III.

Durante quatro anos, Gérson ouviu seu chefe dizer que havia dois segredos para uma boa carne: o bom manejo de faca amolada e uma vaca que não se mova muito. A parte das vacas era fácil, já que o gado de corte era criado em uma fazenda do dono da rede de boutiques de carne onde Gérson trabalhava. Na tal fazenda, boa parte dos bois era colocada em cercados que eram pouco maiores que os animais e isso fazia com que tudo que os animais faziam era comer, deitar e levantar, evitando que seus músculos fossem exercitados e a carne endurecesse. O gado criado na fazenda Dortella produzia, segundo revistas especializadas e o paladar dos consumidores, a carne mais macia do país. “É como fazer churrasco de seda”, diziam os anúncios de rádio e TV. A parte do manejo da faca não foi fácil, mas Gérson aprendeu. Seu chefe era muito exigente em relação ao corte da carne. Fazia questão de ir pessoalmente conhecer os funcionários que trabalhavam em sua fábrica e em suas lojas e os ensinava o segredo do corte. Como usar a faca, que tipos de faca, como conservar as facas bem amoladas. Walter Dortella era tão preciso com uma faca quanto um médico com seu bisturi.

Em quatro anos, Gérson aprendeu tudo que podia ter aprendido sobre carnes com Walter. Havia até quem dissesse que ele era tão bom quanto o chefe e foi esse boato que fez com que o chefe pousasse seus olhos sobre o rapaz. Gérson tinha 21 anos quando começou a trabalhar para a família Dortella e aos 23 anos já era gerente regional. Claro, havia o talento, mas a simpatia que Walter tinha por Gérson o ajudou bastante em sua ascensão profissional. Walter via no rapaz um possível sucessor, pois o rapaz era inteligente e ambicioso. Por isso Walter o encarregou de fazer as inspeções e as demonstrações. Não havia quem não gostasse daquele rapaz de cabelos que caiam pelo rosto e de seu sorriso franco, o sorriso que os jovens sempre exibem em seus rostos isentos de marcas de preocupação. Ou quase sem marcas de preocupação.

Um pequeno envelope azul-celeste jazia sobre a escrivaninha no quarto de Gérson. Ao seu lado, o jogo de facas do rapaz. Eram facas bem trabalhadas, cabos sólidos e lâminas bem forjadas. Com uma pequena pedra preta, Gérson amolava cada lâmina daquele jogo, presente de seu chefe, de seu amigo Walter Dortella. O suor brotava da testa do rapaz e pingava na madeira escura do móvel. Sob a única luz de uma pequena luminária para leitura, os dedos ágeis do rapaz espremiam a pedra preta contra o aço espanhol. O suor escorria pela sua face, que ainda exibia uma ou duas espinhas como recordação da adolescência. Suas mãos também estavam suadas e trêmulas. Descuidou-se e a lâmina beijou-lhe a mão e o sangue jovem brotou alguns segundos depois da linha estreita ser marcada na carne do rapaz. Com a mão na boca, Gérson praguejou e encaminhou-se ao banheiro. Atrás do espelho do banheiro havia éter e ataduras, que Gérson usou para fazer o curativo. Seus olhos alcançaram um pequeno frasco escondido atrás de um pote com algodão. “Isto vai manter meus nervos em ordem”, ele pensou, carregando a frasco para o quarto e despejando o conteúdo sobre a lâmina de uma das facas. Com outra faca, ajeitou uma carreira e aspirou com força o pó. Apertou os olhos por alguns segundo, com o rosto chanfrado em uma careta e logo os abriu, como se nada tivesse acontecido e voltou a amolar as facas. Agora ele não podia se dar ao luxo de ter facas cegas em casa.

Continua

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