Dramatis Personae:
– Damiano, um músico louco, que possui muitas coisas ruins
– Renata, uma mulher incomodada com algo que ela não sabe ainda
– Sem violão (porque seria óbvio demais e o Costinha disse uma vez em uma entrevista que o que ele mais detestava era os pedidos para ele contar piada, só porque ele era um humorista, capicci?)
– O louco do telefone
– Jussara, menina de 10 anos do 5º andar
– Mãe de Jussara

Dramatis Literae
Damiano e Renata estão sentados no sofá tomando cerveja. ele com a cabeça em temas fáceis da vida (mulher e tristeza), o ela pensando no sangue no meio dela, do filho que ela nunca teve, da vida que nunca teve. Lembra da mãe dizendo: vai se acostumado com o mundo, depois te vira minha filha, te vira, hoje é só barulho de sangue, e logo vem o barulho do mundo e dos homens. Eles estão ali, sem querer nada. sentados diante um do outro, ele prolixo, e ela sem saber o que quer, vai ficar uma emboladeira que no fim das contas não vai sair nada com nada, mas vamos prosseguindo.

No andar de cima, mãe de Jussara na cozinha lavando louça e Jussara, a menina do 5º andar brincando no corredor do prédio com todos os seus brinquedos espalhados no chão, certa que alguém irá cair neles a qualquer momento.

Cena 1
Renata – Damiano.o que fazes? o que pensas?
Damiano – Que poderia juntar todas as coisas menos ruins e fazer um disco…nao sei..não sei na verdade. Re, pega outra Bohemia pra mim?
Renata: ok. Bohemia? Lembrei da música triste.
Damiano: Qual? A do Nelson?
Renata: Sim, essa mesmo. “boêmia..aqui mi tens de regresso” Ai credo, Pára.
Damiano: boa musica
Renata: Voltamos?
Damiano: pra onde?
Renata: onde vc quer voltar?
Damiano: pro sofá?
Renata: isso..de volta pro sofá
Damiano: tem bohemia?
Renata: sim..tem..perai

Cena 2
Damiano: Rê?
Renata: oi.
Damiano: fiz uma coisa aqui
Renata: o que?
Damiano: mas acho que está uma boa merda. nem vou te mostrar

(silêncio. ela levanta do sofá e fica uns minutos parada. em silêncio. ele olha ela com aquela camiseta velha do deep purple. toda suja rasgada. desfeita. Ela em silêncio)

Jussara do 5º andar: Mãeeeeeeeeee, manhêeeeeeeeeeeee posso brincar no parquinho…mãeeeeeeeeeeeeeeeee MAEEEEEEEEEEEEE, posso?
Mãe de Jussara: Não Jussara, você acabou de tomar banho. Fica quieta menina.
Jussara do 5º andar: Mãe então deixa só eu pegar meus brinquedos no meio do corredor?????? Deixaaa vaiiiiii
Mãe de Jussara: Fica quietinha ai Jussara pra mãe terminar de limpar a cozinha..quietinha

(Jussara começa a gritar e chorar no quarto)

Damiano: ei. hummm
Renata: oi, calma. estou me recompondo. me mostra
Damiano: recompondo de que?
Renata: acabei de ter um lampejo de pensamento. Mas não interessa, me mostra o que você fez.
Damiano. Não, me conta sobre seu lampejo. mas nao vou te mostrar não..tras outra bohemia?
Renata: então.algo me irrita. não sei o que é. irrita. incomoda. pifa. algo me deixa doida. não não sou eu. não é você. não é o emprego. não é o amor. não é a família. nem doença. nem tia. nem pia. nem nada. não sei. entende? sei lá. algo me deixa incipiente. restrita. fulaninha da silva sauro. sabe?
Damiano: eu sou o que seu?
Renata: não sei. o que somos?
Damiano: bem…nao sei. nos conhecemos ha qto tempo?
Renata: há muito tempo.você já sabe disso! não se lembra?

(ele prolixo, nem se lembra. Ela com cólica lembra que não sabe o que quer. Não quer conversar sobre o passado. O passado lhe sobe as paredes do estômago, como a cólica que lhe comia a alma neste momento)

Cena 3
Damiano:Re.. qdo foi que nos conhecemos?
Renata: eu peguei carona contigo.vc estava indo atrás da música, e eu atrás de um rumo
Damiano: aí vc me chamou pra tua casa. Estávamos perdidos
Renata: sim..
Damiano: o que é que te incomoda? Estamos perdido e já basta
Renata: me diz o que vc escreveu. mesmo sendo uma merda vai.
Damiano:Re.. nao vou mostrar nao..sei lá. Tá muito ruim
Renata: Que droga Dami. Mostra porra.
Damiano começa cantar baixinho, sem guitarra, nem violão, só lá olhando pro nada”não quero saber mais disso.. éramos um só… o que aconteceu?”
Renata: não sei. nos perdemos. você se perdeu também
Damiano continua: “atravesso a rua, e nada resta, já é hora de ir pra casa, ver televisão com os amigos”
Renata: vou ali do lado descabelar e já volto. vou des-ca-be-lar. vou me rebelar.revelar.
Damiano sem perceber os manifestos de Renata preenche o vazio com mais um verso “e mandar fazer pipoca.. e esquecer de tudo!

Jussara do 5º andar corta a sintonia de Damiano. Depois de descobrir que chorar não faz efeito mira da cama pro chão um pulo, e continua a pular. E a gritar. pular e gritar. Grita tudo que pode. Renata e Damiano olham pra cima. Foi bom ter perdido aquele filho.

Renata: Dami para de cantar essa canção maluca poxa.

(silêncio)

Damiano:viu? sabia que nao ia gostar…
Renata: não é isso.
Damiano:então..
Renata: pra onde vamos?

Renata pensa “ele não me entende mais…Eu fiquei de sobreviver. Estupidez isso de querer voltar sempre para algum lugar. Para onde você quer voltar? De onde você veio? Eu quero você”
Damiano: Esquece isso. esquecer de tudo.. das coisas desse mundo
Renata: ai meu deus, vou-me embra
Damiano: nao
Renata: vou é me escafeder-se de vez. Me perder de vez
Damiano:espera…
Renata: vc é louco dami
Damiano:talvez
Renata: eu sou louca e estamos perdidos demais.
Damiano:talvez
Damiano:”ponha isso na cabeça, pois é o que te resta”
Renata: Para de cantar essa merda de música Damiano! Mas que droga!

Cena 4
(o telefone toca). Silêncio. Dois toques. Jussara berra mais uma vez.

Renata: não deixa tocar
Damiano: nao atende Rê
Renata: eu atendo
Renata: Alo.
Damiano: NAOOOOOOO. não atende. droga..
Renata: é o louco. Fala louco. Que cê quer? Não. Nós não vamos mais. Onde estamos? Não sei , onde você está?
Louco: estou do outro lado da esquina, desistiu de fugir comigo Rê?
Damiano: o que ele quer?
Renata: não..as coisas não estão bem. não está nada bem
Renata: eu vou embora Louco, vou embora, sumir de você, do Dami..de todos
Damiano: Não. Não vai
Renata: toma Dami o telefone
Louco: Rê..calma o que houve? Alô? Rê?
Damiano: Alô? Quem é?

Tu tu tu tu tu tu
Jussara puxa o fio do telefone no andar de cima achando que ele serve pra ela pular corda. Mais uma distração antes de derrubar o prédio com seus gritos.
Mãe de Jussara: Jussaraaaaaaaaaaaaaaa, pára menina. Será o benedito CRISTO que você não consegue ficar parada drogaaa! JUSSARAAAAAAAAAA CALADAAAAA! Vai desce…

Jussara desce as escadas e antes de chegar no térreo encontra um urso no meio do caminho.

Damiano:se eu pedir pra você ficar?
Renata: vou embora
Damiano: se eu pedir com jeitinho..? Segurando a sua mão?
Renata: Pára Dami, você só me deu carona porque sabia que ia me comer, que ia me curtir, que ia se divertir. Foi bom por um tempo. Mas você é prolixo demais, eu sou perdida demais, e estamos todos fora do rumo.

Final
Renata bate a porta, não percebe o brinquedo de Jussara no meio do caminho, tropeça e escorrega na escada, cai e morre.
No primeiro andar um pouco de sangue escorre. Jussara coloca a mão no chão e grita: TINTAAAAAAAAAAAA!!!! E segue o caminho do sangue pra ver se acha outras cores.

Damiano grita: Re!!! Não Rê??? Eu te amo porra! REEEEEE
Desesperado entra dentro de casa
Descobre que está com muita sede. O corpo de Renata no corredor lhe dá sede. Vira o copo de cerveja muito rápido.
Engole seco
Morre engasgado.

O louco do outro lado da linha pensa: as imundas coisas desse mundo, as coisas minhas e suas… desse mundo. Acho que isso dá uma canção.

Jussara sobe. Enocntra seu brinquedo, recolhe, vê a porta entreaberta e encontra dois corpos, um do lado de dentro e um do lado de fora. Em cima da mesinha de cabeceira muitas revistinhas do Cebolinha e uns papéis com algumas palavras que ela ainda não entende. Ao lado dessas coisas todas um pote de balas. Passa a mão no pote, nas revistas e toca subir enquanto sua mãe berra do 5º andar.

trilha sonora adjacente: nobre vagabundo, daniela mercury

The End

Agradecimento mais que especial a Fe Barão pela ajuda neste post e pela companhia no msn enquanto eu delirava na história…

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