A melhor aluna de português da classe era Dulce. Seus cadernos eram um exemplo de capricho, limpos e recheados da letra redondinha que apenas as alunas aplicadas possuem. Eram impecáveis, como o pequeno diário onde Dulce escrevia, suspirando, toda noite antes de dormir. Dulce também era a melhor aluna em Ciências, sabia que o ponto de fusão da água se deva à temperatura de 0° Celsius e que essa temperatura equivalia a 32° Fahrenheit e 273,15° Kelvin. Sabia também que seu sangue parecia evaporar quando, olhando pela janela da sala de aula, seus olhos encontravam o sorriso de Lacerda, bebericando aguardente e jogando bilhar no botequim do outro lado do cruzamento. Ninguém tinha notas mais altas em Francês que Dulce, sua pronúncia e fluência eram impecáveis, seu domínio da língua impressionava a professora e os colegas de classe. E também impressionou Lacerda, que descobriu o frescor dos contornos adolescentes de Dulce na viela atrás do Bar do Carreirinha, quase na hora da missa. Dulce era a melhor aluna de matemática do colégio: sabia de cor a tabuada de 7 e sabia diferenciar um triângulo escaleno de um isósceles. Entretanto, a aritmética a traiu um dia, quando 1+1 deu 3 e o pai de Dulce foi tirar a prova dos nove com Lacerda no bar do cruzamento, arrastando-a consigo pelos cabelos. Dulce era melhor aluna em Religião, sabia de cor as rezas e o nome dos apóstolos e sabia que os suicidas não podem cruzar os portões do Paraíso, mas isso não a impediu de se atirar na frente de um carro de praça quando viu o vermelho brotar no branco brim do paletó do seu primeiro amor.

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