Olá, Mondanos! Minha avó sempre me disse que quem conta um conto acrescenta um ponto. Hoje vou tentar acrescentar um ponto, contando uma história que, espero, seja do agrado de todos. Boa leitura!

Em uma sala de 90m², cheia de móveis importados e discos de platina decorando as paredes, o popstar Joe Sonzeira senta-se no chão de sua gigantesca casa. Talvez seja a cerveja mexicana ou o cigarro de sabe-Deus-onde que queima no cinzeiro – ele não sabe bem, talvez seja o cansaço do megashow no qual acabara de se apresentar – mas sua cabeça é invadida por imagens de um tempo muito distante, o tempo em que ele ainda não era Joe Sonzeira e que não era dono de 8 megamansões e de iates e jatinhos: imagens de quando ele ainda era o mecânico José da Luz Ferreira, de macacão sujo de graxa e que ganhava a vida consertando as motos dos bacanas, daquelas das capas de revistas especializadas, daquelas dos filmes da TV, daquelas bem diferentes da moto que ele possuía pra fazer bico de entregador de pizza, quando acabava o expediente na oficina. Joe Sonzeira tinha 30 motos, uma para cada dia do mês, mas José da Luz Ferreira – aliás: Zé Lombriga, como os companheiros da oficina o chamavam, por ser magro demais – era pobre e tinha que se conformar com sua moto velha. Afinal, um mecânico que faz bico de entregador de pizza jamais vai ser dono de uma moto de capa de revista especializada – diziam os companheiros da oficina.

Joe Sonzeira quase ateou fogo no tapete importado quando o cigarro caiu do cinzeiro, mas apagou o pequeno incêndio rindo por lembrar-se das folgas de sábado, quando ele pegava seu violão surrado e tocava as músicas doidas que ele criava no quarto onde ele morava de favor, nos fundos da oficina. Todos riam, mas ninguém reclamava das músicas: eram estranhas, mas Zé Lombriga tinha uma voz bonita e sabia tocar. Ainda mais quando Branca passava pelo portão. Joe Sonzeira, passou a mão em seus cabelos e suspirou, lembrando-se da mulata que mal cabia naquele vestidinho e que enchia os olhos e os sonhos dos outros mecânicos e dos outros transeuntes e de qualquer um que deitasse os olhos nas coxas firmes, nas ancas largas, na boca carnuda e nos olhos cândidos de Branca. Tanta beleza fez Zé Lombriga escrever Perfeição Em Ébano, a música que José da Luz Ferreira nunca cantou para Branca, mas que encantou um produtor de uma gravadora grande, que foi levar sua moto para uma revisão. Joe Sonzeira sorriu por perceber que foi seu amor pela mulata Branca (que sempre sorria quando ele tocava violão) que o tirou da graxa e do quartinho onde morava de favor e que o transformou em Joe Sonzeira, o artista com maior vendagem de toda a história da música brasileira.

Onde estaria Branca agora?

Será que Branca havia se casado? Será que ainda morava naquele bairro pobre, de ruas de chão batido? Depois que tornou-se rico, Zé Galinha não a viu mais, já que Joe Sonzeira era um homem muito ocupado e muito importante para andar em ruas de chão batido. Será que ela teria vencido na vida? Tudo era possível, já que Zé Lombriga virou Joe Sonzeira, mas Joe Sonzeira não sabia a resposta já que Zé Lombriga nunca trocou uma palavra com Branca, seu grande amor.
Zé Lombriga era tímido demais.

Ah, se ele fosse Joe Sonzeira, que cantava para 300 mil pessoas, que conhecia o presidente, que recebeu um prêmio no exterior! Joe Sonzeira era rico, era educado, tinha roupas de grifes badaladas… Zé Lombriga era um coitado engraxado, apenas um coitado sem futuro e sem ter onde cair morto. Joe Sonzeira, com certeza teria conquistado a moça.

Mas então, após um gole de cerveja, Joe Sonzeira se tocou de uma coisa: ele era dono de motos, carros, mansões, mas nunca teve o amor de Branca, que Zé Lombriga havia conquistado em uma roda de violão. E então riu por ter demorado tanto a perceber que Zé é Joe e que o que era de Zé poderia ser de Joe. Então decidiu levantar-se do centro de sua sala de 90m², pegar sua moto de capa de revista e ir atrás de Branca, mas não como o presunçoso Joe Sonzeira ou como o simplório Zé Lombriga, mas como José da Luz Ferreira, que nunca desistiu de seus sonhos.

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