… Isto não era novo pra ele. E o que mais lhe ansiava era a lembrança de experiências amargas. Mas, naquele momento, ele estava decidido, embora talvez houvesse se esquecido de avisar isso ao seu corpo. Sua mão tremulava como bandeira hasteada em alto monte. Sua voz vacilava, não mais que suas pernas. Sob a testa, gotas de suor lhe davam ligeira sensação de mal-estar e a idéia de uma cena dantesca lhe impelia a desistir da idéia. Porém, ele não podia. Se não agisse naquele instante, duvidaria para sempre de si. Não há mentira pior que a desferida a si mesmo, pois se falharmos com nossas determinações, pode ser impossível recuperar a auto-credibilidade.

A música lhe dava o ambiente perfeito. Mas, a cada segundo de pestanejo, seu tempo se reduzia. Ao findar daquela canção toda sua aspiração poderia se esvair. Não dava para prever se era a última da sessão de música romântica. Os DJs estavam sempre preparados a cortar seu barato.

Tentou esconder a bala (com a qual pretendia melhorar o hálito) entre o dente e a gengiva. Esperou o momento exato em que sua garota não estivesse conversando com a amiga. Sua aproximação não deveria se inoportuna. Nem poderia causar surpresa, isso ele bem sabia, pois o susto causaria a resposta de repúdio, e era tudo que ele queria evitar. Por isso, aproximou-se vagarosamente, e, com o objetivo de obter o pretexto inicial, deixou que sua mão resvalasse na da moça.

No instante do toque seu coração trepidou. Ele sabia ser este o momento. Virou e viu no lindo rosto da garota um sorriso tão doce que… lhe deu vontade de… chorar!

Ora, tantos instantes de aflição, tantas canções se preparando para isto, e no exato momento em que se decidiu, um jovem bem apanhado resolver tomar-lhe a garota dos olhos?! Que cruel!

Tudo bem, pensou ele. Fora melhor assim. Talvez o rapaz tenha lhe poupado de um fora que lhe varreria a pouca auto-estima que lhe restava, e com a qual contava para continuar tentanto, e sofrendo…

Arthur não era nem um pouco diferente de nenhum adolescente comum: usava jeans esfarrapadas, ouvia músicas que seus pais não suportavam, adorava esportes, bebia escondido e era apaixonado pela menina mais bonita da escola. Na verdade, todos os meninos do colégio de Arthur eram apaixonados por Débora e com razão, já que a menina parecia a personagem principal daquele livro do Nabokov. Não, Débora não era ousada como Lolita (aliás, ela não era nada ousada) , mas virava a cabeça dos homens. Era alta, bonita e já tinha corpo de mulher aos 15 anos. E que mulherão! Débora tinha o porte daquelas mulheres que param o trânsito, que fazem as mulheres casadas segurarem o braço de seus maridos com mais força, que fazem os padres se benzerem três vezes. E como todo adolescente – afinal Arthur não era diferente de nenhum outro adolescente – Arthur tinha um pequeno problema: morria de medo de declarar para Débora os sentimentos que nutria por ela.

Não era culpa de Arthur ser tímido (aliás, se fossemos a fundo na árvore genealógica de Arthur, descobriríamos que ele descendia de uma longa linhagem de tímidos crônicos, daqueles que não conseguem comprar pão em uma padaria vazia, mas isto é outra história). Por mais que ele tentasse, não conseguia criar coragem para falar com Débora. Ainda mais depois da festa em que seus amigos o aconselharam a beber para criar coragem e ele acabou vomitando no vestido novo de sua paixão. Daquele dia em diante, Arthur só se aproximava de Débora em seus sonhos, que eram mais constantes do que os banhos demorados que o rapaz tomava. Era só colocar a cabeça no travesseiro para o rosto sorridente da bela menina se materializar diante de Arthur. Mas não eram apenas os sonhos onde Débora pedia que Arthur a livrasse do incômodo do soutien 46 que a deixava sem ar: o rapaz também sonhava em deitar na relva abraçado com ela e recitar poemas, olhando no fundo dos olhos verdes de Débora e beijando-a em uma noite enluarada e de céu estrelado de beleza ímpar, nunca vista em um filme de Sessão da Tarde. Mas quando a manhã chegava e ele percebia que aquele corpo macio que ele abraçava com tanta paixão era apenas um travesseiro, a tristeza o consumia e ele chorava ouvindo seus CDs do Radiohead. E, de tanto chorar e ouvir Radiohead, Arthur chegou a conclusão que não ia mais sofrer por causa de Débora. Jogou fora tudo que o fazia pensar nela, menos a Playboy da Scheila Carvalho, que era sagrada. Duas semanas após a decisão de esquecer Débora, Arthur recebeu um convite para uma festa do pessoal do colégio, na casa de um colega cujos pais estavam viajando. Primeiro ele recusou, mas depois pensou bem e decidiu que ia fazer bem divertir-se um pouco. Afinal, o que seria melhor de uma festa de adolescentes sem a supervisão de adultos responsáveis para ajudar um rapaz da idade de Arthur a esquecer um amor platônico? Então ele vestiu sua melhor calça rasgada, montou em sua bicicleta e foi à tal festa, afogar a tristeza em cerveja mexicana.

A casa onde a festa rolava era grande, não como as que aparecem nas comédias para adolescentes, mas era grande. Tinha dois andares, um gramado grande e tinha uma piscina, onde cadeiras quebradas e adolescentes bêbados se misturavam aos balões coloridos que flutuavam na água clorada, ao som da batida techno que ecoava pela noite. Após encostar a bicicleta em uma parede da garagem, Arthur dirigiu-se à escada que conduzia à piscina da casa. Mas, quando estava começando a subir a escada, tomou um susto com algo que caiu em sua frente e pulou para trás. O barulho de vidro estilhaçando fez com que o cão da casa vizinha latisse, mas ninguém pareceu se importar com o ruído. Chegando perto, Arthur percebeu que o que tinha caído do parapeito de pedra que ficava no topo da escada era uma garrafa de vinho. “Bela recepção”, pensou o rapaz. Mal recomeçou a subir a escada, ouviu os passos de alguém que descia a escada com pressa. Era Débora.

– Você se machucou? – perguntou a menina, preocupada.
– Não. Estou bem… a garrafa passou longe – Arthur respondeu, rindo timidamente.
– Por favor, desculpe. Eu esbarrei na garrafa quando tentava matar uma barata e… – disse Débora.
– … e quase desempatou aquela vez em que vomitei no seu vestido novo – Arthur sorriu amarelo.
– Era uma boa chance mesmo: eu adorava aquele vestido, Arthur – Débora disse, sorrindo.
– Você… sabe o meu nome? – espantou-se o rapaz.
– Claro que sei, ué. A gente estuda junto faz tanto tempo… – disse Débora, rindo da cara de bobo de Arthur.

Por um instante Arthur ficou sem fala: estava frente a frente com a menina mais bonita do colégio, em um local sem iluminação e ela estava conversando animadamente com ele. Quando ele ia começar a pensar em toda tristeza e sofrimentos desnecessários, Débora interrompeu seus pensamentos:

– Já que você está inteiro e eu estou sem meu vinho… você quer ir comigo buscar uma outra garrafa e beber comigo aqui no gramado? Odeio muvuca… – disse Débora, olhando nos olhos de Arthur.
– Tinto ou branco? – respondeu Arthur, olhando no fundo dos olhos verdes de Débora.

Então eles subiram a escada juntos e Arthur olhou para o firmamento e sorriu quando notou que aquela era uma noite de céu estrelado, com uma lua cheia de beleza ímpar, nunca vista em um filme da Sessão da Tarde.

PS: Possívelmente este será o meu último texto de 2003. Então eu gostaria de desejar a todos um

Feliz Natal e um ótimo 2004.

Olá, Mondanos! Minha avó sempre me disse que quem conta um conto acrescenta um ponto. Hoje vou tentar acrescentar um ponto, contando uma história que, espero, seja do agrado de todos. Boa leitura!

Em uma sala de 90m², cheia de móveis importados e discos de platina decorando as paredes, o popstar Joe Sonzeira senta-se no chão de sua gigantesca casa. Talvez seja a cerveja mexicana ou o cigarro de sabe-Deus-onde que queima no cinzeiro – ele não sabe bem, talvez seja o cansaço do megashow no qual acabara de se apresentar – mas sua cabeça é invadida por imagens de um tempo muito distante, o tempo em que ele ainda não era Joe Sonzeira e que não era dono de 8 megamansões e de iates e jatinhos: imagens de quando ele ainda era o mecânico José da Luz Ferreira, de macacão sujo de graxa e que ganhava a vida consertando as motos dos bacanas, daquelas das capas de revistas especializadas, daquelas dos filmes da TV, daquelas bem diferentes da moto que ele possuía pra fazer bico de entregador de pizza, quando acabava o expediente na oficina. Joe Sonzeira tinha 30 motos, uma para cada dia do mês, mas José da Luz Ferreira – aliás: Zé Lombriga, como os companheiros da oficina o chamavam, por ser magro demais – era pobre e tinha que se conformar com sua moto velha. Afinal, um mecânico que faz bico de entregador de pizza jamais vai ser dono de uma moto de capa de revista especializada – diziam os companheiros da oficina.

Joe Sonzeira quase ateou fogo no tapete importado quando o cigarro caiu do cinzeiro, mas apagou o pequeno incêndio rindo por lembrar-se das folgas de sábado, quando ele pegava seu violão surrado e tocava as músicas doidas que ele criava no quarto onde ele morava de favor, nos fundos da oficina. Todos riam, mas ninguém reclamava das músicas: eram estranhas, mas Zé Lombriga tinha uma voz bonita e sabia tocar. Ainda mais quando Branca passava pelo portão. Joe Sonzeira, passou a mão em seus cabelos e suspirou, lembrando-se da mulata que mal cabia naquele vestidinho e que enchia os olhos e os sonhos dos outros mecânicos e dos outros transeuntes e de qualquer um que deitasse os olhos nas coxas firmes, nas ancas largas, na boca carnuda e nos olhos cândidos de Branca. Tanta beleza fez Zé Lombriga escrever Perfeição Em Ébano, a música que José da Luz Ferreira nunca cantou para Branca, mas que encantou um produtor de uma gravadora grande, que foi levar sua moto para uma revisão. Joe Sonzeira sorriu por perceber que foi seu amor pela mulata Branca (que sempre sorria quando ele tocava violão) que o tirou da graxa e do quartinho onde morava de favor e que o transformou em Joe Sonzeira, o artista com maior vendagem de toda a história da música brasileira.

Onde estaria Branca agora?

Será que Branca havia se casado? Será que ainda morava naquele bairro pobre, de ruas de chão batido? Depois que tornou-se rico, Zé Galinha não a viu mais, já que Joe Sonzeira era um homem muito ocupado e muito importante para andar em ruas de chão batido. Será que ela teria vencido na vida? Tudo era possível, já que Zé Lombriga virou Joe Sonzeira, mas Joe Sonzeira não sabia a resposta já que Zé Lombriga nunca trocou uma palavra com Branca, seu grande amor.
Zé Lombriga era tímido demais.

Ah, se ele fosse Joe Sonzeira, que cantava para 300 mil pessoas, que conhecia o presidente, que recebeu um prêmio no exterior! Joe Sonzeira era rico, era educado, tinha roupas de grifes badaladas… Zé Lombriga era um coitado engraxado, apenas um coitado sem futuro e sem ter onde cair morto. Joe Sonzeira, com certeza teria conquistado a moça.

Mas então, após um gole de cerveja, Joe Sonzeira se tocou de uma coisa: ele era dono de motos, carros, mansões, mas nunca teve o amor de Branca, que Zé Lombriga havia conquistado em uma roda de violão. E então riu por ter demorado tanto a perceber que Zé é Joe e que o que era de Zé poderia ser de Joe. Então decidiu levantar-se do centro de sua sala de 90m², pegar sua moto de capa de revista e ir atrás de Branca, mas não como o presunçoso Joe Sonzeira ou como o simplório Zé Lombriga, mas como José da Luz Ferreira, que nunca desistiu de seus sonhos.

Trevo de quatro folhas, pé de coelho, figa: todo mundo tem uma receitinha que aprendeu com a vovó ou com a vizinha para espantar a má sorte. Você pode não acreditar na má sorte, mas que ela existe, existe. Sabe quando você está doido para fumar e só tem um cigarro no maço? Sabe quando você está tirando o xampu e acaba a água? Isso é má sorte. Não confunda com azar, que é muito mais complicado: azar é descobrir que sua mulher está grávida, sendo você estéril e ela um travesti.

Como tive a má sorte de não ter inspiração para escrever um texto bonito e bem escrito para encher os olhos dos leitores do Mondo, resolvi contar uma história sobre a má sorte. Espero que vocês gostem.

Era um domingo bonito, sol forte, mar de almirante, um daqueles dias que dá vontade de abrir a janela e tirar uma fotografia de qualquer coisa, pois tudo é belo sob o firmamento. E mais do que isso: era a final do campeonato Estadual e Zé Alberto estava empolgadíssimo. Abriu o armário e tirou de lá um embrulho, sentou-se na cama e começou a desfazer o embrulho, com muito cuidado para não rasgar o papel de presente. Embrulho desfeito, puxou com cuidado uma camisa, desfazendo a dobra frente ao seu rosto risonho: a camisa 10 do Flamengo. Cheirou-a como cheirou o cangote de sua esposa na lua de mel e beijou-a como beijou seu primeiro filho, após o parto. Então a apertou contra o peito e sorriu, olhando para a parede e sorrindo para o pôster do Zico, seu maior herói, o maior herói do seu clube. Com delicadeza, esticou-a na cama e foi tomar banho. Para Zé Alberto, vestir a camisa do Flamengo não era como vestir uma roupa qualquer: era como vestir um terno de missa, uma veste sagrada que não podia ser maculada pelo suor do trabalho diário! Para vestir a camisa do Flamengo – ainda mais a camisa 10, a camisa do Zico – era preciso estar puro, imaculado, banhado e cheiroso. E assim o fez: tomou banho, fez a barba, lavou os cabelos, cortou as unhas, tomou banho de perfume e vestiu sua camisa. Ah, como era bom sentir aquele tecido fino deslizando, envolvendo…

– Zé Alberto!!! Seu primo está lhe esperando para ir ao Maracanã. Vista-se rápido que eu estou saindo com as crianças para a casa da minha mãe e o Moura está sozinho na sala. Beijos!

Zé Alberto pegou o rádio de pilha e, junto com o primo Moura, entrou em seu carro e colocou a bandeira para fora da janela. O vento batia em seu rosto e tudo era lindo, tudo era belo, tudo era rubro-negro. Estacionou o carro e foi andando em direção à entrada do Maracanã: seu coração batia no ritmo acelerado da marcação dos surdos da torcida e, mesmo sem perceber, cantava músicas de torcida e o hino de seu time. A roleta se aproximava, Zé Alberto pegou sua carteira, abriu-a e… vazia. Onde estavam os ingressos? Pânico, medo, horror! Em plena final do Estadual, Maracanã lotado e Zé Alberto havia esquecido os ingressos em casa.

– Eu vou pegar o carro – disse ele, coração acelerado.
– Espera, Zé! Se você pegar o carro não vai encontrar lugar para estacionar – disse Moura.
– E como é que eu faço então, Moura? Diz para mim o que eu tenho que fazer! – desesperou-se Zé Alberto.
– Corre ali, primo! Pega um táxi que eu te espero aqui! – disse o primo Moura, apontando para um táxi vazio, estacionado.

E lá foi Zé Alberto. Sentindo o desespero do coitado, o taxista concordou em fazer a corrida com o pé na tábua, mas cobrou-lhe R$ 50,00 por alguma multa que pudesse tomar pelo meio do caminho. E lá foram eles, correndo como o vento pelas ruas do Rio de Janeiro.

Ao descer do táxi, Zé Alberto abriu pulou o portão e correu em direção à porta da sala, que insistia em não abrir. Procurou a chave em seu bolso e não a encontrou: havia deixado a chave no porta-luvas do carro. Zé Alberto olhou o relógio: o juiz já havia dado início à partida e já se passavam 20 minutos de jogo. Forçou a porta, mas a maldita resistiu a todas as suas investidas e sua esposa não podia dar-lhe passagem, já que estava na casa da mãe. Olhou para o alto e viu que a janela do quarto de seu filho mais velho estava aberta. Então subiu no muro e foi se esgueirando até a janela e conseguiu, com muito custo, entrar em casa. Desceu as escadas feito uma flecha e apanhou os ingressos. Foi até a porta e… trancada. Teve que subir as escadas, pular a janela e se esgueirar pelo muro. Quando desceu e já estava com a mão na maçaneta do táxi, algo lhe puxou pelo pescoço.

Teje preso, meliante. Pensa que não o vi saindo pela janela, seu gatuno? – disse o policial, já enquadrando Zé Alberto.

E foi um Deus nos acuda: Zé Alberto chorava dali, PM se aborrecia daqui, Zé Alberto pedia socorro de lá, o PM mandava ele ficar quieto de cá. Foi aí que apareceu uma vizinha e disse que Zé Alberto era morador da casa e que não era ladrão. O PM aliviou, avisando que estaria de olho nele e que um passo fora da linha ia ser a conta. Zé Alberto agradeceu, entrando no táxi e saindo no maior desespero: Faltavam 30 minutos para o fim da partida.

Chegando ao Maracanã, ele deu de cara com Moura, que disse que o jogo estava empatado em 2 x 2, placar que daria o título ao Flamengo. Passaram pelas roletas e foram em direção à arquibancada, que era só festa: faltava cinco minutos para o fim do jogo! Faltava três minutos, faltava dois minutos, 1 minuto.

– Não deixa o Aílton cruzar!!! – gritou Zé Alberto.

O placar marcava 3 x 2 para o Fluminense. O juiz apitou e o som do apito ecoou na cabeça de Zé Alberto desde a saída do Maracanã até o portão de sua casa, trajeto que ele fez sem dar um pio. Ao saltar do carro, seu primo abraçou-o e disse:

– Fique assim não, primo. Sempre tem o ano que vem – disse Moura, sorrindo.
– O ano que vem? Tem o ano que vem? – disse Zé Alberto – Eu vou te mostrar o ano que vem! – e disse isso pegando um porrete que jazia no chão e avançando para cima de seu primo.

No exato momento que Zé Alberto ia desferir a porretada certeira na cabeça de seu primo, sentiu algo lhe agarrar pelo pescoço.

– Não falei que eu estava de olho em você, meliante? – disse o PM, gargalhando de forma sinistra.