo Inácio de Antioquia. Durante o recreio, ficava sozinho em um canto vazio do pátio, com os ombros curvados e o rosto enfiado em um caderno, rabiscando seus desenhos longe do olhar das outras crianças que corriam e brincavam umas com as outras até o soar da sirene. Teria passado despercebido por todo ensino médio se, durante uma aula de História do Brasil, a professora não o tivesse posto diante da classe para responder uma arguição. Aquela foi a primeira vez que as outras crianças tomaram ciência de que entre eles havia aquela pálida e franzina figura que miava as respostas do questionário em um débil fio de voz.

– Fale para fora, menino! – disse a professora em tom firme, batendo com a mão na mesa.

As palavras morreram em sua garganta. As mãos suadas tentaram traduzir as palavras que a boca trêmula não pronunciava. Os olhos se fecharam quando o calor da urina desceu por suas pernas e empoçou no frio piso da sala de aula. E o riso dos outros alunos quase cobriu a voz da professora, berrando impropérios durante o soar da sirene do recreio. Mandado ao banheiro masculino, Acácio tentou, em vão, secar a calça mijada com as toalhas de papel, quando um golpe na nuca o fez se chocar contra a pia de granito e cair no chão. Sua visão começou a escurecer e ele não pode ver nem quem nem quantos chutavam sua cabeça e seu corpo. Assim como o sangue, um sorriso brotou de seus lábios inchados. Era, enfim, visível.

– O próximo!
– Bom dia, doutor.
– Ah, Sr. Villas… sente-se, por favor. Eu já estou com o resultado dos seus exames.
– E então, doutor?
– Eu vou lhe ser sincero, Sr. Villas… o resultado é bem preocupante. Não é fácil dizer isso, Sr. Villas, mas o senhor sofre de licantropia.
– …
– A boa notícia é que existe tratamento.
-… licantropia?
– Eu sei, os casos de licantropia são raríssimos, mas infelizmente, ainda existem registros.
– … de licantropia?
– Sim, senhor. Inclusive no ano passado foi registrado um no interior do Pará. Mas, como eu dizia, existe tratamento.
– … licantropia? O senhor tem certeza que eu sofro de licantropia?
– Sr. Villas, eu entendo o que o senhor está passando por um momento complicado, mas o senhor foi diagnosticado com licantropia não apenas por mim, um colega meu confirmou o diagnóstico.
– Licantropia é a maldição do lobisomem, doutor! Quem mais seria maluco de confirmar um diagnóstico absurdo desses?
– Absurda é essa sua atitude de questionar o meu diagnóstico! Fique o senhor sabendo, Sr. Villas, que eu exerço medicina faz trinta anos. E saiba também que o meu colega, o Pai Totonho de Campinho é um profissional do mais alto gabarito!
– …
– Bom, o importante é que eu tenho aqui comigo o tratamento, o senhor vai querer ou não?
– Doutor… abaixa essa arma, por favor…
– Sr. Villas, o senhor tem licantropia e o único jeito de curar licantropia é com balas de prata.
– Olha… calma, doutor. Vamos conversar… não tem outro remédio?
– Infelizmente o genérico está em falta…

Era praticamente impossível destacar Paulo Roberto da Graça no meio de uma multidão, pois ele era apenas mais um cidadão comum e completamente despido de qualquer atributo que pudesse realçá-lo entre as demais pessoas perambulavam pelo centro da cidade. Acordava dez minutos antes do despertador, fazia a barba durante o banho, comia seu desjejum apressadamente, beijava sua esposa e saía para trabalhar. Aos domingos acordava um pouco mais tarde, ia à missa, levava sua esposa para almoçar em algum restaurante recomendado pelos amigos do escritório e depois se ancorava no sofá até que a programação esportiva se esgotasse na TV. Então, deitava ao lado da esposa, beijava-lhe a testa e dormia, preparando-se para recomeçar tudo outra vez. Por dezessete anos essa foi a rotina do pacato cidadão Paulo Roberto da Graça, baiano de nascimento e capixaba honorário, gerente de vendas, torcedor do Rio Branco, católico praticante e marido dedicado.

E numa noite de terça-feira, tudo isso mudou.

O ônibus parou no ponto e Paulo Roberto da Graça desceu, enxugando o suor da testa com a manga do paletó. Tudo que queria naquele momento era tomar uma boa chuveirada, comer alguma coisa e cair na cama. Afrouxou o nó da gravata, esperou os carros seguirem seu caminho e atravessou a rua. Ao procurar por suas chaves, já próximo à portaria do prédio, notou que as luzes da rua começaram a perder a intensidade. “Maravilha! Só me faltava subir escada e tomar banho gelado a esta altura do campeonato”, pensou consigo enquanto abria o portão. Subitamente, Paulo Roberto ouviu um estampido e sentiu uma forte corrente de ar girar ao redor de seu corpo e puxá-lo para cima, em alta velocidade. Completamente assustado, Paulo Roberto da Graça tentava entender o que estava acontecendo, mas o rodopio da esfera de ar o fez perder a consciência. Antes de desmaiar, vou fortes luzes azuladas e o maior par de olhos vermelhos que seus olhos já fitaram.

***

Com as pálpebras pesadas, Paulo Roberto da Graça começou a despertar. Estava deitado de bruços sobre algo extremamente confortável e assim que recobrou completamente a consciência, descobriu que o que ele pensara ser o melhor colchão do mundo era uma cama feita de um material gelatinoso, inodoro e incolor. Levantou da cama, com o corpo levemente dolorido e notou que trajava uma espécie de bata branca e que não havia nem sinal de suas antigas roupas no pequeno cômodo quadrado onde se encontrava. Caminhou lentamente até uma vidraça que ficava defronte a cama e, quando seus dedos tocaram o vidro, um feixe de luz se acendeu sobre Paulo Roberto.

– Apresente-se – disse uma voz por trás do vidro. Era uma voz harmonizada, composta de um som extremamente grave e de outro várias oitavas acima, que soava como uma membrana vibrando.
– Meu nome é Paulo… Paulo Roberto da Graça – disse, tentando não parecer assustado. Seus joelhos tremiam.
– Seja bem-vindo à nave de coleta do Zoológico de Ne’haal, Paulo Roberto da Graça – o dono da voz aproximou-se do vidro. Era uma criatura alta e magra, com a pele acinzentada e enormes olhos vermelhos, os mesmos olhos que Paulo viu antes de desmaiar. – Meu nome Wop.
– Eu quero ir para casa – Paulo disse, mas não conseguiu encarar os grandes olhos de Wop. Morria de medo dos alienígenas do cinema e a idéia de estar diante de um extraterrestre de verdade fazia seus joelhos tremerem ainda mais.
– Impossível. A nave não possui combustível suficiente para voltar e não posso comprometer a missão – Wop aproximou-se ainda mais do vidro. – Sua espécie corre grande risco de extinção e fui enviado ao seu planeta para recolher um macho e uma fêmea antes que seja tarde demais.
– Risco de extinção? Existem mais de seis bilhões de nós! – Paulo Roberto disse em meio a um riso nervoso.
– Incorreto. Segundo minhas informações, o número de habitantes de Marte não passa de oitocentos mil espécimes – Wop disse, tentando decifrar a expressão que se formava no rosto de Paulo Roberto.
– Marte? Jesus me defenda… isto não pode estar acontecendo! – Paulo levou as mãos ao rosto.
– Jesus é como se chama o campeão da sua espécie, marciano? Clamar por ele de nada adiantará, estamos muito afastados do seu planeta – Wop disse e começou a se afastar do vidro.
– Eu não sou marciano, eu sou da Terra! – Paulo Roberto disse, esmurrando o vidro. – Deixe-me sair daqui, eu não sou marciano!
– Impossível! A Terra é o segundo planeta à partir do seu Sol. Minha missão era resgatar dois espécimes do terceiro planeta à partir do Sol e foi o que fiz. E, segundo os relatórios, os terráqueos não possuem inteligência ou tecnologia necessária para viagens interplanetárias, logo você não pode ser um terráqueo, marciano – disse Wop, percebendo na expressão de Paulo Roberto que aquela discussão ainda não estava acabada.
– O terceiro planeta à partir do Sol é a Terra! Sol, Mercúrio, Vênus e Terra! – Paulo Roberto repetiu inúmeras vezes, mostrando os dedos para Wop, que acompanhava os movimentos com seus grandes olhos vermelhos.
– Ilógico. Mercúrio não é um planeta – Wop rebateu, acompanhando as mãos de Paulo Roberto com seus olhos massivos.
– Olha… Wop, é Wop o seu nome, não? – os olhos do alienígena encontraram os de Paulo Roberto nesse momento, que engoliu em seco e continuou – Eu não sou astrônomo, sou um gerente de vendas. Eu não sei se Mercúrio é um planeta, eu não sei se Plutão é um planeta, mas eu sei que Marte é um planeta vermelho e a Terra é um planeta azul. Você me pegou em um planeta azul, não?
– A minha visão é monocromática, eu sou incapaz de diferenciar vermelho de azul – Wop disse, apontando para seus olhos vermelhos. – Mas isso é relevante. Minha missão era resgatar dois espécimes do terceiro planeta telúrico e…
– E você foi ao planeta errado! – Paulo berrou, interrompendo o alienígena. – Sol, Mercúrio… – disse e voltou a mostrar os dedos.
– Mercúrio não é um planeta! – a voz de Wop soou áspera e fez Paulo Roberto se calar. – Não entendo o motivo de tanta comoção. A sua fêmea parece completamente em paz com a sua atual situação.

Wop gesticulou e a parede ao lado da cama tornou-se translúcida. Havia outro cômodo, idêntico ao que Paulo estava. Sentada na cama, usando uma bata mais curta e mascando chicletes estava Gisele, pele negra, curvas exageradamente generosas e cheia de malícia no sorriso.

– Demora muito para sair a janta de semana passada, olhudo? Quero ver você explicar no Zoológico porque a fêmea marciana chegou morta – Gisele disse para Wop, sem tirar os olhos das próprias unhas. – Oi, bonitinho! – disse, acenando e sorrindo para Paulo Roberto.
– Olá! – Paulo Roberto acenou para Gisele e encostou-se no vidro. – Wop, nós precisamos conversar.
– Já dialogamos o suficiente por hoje, marciano. – Wop disse e afastou-se do vidro. – Agora é hora de alimentar a sua fêmea.
– Wop… ela não é a minha fêmea – Paulo disse entre os dentes.
– Ih, o bonitinho já é casado? Não tem problema não, meu lindo! Eu não sou ciumenta – Gisele disse, às gargalhadas.
– Paulo Roberto da Graça, assim como sua fêmea anterior terá de prosseguir sem você em Marte, você terá de prosseguir no Zoológico de Ne’haal sem ela. Lá, Gisele Mamadeira será sua fêmea, vocês copularão, procriarão e sua espécie será preservada – disse Wop, enquanto pressionava em um dos painéis da nave uma seqüência de botões que serviu o jantar.
– Sobre isso… podemos falar em particular, Wop? – Paulo sussurrou, acenando para Gisele, que não parava de piscar para ele desde que a se falou em cópula.
– Não vejo razão, mas se isso o fizer parar de se comportar de forma estranha – o alienígena acenou e a parede tornou a ficar escura.
– Wop, eu não posso copular com ela – Paulo Roberto sussurrou.
– Compreendo – Wop disse, baixando o volume de sua voz harmonizada. – Você teme que a fêmea não o aceite como parceira por conta de alguma disfunção em seu aparelho reprodutor. Isso não será um problema, Paulo Roberto da Graça. Posso lhe assegurar que podemos coletar suas células reprodutivas de uma forma indolor.
– Não, não é isso! – Paulo respondeu, ofendido – Não há nada errado com o meu aparelho reprodutor! Meu aparelho reprodutor funciona muito bem, fique o senhor sabendo! Eu posso copular com ela quantas vezes eu quiser – disse em tom de desafio. – Eu não quero copular com ela.
– Tem certeza que não há nada errado com o seu aparelho reprodutor, marciano? Consta na minha base de dados que os machos da sua espécie adoram copular – os grandes olhos de Wop fixaram-se na virilha de Paulo.
– Tire os olhos daí e não me chama de marciano, eu já disse que eu sou da Terra! – Paulo disse entre os dentes. – Não há nada de errado comigo, eu adoro copular, adoraria inclusive ter copulado mais do que eu já copulei até hoje. O que eu estou tentando explicar é que eu não posso copular com ela não porque eu seja incapaz de copular, mas porque ela não é uma fêmea.
– E o que você tem a ver com isso, seu intrometido? – a parede subitamente ficou translúcida e Gisele estava encostada no vidro, visivelmente furiosa com Paulo. Wop gesticulou e a parede ficou escura, mas logo ficou translúcida de novo – Escuta aqui, olhudo… esse negócio de gesticular e as coisas acontecerem não é exclusividade sua. Eu domino essa arte desde que eu tinha treze anos, está me entendendo? Se você desligar essa parede na minha cara outra vez, eu me solto dessa cela e te ensino com quantos paus se faz uma canoa, você está me entendendo?
– Um e bem grande – Paulo Roberto murmurou. Wop continuava sem entender aquele situação.
– E você comeu Palhacitos e está se achando muito engraçadinho, não é? Fique você sabendo que é grande o bastante para… – Gisele fechou os olhos e começou a contar até dez em voz alta, depois respirou fundo e prosseguiu, moderando o tom de voz. – Eu sou uma dama e damas não gritam. Damas são controladas e é assim que eu sou. Eu sou uma dama, não uma feirante.
– Eu não compreendo, Paulo Roberto da Graça. Gisele Mamadeira não é uma fêmea marciana? – indagou Wop, confuso. Seus grandes olhos vermelhos fitavam agora a virilha de Gisele, que a cobria com as mãos.
– Eu é que não compreendo como, com dois olhos desse tamanho, você não viu isso de primeira – Paulo Roberto disse, tentando não rir.
– Eu não compreendo! Com um par de glândulas mamárias tão desenvolvido eu presumi que… – Wop andava de um lado para o outro e sua voz parecia cada vez mais estranha.
– Eu ainda não sou completamente fêmea, mas estou em processo, ô Inimigo Meu – Gisele interrompeu, transtornada. – Quando você me disse que eu tinha sido escolhida para ser a fêmea que ia salvar a minha raça da extinção e que eu ia ter que fazer mais nada da vida além de comer, dormir e… como se diz mesmo? Copular? É, copular… bem, eu achei que seria uma boa. Além do quê, se naquele um planetinha totalmente atrasado que se chama Terra já tem cirurgia de mudança de sexo há anos, eu pensei que onde fica esse tal desse Zoológico de sei-lá-o-que teria algum procedimento de última geração, sei lá – Gisele disse, olhando para o chão. – Eu quero muito e sei que um dia eu vou ser cem por cento fêmea, mas marciana eu não sou e nem posso ser, chuchu – Gisele disse e ergueu seus olhos na direção de Wop. O alienígena parou de andar e virou-se na direção de Paulo Roberto.
– Então vocês são mesmo terráqueos? E a vida em Marte? – Wop perguntou, transtornado.
– Como eu já disse, não sou astrônomo, não sei nada de outros planetas. O pouco que eu sei é o que eu vejo nos jornais e, segundo dizem, os astronautas da Terra nunca encontraram sinais de vida em Marte. Sinto muito! – Paulo disse, olhando para Wop e depois para Gisele. Ela esboçou um sorriso.
– Obrigado pela sua simpatia, mas lamentações de nada adiantam, Paulo Roberto da Graça. Eu fui enviado para resgatar dois espécimes marcianos e é isso que eu farei. Vou retraçar o curso da nave para a unidade de reabastecimento mais próxima e depois posso deixá-los onde os apanhei – disse Wop, dirigindo-se para o painel principal da nave.

Por um breve instante, os três ficaram em silêncio.

– Wop, já ouviu falar em efeito estufa? – Paulo perguntou ao alienígena.
– Não, do que se trata – Wop indagou, tentando entender o que o humano pretendia.
– É quando a temperatura de um planeta aumenta por conta da poluição e da destruição da camada de ozônio. Dizem que está acontecendo na Terra e que o planeta não deve sobreviver mais do que alguns séculos – Paulo explicou e olhou para Gisele, esperando que ela dissesse alguma coisa.
– Ah, eu vi um programa de televisão sobre isso – Gisele disse, olhando para as unhas. – Outra raça em risco de extinção, a humanidade…
– … e eu aposto que os seus chefes ficariam muito satisfeitos se você economizasse tempo e combustível já levando junto com os marcianos alguns espécimes da Terra, não? – Paulo disse, fitando os grandes olhos vermelhos de Wop. Já não os temia tanto assim.
– Improvável, mas não é impossível – Wop balançou a cabeça.
– Bom, se você me garantir que onde quer para aonde a gente vai depois de Marte tem o raio da cirurgia que eu preciso, eu até ajudo a procurar os homenzinhos verdes que você tanto quer – disse Gisele, sorrindo.
– E eu também não me incomodo de ajudar na sua busca, se você puder dar um pulinho na Terra para eu buscar a minha esposa. Temos um acordo, Wop? – Paulo Roberto perguntou, sorrindo.
– Paulo Roberto da Graça e Gisele Mamadeira, sua proposta foi aceita. Vamos reabastecer a nave e depois iremos até Marte – Wop disse com sua voz harmonizada. Parecia esboçar um sorriso.
– Salve minha mãe Yemanjá, que enfim vou me tornar uma mulher completa! E uma mulher de outro mundo! – Gisele começou a gritar e pular. – E quando eu estiver operada e toda gostosona você vai querer copular comigo e eu vou dizer não, bonitinho – Gisele disse mostrando a língua para Paulo Roberto, com as mãos na cintura, sorrindo.

Paulo Roberto da Graça sorriu de volta e se deitou em sua cama. Apesar de ser uma pessoa despida de qualquer atrativo que o destacasse das outras pessoas comuns, estava vivendo algo que as pessoas da televisão e das capas de revista jamais sonhariam em viver. Sentiu-se orgulhoso de si como há muito não se sentia.

– Ô Darth Vader, tira uma dúvida: se Mercúrio não é planeta, que bosta é aquilo lá afinal? – Gisele perguntou, no exato momento que a nave de coleta do Zoológico de Ne’haal mergulhou no hiperespaço.

A música alta, as luzes piscantes, a pista cheia, o calor infernal. Não sei por que insistia em frequentar discotecas. Não sabia dançar, não era divertido, nem saía direito do lugar. Elegia um canto, uma mesa, uma pilastra para apoio e pronto. Me restava usar drogas que afetassem o meu estado de inércia com o sexo. E com o sexo oposto também. Bebia cerveja, fumava maconha e, de vez em quando, tomava um ácido daqueles que dão tesão. Dão mesmo? Só me aproximava de alguém quando os lábios estavam dormentes, quando a língua enrolava e quando acreditava ser um exímio orador.

Falei muita merda. Xinguei várias mulheres – logo eu, um sujeito tão educado, que ainda hoje em dia dá dois beijos na avó materna e pede a bênção à paterna.

Pergunta se eu peguei alguém em uma discoteca?

Peguei só o braço de uma moça, que tratou de se livrar de mim depois que baforei uísque na cara dela. Foi sem querer. Ela me arranhou.

Discoteca, hoje em dia, é coleção de discos. Eu amo os discos. Até os arranhados. Odeio as outras discotecas. Vou vivendo o paradoxo cheio de ódio no coração. Sozinho, curto os meus discos deitado na cama de solteiro, mirando o branco do teto ou o verde do display do aparelho de som que indica o número da faixa e o tempo de reprodução transcorrido.

Eu amo as mulheres. Até as arranhadas, maltrapilhas, mal cuidadas. Queria fazer coleção delas também. Ficar deitado na cama de casal com elas, mirando o branco dos olhos delas ou a penumbra na porta do quarto – meu, e não delas – que denuncia o avançar da madrugada.

Vou me drogando, sozinho, no quarto, com os discos, longe das discotecas dos outros. Vou amando as faixas, os registros, as letras, as melodias.

Eu as odeio, discotecas. As dos outros. Eu odeio os outros.

 

Cinco amigos,
e todos leoninos
palmas para julho!

Como possível era sobreviver em meio às feras, ela sabia. Eles eram os favoritos do seu inverno. Sem sua licença poética ela diria que dos cinco, dois são de agosto; sem falar naqueles de maio e de novembro, mas aí seria outra poesia. Amigo bom é amigo presente, ainda que apenas no coração. Tantos leões na América do Sul é coisa rara; mas amigo também é coisa rara.

A vida é rara, e isso ela já sabia.

 

ERA UMA VEZ UMA PRINCESA MUITO BONITA CHAMADA MARIA EDUARDA. ELA GOSTAVA DE PASSEAR PELOS FLORIDOS CAMPOS AO REDOR DO CASTELO. DUDA, COMO ERA CONHECIDA A BELA FILHA DO REI, CORRIA DE UM LADO PARA O OUTRO. ERA AMIGA DE BORBOLETAS, PÁSSAROS, CÃES, GATOS E ATÉ DAS ONÇAS PINTADAS. SUA MÃE, A RAINHA ELAINE, ERA BASTANTE SÉRIA E PREOCUPADA. NÃO DEIXAVA A PRINCESA DUDA SAIR PARA DANÇAR NA DISCOTECA QUE FICAVA NO PRINCIPADO AO LADO. DIZIA ELA: “MINHA FILHA, AQUELE ANTRO DE PERDIÇÃO É FREQUENTADO POR BOBOS DA CORTE. ALÉM DISSO, NÃO GOSTO QUE VOCÊ VOLTE PARA CASA SOZINHA DIRIGINDO SUA CARRUAGEM MADRUGADA ADENTRO. O REI EDUARDO TINHA FAMA DE SER CIUMENTO – MAS ERA APENAS FAMA. NO FUNDO, ERA UM HOMEM BONDOSO QUE SE PREOCUPAVA COM A FELICIDADE DA FILHA. POR ISSO, DIZIA: “FILHA, VÁ LER DOSTOIEVSKY QUE VOCÊ SE DÁ BEM.” A PRINCESA DUDA ERA UMA MENINA MUITO ESPERTA PARA A POUCA IDADE QUE TINHA. AOS 2 ANOS, JÁ RECITAVA POEMAS DE FERNANDO PESSOA COM TAMANHA DESENVOLTURA, QUE ERA CONVIDADA ESPECIAL EM SARAUS E RODAS DE LEITURA DE UNIVERSIDADES LOCAIS. UM DIA, A PEQUENA RESOLVEU ENTRAR PARA O CURSO DE TEATRO. O REI, DE INÍCIO, TORCEU O NARIZ: “SABE, FILHA… SUA MÃE NÃO ME DEIXOU FAZER TEATRO COM MEDO QUE EU PEGASSE AS ATRIZES DE MALHAÇÃO. NO TEATRO TEM MUITO MACONHEIRO SAFADO QUE QUER FICAR FAMOSO. POUCOS SÃO OS ATORES DE VERDADE. A RAINHA CONTESTOU: “NADA A VER, OH, MEU GRANDE E MAGNÂNIMO REI. O TEATRO AJUDA AS PESSOAS A TER UMA VIDA MAIS FELIZ E SAUDÁVEL, LONGE DAS DROGAS. TEATRO É VIDA.” DEPOIS DE MUITA CONVERSAREM, O REI TEVE UMA GRANDE IDEIA, COMO ERA DE COSTUME: “FILHA, SE VOCÊ QUER REALMENTE FAZER TEATRO, PRECISA LER OS CLÁSSICOS DA DRAMATURGIA. ASSIM QUE CONSEGUIR DAR CONTA DA BIBLIOGRAFIA QUE LHE PASSAREI, PODE SE MATRICULAR NAS AULAS DE TEATRO. PORÉM, QUERO FICHAMENTOS DATILOGRAFADOS NO COMPUTADOR, FONTE ARIAL, CORPO 12 E ESPAÇAMENTO DUPLO.” A PRINCESA DUDA ACEITOU A PROPOSTA, APESAR DA PILHA DE LIVROS QUE SE ACUMULOU NO CRIADO MUDO DE SEU SUNTUOSO QUARTO. ANTES DE DORMIR, NOITE APÓS NOITE, SE DEDICAVA ÀS LETRAS DOS GRANDES MESTRES. BECKETT, GOGOL, SARTRE, SÓFOCLES, MOLIÈRE, PIRANDELLO E ATÉ SHAKESPEARE, VEJA BEM, CARO LEITOR, ATÉ SHAKESPEARE! OS ANOS FORAM PASSANDO E A PRINCESA DUDA NÃO FOI PERCEBENDO. À MEDIDA QUE IA CRESCENDO, TINHA CADA VEZ MENOS TEMPO DISPONÍVEL PARA TRIVIALIDADES E FUTILIDADES. A RAINHA ESTRANHAVA O FATO DA PEQUENA E DONAIROSA ADOLESCENTE NÃO INSISTIR EM SAIR PARA DANÇAR, PREFERINDO SE DEBRUÇAR SOBRE OS LIVROS. O TEMPO FOI PASSANDO CADA VEZ MAIS RÁPIDO. E AQUI, CARO LEITOR, HÁ UM GRANDE PULO NA LINHA DO TEMPO. PASSARAM-SE, VEJA SÓ, 10 ANOS. A PRINCESA DUDA JÁ ERA MOÇA FEITA E GRADUAVA-SE EM MEDICINA, COMO A MELHOR ALUNA DA UNIVERSIDADE. NO DISCURSO, EMOCIONADA, AGRADECEU: “NADA DISSO SERIA POSSÍVEL SEM A AJUDA DO MEU PAI, O REI, QUE ME APRESENTOU A UM MUNDO QUE REALMENTE VALIA A PENA, O MUNDO DA LITERATURA. ABDIQUEI DE NOITES REGADAS À BEBIDA E DROGAS SINTÉTICAS, ME MANTIVE LONGE DAS MÁS COMPANHIAS E DOS WANNA-BE-CELEBRIDADES DO CURSO DE TEATRO, PODENDO ENTÃO ME CONCENTRAR E FOCAR NA MINHA FORMAÇÃO INTELECTUAL. AO MEU PAI, O MAGNÂNIMO E INCONSTESTÁVEL REI, O MEU MUITO OBRIGADO. TE AMO, PAI!” TODOS OS SÚDITOS PRESENTES SE LEVANTARAM, AOS PRANTOS, E TAMBÉM APLAUDIRAM. O REI FICOU DE PÉ E GRITOU: “BRAVO! É MINHA FILHA!” A RAINHA, VISIVELMENTE CONTRARIADA EM UM PRIMEIRO INSTANTE, DEU O BRAÇO A TORCER E SE DEIXOU LEVAR PELA EMOÇÃO, DEBULHANDO-SE EM LÁGRIMAS. DEPOIS DA CERIMÔNIA, FORAM TODOS COMER PIZZA NA TAVERNA DA ESQUINA. E VIVERAM FELIZES PARA SEMPRE. FIM.

Ela foi embora sem ao menos dar uma olhada para trás, para ver o estado em que me deixou. Ainda bem que ela não se virou. Veria um rosto de formas retorcidas pela tristeza. Talvez não tenha se virado porque sabia que meus olhos ainda a acompanhavam na ignóbil tentativa de reter a sua silhueta, que com o tempo fatalmente viraria um vulto borrado sem qualquer legibilidade. Talvez ela quisesse ser esquecida, talvez quisesse garantir que nenhum resquício dela permaneceria em minhas retinas. Ela, de costas, era a última coisa que eu veria, talvez assim quisesse. Talvez porque ela também estivesse com os músculos da face prestes a se contrair, não sei. Talvez para o riso, talvez para o choro, não vou saber nunca – e talvez essa tenha sido a intenção dela.

Eu a vi caminhando, indo embora.

Eu a vi mexendo as ancas num rebolado sinuoso enquanto aumentava a distância entre nós dois.

Eu vi aquela bunda indo embora.

A bunda e ela.

A bunda dela.