Arthur não era nem um pouco diferente de nenhum adolescente comum: usava jeans esfarrapadas, ouvia músicas que seus pais não suportavam, adorava esportes, bebia escondido e era apaixonado pela menina mais bonita da escola. Na verdade, todos os meninos do colégio de Arthur eram apaixonados por Débora e com razão, já que a menina parecia a personagem principal daquele livro do Nabokov. Não, Débora não era ousada como Lolita (aliás, ela não era nada ousada) , mas virava a cabeça dos homens. Era alta, bonita e já tinha corpo de mulher aos 15 anos. E que mulherão! Débora tinha o porte daquelas mulheres que param o trânsito, que fazem as mulheres casadas segurarem o braço de seus maridos com mais força, que fazem os padres se benzerem três vezes. E como todo adolescente – afinal Arthur não era diferente de nenhum outro adolescente – Arthur tinha um pequeno problema: morria de medo de declarar para Débora os sentimentos que nutria por ela.

Não era culpa de Arthur ser tímido (aliás, se fossemos a fundo na árvore genealógica de Arthur, descobriríamos que ele descendia de uma longa linhagem de tímidos crônicos, daqueles que não conseguem comprar pão em uma padaria vazia, mas isto é outra história). Por mais que ele tentasse, não conseguia criar coragem para falar com Débora. Ainda mais depois da festa em que seus amigos o aconselharam a beber para criar coragem e ele acabou vomitando no vestido novo de sua paixão. Daquele dia em diante, Arthur só se aproximava de Débora em seus sonhos, que eram mais constantes do que os banhos demorados que o rapaz tomava. Era só colocar a cabeça no travesseiro para o rosto sorridente da bela menina se materializar diante de Arthur. Mas não eram apenas os sonhos onde Débora pedia que Arthur a livrasse do incômodo do soutien 46 que a deixava sem ar: o rapaz também sonhava em deitar na relva abraçado com ela e recitar poemas, olhando no fundo dos olhos verdes de Débora e beijando-a em uma noite enluarada e de céu estrelado de beleza ímpar, nunca vista em um filme de Sessão da Tarde. Mas quando a manhã chegava e ele percebia que aquele corpo macio que ele abraçava com tanta paixão era apenas um travesseiro, a tristeza o consumia e ele chorava ouvindo seus CDs do Radiohead. E, de tanto chorar e ouvir Radiohead, Arthur chegou a conclusão que não ia mais sofrer por causa de Débora. Jogou fora tudo que o fazia pensar nela, menos a Playboy da Scheila Carvalho, que era sagrada. Duas semanas após a decisão de esquecer Débora, Arthur recebeu um convite para uma festa do pessoal do colégio, na casa de um colega cujos pais estavam viajando. Primeiro ele recusou, mas depois pensou bem e decidiu que ia fazer bem divertir-se um pouco. Afinal, o que seria melhor de uma festa de adolescentes sem a supervisão de adultos responsáveis para ajudar um rapaz da idade de Arthur a esquecer um amor platônico? Então ele vestiu sua melhor calça rasgada, montou em sua bicicleta e foi à tal festa, afogar a tristeza em cerveja mexicana.

A casa onde a festa rolava era grande, não como as que aparecem nas comédias para adolescentes, mas era grande. Tinha dois andares, um gramado grande e tinha uma piscina, onde cadeiras quebradas e adolescentes bêbados se misturavam aos balões coloridos que flutuavam na água clorada, ao som da batida techno que ecoava pela noite. Após encostar a bicicleta em uma parede da garagem, Arthur dirigiu-se à escada que conduzia à piscina da casa. Mas, quando estava começando a subir a escada, tomou um susto com algo que caiu em sua frente e pulou para trás. O barulho de vidro estilhaçando fez com que o cão da casa vizinha latisse, mas ninguém pareceu se importar com o ruído. Chegando perto, Arthur percebeu que o que tinha caído do parapeito de pedra que ficava no topo da escada era uma garrafa de vinho. “Bela recepção”, pensou o rapaz. Mal recomeçou a subir a escada, ouviu os passos de alguém que descia a escada com pressa. Era Débora.

– Você se machucou? – perguntou a menina, preocupada.
– Não. Estou bem… a garrafa passou longe – Arthur respondeu, rindo timidamente.
– Por favor, desculpe. Eu esbarrei na garrafa quando tentava matar uma barata e… – disse Débora.
– … e quase desempatou aquela vez em que vomitei no seu vestido novo – Arthur sorriu amarelo.
– Era uma boa chance mesmo: eu adorava aquele vestido, Arthur – Débora disse, sorrindo.
– Você… sabe o meu nome? – espantou-se o rapaz.
– Claro que sei, ué. A gente estuda junto faz tanto tempo… – disse Débora, rindo da cara de bobo de Arthur.

Por um instante Arthur ficou sem fala: estava frente a frente com a menina mais bonita do colégio, em um local sem iluminação e ela estava conversando animadamente com ele. Quando ele ia começar a pensar em toda tristeza e sofrimentos desnecessários, Débora interrompeu seus pensamentos:

– Já que você está inteiro e eu estou sem meu vinho… você quer ir comigo buscar uma outra garrafa e beber comigo aqui no gramado? Odeio muvuca… – disse Débora, olhando nos olhos de Arthur.
– Tinto ou branco? – respondeu Arthur, olhando no fundo dos olhos verdes de Débora.

Então eles subiram a escada juntos e Arthur olhou para o firmamento e sorriu quando notou que aquela era uma noite de céu estrelado, com uma lua cheia de beleza ímpar, nunca vista em um filme da Sessão da Tarde.

PS: Possívelmente este será o meu último texto de 2003. Então eu gostaria de desejar a todos um

Feliz Natal e um ótimo 2004.

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