Sr Hildebrando passou toda a maior parte de sua vida acumulando riquezas. Trabalhou duramente desde a mais tenra idade para conseguir conquistar todos os seus sonhos de consumo. Sonhos estes que ía cada vez mais depositando sobre objetos cada vez mais extravagantemente caros.

Possuía uma coleção invejável de quase tudo o que há para se invejar neste mundo.

Porém, faltava algo para que “Seu” Hildebrando se sentisse plenamente feliz. Faltava-lhe amor.

Um dia, por um motivo específico que não vale a pena contar (pelo menos não por agora), “Seu” Hildebrando decidiu reunir em uma viagem espetacular em um de seus espetaculares navios, todas as pessoas que lhe pareciam, de algum modo, especiais!

Convidou a todos os membros de sua família por quem possuía profunda admiração – propositadamente, Hildebrando esqueceu-se daqueles entes de quem não gostava nem um pouco – , os amigos que sempre lhe apoiaram e acompanharam (desde as mais remotas aventuras), os funcionários mais competentes, os artistas mais talentosos, enfim todas as pessoas deste mundo que ele gostaria de ter sempre a seu lado.

O Convite especial foi entregue em mãos pelo comboi de mordomos e motoristas, especificamente contratados para a nobre missão. Era confeccionado em papiro à maneira dos antigos, e as letras nele contidas eram bordadas em ouro por artesãos escolhidos a dedo: irrecusável!

E assim, o foi! No dia marcado por “Seu” Hildebrando, compareceram ao porto todas pessoas mais queridas pelo excêntrico milionário, enquanto câmaras fotográficas e de TV, além dos ausentes da lçista de convidados, registravam todo o embarque pomposo e festejado por inúmeros fogos, que fariam Copacabana delirar.

Os passageiros eram recebidos por uma tripulação impecável composta por jovens e belos rapazes e moças oriundos de toda a parte do planeta, para “agradar a gregos e troianos”, conforme o anfitrião repetia sorridente.

Já a bordo, foi servida a primeira refeição, eram doze pratos, desde a primorosa entrada até a requintada sobremesa, passando por carnes variadas e apetitosas, saldas refrescantes, sopas acolhedoras e massas “de lamber os beiços”.

Tudo acompanhado dos melhores vinhos, espumantes e brandies momo mandava a tradição da culinária francesa dos tempos de VAtel e Luiz XV.

Havia até uma pequena reprodução de Versailles no restaurante gigantesco do transatlântico.

Após a refeição, a diversão! Um baile primoroso ao som de diversas danças típicas tocados por uma banda formada pelos melhores instrumentistas vivos da época.

As damas apresentavam-se vestidas, penteadas, maquiadas e perfumadas com extremo bom gosto para o deleite dos cavalheiros. Estes, todos “emping”uinzados” para deixar todo o brilho a elas, “como manda o figurino”.

A festa durou até altas horas da noite, quando “Seu” Hildebrando interrompeu a música para um breve discurso, aplaudidíssimo, no começo.

– “Meus queridos e amados! Durante quase toda a minha vida, minhas grandes preocupações resumiam-se em acumular todos os bens materiais que me parecessem, nem que por apenas um breve momento, interessantes! E, como todos podem observar nesta gloriosa noite: fui bem sucedido neste peculiar propósito!”

“Porém, flatou-me algo! Faltou-me acumular um bem que não se compra: o amor!”

“Por isso, reuni-vos aqui esta noite, para acumular todo o amor a mim possível neste mundo, neste momento que me é tão assombroso.”

“Caros amigos! Descobri recentemente um mal terrível em meu organismo, que me levará desta vida definitivamente!”

Aqui, Hildebrando faz uma pausa propícia para o “Oooohhh!!!” que se seguiu. E, emocionado, prossegue:

– “Sim, muito pesaroso! Contudo, nestes últimos dias andei observando com amis interesse esse mundo em que vivemos, e percebi desastres tenebrosos! Guerras violentas, assassinatos sangrentos e um profundo desrespetido pela vida!”

“Por isso, tomei esta decisão de trazer-vos até aqui hoje e com todo o amor que carrego em meu ser, presentear-vos com o maior dom divino: A MORTE!”

Fez-se um silêncio espantoso e espantado, expressões cobertas pela dúvida espalharam-se por todo o salão. Não houve tempo para pânico, às exatas 00:00 horas, ao soar das 12 badaladas do imenso relógio-cuco do saguão, o navio do Sr. Hildebrando explodiu, levando com ele todos os seres que ele mais amava na vida.

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