Ana Lúcia estava a beira do poço de um desejo. Sentia-se com o pensamento amarrado, emaranhado em congluências infinitas. Sentia-se como infinitas borboletas dentro do estômago, perdidas, debatendo-se para achar a saída. Como se fosse sucumbir ao seu desejo. Mas estava parada. Observava seu desejo e fazia com que o sentimento todo expandisse pelo seu corpo. Era uma única sensação, que não durava nada, nem mesmo um milésimo de segundo. E Jorge estava ali. deliberadamente sentado escutando um som qualquer. Estava apoiado no tronco da árvore, apoiando a vida no colo. Lendo algo qualquer. Mal sabia ele o que causava em Ana Lúcia. O que Jorge sabia é que havia optado em ser um fruto da árvore vida. Gostava de saber que estava vivendo. Provava todas as bocas e salivas que almejava. Não disperdiçava nada. Estava lá saboreando a manhã em que estivera com Renata. Jorge queria ser devorado enquanto estivesse maduro. Era como o suco da fruta que escorre pela lateral do lábio das fêmeas que agora lhe vinham na cabeça. Nenhuma gota desperdiçada. Provar da vida. Sugar tudo que ela podia lhe conceder. Ana quase desejava provar o gosto do fruto. Quase. Era doce demais perdurar aquele momento pra sempre. Estar diante do desejo e lhe corromper. Não ceder. Estar diante do desejo e provocar seu corpo. Como o segundo que antecede todos os beijos. Antes de concluir-se, podia provar da arte finita, poderia simplesmente vibrar, cantar e estremecer pela última vez seus flagelos. era assim que sentia-se. E Jorge queria ser devorado, antes de apodrecer lentamente pendurado num galho qualquer da árvore chamada vida.

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