A música alta, as luzes piscantes, a pista cheia, o calor infernal. Não sei por que insistia em frequentar discotecas. Não sabia dançar, não era divertido, nem saía direito do lugar. Elegia um canto, uma mesa, uma pilastra para apoio e pronto. Me restava usar drogas que afetassem o meu estado de inércia com o sexo. E com o sexo oposto também. Bebia cerveja, fumava maconha e, de vez em quando, tomava um ácido daqueles que dão tesão. Dão mesmo? Só me aproximava de alguém quando os lábios estavam dormentes, quando a língua enrolava e quando acreditava ser um exímio orador.

Falei muita merda. Xinguei várias mulheres – logo eu, um sujeito tão educado, que ainda hoje em dia dá dois beijos na avó materna e pede a bênção à paterna.

Pergunta se eu peguei alguém em uma discoteca?

Peguei só o braço de uma moça, que tratou de se livrar de mim depois que baforei uísque na cara dela. Foi sem querer. Ela me arranhou.

Discoteca, hoje em dia, é coleção de discos. Eu amo os discos. Até os arranhados. Odeio as outras discotecas. Vou vivendo o paradoxo cheio de ódio no coração. Sozinho, curto os meus discos deitado na cama de solteiro, mirando o branco do teto ou o verde do display do aparelho de som que indica o número da faixa e o tempo de reprodução transcorrido.

Eu amo as mulheres. Até as arranhadas, maltrapilhas, mal cuidadas. Queria fazer coleção delas também. Ficar deitado na cama de casal com elas, mirando o branco dos olhos delas ou a penumbra na porta do quarto – meu, e não delas – que denuncia o avançar da madrugada.

Vou me drogando, sozinho, no quarto, com os discos, longe das discotecas dos outros. Vou amando as faixas, os registros, as letras, as melodias.

Eu as odeio, discotecas. As dos outros. Eu odeio os outros.

 

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