VIII.

Com os olhos vermelhos e as pupilas dilatadas, Gérson encontrava-se sentado no vão entre o sofá de couro preto e a parede, segurando duas facas de açougueiro. Sua respiração era pesada e seu coração batia em ritmo acelerado, como se ele acabasse de disputar a final dos cem metros rasos em uma Olimpíada. Os olhos giravam inquietos nas órbitas, escaneando cada centímetro do apartamento. “Ninguém vai me pegar, ninguém vai me pegar”, ele sussurrava com as facas cruzadas à frente de seu rosto. Uma gota de suor escorreu pelo seu rosto e mergulhou na barba por fazer. Fazia duas noites que ele não dormia. Gérson tinha medo que o matassem em seu sono e ninguém o mataria sem uma luta.

Levantou-se olhando com cuidado cada canto da sala e foi ao banheiro. Empurrou as portas do corredor com os ombros, entrando em cada um dos dois quartos com as facas em riste antes de entrar no banheiro. Nunca cairia em uma tocaia. Abriu o armário sob o espelho e procurou o pequeno frasco, mas lembrou-se que havia consumido o resto da cocaína minutos atrás, quando quase caíra no sono. E ele não podia dormir. Se ele cochilasse, talvez não acordasse mais. Gérson não queria morrer, era jovem demais para deitar-se em um caixão com chumaços de algodão nas narinas enquanto as pessoas comentavam como ele era jovem e bonito e que era um grande desperdício de vida um rapaz tão novo ir ao encontro do Criador sem ter se casado, sem ter tido filhos, sem ter tido cabelos brancos, sem ter conhecido todo o país e sem ter visto a Seleção jogando no Maracanã, sem ter comido acarajé, sem ter comido vatapá e sem sequer ter comido uma baiana. Gérson não queria fazer aquilo tudo, mas e se ele um dia quisesse? Morto ele não ia poder fazer. Então ele decidiu que não dormiria. Mas precisava de mais brilho. Seus olhos começavam a perder a vigilância, piscando cada vez mais. Era difícil mantê-los abertos sem o brilho. Suas mãos tremiam novamente, tremiam como varas verdes, tremiam como o México tremeu naquele grande terremoto nos anos 80. Ele precisava de mais, precisava de mais, não muito mais, apenas o que o mantivesse acordado e vivo. Teria que sair. Teria que ir buscar. Foi até o quarto e calçou um par de tênis que estava embaixo da cama e abriu o armário em busca de uma camiseta limpa. Vestiu-se, pegou a chave do carro em cima da escrivaninha e saiu em direção à porta, mas ao tocar na maçaneta, lembrou-se que não podia sair com as facas. Algum guarda poderia pará-lo, talvez extorquir algum dinheiro, mas isso seria mal para sua carreira. As pessoas não gostam de pessoas com ficha policial. Colocou as facas em cima da pia e abriu a porta. O corredor do prédio estava mergulhado no breu. Gérson ficou temeroso de sair. Estava desarmado, seria um alvo fácil, mas ele precisava da cocaína. Respirou fundo e colocou o primeiro pé fora do apartamento, depois o outro. Virou-se para trancar a porta do apartamento, sentiu alguém agarrar com força seus cabelos. Ele tentou gritar, mas outra mão colocou-se em frente a sua boca, silenciando-o. Gérson tentou, em vão pedir socorro. Seus gritos, abafados, perderam a força quando sentiu entre as costelas a rigidez fria do golpe de uma lâmina. Seus olhos se arregalaram quando sentiu que o metal avançou pele e músculo adentro e perfurou seu fígado. O sangue quente e escuro escorreu por suas pernas trêmulas e ele ainda tentou lutar, mas outra estocada atingiu-lhe o diafragma e Gérson começou a soluçar, golfando sangue. Seu corpo dobrou-se para frente e ele caiu de joelhos sobre o capacho da porta. Com as mãos segurando o abdômen, ele emitiu um gemido fraco, quase um miado, e então sentiu a lâmina tocar sua bochecha e arrastar-se vagarosamente por sobre seu rosto livre se rugas de preocupação, abrindo um fino corte de onde seu sangue jovem desceu imediatamente em um fino filete escarlate. E então sua mente turvou-se e a última coisa que Gérson sentiu foi a pressão da lâmina arrebentando sua traquéia quando a faca trespassou seu pescoço. Então tudo ficou escuro e quieto.

IX.

– Você viu o Gérson na festa, amor? – Walter sussurrou no ouvido de Fernanda, que conversava com as esposas de dois diretores da fábrica Dortella. Como ele pensou, todos no salão não tiravam os olhos de Fernanda. O vestido ficara ainda mais bonito envolvendo o belo corpo da sra. Dortella.
– Acho que ele não veio, querido – ela respondeu, ainda sorrindo para as duas senhoras. E já está começando a ficar tarde. É melhor mandar servir o jantar.

O salão nobre Jóquei Clube estava cheio de gente. Empresários, políticos, jogadores de futebol, socialites e alguns parentes compunham a lista dos trezentos e cinqüenta convidados para as bodas de Walter e Fernanda Dortella. A banda tocava light jazz e as pessoas conversavam sobre a festa, sobre o jantar e sobre as vidas das outras pessoas na festa, enquanto os garçons circulavam com bandejas de champanha e uísque importado. Precisamente à meia-noite, a banda parou de tocar e Walter e Fernanda subiram ao palco para fazer um brinde. Os convidados fizeram silêncio e Fernanda começou seu discurso.

– Eu gostaria de, acima de tudo, agradecer a todas as pessoas que hoje estão aqui presentes, pois sem vocês esta noite não seria tão brilhante – ela disse e virou-se para Walter. – E queria também agradecer ao meu marido, pois sem ele eu não estaria aqui, feliz e completa. Obrigado, meu amor.

O salão inteiro aplaudiu o discurso de Fernanda, que colocou as mãos na frente da boca e lançou um beijo à multidão e depois beijou o marido nos lábios. Grande parte dos homens no salão daria um braço para estar no lugar de Walter naquela hora. Após receber a carícia da esposa, o empresário pegou o microfone, olhou para as pessoas no salão e começou a falar.

– Bom, primeiro eu gostaria de avisar que a segurança tem ordem de expulsar quem não bater palmas – o salão inteiro explodiu em gargalhadas. – Brincadeiras à parte: muito obrigado a vocês por dividirem conosco esta alegria que é comemorar doze anos de uma união maravilhosa, que me deu mais alegrias do que eu podia esperar – ele disse e piscou para Amanda, que retribuiu a piscadela do pai com um sorriso. – E gostaria também de agradecer a minha esposa por ter segurado minha mão nas horas de dificuldade, por ter sorrido nas horas de alegria, por ter me amado em todas as ocasiões do nosso relacionamento e, principalmente, por ter me dado a Amanda, que é a maior alegria que eu tenho neste mundo – um garçom subiu ao palco com duas taças de champanha em uma bandeja. Walter as pegou e entregou uma à sua esposa, erguendo sua taça e olhando nos olhos de Fernanda. – Eu brindo ao seu amor, Fernanda.

Todas as taças do salão se ergueram e os aplausos encheram o ar. Os olhos de Fernanda encheram-se de lágrimas e ela brindou com o marido, brindou ao amor que Walter sentia por ela e pelo amor que ela sentia por ele. E brindou pela noite maravilhosa que estava se desenrolando. Tudo era belo demais, feliz demais, as luzes brilhantes demais. E então, após um clarão, as luzes se apagaram.

X.

Um calor incômodo fez com que Fernanda despertasse. Onde ela estava? Que horas eram? Sentia um cheiro enjoativo de bosta de vaca. Abriu os olhos, mas sua vista estava embaçada e ela achou que estava em um tipo de barracão. Havia moscas zumbindo e pousando em seus cabelos, mas quando ela tentou espantar uma grande mosca-varejeira que pousara em seu rosto, percebeu que não conseguiu mexer os braços. Quando seus olhos voltaram ao foco, ela pode ver que estava amarrada a uma pilastra de madeira. Suas roupas haviam sumido e havia alguém amarrado ao seu lado. Ela piscou algumas vezes e então conseguiu identificar o rosto próximo ao seu.

– Gérson? Cadê o Walter? O que estamos fazendo aqui?
– Eu estou aqui, Nanda. E pode parar de gritar, pois o Gérson não vai acordar – disse Walter, sorrindo. Estava sujo e sem camisa, arrastando um grande saco de lona.
– Walter, o que está acontecendo? O que está acontecendo, amor? – ela perguntou, piscando.
– Durante doze anos eu te amei, mas meu amor não era o suficiente, não? – ele disse, seco, abrindo o saco e tirando de lá de dentro uma pá. – Eu amei, cuidei… até cozinhei para você. Aliás, você gostou da comida não? Carne à chinesa. Você sabia que eles comem cachorro na China?

O estômago de Fernanda se contraiu e ela vomitou. Ela não vira Zazá o dia inteiro.

– Enojada? Fique sabendo que você me enojou muito mais – ele disse, lacônico.
– Do que você está falando, Walter? – A voz de Fernanda começou a ficar chorosa. Suas mãos transpiravam.

Fernanda sentiu o rosto arder quando a mão do marido a acertou, espalmada, no rosto. Sentiu que havia sangue correndo de onde o tapa a acertara.

– Você ainda tem a pachorra de perguntar do que eu estou falando, sua puta? – a voz de Walter perdera o gelo. Agora estava carregada de raiva.
– Walter, é mentira. Eu juro que é mentira – Fernanda começou a chorar. Seu rosto ardia muito.

Outro tapa estalou e Fernanda gemeu, chorando e soluçando. Walter mexeu no bolso traseiro da calça e puxou de lá o envelope azul-celeste, abrindo-o e tirando uma fotografia de seu interior.

– Isto aqui é mentira? Isto aqui é mentira? – ele esfregava a foto no rosto de Fernanda. Era uma foto de Fernanda e Gérson. Estavam nus. – Você estava sorrindo, sua puta. Vai dizer que ele te estuprou? Ele te estuprou e você sorriu? Estava sendo estuprada e estava sorrindo, na minha cama, sua vagabunda? – Walter espumava de raiva. Seu rosto estava vermelho.

Fernanda abaixou a cabeça e começou a gemer baixinho. Não havia mais defesa. Tudo o que podia fazer era suplicar a Walter que a deixasse ir embora. Ela jurou que não pediria pensão e que esqueceria da filha, mas ele não a olhava, apenas despejava com a pá aos pés da esposa o conteúdo do saco. Carvão vegetal.

– Você sabe qual é o segredo da carne Dortella? – ele disse, rindo. – Uma vaca que passe o dia inteiro deitada e um bom corte – ele disse, aproximando-se dela, com uma grande faca de açougueiro.

Fernanda encolheu-se e começou a gritar, pedindo para que Walter não a cortasse, mas ele apenas colocou a faca paralela ao rosto dela e começou a gargalhar. Ao abrir os olhos, Fernanda entrou em desespero: o reflexo na lâmina mostrava seu belo rosto todo cortado. Por isso a ardência e o sangue. Ele escrevera “puta” várias vezes com a ponta da faca em seu rosto. O desespero aumentou quando ela percebeu que não era apenas o rosto, mas nos braços e pernas, no corpo todo. Ela começou a chorar convulsivamente e Walter apenas ria. Abaixou-se e tirou do saco de lona um saco menor, abrindo-o com os dentes e derramando um punhado do conteúdo em sua mão.

– Sabe por que precisamos de um bom corte? Porque só com um bom corte o sal pega direito na carne – ele disse esfregou com força a mão pelo rosto e pelo corpo de Fernanda. Ela gritou, com o corpo ardendo. A brutalidade de Walter fez com que os cortes se abrissem e jorrassem pequenos filetes de sangue e o sal encarregou-se do resto do tormento. Fernanda sacudia-se em desespero. Queria que aquilo fosse um pesadelo, queria despertar logo daquele pesadelo. Com os olhos cheios de lágrimas ela viu que Walter dançava, às gargalhadas, com seu vestido de seda à mão. Ele o atirou com força contra o rosto de Fernanda. – Eu sempre disse que eu era um açougueiro, amor. Agora aproveite, Nanda – ele disse, banhando a esposa e o cadáver do assistente em gasolina. – este sim vai ser um churrasco de seda.

Fernanda nada fez quando Walter riscou o fósforo. O fogo tomou envolveu rapidamente os corpos dos dois amantes e espalhou-se pelo abatedouro que um dia fora do pai de Walter. Sentindo o cheiro de sua carne queimando, Fernanda sorriu. Talvez por saber que o sofrimento havia terminado, talvez por saber que o fogo não permitiria que ninguém visse seu corpo perfeito todo retalhado. “Sim, Deus me quer bonita”, ela pensou, enquanto as chamas a conduziam à inconsciência.

Epílogo

– Quanto tempo até chegarmos em Miami, pai? – Amanda perguntou, abraçando o pai na fila do check-in.
– Algumas horas, filha – ele respondeu, com um sorriso pálido que mal mostrava seus dentes perfeitamente alinhados.
– E nós vamos à Disney todo fim de semana mesmo? – ela olhou para Walter, com um sorriso nos lábios que lembrava muito o sorriso de Fernanda.
– Sempre que você quiser, meu amor – ele sorriu e beijou a filha na testa. – Vamos, é a nossa vez – ele disse e encostou-se no balcão da companhia aérea, onde despachou suas grandes malas de couro e encaminhou-se em direção à sala VIP de mãos dadas com Amanda, que estava linda em seu vestido favorito, azul-celeste.

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