IV.

Walter olhou-se no espelho: tinha agora 40 anos, mas ninguém acreditava que ele tivesse mais do que 35 anos. Tirando uma ou duas entradas e alguns fios grisalhos em sua barba, a natureza o havia poupado do resto dos sinais de envelhecimento, como manchas ou linhas de expressão. Nem todos os homens chegavam aos 40 anos com o físico que ele exibia, a maioria de seus amigos estava fora do peso, mas Walter tinha o corpo de um ginasta. Exercitava-se 4 horas por dia, todo santo dia. Mas o que o fazia sentir-se mais jovem não era seu abdômen, mas a beleza de Fernanda. Aos 32 anos, Fernanda estava mais bonita do que nunca. Era impossível não notá-la, onde quer que ela estivesse. Seu corpo era perfeito nas medidas, nada faltando ou exagerado. Seu rosto parecia esculpido de tão belo e Walter costumava dizer que o rosto de Fernanda era a imagem da perfeição. E talvez fosse mesmo, pois ninguém conseguia desviar os olhos daquela mulher ou de seus olhos amendoados. Walter não se cansava de admirá-la. Sentou-se na beira da cama e afagou os cabelos da esposa, que dormia tranqüilamente. Andando devagar para não acordá-la, ele voltou ao escritório e juntou as contas que estavam espalhadas no chão, colocando-as de volta à bancada do computador. Na tela do aparelho, um ícone piscava, indicando que havia e-mails novos. O cursor do mouse correu pela tela e o empresário começou a separar os e-mails pessoais dos e-mails profissionais. “Eu devia contratar alguém para fazer isto para mim”, ele pensou, enquanto enviava a propaganda de um site pornográfico para a lixeira virtual. O último e-mail recebido chamou a atenção de Walter: apenas lia-se “espero que seu aniversário de casamento seja uma ocasião inesquecível”, assinado por alguém com o nome de Celeste.

– Você me ajuda com meu trabalho de geografia? – disse uma voz suave, vinda da porta. Era a voz de Amanda. Amanda era a única filha de Walter e Fernanda e a maior alegria que Deus tinha dado ao empresário. Os professores desfiavam elogios à sua inteligência, os pais se desmanchavam ante a sua candura. O falecido pai de Walter costumava dizer a todos que sua neta era com um raio de sol em um dia de chuva, e para Walter ela realmente era: mesmo quando o dia era difícil no trabalho e ele chegava em casa de mau-humor, era no carinho da única filha que ele encontrava o seu sorriso.
– Claro, amor. Você pode esperar o papai terminar de checar os e-mails? – ele disse com doçura.
– Ah, você fica muito tempo na frente do computador, pai – ela disse e franziu a testa. Tinha os mesmos olhos amendoados da mãe.
– Não é porque eu quero, filhota – ele disse e a puxou para perto de si, abraçando-a. – Façamos o seguinte: eu vou deixar os e-mails para amanhã. Agora nós vamos terminar o seu trabalho e vamos sair para tomar um sorvete. O que você me diz? – ele sorriu e desligou o monitor.
– Eu quero de morango – ela sorriu e abraçou o pai com força.
– Então de morango será! – ele a segurou no colo e a levou para fora do escritório.

V.

Escondida dentro de uma gaveta, no armário da roupa de cama, ficava uma caixa de charutos feita em madeira onde Fernanda costumava guardar fotos dos seus anos de solteira. Momentos da infância no Rio Grande do Sul, fotografias de colégio, momentos imortalizados na passarela. Se algum dos admiradores – e eram muitos – de Fernanda olhasse bem aquelas fotos, com certeza afirmaria que o conteúdo da caixa uma mostra da evolução da beleza dela. A cada pose de Fernanda parecia superar a anterior e nenhuma delas batia a do último evento onde desfilara, 10 anos antes. Era a foto preferida dela, depois de uma das fotos de infância onde ela brincava com dois patinhos. Fernanda gostava de apertá-la contra o peito e fechar os olhos, este era o modo como ela fazia sua mente voltar no tempo. Sentia novamente o calor dos holofotes fazendo-a transpirar e sentia a vista incomodada pelos flashes das câmeras. Sim, Fernanda sentia em sua carne mais uma vez o desejo nos olhares da platéia e ouvia seus aplausos, assobios e até mesmo seus gracejos. E foi incontável a quantidade de gracejos que ela ouviu enquanto sua carreira de manequim durou. Muitos homens e mulheres desejaram o que apenas Walter conseguiu: possuir Fernanda em corpo e espírito.

Ela colocou as fotos mais uma vez na caixa, com um suspiro longo e um sorriso nos lábios e a escondeu sob uma colcha antiga, no fundo do gavetão. Aquelas recordações a faziam sentir-se leve e ela saiu do closet com um semblante de felicidade pura. A luz do fim de tarde venceu as nuvens de chuva e avermelhou as paredes do quarto, enquanto ela debruçou-se no parapeito da janela do quarto, que dava vista para a piscina e área para churrascos, onde Walter ajudava Amanda com seu dever de casa. “Cada dia maior”, ela pensou, enquanto olhava para a menina e acariciava o próprio ventre. Ela sorriu ao lembrar-se do dia em que Amanda nasceu: a agitação do marido, as dores, o medo de que seu corpo não fosse mais o mesmo. Bem, realmente não era, já que seus seios aumentaram um pouco por causa do leite, mas mantiveram a mesma firmeza, quase que por milagre. Ela sorria ao pensar na inveja que as amigas sentiam dela por não ter tido varizes em excesso ou por seus seios não terem ficado flácidos. “Deus me quer bonita”, ela divertia-se em repetir isso quando alguém duvidava que ela já havia dado à luz e seu corpo permanecia inalterado. Sorrindo, saiu da janela e prostrou-se em frente ao grande espelho que ficava ao lado de seu leito conjugal. Ajustou o espelho e despiu-se do roupão, observando seu belo corpo bronzeado. Sem tirar os olhos do espelho, deitou-se lentamente e afastou suas longas pernas, levando as duas mãos ao ventre. “Deus me quer bonita”, repetia, quase sussurrando, entre gemidos.

Continua

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